Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Conheci o trabalho do Bruno Vieira Amaral quando ainda estava a trabalhar no Expresso, no final de 2017, princípio de 2018.
O Zé Cardoso e o Germano falavam dele com frequência e o nome foi-me ficando, bem como os textos/contos que iam aparecendo.

Percebi logo ali que ele escrevia maravilhosamente bem.
Ah, e que escrevia sobre desporto, também.

Em 2020 começou a assinar semanalmente a rubrica “Dejá Vú – o futuro foi ontem”.

Para me preparar para esta entrevista procurei saber um pouco mais sobre este que é mais um dos talentos confirmados da nova geração de escritores portugueses. Vencedor, entre outros, de um Prémio José Saramago – que não é coisa de somenos – do Prémio Fernando Namora e do Prémio TimeOut.

Assim, na semana passada comprei o seu hoje estarás comigo no paraíso e assim que o abri, na primeira folha, deparei-me com isto:

“(…) Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir.
Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância. Não são os mortos que clama por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.”

Pensei de imediato:
– Prendeste-me, Bruno. Vou ler-te muito em breve. Ai vou, vou.

Mas antes disso, antes disso está isto. Está esta entrevista.
E, porque é a ti que te quero apresentar o Bruno, aqui fica a resposta dele à pergunta habitual. Quem é o Bruno Vieira Amaral?

Sou um escritor português, de 42 anos.
Condições temporárias, exceto a nacionalidade, que não prevejo que me venha a ser retirada nos próximos tempos.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no festival literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

Postas de lado as formalidades informais, aqui fica então a conversa.
Aqui fica o Bruno.

1. Quando é que sentiste que tinhas (e querias) que escrever?
Que querias fazer disto vida. Lembras-te que idade tinhas?

Não sei. Não houve nenhuma epifania. Não fiz planos. Fui aproveitando as oportunidades que me foram aparecendo. E é isso que continuo a fazer.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Talvez um texto na primária em que respondi à pergunta “o que é para ti o amor?” com qualquer coisa como “o amor não tem definição.”
As professoras ficaram muito intrigadas com a resposta, desconhecendo que eu a tinha roubado a uma entrevista da Isabel Bahia, então locutora de televisão, à TV Guia.

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

A primeira vez que me pagaram por um texto foi há onze anos. Senti que estava a enganar alguém porque tê-lo-ia escrito sem mo pagarem.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Era uma das minhas fontes de rendimento, mas não a única, nem a principal. Colaborava em revistas e jornais.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Naquela altura? Ninguém.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

A pessoa responsável por hoje ganhar a vida a escrever sou eu. O que não significa que não esteja grato a todas as pessoas que, apreciando o meu trabalho, me deram oportunidades para o desenvolver.
Têm sido muitas ao longo destes anos.
A mais importante foi, sem dúvida, o meu editor e amigo, Francisco José Viegas.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de fazer alguma coisa completamente diferente?

Já, mas depois ganho juízo.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer agora?

Não faço ideia. Talvez fosse responsável de secção de uma loja da Staples.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O meu trabalho mais conseguido foi o meu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no Festival Literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Gosto muito de escrever crónicas, que são muito imediatas. Mas é nos romances que encontro o meu espaço.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Sempre pelo texto porque começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo a qualquer hora. Como tenho prazos, não há muito espaço para fantasmas e angústias. Nos romances é um pouco diferente. Escrevo quando me apetece.

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Depende das críticas. Quando vêm de semi-analfabetos, não lhes dou importância. A mesma coisa quando o objeto da crítica não é o meu trabalho. Às restantes, tento não atribuir demasiado valor, sejam positivas ou negativas, porque não podem alterar aquilo que escrevi.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

O mais importante foi o Prémio José Saramago. O que me emocionou mais, pelas circunstâncias em que recebi a notícia, foi o Fernando Namora.
Mas o prémio da revista Time Out é capaz de ter dado um empurrão decisivo ao meu primeiro romance.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Só deves fazer aquilo em que achas que és bom e em que, ao mesmo tempo, sentes que podes melhorar. Se não achas que és bom ou se acreditas que não podes melhorar, então o melhor é mudares de profissão. Quando me sento a escrever, a convicção de que sou bom naquilo que faço não me serve de grande coisa. Ao contrário de um pintor de paredes ou de um carpinteiro, o escritor pode escrever uma grande crónica hoje e amanhã escrever uma crónica que não vale nada. A criação é muito mais do que uma questão de técnica, por isso a solução é escrever cada texto como se fosse o primeiro.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevendo.

19. Quem são os teus autores de referência?

Mario Vargas Llosa, Albert Camus, Nelson Rodrigues.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Não. Escrever um livro, um romance, é um processo demasiado ligado ao que sou, em todas as dimensões, para desejar ter escrito um livro que outra pessoa, com tudo aquilo que é, escreveu. Seria o mesmo que desejar ser outra pessoa. E não desejo.

De facto, os escritores são pessoas que admiro muito, mesmo não os conhecendo pessoalmente. Com o Bruno passa-se o mesmo.

Estas entrevistas acabam por me aproximar da forma como pensam e como vêem o mundo.

Obrigado, Bruno.
Pelo teu tempo e pela verdade com que respondeste a tudo e que dá para sentir deste lado do ecrã.

Podes conhecer aqui a obra de Bruno Vieira Amaral e comprar um (ou mais) dos seus livros.

Até para à semana.
No mesmo dia e à mesma hora.




Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

A primeira vez que vi a Paula foi em cima de um palco, a falar sobre podcasting. Fiquei logo convencido.
Com as ideias.
Com a forma de as apresentar.
Com a clareza de pensamento.
Com quase tudo, aliás. Mas essencialmente com a voz.

Uma voz incrível e penetrante. Claramente uma voz de rádio. Daquelas que nos leva a ver as histórias e a imaginar o mundo através das palavras que nos dizem ao ouvido.

Entretanto começámos a falar e fomos, a pouco e pouco, trocando ideias sobre várias coisas, em particular sobre conteúdos e processos de criação dos mesmos.

Tive a sorte de ser entrevistado por ela, há cerca de um ano, numa conversa difícil de esquecer (sobre paternidade) da qual resultou uma fotografia de que gosto muito.

Quando arranquei com este projecto soube logo que ia ter de a entrevistar. Porquê? Porque a Paula vive de palavras. Absoluta e completamente. Convidei-a e ela, numa timidez assumida e indisfarçável, disse-me que não sabia se fazia muito sentido… expliquei-lhe os meus porquês e… acabei por conseguir convencê-la.

Aqui fica então a Paula, numa entrevista sincera, profunda e do mais humilde e transparente que vais ver por aqui. Porque a Paula é assim. Sincera que dói. Translúcida que impressiona.

Como sempre, comecei por pedir à minha convidada que me respondesse à pergunta: Quem é a Paula Cordeiro?
A resposta chegou-me poética e desconcertante. Como tudo o resto que escreveu. Não acreditas? Então lê e depois diz-me se tenho ou não tenho razão.

A Paula Cordeiro é alguém que detesta que lhe peçam para se descrever e até pediu a uma amiga que lhe escrevesse a sua nota biográfica para enviar a uma conferência. É isto, não gosto mesmo de falar sobre mim.
Parece-me sempre vaidade embora saiba que não é, enquanto me questiono sobre se alguém quer, realmente, saber quem sou eu, especialmente porque sou irritantemente perfeccionista com aquilo que me interessa e desagradavelmente imperfeita com o que não quero fazer;
abrasivamente assertiva a observar os factos e apaixonadamente apaixonada a examinar as pessoas, numa coerência muito incoerente que sempre me caracterizou.

A partir daqui, o que se segue é incrivelmente real e verdadeiro.
Apresento-te, a Paula Cordeiro.

1. Lembras-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Começa bem… começa pelo impacto que nunca admitimos querer alcançar, mas que, efectivamente, faz parte de cada tecla que pressionamos, palavra que criamos e verbo que conjugamos. Criar é seguido da partilha, a qual conduz ao impacto e, ignorar o impacto é ignorar o que nos trouxe aqui: a explosão da ideia, o elogio da palavra, a urgência de eternizar a palavra no papel ou, agora, nos ecrãs que nos impactam. A verdade é que não escrevo para o impacto, embora o reconheça, da mesma forma que, ao escrever, dou-me ao outro e, por isso, nunca penso muito no impacto que tal possa ter. Porque nunca controlamos a impressão que provocamos no outro e porque a minha palavra principal é oral, dificilmente se eterniza e, por isso, não sei. Talvez uma frase minha, reproduzida numa parede da sala dos estudantes, escolhida por eles, na faculdade na qual dou aulas, possa ser um exemplo?

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Pagam-me para trabalhar, escrevo por prazer e, por vezes, são uma e a mesma coisa.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério ligado à escrita?

Bati à porta certa na hora certa.

4. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Devo ser muito foleira, mas não tenho mentores ou grandes inspirações porque tudo me inspira e a resposta a uma pergunta destas supõe o recurso às grandes referências literárias ou aos que, reconhecidamente, têm o dom da palavra, bem como os que nos deram algum tipo de ajuda ou empurrão. E se forem muitos e não quisermos escolher? E se a nossa inspiração nos chegar da vida de todos os dias, dos programas de rádio que escutamos, dos livros e revistas que podemos ler, das conversas que partilhamos ou, até de publicações bacocas que encontramos?
E se também isso nos inspirar a fazer melhor?
E se a nossa lista de inspirações conjugar os grandes e os que ninguém conhece, mas que, de alguma forma, nos ajudaram a chegar aqui? E se…?

5. Já tiveste vontade de parar de escrever?

Já tive vontade de parar. Ponto.

6. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Eu não deveria ter aceitado esta entrevista, a verdade é essa…
Não sou modesta mas sou tímida o suficiente para ter vergonha de responder a perguntas como esta. E poderia ficar por aqui porque seria uma resposta, daquelas que não respondem mas que, inevitavelmente, preenchem o espaço em branco. Descansa Martim, não o farei porque há vários trabalhos dos quais me orgulho, um dos quais me trouxe aqui, transformou-se em livro e muito trabalho, pago, posteriormente: a minha tese de Doutoramento, escrita de um fôlego só, que conseguiu tornar científica a minha paixão maior: a rádio.

7. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

De algumas… Raramente pelo conteúdo, resultado inevitável do contexto ou da conjuntura mas, a forma…

8. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Qualquer coisa para dizer na rádio deixa-me confortavelmente feliz e um novo formato cuja designação desconheço, que vai buscar muita inspiração ao romance e à rádio, para escrever para os media sociais. Social storytelling? Será?

9. Tens escrito coisas profundas e que procuram romper com o paradigma actual daquilo em que está transformado o Instagram. Como surgiu a ideia?

A tua questão dá a sensação de que foi premeditado ou estratégico e não foi.
A explicação é simples, porque não me identifico com o que, na maior parte das vezes, se publica  nos social media, principalmente o Instagram, que se transformou numa plataforma de narcisismo, exibição, sobretudo, de promoção e comércio. Nada contra e, ao mesmo tempo, tudo, porque a maior parte das pessoas não tem consciência de como funcionam os bastidores da plataforma (algoritmo, por exemplo) ou dos perfis que assumem uma mistura entre perfil pessoal, de divulgação, promoção e comércio. Como designar, numa era na qual somos curadores da nossa própria vida, expondo-a como profissão, para actuarmos como agentes de comunicação, numa mistura entre as diferentes técnicas do marketing (das relações públicas à publicidade) que tem como fim único a comercialização da nossa própria existência, transformando-a tanto num livro aberto como num catálogo virtual de produtos e serviços? Como se chama a isto?
Eu não sei, experimentei para perceber como funciona, a mim não me serve e, por isso, já que lá estou e que há quem goste de ler o que escrevo, porque não escrever exactamente o que me dá prazer, como uma espécie de grilo falante que coloca o dedo na ferida, roda-o e fica a ver o circo pegar fogo? Arrisquei e não há como voltar à futilidade e superficialidade dominantes.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Pela ideia da mensagem, deixo fluir e logo se vê, muitas vezes o texto dá uma volta inesperada. Sou péssima a fazer títulos e, nos tempos modernos do SEO fico sempre entre o que realmente quero dizer e o que o SEO me diz para escrever. Um drama, acredita, porque SEO é tudo menos profundo (para recorrer à tua questão anterior)…

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Também vale dizer que estive sempre atenta nas aulas de língua portuguesa, consulto o dicionário e a gramática?
Sinceramente, ou se escreve ou não.
Podemos aprender a dominar a língua para redigir correctamente mas escrever é muito mais do que isso. Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história…

Ler com atenção e dedicação ajuda, da mesma forma que observar o mundo para o interpretar também.

12. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo quando tem de ser porque passo a maior parte do tempo a escrever e sim, escrevo quando calha, também. O que é técnico segue a rotina para conseguir cumprir prazos, o que é criativo por vezes depende da fuga à rotina para, depois, a retomar.

As melhores ideias surgem quando menos esperamos e eu já sei onde surgem as minhas: no duche (o que é uma dor de cabeça porque tenho de ficar a lavar-me e a repetir as ideias para não as perder), a surfar (novamente um problema porque normalmente as ideias desaparecem entre as ondas) ou a caminhar: não interessa onde, interessa estar ao ar livre, mesmo na cidade, e caminhar, por vezes sem direcção definida, para que comecem a surgir ideias.
Pedalar também serve, mas é mais perigoso porque a pessoa não pode tomar notas e, pior, não pode distrair-se na bicicleta…

13. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

A minha vida são prazos…

14. Como é que reages às críticas?

Odeio-as porque raramente são construtivas.

15. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Não, porque sofro desse mal que é o de me valorizar muito pouco mas, como há quem acredite, eu acredito nessas pessoas e por vezes tenho aquele ahah moment em que penso damm you girl, your good (e sim, escrevo muito em inglês, não é arrogância).

16. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Estar cansada impede-me de escrever, de ser criativa, de conseguir ver as coisas por um prisma diferente, impede-me de me colocar no lugar do outro para ver a história no seu todo, anula-me a originalidade, mas isso não é exactamente um bloqueio…

17. Quem são os teus autores de referência?

Os livros são objectos maravilhosos, mas também ocupam muito espaço e ganham muito pó. O pó é o meu pior inimigo e há uns tempos decidi-me por uma abordagem minimalista (ou quase) à minha vida.
Mudámo-nos recentemente para uma casa mais pequena, doei boa parte da minha biblioteca e levei todos os livros técnicos para a faculdade.

Os que ficaram são os que têm mais valor (talvez sentimental) o que talvez queira dizer que são os meus preferidos, muito embora tenha alguma dificuldade em lidar com essa ideia da referência porque, inevitavelmente, parece-me que preciso de uma orientação para escrever e não é verdade.  Há autores que me inspiram pelos temas que abordam, outros pela forma como escrevem e, ainda, pela forma como usam as palavras na rádio, mas não deixo que isso me influencie a ponto de perder a minha voz.

18. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Qualquer bestseller que permitisse reformar-me amanhã e escrever apenas o que me apetece, sentada no alpendre de uma casa de madeira virada para um mar muito azul, embalada por uma brisa o som das árvores e das ondas do mar. Poético, não é?

19. O livro da tua vida é…

O romance que já escrevi e que ainda não publiquei.

Podes ouvir a Paula, semanalmente, no seu podcast Urbanista 2.0.

Catarina Raminhos: “As minhas filhas acham curioso quando digo que escrevo livros mas não sou escritora”

Catarina Raminhos: “As minhas filhas acham curioso quando digo que escrevo livros mas não sou escritora”

Catarina Raminhos é também uma espécie de sinónimo incontestável de pessoa boa. É mesmo. E digo isto sem qualquer tipo de reservas, até porque já a conheci pessoalmente e confirmei que o bom pessoísmo é coisa que transborda para fora da Catarina, mesmo que ela tente evitar que assim seja.

Há uns meses convidei-a para vir partilhar parte da sua experiência de vida enquanto criadora de conteúdos e blogger com os meus alunos da ETIC e ela nem pestanejou. Aceitou de imediato e deu uma “aula” memorável.

Veio dos confins do mundo, onde fica a zona em que vive, para fazer uma viagem de 40 minutos de carro até Lisboa e partilhar um pouco da sua história com uma turma profissional de gente que nunca tinha visto na vida.

Pois se isto não é uma prova de bom pessoísmo, não sei o que é.

Assim, quando me lembrei de arrancar com esta aventura disse de imediato: “Martim, tens de convidar a Catarina!” E ela voltou a aceitar sem pestanejar. Por isso, sem mais demoras, vamos passar ao que te fez clicar neste artigo.

Como tem acontecido com todos os convidados desta rubrica, pedi à Catarina que me respondesse à questão: “Quem é a Catarina?”.
Esta foi a resposta que me deu.

A Catarina é uma miúda com quase 40 anos que, para todos os efeitos, se vê sempre com 14. Cheia de sonhos e de caracóis no cabelo, mas com muita noção da realidade e das dificuldades que sempre se levantam no caminho – para que se possa ir aprendendo vida fora.
É uma lutadora, que não gosta de desistir. E uma chorona, que nunca dá parte fraca. Ahhh, e gosta das coisas simples da vida: de ler, de estar sossegada a olhar a paisagem, de ouvir as suas músicas e de ter tempo para fazer nada.

Posto isto e feitas as devidas apresentações, aqui fica a entrevista:

  1. Quando é que sentiste que querias fazer da vida das palavras e da escrita?

Senti desde bem cedo, apesar de ter precisado de praticamente 30 anos para ter coragem de o fazer, de uma vez por todas.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Sim, foi na adolescência – ali a partir dos 14 anos – na troca de cartas e de recadinhos que fazia com duas amigas próximas. Desabafávamos muito e escrever era a nossa forma principal de comunicar. E comunicávamos muito bem deste modo. Sentia que me expressava melhor a escrever do que a falar (ainda acho!).

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

Se contar com os tempos de jornalista, há 18 anos.

4. Como é que aparece o teu 1º trabalho a sério?

A sério no sentido de ter sido paga para o fazer, foi um part-time num escritório de advogados, durante o tempo de faculdade, em que traduzia textos de inglês para português e vice-versa.

A sério no sentido de estar relacionado com a escrita, foi quando me tornei correspondente do Diário de Notícias para os concelhos da Grande Lisboa – tinha acabado a licenciatura em Jornalismo.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Em termos pessoais, o meu Tio Lio, irmão do meu pai, que sempre me incentivou a ler, a ouvir músicas e a ver filmes;

Em termos profissionais, a Leonor Figueiredo, jornalista do Diário de Notícias que me aturou e me ensinou (tanto!) durante o meu estágio não remunerado de 3 meses. Era uma miúda estudante de jornalismo.

Em termos artísticos, aqueles com cujas palavras eu cresci: Susanna Tamaro, Milan Kundera, Gabriel García Márquez e Carlos Ruiz Zafón.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Em medidas diferentes, todos os nomes que mencionei na resposta anterior.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de mudar de vida?

Não, porque sinto que só agora comecei a escrever… estou na fase de enamoramento absoluto.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer hoje?

Provavelmente estaria a trabalhar em televisão, sempre nos bastidores, a trabalhar conteúdos.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Ter sido directora de conteúdos da Warner Bros Portugal.

10. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Vergonha não, mas rio-me muito quando pego nos meus diários de miúda…

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

A escrita de não-ficção. Fascina-me muito mais a realidade do que qualquer outro género. Tenho perfeita noção de que não conseguiria escrever poesia ou um romance, por exemplo.

12. Por onde é que começas? Texto ou título?

Começo quase quase sempre pelo título. Depois escrevo o texto e altero o título no final.

13. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Fiz o workshop de escrita criativa, o de escrita para crianças e o de escrita “do eu”, todos na Escrever, Escrever.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Numa semana tradicional de trabalho, tenho uma rotina apertada.
Depois de ir levar as crianças à escola, sento-me ao computador e escrevo até à hora de almoço. Apesar de trabalhar em casa, faço uma hora de intervalo para almoçar e aproveito para ver um episódio de uma série qualquer. Depois retomo o trabalho até às 16h, hora em que começo a adiantar o jantar e me preparo para ir buscar as três e dar início ao meu segundo part-time do dia: dar banhos, jantar e deitar três crianças.

15. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

Fico ansiosa com os prazos, mas preciso deles para criar.
Se me derem três meses para escrever um livro, eu vou produzir a sério no último mês. No meu caso, o stress é aliado da criatividade.

16. Como é que reages às críticas?

Se forem construtivas reajo bem, mesmo que sejam negativas.

17. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Gostava muito de acreditar. Mas ainda não…

18. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Tenho imensos. Procuro fazer outras coisas e depois voltar ao texto.
Às vezes pego num livro – novo ou que já li – para me levar para outros cenários…

19. Quem são os teus autores de referência?

A Susanna Tamaro, por ter sido das primeiras coisas que li depois dos Clubes das Chaves e da saga “Uma Aventura”; Alice Vieira; Luís Sepulveda, Milan Kundera, Julian Barnes, Bruce Chatwin, Gabriel García Márquez e Carlos Ruiz Zafón.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

“A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Záfon.

21. O que é que as tuas filhas dizem daquilo que fazes?

Elas gostam de fazer perguntas acerca do meu trabalho.
Só conhecem o livro infantil “Minore e a Magia das Cores” e gostam muito da história. Acham curioso quando digo que escrevo livros mas não sou escritora…

Acompanha o blog da Catarina, aqui mesmo.

Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

A minha convidada desta semana trata o escárnio e maledicência por tu. Para além disso é um dos cérebros criativos da equipa que faz o trabalho de bastidores dos programas 5 Para a Meia-Noite e Isto é Gozar com Quem Trabalha, apresentado por um dos maiores humoristas portugueses de todos os tempos. Sim, estou a falar do Ricardo Araújo Pereira.

Tem 33 anos e é uma artista das palavras.
Aproveita para conhecer um pouco mais da Cátia Domingues, aqui mesmo.

Como a todos os outros convidados, pedi à Cátia que me respondesse à pergunta de abertura: “Quem é a Cátia Domingues?”

A resposta apareceu-me assim:

“Cátia Domingues. Colheita de 87. 0+
Nascida em Lisboa, criada entre o Minho e a região saloia.
Guionista, humorista, feminista e outras coisas acabadas em ista, que faz uma das melhores caldeiradas de peixe.
Pessoa que começou a carreira de escrita a escrever as ementas da tasca dos pais.”

Passemos à entrevista.

1. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Quando escrevia as ementas do restaurante dos meus pais. Promovia muito o consumo.

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Desde que acabaram os meus estágios curriculares.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério?

Todos os meus trabalhos foram a sério. É assim que levo isto. Foi num call-center a vender créditos pessoais. Foi horrível.

4. Tens alguma “fonte” de inspiração?

Às vezes, quando preciso de escrever e não estou especialmente inspirada, gosto de ver uns episódios de noticiários satíricos para me pôr “no mood”. Se isso não resultar vou até à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho a quem passa.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

A memória da Susana Romana, que se lembra sempre de mim nas alturas certas.

6. Já tiveste vontade de parar de escrever e fazer outra coisa completamente diferente?

Todos os dias em que me custa.

Foto Cátia Domingues_Viver_das_Palavras

7. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Se calhar, o projecto pelo qual tenho mais carinho, é um chamado “caçadora de mitos”. Porque fez e ainda faz sentir muitas borboletas na barriga.

8. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Há imensas coisas que se fosse hoje não teria escrito da mesma forma. Mas isso faz parte do processo natural de aprendizagem.

9. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Ainda não experimentei muitos, mas gosto de escrever para televisão e para imprensa.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Depende. A maioria das vezes o título é a última coisa que escrevo. Passo muito tempo a escrever um. Acho que o meu lado da publicidade contribui muito para isto.

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Sim. Tirei um curso da escrever, escrever com a Susana Romana.
De resto, é realmente ler, ver, ouvir para ir aprendendo a escrever.

12. E dar formação a gente que queira aprender a escrever. Faz parte dos teus planos?

De todo. Acho que para ensinar é preciso talento especial.

13. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Depende. Quando tenho deadlines é acordar cedo, café, televisão em trashtv, só para fazer barulho ao fundo, e computador. Quando me sinto desinspirada ou aborrecida saio de casa. Prefiro trabalhar de dia.

14. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

Lido pessimamente com prazos ao ponto de praticamente tudo se transformar em escrever sob pressão. Procrastino imenso e arrependo-me sempre.

15. Como é que reages às críticas ao teu trabalho?

Acho que um sinal de maturidade é a forma como se reage às críticas. Sejam elas boas ou más, na verdade. E tento reagir com a distância que elas merecem.

16. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Na maior parte do tempo não. Sofro bastante da síndrome do impostor.

17. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Sim. Entro em pânico porque começo a pensar que a língua portuguesa tem imensas palavras e não sei por onde começar. Faço sessões extra de terapia e aceito que não consigo escrever naquele momento. Desbloqueio saindo para fazer outras coisas que me lembrem de mim.

18. Quem são os teus autores de referência?

Depende. Tenho um woody allen como tenho uma sophia de mello breyner. Um Nelson Rodrigues como um Luiz Pacheco. Um Vilhena como um Saramago ou Raúl Brandão. Um Santos Fernando como um Vergílio Ferreira ou um Primo Levi.

19. Qual foi a pior coisa que já disseram sobre a tua escrita?

Esta gorda não tem piada. E não foi pelo gorda.

20. Há alguma coisa que queiras escrever no futuro e que nunca tenhas escrito?

Sim. Quero escrever contos e um doc. É o que tenho planeado para o futuro.

João Tordo: “Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende”

João Tordo: “Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende”

Os escritores são, regra geral, pessoas diferentes das outras. Porquê?
Porque sorvem tudo o que vêem. Fazem da realidade a maior das suas fontes de inspiração. Fazem do que os olhos vêem, do que os ouvidos ouvem, do que os cheiros contam, as musas inspiradoras para as realidades que criam à posteriori.

O meu 3º convidado desta série é um dos “novos” (em idade, apenas) talentos da Literatura portuguesa.

Nascido em 1975 e filho do mítico Fernando Tordo, João publicou treze romances (isso mesmo) e recebeu vários prémios, entre eles o Prémio Literário José Saramago em 2009, o prémio GQ e o Prémio Literário Europeu.

Quando lhe pedi que me dissesse quem é o João Tordo, respondeu-me assim:

“João Tordo, lisboeta, escritor, tio de muitos sobrinhos, indeciso, inquieto, obsessivo e, sempre que consegue, um tipo decente.”

Foto: Pedro Ferreira

Destaco o “sempre que consegue”, quanto mais não seja porque se trata de um homem. De um ser humano como todos nós. Que escreve muito bem mas que, acima de tudo, também sente como os homens.

Por isso, João, se nem sempre conseguires, não tem mal nenhum, pelo menos é isto que me parece. Os homens são ainda maiores quando falham as tentativas de ser decentes, quando o tentam com afinco.

Passemos então à entrevista que é para isso que estamos aqui.

Quando é que sentiste que tinhas (e querias) ser escritor?
Lembras-te da idade que tinhas?

Sim, tinha treze anos. Embora escrevesse desde muito novo (6, 7 anos), foi quando li o “Crime e Castigo” do Dostóievski que, interiormente, devo ter decidido qualquer coisa do género: Um dia, quero fazer isto.

Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Julgo que na família, talvez. Era muito miúdo e passava os dias a escrever histórias, jornais, bandas desenhadas, etc. Talvez olhassem para mim como uma “ave rara” ou um rapazinho meio maluco, demasiado solitário, que gastava o seu tempo a alimentar a imaginação com aquelas coisas. As minhas tias e avós ficavam muito impressionadas, e guardaram esses “recortes” de infância. Alguns deles surgem no “Manual de sobrevivência de um escritor”, que será publicado em Maio.

Há quanto tempo escreves profissionalmente?

Bom, desde que comecei a trabalhar, em 1998. Primeiro como jornalista, depois cronista e, a partir de 2004, como romancista. Por vezes também escrevo guião de cinema e televisão.

Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Sim. Foi sempre o meu ganha-pão.

Quem foi a tua grande inspiração?

Tive muitas ao longo do tempo. Não só da área da escrita, mas de outras áreas. O Saramago continua a ser uma inspiração, mas também o Philip Roth, por exemplo. E não podiam ser mais diferentes. Por vezes, uma canção do Tom Waits inspira-me, ou um filme do Bergman. Depende das alturas da vida.

Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Não, isso não existe. Isto é algo que nasceu comigo, eu nem sabia quem era e já estava a escrever ou a rabiscar em papéis. Nem sequer sabia o que era um escritor, e já escrevia. Desde criança. Não precisei de um mentor porque a própria vida — biológica, psicológica — empurrou-me para isto. Tive um professor importante no Liceu, e outro na faculdade; e sim, idolatrei alguns escritores ao longo da vida – Auster, Roth, Saramago, Cercas, Bolaño, etc. – para mais tarde descobrir que não era nenhum deles, que era o João.

Já tiveste vontade de parar de escrever e de mudar de vida?

Não.

Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer hoje?

Não consigo imaginar, isso não existe. Não escrever como modo de vida é algo que não existe para mim.

Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O romance que vou publicar ainda em 2020.

Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Sim, de muitas. Há certos livros que nem consigo olhar para eles.
Fazem parte de um tempo de aprendizagem, da juventude. São difíceis de “digerir”, ainda. Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende. Por isso é tão fascinante e tão frustrante.
Também não gosto de escrever nas redes sociais; não tenho “vergonha”, mas tento restringir essa prática ao mínimo possível.

O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

O romance e o ensaio.

Por onde é que começas: texto ou título? Porquê? 

Depende. Às vezes um título aparece logo com muita força e fica aquele; noutras vezes, escrevo um livro inteiro e só “descubro” o título mais tarde.

Alguma vez fizeste formação para saber escrever melhor?

Fiz workshops de Escrita nos Estados Unidos, há muitos anos.
Mas lembro-me de muito pouco. Acho que aprendi bastante com os meus alunos de escrita literária nos cursos que fui dando ao longo dos anos.

No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo de manhã, entre as 8h30 e as 14h. Normalmente, reservo as tardes para fazer outras coisas, a menos que surja uma inspiração qualquer.

Como é que reages e lidas com as críticas?

Essa resposta é longa e está no livro “Manual de sobrevivência de um escritor”, não a posso dar aqui num espaço muito curto.

Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Acho que sou muito dedicado e que trabalho muito. Todos os dias estou ali sentado a escrever, para o bem e para o mal, e alguns dias são muito bons e outros muito maus, e ainda assim continuo e persisto, apesar das dúvidas e da incerteza e das poucas recompensas financeiras. Parece-me que escrevi alguns livros muito bons e outros razoáveis, mas que vou melhorando com a idade e a experiência.

Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Só tive um bloqueio e deveu-se a uma fase em que viajei demasiado e expus-me em demasia. Tive muita dificuldade em regressar à escrita depois disso.

Quem são os teus autores de referência?

Já falámos de alguns: Melville, Saramago, Dostoévski, Bolaño, Ian McEwan, Barnes, Cercas, Cardoso Pires, Twain, Joyce, Borges, tantos…

Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

“Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolanõ.

Começo a acreditar que vou querer conhecer pessoalmente todos os meus convidados. Com o João Tordo passa-se precisamente o mesmo.

Obrigado, João. Pela sinceridade. Pela honestidade. Pela verdade.
Mas sobretudo muito obrigado pelas generosidade das palavras.

Inês Pedrosa: “Para escrever, é importante ler devagar, ler atentamente”

Inês Pedrosa: “Para escrever, é importante ler devagar, ler atentamente”

Se há uns anos me dissessem que ia entrevistar a Inês Pedrosa, diria de imediato que isso seria impossível. A vergonha tomar-me-ia o espírito de assalto.

Entrevistar um dos grandes nomes da Literatura nacional contemporânea era algo que haveria de estar sempre longe do meu pensamento. Dificilmente acreditaria em tal disparate.

Hoje, em Abril de 2020, a entrevista acontece aqui e chegou com a simplicidade humilde de um pedido feito através de uma mensagem privada (DM) no Twitter.

Inês Pedrosa é escritora, mas antes disso foi, também ela – como acontece com tantos outros autores de sucesso – jornalista.
Tornou-se profissional de comunicação no ano em que eu nasci, em 1983, com a curiosidade de fazermos anos na mesma semana, com 2 dias de diferença. Mesmo signo. Mesma paixão pelas letras, palavras e frases com sentido puro.

Integrou a equipa fundadora d’O Independente e foi ainda redactora da revista LER e do Expresso, entre variadíssimas outras colaborações com mais alguns títulos nacionais.

Pedi-lhe que, num parágrafo, me dissesse quem é A Inês Pedrosa.
Não é uma pergunta fácil, mas a resposta chegou-me assim:

“Quem sou eu? Eis uma pergunta que nunca faço, e que por isso me é difícil responder. Sou uma mulher portuguesa, europeia, que ama o sol, o mar, a noite, as estrelas, a música, as palavras e a alegria, e que por isso gostaria de viver metade do ano no Brasil, onde dizer-se aquilo que se pensa não significa ter-se «mau-feitio», como às vezes, em Portugal, uns senhores me dizem que tenho.

Dou-me muito mal com mentiras e mentirolas, e já deixei de me esforçar para não ser «transparente», pecado que me é ciclicamente imputado.

Sim, sou impaciente, obsessiva, e dizem-me que muito exigente com os outros. Certo é que não sou mais exigente com ninguém do que sou comigo.”

Inês Pedrosa em foto de Alfredo Cunha
Foto: Alfredo Cunha

Mas passemos já às perguntas.

Quando é que começa a aventura da escrita. Ou melhor, como é que a escrita entra na sua vida?

Desde que aprendi a ler e a escrever.

Quando é que sentiu que era isto que queria fazer?

Sempre senti que era isto que queria fazer.

Recorda-se da primeira vez que conseguiu provocar impacto em alguém com algo que tivesse escrito?

Não, porque escrever sempre foi a minha maneira de ser, nunca o fiz com intenção de provocar impacto em ninguém. Durante muitos anos, escrevia só para mim. Em criança escrevia cartas à minha mãe e aos meus amigos, e lembro-me que eles gostavam. E, na escola, trocava redacções por desenhos, com uma amiga que tinha mais jeito para desenhar do que eu – o que não era difícil…

Há quanto tempo escreve profissionalmente?

No jornalismo, desde Janeiro de 1983, quando comecei a estagiar na redacção de «O Jornal» (que hoje é a Revista Visão).
Como escritora, publiquei o primeiro livro em 1991.

Como é que aparece o seu 1º trabalho a sério?

Literalmente, batendo às portas dos jornais.
Comecei a fazer isso no Verão de 1982, nas férias do curso de Ciências da Comunicação que estava a fazer, pensando que no período de férias poderiam precisar de estagiários, e chamaram-me de «O Jornal» seis meses depois.

Há tempos, a propósito da morte de Agustina Bessa-Luís, li uma entrevista sua ao Expresso onde falava sobre a importância que ela teve na sua vida e obra. Foi a sua grande inspiração, ou teve outras igualmente importantes?

Só comecei a ler Agustina aos 22 anos, e tornou-se sem dúvida uma inspiração fortíssima, pelo génio da sua escrita e da sua visão do mundo – e, mais tarde, quando nos conhecemos, tornou-se uma amiga, e uma pessoa que, além de admirar, passei a amar profundamente. Guardo dela recordações inesquecíveis, e passei com ela dias muito felizes.

A primeira influência literária forte que tive foi a de Camões, cujos poemas o meu avô materno me recitava, quando eu ainda nem sabia ler, passeando comigo de barco no rio Nabão, em Tomar.
E depois, os livros infantis de Sophia de Mello Breyner Andresen, e os contos de Hans Christian Andersen.

Destaco também os romances juvenis de Frances Burnett e Berthe Bernage, a poesia de Eugénio de Andrade, os romances de Erico Veríssimo, os ensaios de Nietzsche, os romances de Camilo Castelo Branco, as Novas Cartas Portuguesas das Três Marias, que li muito novinha, às escondidas, porque era um livro proibido. Tive muitas e variadas musas. 

Teve algum mentor? Alguém que possa dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a sua vida?

Mentor, terá sido esse meu avô Domingos que me recitava Camões, e que era um capitão do exército, praticamente autodidacta.

Tive a sorte de ter alguns bons professores, que me marcaram e depois, no jornalismo, encontrei figuras com as quais aprendi muito, como Fernando Dacosta, editor de cultura de «O Jornal», que me apoiou muitíssimo no início da profissão, Fernando Assis Pacheco ou António Mega Ferreira, que foi meu chefe de redacção no JL, onde entrei em Julho de 1984, a convite do José Carlos de Vasconcelos e dele, depois de um ano e meio de estágio ( gratuito) n’O Jornal.

Já teve vontade de parar de escrever?

Nunca.

Se não fosse escritora, quem seria a Inês Pedrosa?

Não faço a mínima ideia; nunca quis ser outra coisa. Muito menos feliz, certamente.

Qual foi o seu melhor trabalho até hoje?

Penso que o meu último romance, «O Processo Violeta».
Se não pensasse que melhoro a cada romance, creio que não teria energia para continuar, porque escrever um romance é um trabalho muito intenso. E a criação da «Sibila Publicações», em 2017, uma editora onde vou publicando livros de que gosto e que me parecem importantes.

Tem vergonha de alguma coisa que escreveu?

Não. Vergonha de quê? Dá-se o que se pode, dá-se o que se tem, a cada passo do nosso percurso. Basta-me a consciência de que dou o melhor de mim em tudo o que faço.

O que é que gosta mais de escrever?

Romance. Ficção.

Por onde é que começa? Pelo texto ou pelo título?

Começo por uma situação, uma personagem ou uma história que me intriga.

Alguma vez fez algum tipo de formação ou treino para aprender a “escrever melhor”?

Não há «escrever melhor»; o que há é a busca de uma voz, de uma verdade interior. Penso que a minha formação em Ciências da Comunicação, do modo como era feita na Universidade Nova de Lisboa, um curso de análise semiológica do mundo e da história humana, me ajudou bastante.

Ler intensamente Roland Barthes, Julia Kristeva e Jacques Derrida ensina-nos, não só a descodificar a sociedade contemporânea, mas a perceber o poder e as armadilhas da escrita.

Agora estou a escrever a minha tese em Literatura Comparada, depois de ter feito o curso de doutoramento, e sinto que o conhecimento, a reflexão e a escrita sobre outros textos literários alimenta o meu próprio trabalho criativo. Para escrever, é importante ler devagar, ler atentamente. Não basta ler muito, é preciso mergulhar na leitura e pensar criticamente sobre o que se lê.

Há quem escreva só de manhã, só à noite, ou sempre à mesma hora. No dia-a-dia, como é que a Inês escreve? Tem alguma rotina, ou escreve quando calha?

Odeio rotinas. Quando estou a escrever um romance, escrevo continuamente – em geral, pela noite e pela madrugada fora, porque sou noctívaga.

Lida bem com prazos ou prefere escrever sem pressão?

Tendo sido jornalista desde os 19 anos, obviamente que lido bem com os prazos: nunca falhei um prazo num jornal. Mas um trabalho criativo de fundo não se compadece com prazos. Nunca aceitei compromissos editoriais: seria capaz de entregar um livro por ano, porque tenho essa disciplina jornalística, mas não seria o livro que eu quereria escrever: há romances que se escrevem de um jacto, outros que necessitam de muito tempo.

Como é que reage às críticas?

Como qualquer outro escritor ou artista – com alegria, quando são positivas, e com mágoa, quando são negativas.
Procuro não me deixar afectar pelas reprimendas nem pelos louvores – claro que, quando o New York Times recentemente elogiou o meu primeiro romance publicado nos Estados Unidos da América me senti levitar, até porque os críticos do New York Times não me conhecem, não são meus amigos ou inimigos, como necessariamente são todos os nossos críticos aqui em Portugal…

Mas nunca entro em grande desassossego, porque conheço relativamente bem a História da Literatura e da Crítica; «Moby Dick», de Melville, por exemplo, foi desprezado, não só pela crítica como pelos leitores da sua época, e hoje faz parte do cânone universal.

Tudo é muito relativo, e o objectivo da arte é o de entender as falhas e a desarrumação da vida e da sociedade, não o de se arrumar nela e ser compreendida e afagada pelos códigos vigentes.

Acredita que é boa naquilo que faz?

Se não acreditasse, não o faria, porque sentiria que estava a enganar as pessoas. Uma vez fizeram exactamente essa mesma pergunta malévola à Agustina, e ela respondeu que podia garantir a qualidade da sua escrita, do mesmo modo que esperava que um marceneiro a quem encomendasse uma mesa lhe garantisse que a mesa teria qualidade e solidez.
Surgiu logo um coro de gente ignara a chamar-lhe vaidosa – curiosamente, quando António Lobo Antunes repete que escreve com a mão de Deus, ninguém parece escandalizar-se…

Tem “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lida com eles?

Nunca tive. Só me queixo de bloqueios de tempo para escrever ininterruptamente…

Quem são os seus autores de referência?

Autores que me inspiram, muitíssimos – já falei de vários, mas só quem leu muito pouco pode mencionar apenas meia-dúzia de nomes, tão variada e poderosa é a literatura universal.
Autores «de referência», nenhum: a referência de um escritor tem de ser a sua verdade, o seu conhecimento, a sua ignorância, a sua inocência, a sua imaginação, o seu pensamento, a sua coragem, a sua capacidade de arriscar.

Há algum livro de outra pessoa que a leve a dizer: “Caramba, gostava tanto de ter sido eu a escrever aquilo”?

Não. Fico genuinamente feliz com o talento dos outros.
Um livro muito bom – e há tantos! – impele-me a escrever mais, e desejavelmente melhor, os meus próprios livros.

A literatura não é uma competição, é uma conversa apaixonada e variada através dos séculos.

Obrigado, Inês. Agradeço-lhe muito a simplicidade, a simpatia, a humildade e a dose industrial com que respondeu às minhas perguntas. Até breve.