O que é na verdade!?

Contentamento descontente? Fogo que arde e não se sente? Seres alma e sangue e vida em mim, e dizê-lo cantando a toda a gente?
Quantas e quantas vezes me perco nas deambulações cáusticas da palavra, nas expressões desencontradas da racionalização do sentimento, ou nas intemporais buscas de razões ou vocábulos, que melhor definam o que é tantas vezes inexplicável, se não quase sempre, impossível de verbalizar.
Os caminhos são estradas sinuosas, cobertas de tudo o que são elementos de tempo e espaço.
As manhãs de nevoeiro, as tardes solarengas, as madrugadas quentes de borralho, as noites intermináveis de chuva forte e desmedida, que nos acerca e ensopa, e nos faz perceber que igualmente ensopada e cercada é tantas vezes, a própria vida.
Mas há caminho, há toda uma via rápida de incerteza que não deixa de ser igualmente sensitiva e deslumbrante.
Crescer é de facto uma maravilha aos pés de quem, descalço, se atreve a sair à rua.
Tão sabiamente alguém um dia escreveu, que dar de beber à dor é o melhor, e tem noites que sim, tem tarde que nem tanto, e manhãs em que é um pouco de qualquer coisa do género.
Aproximo-me das 04h00, sem saber para onde caminho, sei que vagueio aqui sentado, mais sereno, ligeiramente encostado, em pose altiva de conselheiro revivalista do passado a que me apego.
Dele não vivo, mas dele me sirvo, a ele sim dou eu de beber.
É nele que vive a réstia de amargura, que não teima mas perdura, sem saber onde se esconder.
Não te vejo, mas pressinto-te, sem o vinho eu não me minto, que de fugas se faz o sobrevivente.
Querer ser inteligente, passar ao lado, seguir em frente, mudar o ar, ser diferente, é pedir demais a quem não segue as estradas principais.
Na poesia sonora das ruas por onde passo, encontro de tudo um pouco, e em tudo, absolutamente nada.
No nada descubro porquês, descubro ainda mais, descubro-me a mim.
E é de mim que preciso.
A ti vejo-te tanto, como tão pouco sinto que o faço, sei bem o que te chamo, chamam-lhe amor ou chamem-me louco, por mim é apenas mais uma frase num pedaço.
Estranhamente desligamos uma parte do cérebro que nos permite manter o fiel, sempre necessário e de preferência conveniente raciocínio, quando nos apaixonamos, ou quando simplesmente assim estamos.
Não raramente sofre, não frequentemente sente, que é aquilo que mostra a toda gente, a alegria permanente, de quem sente o que mais ninguém desmente.
Viver é aprender, amar, errar e sofrer, é perceber, que no entanto, não há nada que não se tente, se é isso que deveras se sente.
Vida, mostra lá que não és pequena, que não enganas quem te ama, nem te mostras tão serena, que acalmas quem te chama, e que de facto vales a pena.

Se, se, e se?!

Tantas vezes navegamos na hipótese, tantas passeamos nas conjecturas e nas ideologias e nas possibilidades, mas nunca paramos para pensar que de facto de nada nos serve.
Somos, reconhecidamente, um povo de ses, de, e se, de, ai se, e de quem me dera…
E isso faz-nos simultaneamente ser um povo de sonhos, e um povo que não os persegue…
Dentro do fatalismo crónico que nos pinta a alma, conseguimos sorrir cada vez menos, conseguimos querer cada vez mais, mas também conseguimos ser cada vez mais… burros!
Vivemos com o que não temos, e queremos sempre o que têm os outros, caminhamos sobre brasas, mas não lhes deitamos água, ao invés disso, tiramos os sapatos, e andamos mais devagar.
Qual o melhor conselho para darmos a nós próprios?
Já nem sei.
Vivemos numa terra com problemas de visão, de audição, de olfacto, de tacto… de tudo e mais alguma coisa.
Mas temos sol, cerveja, tremoços, camarões de espinho, vinho do bom, futebol, Fátima, Algarve, Madeira, Açores e tanto mais.
Ora o que fazer perante uma balança tão desequilibrada, que deixa a alma prostrada, a vida amaldiçoada, a cabeça mais pesada, a vista cansada, a sola dos pés queimada, a gasolina refinada, a chávena escaldada, a canção desencantada, e a guarda rebaixada?
Nada?
Nada… disso.
Fecha os punhos, cerra os dentes, levanta os olhos, olha em frente, vê mais longe, vê mais alto, sonha muito mas a prazo, conta trocos, lembra-te, nada vem por acaso.
Deus é meu, é teu, é nosso, mas não lhe peças mais do que ele por ti pode fazer, o Senhor só tem dois braços, e também tem de descansar, como podes tu pensar que ele só a ti tem de ajudar.
Tem calma, respira, visualiza, não desarmes, não desistas, acredita, mas trabalha meu malandro, trabalha, que só assim podes ser alguém.
É o trabalho que distingue o homem da besta.
E para besta já basto eu, que venho para aqui com a mania que consigo ordenar da forma certa, as palavras que me vêm à cabeça, mas até isso dá trabalho.
Ou seja, até para ser besta se é preciso trabalhar, e muito, porque senão confundir-te-ás com uma besta qualquer, e isso nunca.
Sou uma besta qualificada para tal, não façamos cá confusões.
Se queres ser besta, trabalha!

Estupidez é não ser nada

Os encontros e desencontros são tudo menos ocasionais.
Por ocasional entende-se tudo o que é fruto da ocasião, que é imprevisto, eventual, acidental ou fortuito. E encontros e desencontros não podem ser ocasionais, não podem ser fruto de acasos ou de acidentes.
A vida mostra-nos que praticamente tudo dentro dela serve para retirarmos uma qualquer propriedade, ou mensagem, ainda que à partida seja completamente estapafúrdia, irreal, ridícula ou inexistente, mas que na verdade estamos a viver o que estamos a viver por algum motivo, e não apenas como fruto da ocasião.
É contraproducente pensar-se que existem cosias que nos acontecem por acaso, e que só por acaso é que estamos a viver ou a presenciar o que quer que seja.
Vá lá, somos mais inteligentes do que isso, penso eu.
Cair na estupidez é fácil, é simples e não dá trabalho nenhum, nenhum, mas ao mesmo tempo é, como é que hei-de explicar isto… ESTÚPIDO!
Somos o que fazemos e caminhamos para onde queremos, não vale de nada atirar as culpas para cima das casualidades.
Certo dia Pedro acordou e a sua vida mais não era que um retalho estraçalhado do que outrora havia sido.
Não morava onde morou, não amava quem amou, não chorava por quem chorou, nem chamava que chamou.
Não comia o que sempre comeu, não bebia o que sempre bebeu, não via o que sempre viu, pensou até que o seu nome não era mais seu.
E de facto não era, era o nome que a sua mãe lhe deu.
Deixou de comer porque quis, deixou de ver porque olhou para outro lado, deixou de amar, porque estava já cansado, e deixou de chorar porque as lágrimas se tinham esgotado.
Não Pedro, nada disto foi por acaso.
Deixaste porque quiseste, porque foi para lá que caminhaste, foi para lá que te dirigiste.
Se te arrependeste, tens bom remédio, dá meia volta, arrepia caminho e recomeça a procurar tudo o que sempre foste, tudo o que sempre amaste, tudo o que sempre quiseste e sempre desejaste.
Nunca é tarde para tentar.
Nem cedo para se deixar.
Agora serás um eterno palerma se permaneceres sentado no mesmo lugar, lugar esse que dizes aquilatar de uma forma já vulgar.
Ser estúpido é um sinónimo tão bom para… ser inerte, parado, constantemente conformado, resignado e já disse que tudo é a mesma coisa que ser ESTÚPIDO não já?
É sempre bom terminar de forma esclarecida.
Pedro voltou assim à vida.
Se era tudo o que ele queria? Nem ele sabe. Vai atrás e depois verá, se no sítio onde está se vê melhor do que se via.

Vive, vivendo

Leves elas caiem, as gotas da imensidão no pensamento.
Leves e de tão leves que são não chegam sequer a molhar.
De tão leves que são não chegam sequer a pingar.
Serão gotas na verdade?
Será que caiem mesmo, ou se cirscuncrevem à sua humilde e mínima condição de só conseguirem ser alguém quando atacam em grande grupo.
Não é assim também o homem quando brinca com as palavras?
Só é verdadeiramente alguma coisa quando combina as palavras em aglomerados e dá forma a frases, a ideias, a pensares ordenados e encadeados, que assumem formas distintas.
Somos seres amaciados por palavras, com ideias bizarras que prendemos ao pés, tumultuosos encontros de almas duras, dos quais não nos conseguimos soltar.
Mas a vida é tanto e tão mais.
A vida é feita de eternos ideais, completos ou banais, que no fundo não são mais do que tentativas tantas de acreditar no amanhã melhor que o hoje e tão bom como tantos ontens.
Vamos emobra um dia, todos sem excpeção, que levaremos nós da vida, para além de uma enorme recordação?
Levamos as gentes, as palavras, sim as palavras, e levamos imagens, cheiros, granadas aos bisbilhoteiros, e sons de uma vida inteira.
Porque a vida é feita para ser vivida e tudo o resto para ser olhado.

Olha como chove Lisboa

Há, com toda a certeza, razões e porquês para tudo o que vês.
Na verdade, tudo o que somos se baseia na tentativa frustrada que lançamos rumo ao entendimento.
Tudo. O que é o tudo? De que é feita a totalidade da matéria? De que é composta? 
Para onde se caminha quando já não se quer nada mais do que aquilo que na verdade já se tem?
E o oposto? A que categoria pertence?
Onde se encaixa alguém que não tem nada e que quer desesperadamente alcançar… qualquer coisa que seja?
Já não digo tudo, mas digo, qualquer coisa que seja, é mais simpático, mundano, modesto e não obedece à estúpida luta de classes a que vulgarmente se assiste no dia vai, dia vem.
Talvez ser poeta seja de facto ser mais alto.
Se para ser mais alto tenho de escrever, então não pararei de crescer.
Contudo, lá está o tudo novamente, amanheço debaixo da chuva que hoje cai e penso no que me falta?
E no que faltará então aos que de facto assumem ser e não ter nada.
Lá dizia o “outro”, que “só sei que nada sei”, eu por mim mesmo digo apenas que “não sei o que sabe quem nada tem”.
Andamos em versos descalços, caminhamos por estradas cobertas de um magma invisível que segrega a consciência dos fracos, ou simplesmente faz bolhas nos pés de quem não calça os caminhos que percorre.
Na calçada, as pedras andam também elas perdidas, porque alguém as deixou assim, tristes e condenadas a serem eternamente espezinhadas.
Por elas passamos todos e passa de tudo um pouco e tanto mais.
E o que têm as que não têm a sorte de formar composições gráficas embelezadas, a que alguém ousou chamar calçada?
Todas as outras que vivem de uma só cor e são erigidas às três pancadas, mais não são que um aglomerado de pedras soltas, que tantas vezes nem se chegam a tocar.
Lá fora rebentam granadas temporais, cavilhas soltas ao desbarato, por uma natureza enfurecida que tem a ousadia de fazer soar os alarmes dos carros, que acordam os vizinhos, que resmungam contra o tempo, lá está a luta de classes.
O tempo é o que é e faz o que faz, e quem nos julgamos nós para praguejar contra os seus desígnios.
Mais uma granada para a mesa do canto, por favor. Qual? A que tem o senhor com o candeeiro e a pose de escritor altivo, de pseudo-romancista de cómoda em pé. Mais foi assim que Pessoa escreveu muitos dos seus, não é?
Deixem-no estar que ele sonha.
Ah pobre Diabo, não sabe o que diz mas sorri, se é feliz, então a vida eu lhe gabo.
Chove e molha-se a roupa, chove e enchem-se as valetas de toda a merda que corre pela cidade, chove e solta-se o grito mudo dos céus arroxeados, carregados de uma frustração perene, de uma luta, que não de classes, que não é só deles.
Como cheira a terra.
Como a luz é pouca, mas vive em liberdade.
Deixa-te estar na cama Lisboa, é cedo, e quanto a nós, já te chega a tua própria infelicidade.
E o que é de mim que estou para aqui a chatear-te?!
Pouco mais tenho a fazer, resta-me contigo falar.
Se não for contigo, aos outros não sei o que digo, mais vale aproveitar.
Dorme bem pequena.
Que agora vou-me eu deitar.
Daqui a pouco estou de volta e tu, estarás sempre no teu lugar.