Os escritores são, regra geral, pessoas diferentes das outras. Porquê?
Porque sorvem tudo o que vêem. Fazem da realidade a maior das suas fontes de inspiração. Fazem do que os olhos vêem, do que os ouvidos ouvem, do que os cheiros contam, as musas inspiradoras para as realidades que criam à posteriori.

O meu 3º convidado desta série é um dos “novos” (em idade, apenas) talentos da Literatura portuguesa.

Nascido em 1975 e filho do mítico Fernando Tordo, João publicou treze romances (isso mesmo) e recebeu vários prémios, entre eles o Prémio Literário José Saramago em 2009, o prémio GQ e o Prémio Literário Europeu.

Quando lhe pedi que me dissesse quem é o João Tordo, respondeu-me assim:

“João Tordo, lisboeta, escritor, tio de muitos sobrinhos, indeciso, inquieto, obsessivo e, sempre que consegue, um tipo decente.”

Foto: Pedro Ferreira

Destaco o “sempre que consegue”, quanto mais não seja porque se trata de um homem. De um ser humano como todos nós. Que escreve muito bem mas que, acima de tudo, também sente como os homens.

Por isso, João, se nem sempre conseguires, não tem mal nenhum, pelo menos é isto que me parece. Os homens são ainda maiores quando falham as tentativas de ser decentes, quando o tentam com afinco.

Passemos então à entrevista que é para isso que estamos aqui.

Quando é que sentiste que tinhas (e querias) ser escritor?
Lembras-te da idade que tinhas?

Sim, tinha treze anos. Embora escrevesse desde muito novo (6, 7 anos), foi quando li o “Crime e Castigo” do Dostóievski que, interiormente, devo ter decidido qualquer coisa do género: Um dia, quero fazer isto.

Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Julgo que na família, talvez. Era muito miúdo e passava os dias a escrever histórias, jornais, bandas desenhadas, etc. Talvez olhassem para mim como uma “ave rara” ou um rapazinho meio maluco, demasiado solitário, que gastava o seu tempo a alimentar a imaginação com aquelas coisas. As minhas tias e avós ficavam muito impressionadas, e guardaram esses “recortes” de infância. Alguns deles surgem no “Manual de sobrevivência de um escritor”, que será publicado em Maio.

Há quanto tempo escreves profissionalmente?

Bom, desde que comecei a trabalhar, em 1998. Primeiro como jornalista, depois cronista e, a partir de 2004, como romancista. Por vezes também escrevo guião de cinema e televisão.

Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Sim. Foi sempre o meu ganha-pão.

Quem foi a tua grande inspiração?

Tive muitas ao longo do tempo. Não só da área da escrita, mas de outras áreas. O Saramago continua a ser uma inspiração, mas também o Philip Roth, por exemplo. E não podiam ser mais diferentes. Por vezes, uma canção do Tom Waits inspira-me, ou um filme do Bergman. Depende das alturas da vida.

Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Não, isso não existe. Isto é algo que nasceu comigo, eu nem sabia quem era e já estava a escrever ou a rabiscar em papéis. Nem sequer sabia o que era um escritor, e já escrevia. Desde criança. Não precisei de um mentor porque a própria vida — biológica, psicológica — empurrou-me para isto. Tive um professor importante no Liceu, e outro na faculdade; e sim, idolatrei alguns escritores ao longo da vida – Auster, Roth, Saramago, Cercas, Bolaño, etc. – para mais tarde descobrir que não era nenhum deles, que era o João.

Já tiveste vontade de parar de escrever e de mudar de vida?

Não.

Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer hoje?

Não consigo imaginar, isso não existe. Não escrever como modo de vida é algo que não existe para mim.

Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O romance que vou publicar ainda em 2020.

Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Sim, de muitas. Há certos livros que nem consigo olhar para eles.
Fazem parte de um tempo de aprendizagem, da juventude. São difíceis de “digerir”, ainda. Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende. Por isso é tão fascinante e tão frustrante.
Também não gosto de escrever nas redes sociais; não tenho “vergonha”, mas tento restringir essa prática ao mínimo possível.

O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

O romance e o ensaio.

Por onde é que começas: texto ou título? Porquê? 

Depende. Às vezes um título aparece logo com muita força e fica aquele; noutras vezes, escrevo um livro inteiro e só “descubro” o título mais tarde.

Alguma vez fizeste formação para saber escrever melhor?

Fiz workshops de Escrita nos Estados Unidos, há muitos anos.
Mas lembro-me de muito pouco. Acho que aprendi bastante com os meus alunos de escrita literária nos cursos que fui dando ao longo dos anos.

No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo de manhã, entre as 8h30 e as 14h. Normalmente, reservo as tardes para fazer outras coisas, a menos que surja uma inspiração qualquer.

Como é que reages e lidas com as críticas?

Essa resposta é longa e está no livro “Manual de sobrevivência de um escritor”, não a posso dar aqui num espaço muito curto.

Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Acho que sou muito dedicado e que trabalho muito. Todos os dias estou ali sentado a escrever, para o bem e para o mal, e alguns dias são muito bons e outros muito maus, e ainda assim continuo e persisto, apesar das dúvidas e da incerteza e das poucas recompensas financeiras. Parece-me que escrevi alguns livros muito bons e outros razoáveis, mas que vou melhorando com a idade e a experiência.

Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Só tive um bloqueio e deveu-se a uma fase em que viajei demasiado e expus-me em demasia. Tive muita dificuldade em regressar à escrita depois disso.

Quem são os teus autores de referência?

Já falámos de alguns: Melville, Saramago, Dostoévski, Bolaño, Ian McEwan, Barnes, Cercas, Cardoso Pires, Twain, Joyce, Borges, tantos…

Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

“Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolanõ.

Começo a acreditar que vou querer conhecer pessoalmente todos os meus convidados. Com o João Tordo passa-se precisamente o mesmo.

Obrigado, João. Pela sinceridade. Pela honestidade. Pela verdade.
Mas sobretudo muito obrigado pelas generosidade das palavras.

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