Ainda era jornalista quando comecei a ouvir falar do Afonso Cruz.
Terá sido, muito possivelmente, algum colega que fez referência ao livro A Boneca de Kokoscha, com o qual o Afonso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Camilo Castelo Branco.

Como sempre, fugi ao que toda a gente andava a ler e fui comprar Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.

E acabei por ser eu a devorá-lo a ele. Ao livro, entenda-se.
Fiquei preso logo no arranque, em diálogo, e escrito com um exuberância gráfica diferente de todos os livros que tinha lido até então:

” – Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! – gritava o chefe da repartição, mas ele ouvia aquele voz lá muito ao fundo, a desaparecer numa esquina.
Foi assim que a minha avó me começou a contar a história de Vivaldo Bonfim, o meu pai.”

E depois, para mal dos pecados de um rapaz de 30 anos a quem as histórias começavam a apresentar-se-lhe como o futuro da sua vida, o livro termina assim:

“(…) Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.”

E assim foi. Assim fiquei encantado com a escrita de um homem novo.

Foi um dos primeiros nomes em que pensei quando esta loucura em que me meti se me apresentou ao pensamento em jeito de desafio.

Também pensei que fosse impossível. Que ele dissesse que não. Ou que não dissesse nada de todo.

Mas depois, antes de lhe escrever, descobri um ponto em comum nas nossas vidas. A ligação à Figueira da Foz. O Afonso é da Figueira. A minha família, do lado da minha mãe, tem o cordão umbilical assente na cidade com a maior praia do mundo. Pelo menos, para mim, é a maior praia do mundo.

Feita a explicação que se devia e agarrado o gancho para o contactar, com a ajuda do Rui, da Comunidade Cultura e Arte, escrevi ao Afonso que me respondeu prontamente aceitando a entrevista. E assim aqui chegámos.

E, claro, chegámos também à pergunta da ordem:
– Quem é o Afonso Cruz?

Respondeu-me assim:

Vivo isolado com a minha família, com três cães, duas galinhas, oliveiras e árvores de fruto. Gosto de cozinhar e de beber cerveja (mais do que fazê-la), de ler, de fotografar, de caminhar, de tocar ukulele e de viajar.

Para além disto, o Afonso diz que tem tido a sorte e a ousadia de fazer o que quer e o que gosta. E de ser livre. E tinha de ser este o título desta entrevista. Avancemos.

1. Quando é que sentiste que tinhas que (e que querias) escrever? Que era isto que querias fazer da vida. Lembras-te com que idade sentiste isso?

Estava a trabalhar numa agência de publicidade, como copywriter.
Tinha 36 ou 37 anos. Nessa altura escrevi uma série de textos que publiquei num blog privado, sem qualquer intenção de os ver editados. Só quando percebi ter uma quantidade razoável deles, pensei que poderiam dar um livro. Ou seja, não foi tanto eu querer escrever ou publicar foi mais a escrita me ter acontecido.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Na PGA (prova Geral de Acesso) era preciso escrever um texto. Tive a melhor nota da minha escola. Mais tarde, no ensino superior, na disciplina de História de Arte, a professora escreveu-me uma nota no final do teste corrigido que dizia mais ou menos o seguinte: não sabes muito de História, mas escreves muito bem. Tive dezassete.

3. Há quanto tempo é que escreves profissionalmente?

Desde 2008.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Como disse antes, trabalhei como copy. Foram uns seis meses da minha vida em que recebia para escrever. De resto, sempre estive relacionado com a animação e a ilustração.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

As minhas leituras, as minhas viagens.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

Vários: Dostoiévski, Rumi, Thomas Mann, Borges, Vonnegut, Emily Dickinson, Hrabal, Kazantzakis, Cossery, Lem, Simone Weil, etc.

7. Sendo tu também músico, ilustrador e cineasta… já tiveste vontade de parar de escrever e de te dedicares em exclusivo a alguma destas actividades? Ou mesmo a algo completamente diferente?

Dediquei-me ao cinema de animação durante muito tempo, mais de uma década. Também houve uma altura em que tive a pretensão de viver da música. Talvez um dia me torne apicultor.

8. Se a tua vida não fosse a de uma espécie de Príncipe do Renascimento, o que é que estarias a fazer agora?

Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto. Não é tão importante aquilo que faço, mas se o que faço parte de um espaço de liberdade, em que a compulsoriedade é reduzida ao mínimo.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

É um chavão, mas serão os próximos.

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não, mas há livros em que me revejo menos. Não os hierarquizo, simplesmente, não os escreveria da mesma maneira.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Depende das ideias. Os livros, para mim, são uma materialização de um conceito, por isso os formatos devem adequar-se a essa ideia inicial e se sentir que encontrei um modo eficiente, então o processo é natural mas não decorre confortavelmente, porque é uma luta.

Se não nos magoarmos no processo, é porque não nos estamos a esforçar, a superar-nos.

Tento que a escrita seja uma espécie de verdade em relação à ideia, que não haja uma traição ao conteúdo simplesmente por amor à forma ou ao conforto. A única coisa confortável deve ser a relação entre a ideia e o tipo de processo, mas não o acto em si.

Explicando de outro modo, imaginemos que pretendo fazer uma cerveja tipo Rochefort, então vou precisar de certas coisas que se adequam ao fabrico de uma cerveja com estas características.

Se optasse, por exemplo, por usar o processo e os ingredientes de uma lager, jamais teria o resultado pretendido.
Mas conhecer o processo eficiente e os ingredientes certos não significa que obterei uma boa cerveja ou que o seu fabrico não seja difícil, complexo e desconfortável.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Varia. Por vezes tenho uma ideia, que até pode declinar num bom título, mas há ocasiões em que o título nasce do texto ou imagino-o a determinada altura da escrita de modo a iluminar o conteúdo do que escrevi.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Não tenho propriamente uma rotina de escrita. Prefiro escrever à noite porque há silêncio e menos solicitações externas, mas tomo notas na fila do supermercado, escrevo em hotéis, aeroportos, aviões, cafés…

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Conforme a qualidade das críticas. São especialmente más, e não tão incomuns, quando são ad hominem.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

Talvez os primeiros prémios, porque os inícios costumam ser difíceis e qualquer ajuda extra é sempre importante.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Faço o possível por me superar e fazer o melhor que sei.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevo depois de pensar ou de estruturar uma narrativa e não me sento para escrever sem esse trabalho prévio. Um bloqueio de escrita é possível se nos sentarmos para escrever sem quaisquer ideias, sem ter pensado, imaginado, estruturado de alguma forma o que pretendemos fazer.

19. Quem são os teus autores de referência?

Alguns que nomeei antes como mentores.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos. Gostaria de ter tido a ideia que levou Edwin Abbott Abbott a escrever Flatland. Gostaria de ter escrito sobre a graça como Weil, de ter imaginado algumas parábolas de Chuang Tsé, de ter escrito alguns parágrafos de Bruno Schulz ou Michaux, de ter sido o autor de The Giving Tree, de Shel Silverstein, ter escrito o conto Bontzie, o Silencioso, de Peretz, de ter pensado em todas as parábolas geométricas que Nicolau de Cusa inventou e de ter escrito o Elogio da Calvície, de Sinésio de Cirene.

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