O meu convidado desta semana é humorista, apresentador de programas, comediante, autor, escritor de coisas, guionista, pai de 3 filhas e marido da Catarina Raminhos…
Sim, que a pessoa famosa lá em casa é ela… e isto foi ela que o disse, à minha frente, basta leres a entrevista dela.

É uma pessoa, o António, que tem a capacidade de conseguir provocar um efeito (seja ele qual for) surpresa seja em quem for que o veja, siga, ouça ou leia pela primeira vez, pela segunda, ou pela centésima décima terceira.

Sobre si próprio – porque é assim que começam todas estas entrevistas – o António Raminhos disse tão somente, e passo a citar: “oh, sei lá eu quem é que eu sou. Isso é um processo em mutação constante”.

E assim arrumas a viola no saco, desarmado por uma resposta tão sincera e crua que nem dá para dizeres mais nada.

Portanto, depois disto, resta-me apenas avançar com a entrevista, que, como diria a Joana Azevedo, já se faz tarde.

1. A experiência falhada como jornalista e que te lançou como “aspirante à pobreza”, foi decisiva para começares a escrever, ou já o fazias antes? No fundo, o que te quero perguntar é porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

Não sei muito bem. Eu lembro-me de ser puto e já escrever algumas redacções mais elaboradas e inventar algumas histórias, mas nada de mais. Gostava de representar, de imaginar e colocar essa imaginação em acção.

2. Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Penso que terá sido aí por 2008, no Funchal, quando atuei 12 vezes em 11 dias com o Carlos Moura, o Pedro Miguel Ribeiro e o Nuno Morna.
Lembro-me de uma noite pensar… é isto que quero fazer.
Não ter medo do que as pessoas possam pensar, ou se vão achar graça ou não. Não no sentido de me estar a borrifar para o público, mas no sentido de ir sem medos e fazer aquilo que achava graça.

3. Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Deve ter sido na minha mãe e de forma involuntária (hahaha).
A minha mãe estava sempre a contar uma história em que eu, em pequeno, em resposta a uma senhora que me viu e disse “aiii que ele é tão simpático, olha como ele está alto” digo eu “e também sou um bocadinho bonito”.

A minha mãe estava sempre a contar isto, mas se calhar também era para dizer que eu era um peneirento.

4. Quando é que começas a ser pago para escrever?

Na comédia, quando comecei a fazer stand-up, porque enquanto jornalista já o tinha sido. Mas na comédia foi em 2006 quando comecei a atuar. Depois, anos mais tarde, talvez em 2008, comecei a escrever guiões e aí sim comecei a ganhar para escrever para outros.
E o mais engraçado é que escrevi para tudo… para Angola, para as Tardes da Júlia, para o Malato… sei lá.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

O Carlos Moura foi uma pessoa muito importante no início da minha carreira. Foi uma espécie de mentor, sim.
Mostrou-me muita coisa, fez-me ouvir muita comédia, aprendi com o seu ritmo e conhecimento.
Para mim sempre foi um dos melhores gajos na comédia, mas quis estar sossegado e foi mais para outro caminho.
É uma espécie de Luke Skywalker na ilha.

António Raminhos ao sol e cheio de efeitos
Foto roubada (mas com autorização do autor) ao Instagram do entrevistado

6. Já tiveste vontade de parar de escrever – e de fazer vida do humor – e de ir fazer outra coisa qualquer?

Sim, claro. Volta e meia tenho, mas para fazer outra coisa teria de ser anonimato total ou, melhor ainda, ser podre de rico e não fazer nenhum.
O que, embora as pessoas possam não acreditar, está muito longe da verdade.
A televisão e o entretenimento são muito bonitos para quem tem exclusividade e mesmo para esses nem sempre é seguro.

7. O que é a escrita de humor tem que te diverte tanto?

O ver o outro lado das coisas.
O colocar a questão “e se”.
E se isto fosse assim… se isto fosse assado?
É como um novelo de lã que se vai desenrolando… melhor… é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar…
É esse o efeito.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Não sei… porque também isto não foi planeado. Por isso, não sei, podia estar a ser jornalista, ou a trabalhar no Badoca Park porque gosto de animais.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

Eu digo sempre que o melhor está para vir… porque realmente nunca sabemos. Mas tenho vários… desde a Missão 100% português, o 5 para a Meia-Noite, o Esta Mensagem é para ti, a Banheira das Vaidades no Youtube, o filme Mau Mau Maria… porque todos eles têm histórias engraçadas, outras difíceis e um sucesso porreiro.

10. Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste, ou já aceitaste escrever alguma coisa que odiasses apenas por dinheiro?

Odiar, odiar não, mas obviamente já escrevi coisas com as quais não me identificava muito. A comédia é muito bonita, mas já não tem tanta graça, às vezes, quando tens casa e família e contas para pagar.
Tens que fazer uns trabalhos menos prazerosos para que possas fazer outros que queres. É normal.
Agora nos bares… havia bares em que era muito difícil atuar e quando recebias no fim da noite, um gajo sentia-se meio proxeneta!
Ahhahaahah e era bom!

11. Em que é que ser pai de 3 filhas mudou a forma como escreves?

Como qualquer experiência muda, acredito.
Os comediantes, grande parte, escrevem sobre o que os rodeia, a sua vida, as suas dores e dúvidas.
Elas nasceram e é normal que tenham começado a surgir temas, porque é aquilo que vai na minha cabeça.
Se tivesse sido um acidente, viver 15 anos no Afeganistão… era a mesma coisa.

António Rominhos numa produção de outro mundo. Ou do seu mundo
Mais uma apropriação descarada de uma foto do IG de António Raminhos,
também esta consentida pelo próprio, num momento de particular beleza familiar

12. Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

No caso da comédia, e do meu trabalho, começo com a ideia… algo que me aconteceu. Ou por exemplo, estar no médico à espera de consulta e começar a imaginar o que poderia acontecer na consulta.
Aliás, um texto deste último show surgiu assim.

Como é que seria se eu chegasse lá e isto fosse assim?
Às vezes escrevo só a ideia, o que dá merda.
Porque depois volto lá e já não me lembro qual era a piada que queria.

Olha! Agora que estou a responder a isto, estou a lembrar-me que tive uma ideia ontem e disse “Catarina não te esqueças para eu apontar…” e já não sei que porra era!

13. Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Acho que só talento não é suficiente, isso é em qualquer área.
Na comédia há tipos muito talentosos, mas se não trabalham, se não investem nas redes (e por falar nisso, espreita aqui o Instagram do Raminhos), etc… vão desaparecendo.

14. No dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Devia ter sim, mas é difícil, principalmente quando tens tanta gente em casa. Por exemplo, agora é exames da escola da mais velha, matrículas das outras que demoras 20 dias e tens de fazer sinais de fumo, depois reuniões, depois entrevistas.

O que eu faço é ir guardando algumas ideias e quando se aproxima a altura de um show para experimentar algo, aí sim, sento-me e tenho esse objectivo de explorar as ideias.

15. Como é que reages às críticas?

Já reagi pior.
As pessoas que simplesmente dizem “não gosto, não acho piada” tudo bem. Tranquilo. Mas há muita gente maldosa, que magoa, que ofende, que é gratuita nas palavras que não têm nada a ver com o simples não gostar do meu trabalho.

Eu não gosto de uma data de coisas e, das duas uma, ou não vejo ou dou o beneficio da dúvida. Mas isso não coloca em causa da qualidade do tipo, porque se há 500 mil pessoas a gostarem, eh pá… ainda bem e que faça o seu caminho.

16. Quando é começaste a escrever para séries e programas de TV?

Acho que foi por volta de 2008, sim.

17. E os livros? Aparecem por acaso ou foi algo que sempre quiseste fazer?

Foi como tudo o resto. Apareceram por acaso.
Por convite, primeiro do Alvim.
Eu escrevia para a MAxmen e ele “oh pá não queres reunir essas crónicas?!” e eu “ok!”.

Agora há três anos, na RFM “olha isto dava um livro fixe!” e eu “ok!”

18. Qual a coisa mais incrível que a escrita te trouxe?

Está a trazer agora.
O poder causar impacto nas pessoas, melhorar o seu dia.
Saber que às vezes estão à espera de ouvir só um gajo parvo e depois saem do espetáculo a rir e a chorar ao mesmo tempo… e não é porque as piadas foram uma merda.

António Raminhos e os haters
Mais uma foto subtraída ao Instagram de António Raminhos. É assim que se ilustram entrevistas, nesta era pós-moderna.

19. E a pior?

A pressão que colocamos sobre nós próprios para termos de ter piada.
De ter de ser bom ou excepcional.
Uma pressão que muitas vezes o público não coloca em cima de nós.

20. O que é que achas do teu trabalho?

Mas isto é psicoterapia agora!? Obviamente que acho uma merda. (ahahahahah) – são entrevistas escritas, isto tem de estar aqui!

21. Tens autores de referência?

Eu leio muito livros técnicos. É difícil ter uma referência.
É engraçado, gosto de saber coisas das áreas que gosto.
Não leio muito romances, thrillers, ficção no geral.
Na comédia, tenho comediantes sim de referência como Conan O’Brien, o Mitch Hedberg, Jim Gaffigan, Mike Birbiglia, Herman José…

22. Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Gostava mais de ter as oportunidades de outras pessoas (ahahahaha) mas isso é a vida, tenho de batalhar por isso como se calhar elas batalharam.
Ou não! Na realidade não interessa. Lá está, é o seu caminho.

23. Há alguns humoristas que apontam as redes sociais como o local onde testam o seu material. Qual é o papel das redes sociais na tua vida profissional?

É um pouco isso sim.
Divulgação, estar lá, mostrar um pouco.
Embora as pessoas misturem muito as coisas.
E, por exemplo, podem dizer que não gostam de mim, mas nunca me viram ao vivo. Viram coisas na tv onde estou condicionado a uma data de coisas.

Por outro lado, às vezes acham que as redes sociais são salas de espectáculo e se eu digo algo que é suposto ser apenas um comentário jocoso, há sempre um a dizer “não tem graça”, “ya ya tenta outra vez”, o que dá vontade de dizer “peço desculpa, vou já devolver-lhe o dinheiro… ah espera”.

24. O que é que as palavras representam na tua vida?

Exorcismo!

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