Carta aberta ao Fernando, que nunca a vai ler

Carta aberta ao Fernando, que nunca a vai ler

Conheci-te em 2010, quando entrei para a SIC.
A empatia foi imediata, também porque eras fácil, muito fácil de se adorar.

Dava gosto estar contigo.
Ouvir as tuas histórias.
As aventuras incríveis que tinhas vivido ao longo da tua vida profissional.

Vou lembrar-me sempre de Timor e daquilo que contavas ter vivido por lá.
Caramba, metade dos jornalistas do país dava tudo para ter estado contigo, lá, num momento tão importante para a história de um país e de um povo.

A tua simplicidade. O teu sorriso. A amabilidade extrema com que tratavas toda a gente. Credo! Era comovente. Era inspirador. Era esmagador.

A forma humilde como aquele homem incrível falava com um “miúdo” que tinha acabado de ali chegar era desconcertante.
Senti-me sempre valorizado e respeitado.

Contigo nunca me senti O estagiário.

Afinal de contas eu também tinha 27 anos e já tinha feito muita coisa até ter chegado ali. Não era propriamente um imberbe que pouco ou nada sabia da vida.

Foste um dos maiores contadores de histórias que conheci na vida. Nunca conheci ninguém assim. A forma envolvente como nos falavas e nos contavas os acontecimentos que tinhas vivido e presenciado deixavam-nos pregados a qualquer que fosse o sítio onde estivéssemos sentados, ou de pé. Não nos mexíamos, quase, até teres acabado.

Depois, a tua própria figura era envolvente.
Esse cabelo preto comprido. Com um ar de playboy negligé… foda-se!
I-N-E-S-Q-U-E-C-Í-V-E-L.

A prova maior disto que estou a dizer é que não há, por estes dias, ninguém que tenha convivido contigo que não diga a mesma coisa:
“Que ser humano único e incrível. Que pessoa tão boa!”

Falávamos com frequência, por mensagem, no LinkedIn.
Sobretudo desde que foste viver para Pemba, em Moçambique.

No final do ano passado disseste-me que possivelmente ia ter de me deslocar a Pemba, numa altura a combinar, porque tinha umas ideias para fazer umas coisas e contar a história da empresa de 2 amigos espanhóis que estavam cheios de vontade de me conhecer.

Caramba! Fiquei esmagado e feliz.
O Faria tinha falado assim de mim. O que fiz eu para o merecer?
O que raio é que eu fiz de tão interessante que o tenha feito mostrar o meu trabalho aos amigos e dizer-lhes que tinham de me chamar para os ajudar no seu trabalho? Fosse o que fosse, foi um motivo de orgulho pessoa indescritível.

Depois davas-me conselhos de como melhorar a forma como falava para a câmara. Chegaste a dizer-me, algures em 2018:

“Tens o à vontade de falares para a câmara – coisa que eu não tenho – mas no último vídeo estavas com o olhar meio perdido, o que faz com que quem está a ver também se distraia. Faz o seguinte: vai buscar um peluche da tua filha e coloca-o atrás do teu telemóvel. Assim estás sempre focado e concentrado. E calhando ainda sorris porque te lembras dela.”

Era isto, o meu antigo colega e amigo Fernando Faria.
Um poço sem fundo de boa energia.
Um exemplo indescritível e incomparável de bom pessoísmo.

Um ser humano ímpar, íntegro, único, maravilhoso, bondoso.

Deixas muita gente lavada em lágrimas.
Deixas muitos amigos destroçados, mas a vida é isto mesmo, não é?

Sabes, estou cansado de perder referências e amigos.-
Estou cansado desta doença que mata sem dó nem piedade.
Mas só consigo reagir assim. A escrever.

Por isso, no Domingo, quando soube da tua morte, senti que tinha perdido uma inspiração. Um professor.
Um mestre que me ensinou coisas que uso todos os dias e a quem nunca agradeci por isso.

E agora… agora já não vou a tempo.
Mas ainda assim, para o caso de já andares “por aí” a ver o que se passa, aqui fica o meu mais do que sincero OBRIGADO!

Obrigado, sobretudo, por me teres ensinado tanto sem sequer te aperceberes disso. Sem sequer teres noção de que o estavas a fazer.

Fosse nas saídas em reportagem – três vezes, se bem me lembro – fosse nas conversas informais na redação, onde, por natureza daquilo que fazíamos, nos cruzávamos muitas vezes pela madrugada dentro.

De facto, há pessoas que deviam viver para sempre!

E tu, meu caro Fernando, és uma delas.

Descansa em paz!
Podes ter a certeza que nunca serás esquecido por ninguém.

Um abraço eterno.

Martim