António Raminhos: “Escrever humor é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar”

António Raminhos: “Escrever humor é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar”

O meu convidado desta semana é humorista, apresentador de programas, comediante, autor, escritor de coisas, guionista, pai de 3 filhas e marido da Catarina Raminhos…
Sim, que a pessoa famosa lá em casa é ela… e isto foi ela que o disse, à minha frente, basta leres a entrevista dela.

É uma pessoa, o António, que tem a capacidade de conseguir provocar um efeito (seja ele qual for) surpresa seja em quem for que o veja, siga, ouça ou leia pela primeira vez, pela segunda, ou pela centésima décima terceira.

Sobre si próprio – porque é assim que começam todas estas entrevistas – o António Raminhos disse tão somente, e passo a citar: “oh, sei lá eu quem é que eu sou. Isso é um processo em mutação constante”.

E assim arrumas a viola no saco, desarmado por uma resposta tão sincera e crua que nem dá para dizeres mais nada.

Portanto, depois disto, resta-me apenas avançar com a entrevista, que, como diria a Joana Azevedo, já se faz tarde.

1. A experiência falhada como jornalista e que te lançou como “aspirante à pobreza”, foi decisiva para começares a escrever, ou já o fazias antes? No fundo, o que te quero perguntar é porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

Não sei muito bem. Eu lembro-me de ser puto e já escrever algumas redacções mais elaboradas e inventar algumas histórias, mas nada de mais. Gostava de representar, de imaginar e colocar essa imaginação em acção.

2. Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Penso que terá sido aí por 2008, no Funchal, quando atuei 12 vezes em 11 dias com o Carlos Moura, o Pedro Miguel Ribeiro e o Nuno Morna.
Lembro-me de uma noite pensar… é isto que quero fazer.
Não ter medo do que as pessoas possam pensar, ou se vão achar graça ou não. Não no sentido de me estar a borrifar para o público, mas no sentido de ir sem medos e fazer aquilo que achava graça.

3. Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Deve ter sido na minha mãe e de forma involuntária (hahaha).
A minha mãe estava sempre a contar uma história em que eu, em pequeno, em resposta a uma senhora que me viu e disse “aiii que ele é tão simpático, olha como ele está alto” digo eu “e também sou um bocadinho bonito”.

A minha mãe estava sempre a contar isto, mas se calhar também era para dizer que eu era um peneirento.

4. Quando é que começas a ser pago para escrever?

Na comédia, quando comecei a fazer stand-up, porque enquanto jornalista já o tinha sido. Mas na comédia foi em 2006 quando comecei a atuar. Depois, anos mais tarde, talvez em 2008, comecei a escrever guiões e aí sim comecei a ganhar para escrever para outros.
E o mais engraçado é que escrevi para tudo… para Angola, para as Tardes da Júlia, para o Malato… sei lá.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

O Carlos Moura foi uma pessoa muito importante no início da minha carreira. Foi uma espécie de mentor, sim.
Mostrou-me muita coisa, fez-me ouvir muita comédia, aprendi com o seu ritmo e conhecimento.
Para mim sempre foi um dos melhores gajos na comédia, mas quis estar sossegado e foi mais para outro caminho.
É uma espécie de Luke Skywalker na ilha.

António Raminhos ao sol e cheio de efeitos
Foto roubada (mas com autorização do autor) ao Instagram do entrevistado

6. Já tiveste vontade de parar de escrever – e de fazer vida do humor – e de ir fazer outra coisa qualquer?

Sim, claro. Volta e meia tenho, mas para fazer outra coisa teria de ser anonimato total ou, melhor ainda, ser podre de rico e não fazer nenhum.
O que, embora as pessoas possam não acreditar, está muito longe da verdade.
A televisão e o entretenimento são muito bonitos para quem tem exclusividade e mesmo para esses nem sempre é seguro.

7. O que é a escrita de humor tem que te diverte tanto?

O ver o outro lado das coisas.
O colocar a questão “e se”.
E se isto fosse assim… se isto fosse assado?
É como um novelo de lã que se vai desenrolando… melhor… é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar…
É esse o efeito.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Não sei… porque também isto não foi planeado. Por isso, não sei, podia estar a ser jornalista, ou a trabalhar no Badoca Park porque gosto de animais.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

Eu digo sempre que o melhor está para vir… porque realmente nunca sabemos. Mas tenho vários… desde a Missão 100% português, o 5 para a Meia-Noite, o Esta Mensagem é para ti, a Banheira das Vaidades no Youtube, o filme Mau Mau Maria… porque todos eles têm histórias engraçadas, outras difíceis e um sucesso porreiro.

10. Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste, ou já aceitaste escrever alguma coisa que odiasses apenas por dinheiro?

Odiar, odiar não, mas obviamente já escrevi coisas com as quais não me identificava muito. A comédia é muito bonita, mas já não tem tanta graça, às vezes, quando tens casa e família e contas para pagar.
Tens que fazer uns trabalhos menos prazerosos para que possas fazer outros que queres. É normal.
Agora nos bares… havia bares em que era muito difícil atuar e quando recebias no fim da noite, um gajo sentia-se meio proxeneta!
Ahhahaahah e era bom!

11. Em que é que ser pai de 3 filhas mudou a forma como escreves?

Como qualquer experiência muda, acredito.
Os comediantes, grande parte, escrevem sobre o que os rodeia, a sua vida, as suas dores e dúvidas.
Elas nasceram e é normal que tenham começado a surgir temas, porque é aquilo que vai na minha cabeça.
Se tivesse sido um acidente, viver 15 anos no Afeganistão… era a mesma coisa.

António Rominhos numa produção de outro mundo. Ou do seu mundo
Mais uma apropriação descarada de uma foto do IG de António Raminhos,
também esta consentida pelo próprio, num momento de particular beleza familiar

12. Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

No caso da comédia, e do meu trabalho, começo com a ideia… algo que me aconteceu. Ou por exemplo, estar no médico à espera de consulta e começar a imaginar o que poderia acontecer na consulta.
Aliás, um texto deste último show surgiu assim.

Como é que seria se eu chegasse lá e isto fosse assim?
Às vezes escrevo só a ideia, o que dá merda.
Porque depois volto lá e já não me lembro qual era a piada que queria.

Olha! Agora que estou a responder a isto, estou a lembrar-me que tive uma ideia ontem e disse “Catarina não te esqueças para eu apontar…” e já não sei que porra era!

13. Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Acho que só talento não é suficiente, isso é em qualquer área.
Na comédia há tipos muito talentosos, mas se não trabalham, se não investem nas redes (e por falar nisso, espreita aqui o Instagram do Raminhos), etc… vão desaparecendo.

14. No dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Devia ter sim, mas é difícil, principalmente quando tens tanta gente em casa. Por exemplo, agora é exames da escola da mais velha, matrículas das outras que demoras 20 dias e tens de fazer sinais de fumo, depois reuniões, depois entrevistas.

O que eu faço é ir guardando algumas ideias e quando se aproxima a altura de um show para experimentar algo, aí sim, sento-me e tenho esse objectivo de explorar as ideias.

15. Como é que reages às críticas?

Já reagi pior.
As pessoas que simplesmente dizem “não gosto, não acho piada” tudo bem. Tranquilo. Mas há muita gente maldosa, que magoa, que ofende, que é gratuita nas palavras que não têm nada a ver com o simples não gostar do meu trabalho.

Eu não gosto de uma data de coisas e, das duas uma, ou não vejo ou dou o beneficio da dúvida. Mas isso não coloca em causa da qualidade do tipo, porque se há 500 mil pessoas a gostarem, eh pá… ainda bem e que faça o seu caminho.

16. Quando é começaste a escrever para séries e programas de TV?

Acho que foi por volta de 2008, sim.

17. E os livros? Aparecem por acaso ou foi algo que sempre quiseste fazer?

Foi como tudo o resto. Apareceram por acaso.
Por convite, primeiro do Alvim.
Eu escrevia para a MAxmen e ele “oh pá não queres reunir essas crónicas?!” e eu “ok!”.

Agora há três anos, na RFM “olha isto dava um livro fixe!” e eu “ok!”

18. Qual a coisa mais incrível que a escrita te trouxe?

Está a trazer agora.
O poder causar impacto nas pessoas, melhorar o seu dia.
Saber que às vezes estão à espera de ouvir só um gajo parvo e depois saem do espetáculo a rir e a chorar ao mesmo tempo… e não é porque as piadas foram uma merda.

António Raminhos e os haters
Mais uma foto subtraída ao Instagram de António Raminhos. É assim que se ilustram entrevistas, nesta era pós-moderna.

19. E a pior?

A pressão que colocamos sobre nós próprios para termos de ter piada.
De ter de ser bom ou excepcional.
Uma pressão que muitas vezes o público não coloca em cima de nós.

20. O que é que achas do teu trabalho?

Mas isto é psicoterapia agora!? Obviamente que acho uma merda. (ahahahahah) – são entrevistas escritas, isto tem de estar aqui!

21. Tens autores de referência?

Eu leio muito livros técnicos. É difícil ter uma referência.
É engraçado, gosto de saber coisas das áreas que gosto.
Não leio muito romances, thrillers, ficção no geral.
Na comédia, tenho comediantes sim de referência como Conan O’Brien, o Mitch Hedberg, Jim Gaffigan, Mike Birbiglia, Herman José…

22. Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Gostava mais de ter as oportunidades de outras pessoas (ahahahaha) mas isso é a vida, tenho de batalhar por isso como se calhar elas batalharam.
Ou não! Na realidade não interessa. Lá está, é o seu caminho.

23. Há alguns humoristas que apontam as redes sociais como o local onde testam o seu material. Qual é o papel das redes sociais na tua vida profissional?

É um pouco isso sim.
Divulgação, estar lá, mostrar um pouco.
Embora as pessoas misturem muito as coisas.
E, por exemplo, podem dizer que não gostam de mim, mas nunca me viram ao vivo. Viram coisas na tv onde estou condicionado a uma data de coisas.

Por outro lado, às vezes acham que as redes sociais são salas de espectáculo e se eu digo algo que é suposto ser apenas um comentário jocoso, há sempre um a dizer “não tem graça”, “ya ya tenta outra vez”, o que dá vontade de dizer “peço desculpa, vou já devolver-lhe o dinheiro… ah espera”.

24. O que é que as palavras representam na tua vida?

Exorcismo!

Guilherme Duarte: “Se calhar passei ao lado de uma carreira como escritor de lamechices para fazer senhoras de meia idade chorar”

Guilherme Duarte: “Se calhar passei ao lado de uma carreira como escritor de lamechices para fazer senhoras de meia idade chorar”

O Guilherme é engraçado. É mesmo.
E não digo isto apenas por dizer.
Digo-o porque já o vi em palco, já jantei com ele e, nessa mesma noite, vimos um jogo da seleção. Isto tudo passou-se em Leiria.

Convidei-o porque para além de ter graça, é criativo.
Para além de ter piada, tem espinha.
Para além de ser humorista, pareceu-me sempre um tipo sério (não muito, claro) e verdadeiro.
E depois, cresceu no bairro, como eu. Sabe das coisas da vida.
Sabe bem o que é que isso significa. E sabe o que são os valores.

Um humorista vive daquilo que escreve e do sucesso (e muitas vezes do insucesso) das piadas que testa. E o Guilherme não é diferente.
Só é diferente na forma como o faz. E faz o que faz de uma forma que agrada a muita gente. Basta ver o número de visualizações que têm os vídeos no seu canal de Youtube.

Poucas pessoas lidam com a crítica como ele o faz e foi também das primeiras pessoas que convidei para participar nesta série de conversas com artistas das palavras.

Por isso e porque já não há razão que justifique o estar para aqui a falar dele como se o amanhã não chegasse, senhoras e senhores, convosco, Guilherme Duarte.
(Há tanto tempo que queria escrever esta frase. Peço desculpa, sim?)

Vamos então à primeira pergunta que acaba sempre por servir de desbloqueador de conversa.

Quem é o Guilherme Duarte?

Quem é o Guilherme? Ora bem, o Guilherme sou eu.
Sou um gajo introvertido que gosta de fazer os outros rir, em parte por gostar da atenção, mas principalmente porque gosta de espalhar alegria neste mundo chato.

Sou cínico com o mundo, resultado de algum idealismo frustrado e de ter percebido que esta experiência da humanidade não correu muito bem.

Acho que sou um gajo decente e com valores, mas também tenho o meu preço. Gosto de admitir a minha hipocrisia e não me colocar em pedestais de moralidade. Sou uma pessoa de gostos simples, para mim um carro é um instrumento para me levar de A a B, para mim comer é convívio e não uma experiência fine dining, mas começo a preferir hotéis de 5 estrelas face a pensões de uma. Posso estar a ficar uma diva, não sei.

1. Porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

Eu sei lá de quem é a culpa, menino.
Algures no tempo, por um acaso, em vez de escrever uma linha de código escrevi uma piada algures e tomei-lhe o gosto. Escrevo porque gosto e porque me dá prazer. Nunca tive jeito nenhum para qualquer coisa artística, mas sempre gostei de criar coisas e como nunca soube criar melodias ou pinturas, deu-me para começar nos Legos e ir parar à engenharia.

Acho que está tudo ligado a isso, a uma necessidade de criar coisas a partir do nada. E sempre gostei de pensar, dava-me prazer estar com os meus pensamentos e a escrita veio por acréscimo, materializar esses pensamentos.

2. Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Isso foi há pouco tempo, há uns 4 anos, pouco antes de decidir despedir-me do meu trabalho de gente séria como informático.
Percebi que talvez conseguisse tornar o que começou como um hobbie no meu trabalho e rendimento o que é sempre um perigo porque pode começar a ser mais obrigação e menos prazer, mas cá estamos.

Foi um sentimento gradual, foi ver que aquilo que fazia de borla me podia sustentar em várias vertentes e arriscar.
Não sei se será um amor eterno, acho que me pode dar na cabeça de mudar de vida outra vez.

3. Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Lembro-me de deixar uma professora a chorar com uma composição que fiz no 7º ano sobre Timor. Foi giro ver que conseguia ter impacto apenas com palavras, especialmente num adulto.
Se calhar passei ao lado de uma carreira como escritor de lamechices para fazer senhoras de meia idade chorar.

Mais tarde, foi quando comecei o blogue e na internet dá logo para ver o impacto e com os primeiros textos e piadas vieram os primeiros risos e as primeiras “Não se brinca com coisas sérias” o que também é bom.

Para um humorista, o impacto, seja ele qual for, é sempre melhor do que a indiferença do público.

4. Quando é que começas a ser pago para escrever?

Pago directamente para escrever acho que foi há uns 3 anos quando comecei a minha crónica semanal no jornal online SAPO 24, que ainda mantenho. Até aí tinha sido pago indirectamente com publicidade no blogue ou através do stand-up em que pagavam para me ver interpretar aquilo que eu tinha escrito.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Nem por isso. Tenho referências e pessoas que admiro, mas mentor e responsável por este percurso acho que sou só eu e os meus pais e amigos que formaram esta minha forma de pensar e me ajudaram a não ter medo de arriscar e sempre me apoiaram nesta mudança.

6. Já tiveste vontade de parar de escrever e de ir fazer outra coisa qualquer?

De parar mesmo ainda não, mas de fazer um intervalo grande já.
De pelo menos deixar de publicar o que escrevo e tirar um tempo para escrever só para mim, mas ainda não surgiu o momento certo para isso. Quanto a deixar de escrever completamente, acho que só quando sentir que já não tenho nada de interessante para dizer, o que acaba por ser um sentimento que tenho todos os dias, mas lá vou espremendo e vai saindo alguma coisa.

7. O que é a escrita de humor tem que te diverte?

Acho que é um jogo de forças entre um lado mais intelectual e sério e um lado mais infantil e non-sense que por norma vamos perdendo à medida que crescemos. Acho que escrever humor exercita esses dois lados do cérebro e acaba por ser divertido e desafiante.
Depois há um fenómeno raro que é escrever uma piada e rir-me automaticamente sozinho com ela. Quando isso acontece, normalmente são as piadas que o público vai gostar mais.

Foto de Guilherme Duarte no Tivoli

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Estaria no que fazia antes, ligado à informática, principalmente na óptica de criar novos produtos e start-ups e gerir todo esse processo desde a génese da ideia até à introdução no mercado e angariação de clientes.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

É difícil de escolher, porque muitos deles são um processo contínuo como as crónicas ou os podcasts, por isso é sempre mais fácil eleger um produto fechado como o melhor.

Diria que será a série de sketches Falta de Chá, tanto as duas temporadas como o especial de Natal, orgulho-me bastante desse projecto, mas talvez os espectáculos a solo de stand-up que culminaram na gravação e divulgação no YouTube seja o que mais me representa como humorista.

10. Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste, ou já aceitaste escrever alguma coisa que odiasses apenas por dinheiro?

Sentir vergonha muitas vezes, especialmente quando vou reler coisas antigas, até me encolho às vezes, mas acho que faz parte, se eu gostasse de tudo o que já fiz passado uns anos era sinal que não estava a evoluir.

Quanto à outra parte da pergunta, que odiasse ainda não, nunca me pagaram suficiente para isso, mas já fiz coisas pelo dinheiro, claro, qualquer publicidade ou evento corporativo acaba por ser mais o dinheiro que move, apesar de depois poderem correr muito bem e ficarmos orgulhosos do resultado final.

10. Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

Um misto, já que quase sempre começo por uma premissa ou um ângulo de um determinado tema que acaba por dar o título.
Depende muito se é algo sobre atualidade, ou algo que me aconteceu, ou simplesmente uma misturada de assuntos, não tenho um processo muito definido, às vezes já tenho tudo mais ou menos estruturado que vou escrever, outras apenas uma ideia que depois vai por caminhos que não estavam previstos.

Em relação ao stand-up, cada vez mais parto de uma ideia e ou tentando escrever em cima do palco, apesar de ser um processo muito doloroso porque a maioria das piadas acaba por ir ao lado.

11. Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Talento não é suficiente, mas acho que há qualquer coisa além de trabalho e dedicação, especialmente no humor.
Há qualquer coisa que resultou da nossa infância e adolescência que nos faz ver o mundo de uma determinada maneira e fazer perguntas que a maioria das pessoas não faz, ou não dá conta que as faz.

Agora, há gente talentosíssima que não trabalha e nunca chega a lado nenhum e há gente sem talento que trabalha muito e acaba por ter sucesso. Se tivesse de atribuir percentagens diria que no humor é 80/20, trabalho e “talento”.

12. No dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Fora os prazos de alguns dos trabalhos que faço, que me obrigam a ter a rotina, normalmente é quando calha, mas obrigo-me a escrever quase todos os dias. Durante a manhã menos que o meu cérebro só está a capaz a partir das 12h.

13. Como é que reages às críticas?

Fazem parte, acho que temos desvalorizar tanto as críticas bota a baixo sem qualquer fundamento como “És uma merda, não tens gracinha nenhuma” como as demasiado elogiosas estilo “És um génio, o melhor de sempre”.
São ambas mentira e convém não acreditar muito nas primeiras se não perdemos auto-estima nem nas segundas se não perdemos a humildade e a capacidade de melhorar.

O humor é tão subjectivo que acho contraproducente dar ouvidos às críticas.

Claro que as há construtivas e que podemos aprender com elas, mas um médico não vai ter em conta os conselhos médicos dados pelo senhor da padaria.

Um humorista tem de ter um bocado essa arrogância de pensar “Eu é que percebo disto do humor”, apesar de o feedback do público é que diz se aquilo tem piada ou não.

Isto é um misto e um limbo entre respeitar o público e não dar ouvidos ao que ele diz. Acho que o maior respeito que eu posso ter pelo meu público é não respeitar o que ele diz e continuar a fazer aquilo em que eu acredito e acho piada.

No dia em que eu der ouvidos a dicas e a críticas individuais deste e daquele, começo a desvirtuar o meu conteúdo e a fazer coisas para “bater” e não porque acho que têm piada.

Guilherme Duarte a espalhar magia no Tivoli

14. Quando é que te lembraste de começar a expor as mensagens e “ameaças” que recebes?

Foi logo no início, eu nunca fui um ávido utilizador das redes sociais, fora os tempos do mIRC e lá tinha o meu hi5, mas não era muito de usar as redes, então esse mundo todo que se abriu fascinou-me, tanto as pessoas que têm a generosidade de perder tempo a deixar um comentário de parabéns ou mandar uma mensagem a elogiar, o reverso da medalha também é interessante.

Começou de forma inconsciente do género “Olhem este anormal?
Vocês também estão surpreendidos como eu por haver gente assim que fica ofendida e ameaça pessoas por causa de uma piada?” e depois vi que era um bocado o normal das redes sociais e decidi sempre usar esse ódio que me é dirigido para divertir os outros.

Acho que transformar ódio em riso é uma espécie de mecanismo de defesa que eu tenho e que acaba por complementar o meu trabalho e imagino que não haja pior sentimento para alguém que me ofende por não me achar piada, do que ver essa ofensa a ser transformada em combustível para eu fazer rir outros.

15. Em 2018 ouvi-te contar uma história hilariante, num evento em Leiria, sobre teres ido falar com a mãe de um miúdo que te “ameaçou”. Queres contá-la aqui?

Se for o que eu estou a pensar faz parte do meu primeiro espectáculo a solo. Então, foi um rapaz que me foi deitar um chorrilho de insultos a mim, à minha mãe e a à minha hipotética irmã, em forma de comentário na página. Daqueles insultos valentes.
Eu fui ver o perfil dele e dei de caras com uma foto dele com a mãe, em que o perfil da mãe estava identificado.
Então, depois voltei ao comentário e respondi taggando o perfil da mãe para ela ver o que o filho dela andava a dizer nas redes sociais.
Ele apagou e bloqueou-me logo, mas eu já tinha tirado print.

Foi giro, pelo menos para mim. Cumprimentos à dona Manuela.

16. Qual a coisa mais incrível que a escrita te trouxe?

A liberdade desta profissão, de fazer algo que gosto e de me conseguir sustentar com isso. Acho que também me traz alguma sanidade e acuidade mental, parece-me.

17. E a pior?

A constante pressão de criar coisas novas.

18. O que é que achas do teu trabalho?

É sempre complicado fazer de júri do que faço.
Qualquer humorista que diga que não sabe se tem piada ou não, está a mentir.

É preciso acreditar muito que temos piada para lançar um texto às críticas e especialmente para subir a um palco e fazer stand-up.
Agora, a comédia existe quase no imediatismo em que é publicada, antes de publicar acho que está bom, umas vezes mais outras menos, depois há ali umas horas em que aquilo é giro e faz sentido e depois é passado e complicado de avaliar em retrospectiva, até porque a comédia tende a envelhecer mal.

Mas sinto orgulho no meu percurso, acho que conquistei coisas giras e que tenho um público exigente.
Tenho alguma segurança relativamente ao meu trabalho feito, mas muita insegurança quanto ao trabalho que está para vir, estou sempre com aquele medo que acho que é comum aos humoristas que é deixar de ter piada e coisas interessantes para dizer.

19. Tens autores de referência?

Por cá é a santíssima trindade Herman, Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira, são os que mais influenciaram o meu sentido de humor enquanto crescia, especialmente o Herman com o Herman Enciclopédia. Lá fora o George Carlin talvez seja a minha maior referência, mas neste momento o Ricky Gervais, como autor, é dos mais completos.

20. Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos, muitas piadas que oiço e que fico roído de inveja de não ter sido eu. Assim projectos mais de ficção por cá acho que o Último a Sair é talvez o projecto mais diferente e verdadeiramente genial, porque inventou algo. Tanto a ideia como a execução são brilhantes.

21. Qual é o papel do Twitter (e das outras redes sociais em que estás presente) na tua vida profissional?

O Twitter é o meu caderno de piadas, não tenho grande critério com o que coloco lá, é um bloco de notas a céu aberto e, como tal, 90% das coisas que lá meto são lixo, mas faz parte do meu processo criativo.
Também serve quase para registar piadas sobre um tema, assim fica lá marcadinho que eu fiz aquela piada primeiro.

O Facebook e Instagram uso mais para formatos longos e coisas mais polidas (fora as stories que também são lixo ou a minha cadela).

O YouTube para vídeos, até porque se fosse para outra coisa era estranho. Todas tem o seu papel e retroalimentam-se de alguma forma, às vezes faço a mesma piada de 3 maneiras diferentes, consoante a rede onde estou a publicar.

Tento não descurar as redes porque foi aí que “nasci”.
Cada vez mais protejo algum material para ser exclusivo para stand-up, mas não quero deixar de publicar coisas nas redes sociais para o público que me tem acompanhado por lá.

22. O que é que as palavras representam na tua vida?

Sinto que tens esta pergunta preparadas para quando entrevistas escritores a sério. Não tenho nenhuma resposta profunda para isto. Se eu ganhasse à palavra diria que representavam 50 cêntimos cada uma ou assim. Representam uma forma de fazer sentido do mundo e de contar histórias e entreter.
Enquanto humorista significam os blocos essenciais para a construção do humor. É na palavra que tudo começa, o humor na forma escrita é a forma mais pura de humor, porque não tem caretas, inflexões de voz, nada, só palavras.

Fazer rir alguém só com palavras é um fenómeno giro.
As próprias palavras em si, sozinhas, podem ser cómicas.
Picha tem mais piada do que Piça.
E com esta nota profunda e erudita me despeço, obrigado e até à próxima.

Eu é que agradeço, Guilherme.
Eu é que agradeço.

Dizer-te apenas que deste das melhores respostas a esta última pergunta. Assim está bem.

E para ti que acabaste de ler esta entrevista, deixa o teu comentário aqui mesmo ou partilha-a nas tuas redes com o #oguilhermeéquesabe.

Estou a gozar. Não é nada para partilhar o hashtag, que ele nem existe.
Agora, podes comentar, claro e partilhar com quem achares que vá gostar de saber um pouco mais sobre o Guilherme.

Até para a semana.

Joana Marques: “Os meus amigos dizem que por dentro sou uma idosa de 73 anos”

Joana Marques: “Os meus amigos dizem que por dentro sou uma idosa de 73 anos”

A Joana Marques é já um nome seguro e impossível de ignorar no panorama humorístico nacional (pfff, olha para ele a usar o jargão do panorama humorístico).

Tem um graça natural aliada a um talento superior para brincar com as palavras. É isso que lhe dá piada, que a faz ser reconhecida e que a destaca no meio de um mar de humoristas masculinos no nosso país.

Já anda nisto de ser guionista há alguns anos.
Escreve para televisão (é, tal como outra das convidadas que já aqui tive, a Cátia Domingues, uma das cabeças criativas que enche de palavras bem escritas o programa Isto é Gozar com Quem Trabalha, apresentado por Ricardo Araújo Pereira), para a rádio e ainda para o Jornal de Notícias, ao Domingo e diz que por isso, a sua vida não tem 2 dias de trabalho iguais.

Para além de tudo isto e numa descrição que diz continuar a estar muito actual, é ávida consumidora de trash TV, sushi, jogos do FC Porto e alguém que nos tempos livres sonha com o que fará um dia, quando realmente tiver tempos livres.

Mas antes de arrancarmos com a entrevista vamos lá então saber quem é a Joana Marques, pela voz, ou melhor, pelos dedos da própria.

Então é para falar de mim na terceira pessoa, é isso?

Cá vai:
A Joana Marques é uma pessoa com ar relativamente inocente (o 1,53m que me faz parecer aluna da quarta classe também ajuda) mas que tem uma mente ligeiramente retorcida, e um humor um bocadinho cáustico. De resto, os meus amigos dizem que por dentro sou uma idosa de 73 anos.
E eu não nego. Gosto é de sopas e descanso. Ou chocolates e descanso.

Uma pessoa quando é septuagenária já não está para se preocupar com dietas.

Há muito poucas coisas “jovens” (só esta expressão já prova que sou velha) que eu aprecie. Não gosto de sair à noite, não bebo álcool, detesto música alta e fumo, só vou a festivais de verão “obrigada”, se tiver de trabalhar lá, não tenho paciência para multidões, não sou fã do fim de ano, nem do carnaval, nem de todas as ocasiões em que é suposto exibir a nossa felicidade. Não gosto de exibir nada, na verdade. Por isso é que sempre me pareceu muito bem ser guionista. Por isso e porque gosto muito de escrever, um pormenor que também dá jeito.

A história de “aparecer” foi uma consequência disso, um acidente nada premeditado. A minha actividade preferida continua a ser estar de pijama em casa, a escrever. Divirto-me mais nessa fase, no momento zero das piadas, do que depois a mostrar esse trabalho a alguém. Mas fui aprendendo a disfrutar das várias fases do processo… Pronto, acho que está feito um razoável retrato robot.

1. Não és escritora, mas és argumentista. Não és jornalista, mas trabalhas na rádio. Escreves todos os dias – há vários anos – e trabalhas diariamente com as palavras. O que é que te fez seguir este caminho? Como é que tudo começou?

Acho que tudo começou como começa para toda a gente. Na 1ª classe (2ª para os alunos com mais dificuldades): quando comecei a perceber que juntando letras formava palavras, e com elas frases.
Achei aquele jogo muitíssimo divertido e nunca mais parei.

Os dias em que o trabalho era fazer uma composição eram o ponto alto das minhas semanas na primária. Isso e os intervalos em que jogávamos à bola, que também apreciava.

A partir daí não parei mais de escrever.
Deixei as composições, passei a escrever por passatempo em casa, mais tarde um blog, na altura em que toda a gente tinha um blog para escrever, não para mostrar o “look of the day” (isto foi meio saudosista, agora, não foi?), fui lendo muito também, coisa que infelizmente agora não tenho feito, e interessei-me cada vez mais por tudo o que tinha a ver com isso.

Dizia, a certa altura, que queria ser escritora.
Talvez por nem saber da existência da profissão de “guionista”.
Quando via programas de humor na televisão nem me ocorria que havia alguém que escrevia aquelas coisas que o Dário e a Dora diziam (era uma rábula – na altura dizia-se rábula – que o Vitor de Sousa e a Ana Bola tinham no “Parabéns”, do Herman).

2. Porquê a Rádio, Joana? O que é que a Rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem?

A rádio aconteceu por acaso. Como quase tudo o resto que me tem acontecido…  Sempre fui grande ouvinte de rádio, sobretudo de programas de palavra, que me interessam muito mais do que playlists de música… e surgiu a oportunidade de ir fazer um workshop, curto, de um fim-de-semana, na Restart.
O curso era dado pelo Diogo Beja, e fui fazê-lo com dois amigos (na verdade um namorado e um amigo), o Daniel Leitão e o Guilherme Fonseca, mais por passatempo que outra coisa.

A verdade é que tanto o Daniel como eu acabámos por ser convidados pelo Diogo para fazermos parte da equipa dele na Antena 3, e o Guilherme foi (ou já estava, não tenho a certeza) trabalhar na Mega Hits.

Portanto digamos que foi um curso bastante útil, não só pelos ensinamentos, mas por se ter aberto, sem que eu estivesse à espera, aquela porta… e ainda por cima logo uma porta grande, para as manhãs da Antena 3, onde estive de 2012 até… 2018, acho eu!

O que a rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem é uma proximidade enorme com quem está a ouvir. Acho que é maior do que na televisão, em que há mais factores distractivos.
Na rádio, ao fim de um tempo (e normalmente os projectos são coisas duradouras) as pessoas sentem que já nos conhecem. E conhecem mesmo.

É impossível ser uma personagem durante tantas horas, e àquelas horas da manhã. Acabados de sair da cama não há filtro que nos salve.

A rádio tem também um espírito de equipa especial, cria-se uma intimidade diferente com as pessoas com quem se está 3 horas por dia no ar, 5 dias por semana. É daqueles trabalhos em que não notamos mesmo que estamos a trabalhar, mesmo que cheguemos ao fim cansados.

E, no que toca a fazer humor, a rádio tem para mim a vantagem de ser dada primazia à palavra, ao que está a ser dito. Não há guarda-roupa, acessórios, luz, maquilhagem, etc. É só uma pessoa a falar e pessoas a ouvirem.

Foto: Ricardo Fortunato/RR

3. Como é que prepararas os episódios do Extremamente Desagradável? Que sequência é que costumas seguir até chegares à parte da escrita?

O meu modus operandi costuma ser este:

1 – encontrar o tema para o dia seguinte (muitas vezes é a parte mais difícil). Tanto há dias com 3 ou 4 temas fortes, que dão para planear logo a semana toda, como há aquelas fases de silly season (que parecem cada vez mais longas) em que não há assunto, e é preciso escavar mais até o encontrar.

Às vezes a maior “angústia” (não chega a ser uma angústia, mas pode dar um nervoso miudinho) é não encontrar uma matéria que nos pareça suficientemente boa. Portanto diria que o primeiro momento “eureka!” é quando aparece o tema. Com ele surgem logo ideias e já está meio caminho andado.

2 – como o que distingue o “Extremamente Desagradável” de várias outras rubricas de humor é, normalmente, o recurso a sons (de notícias, de músicas, de discursos, seja o que for), embora não seja obrigatório que aconteça todos os dias, costumo partir daí.
Recolho os sons todos de que vou precisar.

Às vezes até demais, confesso, sou um bocadinho obsessiva nas pesquisas e sinto que podia parar muito antes…
Se calhar o tema da rubrica no dia seguinte é o que disse uma influencer no seu Instagram, e eu recuo até 2013, a ver todos os vídeos que ela fez, todas as entrevistas que deu, todas as legendas que escreveu…
Se é tempo perdido? É, sem dúvida. Mas às vezes surge uma pérola que faz valer a pena aquelas três horas desperdiçadas. Tenho sempre essa esperança.

3 – depois de ter os sons que quero usar, edito-os. Corto os vários excertos que vou de facto utilizar na rubrica. Às vezes tenho três horas de brutos, para 10 excertos de poucos segundos. E não me posso queixar, porque ultrapasso sempre largamente o tempo que a rubrica devia ter (peço aqui publicamente desculpa ao meu director e colegas pela ausência de capacidade de síntese).

4 – copio os títulos dos vários excertos para o documento e a partir daí sim, começa a parte divertida. Vou ouvindo os sons e comentando (por escrito). E pronto, está feito!

(Se calhar não querias uma descrição tão pormenorizada, parecia uma receita de bolo mármore passo a passo…)

4. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora – se é que tens alguém que tenha desempenhado esse papel.

Não tenho nenhum mentor. Vou aprendendo com várias pessoas com as quais me cruzo. Acho que é a melhor maneira de aprender, fazendo.
E vendo como os outros fazem.

Tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas que admiro, e não há nada melhor, quando trabalhamos em equipa (e acontece muito na nossa área) do que ter aquela “inveja” (sem voodoo à mistura) de não nos termos lembrado daquela piada óptima que o nosso amigo acaba de fazer.
Quer dizer que estamos a trabalhar com pessoas que nos puxam para cima (não era uma piada sobre o meu tamanho, não).

5. Já alguma vez tiveste vontade de fazer outra coisa – profissionalmente – que não fosse escrever?

Não. Acho que não teria jeito para mais nada, portanto ainda bem que tenho a sorte de poder fazer isto!

6. Consegues olhar para trás e escolher 2 momentos marcantes (o melhor e o pior) atrás do microfone?

Não tenho grande memória… já faço o Extremamente Desagradável desde 2017 (primeiro na Antena 3, depois na Renascença), e antes disso outras rubricas e programas, e é difícil isolar os melhores ou piores momentos. Aliás, piores não acho que tenha tido. Não no sentido de não ter feito rubricas sem graça, de certeza que fiz (para algumas pessoas serão todas, mesmo), mas não considero isso um momento grave ou que mereça ser apontado como “o pior”… porque o facto de termos de apresentar um texto todos os dias, de segunda a sexta, com poucas pausas pelo meio, só umas férias de quando em vez, faz com que nos apaziguemos com a ideia de que nem sempre vai ser perfeito, nem sempre vamos sentir que está hilariante, mas temos de continuar.

Quanto a melhores momentos, talvez quando há aqueles ataques de riso incontroláveis, que me transportam aos tempos da escola, quando ia para a rua na aula por não conseguir mesmo parar de rir.

Aconteceu já várias vezes, a mais marcante talvez numa edição do Extremamente Desagradável dedicada à família da Luciana Abreu.
Para quem tenha curiosidade, é este – https://www.youtube.com/watch?v=Z1-nnO8oCmY.

É raro acontecer isto, porque eu já não me surpreendo. Já sei o que escrevi, já ouvi os sons várias vezes para os cortar, já não sou apanhada na curva. Mas de vez em quando, seja pela reacção das outras pessoas em estúdio, seja por qualquer pormenor ao qual acho mesmo muita graça, isto acontece, e são mesmo momentos de alegria, nada forçados!

7. Tens vergonha de alguma coisa que tenhas escrito?

Vergonha não. Hei de ter escrito várias coisas sem piada, como dizia há pouco… mas ao ponto de me envergonharem, não. Acho que é bom sinal ler agora coisas que escrevi há dez anos e achar que as que escrevo agora são melhores. E que daqui a dez anos aconteça o mesmo.

8. Quem é que teve a ideia para o nome da rubrica – Extremamente Desagradável?

Foi a Inês Lopes Gonçalves, fica aqui a merecida homenagem.
Ela tem muito talento para títulos (e para muitas outras coisas, é uma artista polivalente, sou mesmo fã).

Antes de me estrear na Antena 3 num novo programa da manhã que ela já fazia com o Luís Oliveira e a Ana Markl, apresentei-lhes o conceito da rubrica, mas faltava-me o nome.
Tenho muita dificuldade com nomes. Seja para filhos ou trabalhos.
Se calhar vou ligar à Inês para ver se ela me arranja um nome para o rapaz que nasce no próximo mês…

9. Já escreveste guiões, argumentos, escreves humor, já escreveste um livro… O que é que te falta fazer com as palavras?

Falta-me fazer muita coisa, de certeza, mas estas são as coisas que me dão gozo fazer (neste momento, a rubrica na Renascença, o Isto é Gozar Com Quem Trabalha, na SIC, e as crónicas no JN ao domingo).
São três trabalhos que têm em comum a base, escrever, mas são completamente diferentes, e assim nunca se torna monótono.

Joana Marques_O_que_dizes_Tu
Joana Marques em estúdio na Renascença

10. Tornaste-te uma pessoa conhecida e reconhecida em Portugal. Como é que lidas com o lado da “fama”?

É uma “fama” muito relativa.
Não sou, felizmente (ou não, dependendo da perspectiva) a Cristina Ferreira. Não gostava nada de ter uma dessas famas interplanetárias (dentro deste universo fascinante que é Portugal).
Portanto o que tenho é uma quantidade razoável de gente que segue o meu trabalho, o que é óptimo, para não falar para o boneco, e alguns encontros simpáticos na rua, às vezes nos sítios mais inesperados, nada mais.

11. Como é que reages às críticas?

Se estamos a falar das críticas típicas da net, acho que fui aprendendo a reagir cada vez melhor. Ou seja, a melhor reacção normalmente é não reagir de todo.

Na maioria dos casos são coisas gratuitas, que tentam só ser ofensivas, e que vêm de pessoas a quem não reconheço a mínima autoridade na matéria. Da mesma maneira que eu não tenho autoridade para ir dizer a um advogado, a um contabilista ou a um cirurgião como é que ele há-de fazer o seu trabalho.

Isto não tem nada a ver com achar ou não piada, isso acho que é mais do que legítimo, alguém não achar graça, ou discordar deste ou daquele prisma, e dizê-lo. Faz parte da abertura e liberdade que felizmente todos temos, e que é potenciada pelas redes sociais (antigamente era mais difícil dirigirmo-nos ao autor de um livro ou a um músico, e talvez por isso pouca gente se dava ao trabalho de escrever uma carta e enviar para o Phil Collins a dizer “o último álbum está uma merda”).

Quanto às críticas positivas penso o mesmo, também não embandeiro em arco por alguém adorar. Fico contente pela simpatia e por se darem ao trabalho de o dizer (acho mais normal e saudável do que frequentar páginas de gente cujo trabalho se odeia), mas não sobrevalorizo o meu trabalho por causa disso, nem fico a achar-me o suprassumo de nada.
Acho até que tenho bastante noção de quando fiz bem ou mal…

Para mim o feedback mais interessante são comentários que complementam de alguma maneira o que escrevi, ou até avisos sobre algum erro que tenha cometido. Isso aprecio muito.

12. Já recebeste mensagens desagradáveis ou críticas destrutivas de pessoas com quem tenhas troçado (gosto tanto desta palavra)?

Já, com certeza. Mas o mais habitual é serem os fãs dessas pessoas a fazê-lo. Normalmente reagem pior do que o próprio visado (que na maioria dos casos já está calejado, e saberá que faz parte do jogo). Mas sim, de vez em quando acontece uma reacção mais azeda. Sem problema!
Eu também sei as regras do jogo, e até acho alguma graça…

13. És feliz por seres como és, ou gostavas de ser outro tipo de pessoa?

Gostava de ter 1,70m e 50 kg! Não, por acaso a parte da altura não me transtorna nada, nunca me fez nenhuma confusão. Já ter as medidas da Sofia Aparício (ou outras, mais século XXI, não sei se os 86-60-86 ainda se usa) apreciava muitíssimo, mas acho que tinha de passar menos tempo sentada a escrever, e mais no ginásio. Se calhar não nasci para isso.

14. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Sim. Acho que toda a gente que faz isto tem de acreditar, caso contrário desiste rapidamente, já que à primeira crítica negativa poria tudo em causa.

15. Continuas a ficar nervosa antes de ir para o ar ou já é tudo “normal”?

Tão natural como a sua sede. Isto era da água do Luso, não era? Mas não, não fico nada nervosa na rádio, acho que é um ambiente que nos deixa muito à vontade (às vezes até demais) porque estamos ali só três ou quatro pessoas, num estúdio, e até esquecemos a quantidade de gente que está a ouvir.

16. Muitos dos escritores que conheço ou das pessoas ligadas às palavras gostam de escrever à noite. Para quem entra no ar às 07:00, calculo que escrever pela noite dentro não seja a tua actividade preferida. Terminada esta introdução poética, aqui vai a pergunta: tens rotinas de escrita, ou escreves quando calha?

Nunca fui noctívaga, nem quando andava na escola… estudar à noite e fazer directas nunca foi para mim. Preferia acordar mais cedo e estudar antes dos exames (no fundo já estava a preparar-me para os horários de trabalho que teria no futuro!).

Não posso escrever quando calha porque não posso entregar os textos quando calha. No dia-a-dia o mais habitual é escrever o Extremamente Desagradável do dia seguinte ao início da tarde.

Claro que às vezes acontece alguma coisa incontornável à noite, e faço tudo de novo, mas o habitual é escrever mais cedo.
Quando tenho outros trabalhos, como quando escrevi os livros, por exemplo, tenho de arranjar outros métodos, normalmente obrigo-me a escrever determinada “quantidade” por semana, mas faço-o na mesma durante o dia ou aos fins-de-semana.

17. Acredito que gostes muito de ler. Quem são os teus autores de referência?

Gosto, mas como já disse leio hoje em dia muito menos do que antes. Acho até que devia ser ao contrário: devíamos ter mais tempo livre em adultos do que em crianças, porque assim corro o risco de chegar ao fim dos meus dias e ter lido mais livros de Uma Aventura do que de grandes autores clássicos. Dos livros que li ultimamente (nas férias) os que mais me encheram as medidas foram os do cronista brasileiro António Prata: “Meio intelectual, meio de esquerda” e “Nu, de botas”.

18. Quem foi a pessoa que mais gozo te deu satirizar no Extremamente Desagradável?

Não consigo eleger uma. São todos como filhos para mim. Mas daqueles filhos de que se gosta um bocadinho menos.

19. E já tiveste pena de “ter” mesmo de gozar com alguém com quem simpatizes muito?

À medida que os anos passam vou, inevitavelmente, conhecendo mais gente, apesar de ser um bicho do mato (basta ver que na rádio entrevistamos pessoas quase todos os dias). Por isso acontece muitas vezes ter de satirizar alguém que conheço e com quem simpatizo. O tratamento é o mesmo: goste ou não, tento não ser ofensiva, por isso não tenho que mudar nada na minha abordagem.

20. Já sabes o que é que vais fazer quando finalmente conseguires ter tempos livres?

Espero ir de férias. Viajar, sobretudo, o que não acontece há algum tempo (e, por este andar, vai demorar… pelo menos não me apetece andar de avião de máscara, por isso acho que vou esperar).

21. Sei que achas sempre que vai correr tudo mal, mas consegues dar-me 3 exemplos de coisas que te correram particularmente bem?

Consigo. Cá vão:

– os dois cursos que fiz, paralelamente à faculdade ou ao trabalho (um de um ano de duração, de escrita de argumento, outro mais curto, o tal workshop de rádio), já que em ambos o casos acabaram em ofertas de trabalho (e juro que não foi por dar graxa aos professores),

– ter lançado um livro de humor (e de amor) sobre o Porto no preciso momento em que o Porto se sagrou finalmente campeão, ao fim de um (enorme, para os portistas) jejum, caso contrário acho que ninguém teria disposição para o ler,

– ter-me cruzado com o Daniel (agora meu marido, e pessoa que me atura 24/7) – esta foi só para mostrar que, bem lá no fundo, também tenho coração! Mas de facto acho que é um luxo viver com alguém que se ri das mesmas coisas que nós, e que nos faz rir com outras de que não estávamos à espera.

22. Se amanhã te dissessem que era o último programa que ias fazer e que podias troçar (cá está, tinha de conseguir dizer isto novamente) com quem quisesses, à balda. Quem é que escolhias?

Não tenho ninguém guardado na gaveta à espera desse dia, estilo “vingança”. Todas as pessoas que tenho achado que “merecem” troça, já foram “analisadas”. Provavelmente gozava comigo, que é uma coisa que gosto de fazer sempre, e ainda mais nesses momentos que assinalam o fim de algum ciclo.

23. Joana, qual é a importância que as palavras têm na tua vida?
Têm toda a importância. Tenho fascínio por palavras, fico contente sempre que aprendo uma nova (lembro-me até do momento em que aprendi algumas… por exemplo, nos anos 90 aprendi “eufemismo” e “malsão” com o “Lado Lunar” do Rui Veloso, ou do Carlos Tê, neste caso, que ele é que trata do departamento das palavras).

Obrigado, Joana.

Até breve.

Aproveita e revê as outras entrevistas que estão no blog.

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Ainda era jornalista quando comecei a ouvir falar do Afonso Cruz.
Terá sido, muito possivelmente, algum colega que fez referência ao livro A Boneca de Kokoscha, com o qual o Afonso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Camilo Castelo Branco.

Como sempre, fugi ao que toda a gente andava a ler e fui comprar Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.

E acabei por ser eu a devorá-lo a ele. Ao livro, entenda-se.
Fiquei preso logo no arranque, em diálogo, e escrito com um exuberância gráfica diferente de todos os livros que tinha lido até então:

” – Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! – gritava o chefe da repartição, mas ele ouvia aquele voz lá muito ao fundo, a desaparecer numa esquina.
Foi assim que a minha avó me começou a contar a história de Vivaldo Bonfim, o meu pai.”

E depois, para mal dos pecados de um rapaz de 30 anos a quem as histórias começavam a apresentar-se-lhe como o futuro da sua vida, o livro termina assim:

“(…) Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.”

E assim foi. Assim fiquei encantado com a escrita de um homem novo.

Foi um dos primeiros nomes em que pensei quando esta loucura em que me meti se me apresentou ao pensamento em jeito de desafio.

Também pensei que fosse impossível. Que ele dissesse que não. Ou que não dissesse nada de todo.

Mas depois, antes de lhe escrever, descobri um ponto em comum nas nossas vidas. A ligação à Figueira da Foz. O Afonso é da Figueira. A minha família, do lado da minha mãe, tem o cordão umbilical assente na cidade com a maior praia do mundo. Pelo menos, para mim, é a maior praia do mundo.

Feita a explicação que se devia e agarrado o gancho para o contactar, com a ajuda do Rui, da Comunidade Cultura e Arte, escrevi ao Afonso que me respondeu prontamente aceitando a entrevista. E assim aqui chegámos.

E, claro, chegámos também à pergunta da ordem:
– Quem é o Afonso Cruz?

Respondeu-me assim:

Vivo isolado com a minha família, com três cães, duas galinhas, oliveiras e árvores de fruto. Gosto de cozinhar e de beber cerveja (mais do que fazê-la), de ler, de fotografar, de caminhar, de tocar ukulele e de viajar.

Para além disto, o Afonso diz que tem tido a sorte e a ousadia de fazer o que quer e o que gosta. E de ser livre. E tinha de ser este o título desta entrevista. Avancemos.

1. Quando é que sentiste que tinhas que (e que querias) escrever? Que era isto que querias fazer da vida. Lembras-te com que idade sentiste isso?

Estava a trabalhar numa agência de publicidade, como copywriter.
Tinha 36 ou 37 anos. Nessa altura escrevi uma série de textos que publiquei num blog privado, sem qualquer intenção de os ver editados. Só quando percebi ter uma quantidade razoável deles, pensei que poderiam dar um livro. Ou seja, não foi tanto eu querer escrever ou publicar foi mais a escrita me ter acontecido.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Na PGA (prova Geral de Acesso) era preciso escrever um texto. Tive a melhor nota da minha escola. Mais tarde, no ensino superior, na disciplina de História de Arte, a professora escreveu-me uma nota no final do teste corrigido que dizia mais ou menos o seguinte: não sabes muito de História, mas escreves muito bem. Tive dezassete.

3. Há quanto tempo é que escreves profissionalmente?

Desde 2008.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Como disse antes, trabalhei como copy. Foram uns seis meses da minha vida em que recebia para escrever. De resto, sempre estive relacionado com a animação e a ilustração.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

As minhas leituras, as minhas viagens.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

Vários: Dostoiévski, Rumi, Thomas Mann, Borges, Vonnegut, Emily Dickinson, Hrabal, Kazantzakis, Cossery, Lem, Simone Weil, etc.

7. Sendo tu também músico, ilustrador e cineasta… já tiveste vontade de parar de escrever e de te dedicares em exclusivo a alguma destas actividades? Ou mesmo a algo completamente diferente?

Dediquei-me ao cinema de animação durante muito tempo, mais de uma década. Também houve uma altura em que tive a pretensão de viver da música. Talvez um dia me torne apicultor.

8. Se a tua vida não fosse a de uma espécie de Príncipe do Renascimento, o que é que estarias a fazer agora?

Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto. Não é tão importante aquilo que faço, mas se o que faço parte de um espaço de liberdade, em que a compulsoriedade é reduzida ao mínimo.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

É um chavão, mas serão os próximos.

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não, mas há livros em que me revejo menos. Não os hierarquizo, simplesmente, não os escreveria da mesma maneira.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Depende das ideias. Os livros, para mim, são uma materialização de um conceito, por isso os formatos devem adequar-se a essa ideia inicial e se sentir que encontrei um modo eficiente, então o processo é natural mas não decorre confortavelmente, porque é uma luta.

Se não nos magoarmos no processo, é porque não nos estamos a esforçar, a superar-nos.

Tento que a escrita seja uma espécie de verdade em relação à ideia, que não haja uma traição ao conteúdo simplesmente por amor à forma ou ao conforto. A única coisa confortável deve ser a relação entre a ideia e o tipo de processo, mas não o acto em si.

Explicando de outro modo, imaginemos que pretendo fazer uma cerveja tipo Rochefort, então vou precisar de certas coisas que se adequam ao fabrico de uma cerveja com estas características.

Se optasse, por exemplo, por usar o processo e os ingredientes de uma lager, jamais teria o resultado pretendido.
Mas conhecer o processo eficiente e os ingredientes certos não significa que obterei uma boa cerveja ou que o seu fabrico não seja difícil, complexo e desconfortável.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Varia. Por vezes tenho uma ideia, que até pode declinar num bom título, mas há ocasiões em que o título nasce do texto ou imagino-o a determinada altura da escrita de modo a iluminar o conteúdo do que escrevi.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Não tenho propriamente uma rotina de escrita. Prefiro escrever à noite porque há silêncio e menos solicitações externas, mas tomo notas na fila do supermercado, escrevo em hotéis, aeroportos, aviões, cafés…

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Conforme a qualidade das críticas. São especialmente más, e não tão incomuns, quando são ad hominem.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

Talvez os primeiros prémios, porque os inícios costumam ser difíceis e qualquer ajuda extra é sempre importante.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Faço o possível por me superar e fazer o melhor que sei.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevo depois de pensar ou de estruturar uma narrativa e não me sento para escrever sem esse trabalho prévio. Um bloqueio de escrita é possível se nos sentarmos para escrever sem quaisquer ideias, sem ter pensado, imaginado, estruturado de alguma forma o que pretendemos fazer.

19. Quem são os teus autores de referência?

Alguns que nomeei antes como mentores.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos. Gostaria de ter tido a ideia que levou Edwin Abbott Abbott a escrever Flatland. Gostaria de ter escrito sobre a graça como Weil, de ter imaginado algumas parábolas de Chuang Tsé, de ter escrito alguns parágrafos de Bruno Schulz ou Michaux, de ter sido o autor de The Giving Tree, de Shel Silverstein, ter escrito o conto Bontzie, o Silencioso, de Peretz, de ter pensado em todas as parábolas geométricas que Nicolau de Cusa inventou e de ter escrito o Elogio da Calvície, de Sinésio de Cirene.

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Conheci o trabalho do Bruno Vieira Amaral quando ainda estava a trabalhar no Expresso, no final de 2017, princípio de 2018.
O Zé Cardoso e o Germano falavam dele com frequência e o nome foi-me ficando, bem como os textos/contos que iam aparecendo.

Percebi logo ali que ele escrevia maravilhosamente bem.
Ah, e que escrevia sobre desporto, também.

Em 2020 começou a assinar semanalmente a rubrica “Dejá Vú – o futuro foi ontem”.

Para me preparar para esta entrevista procurei saber um pouco mais sobre este que é mais um dos talentos confirmados da nova geração de escritores portugueses. Vencedor, entre outros, de um Prémio José Saramago – que não é coisa de somenos – do Prémio Fernando Namora e do Prémio TimeOut.

Assim, na semana passada comprei o seu hoje estarás comigo no paraíso e assim que o abri, na primeira folha, deparei-me com isto:

“(…) Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir.
Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância. Não são os mortos que clama por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.”

Pensei de imediato:
– Prendeste-me, Bruno. Vou ler-te muito em breve. Ai vou, vou.

Mas antes disso, antes disso está isto. Está esta entrevista.
E, porque é a ti que te quero apresentar o Bruno, aqui fica a resposta dele à pergunta habitual. Quem é o Bruno Vieira Amaral?

Sou um escritor português, de 42 anos.
Condições temporárias, exceto a nacionalidade, que não prevejo que me venha a ser retirada nos próximos tempos.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no festival literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

Postas de lado as formalidades informais, aqui fica então a conversa.
Aqui fica o Bruno.

1. Quando é que sentiste que tinhas (e querias) que escrever?
Que querias fazer disto vida. Lembras-te que idade tinhas?

Não sei. Não houve nenhuma epifania. Não fiz planos. Fui aproveitando as oportunidades que me foram aparecendo. E é isso que continuo a fazer.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Talvez um texto na primária em que respondi à pergunta “o que é para ti o amor?” com qualquer coisa como “o amor não tem definição.”
As professoras ficaram muito intrigadas com a resposta, desconhecendo que eu a tinha roubado a uma entrevista da Isabel Bahia, então locutora de televisão, à TV Guia.

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

A primeira vez que me pagaram por um texto foi há onze anos. Senti que estava a enganar alguém porque tê-lo-ia escrito sem mo pagarem.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Era uma das minhas fontes de rendimento, mas não a única, nem a principal. Colaborava em revistas e jornais.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Naquela altura? Ninguém.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

A pessoa responsável por hoje ganhar a vida a escrever sou eu. O que não significa que não esteja grato a todas as pessoas que, apreciando o meu trabalho, me deram oportunidades para o desenvolver.
Têm sido muitas ao longo destes anos.
A mais importante foi, sem dúvida, o meu editor e amigo, Francisco José Viegas.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de fazer alguma coisa completamente diferente?

Já, mas depois ganho juízo.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer agora?

Não faço ideia. Talvez fosse responsável de secção de uma loja da Staples.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O meu trabalho mais conseguido foi o meu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no Festival Literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Gosto muito de escrever crónicas, que são muito imediatas. Mas é nos romances que encontro o meu espaço.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Sempre pelo texto porque começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo a qualquer hora. Como tenho prazos, não há muito espaço para fantasmas e angústias. Nos romances é um pouco diferente. Escrevo quando me apetece.

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Depende das críticas. Quando vêm de semi-analfabetos, não lhes dou importância. A mesma coisa quando o objeto da crítica não é o meu trabalho. Às restantes, tento não atribuir demasiado valor, sejam positivas ou negativas, porque não podem alterar aquilo que escrevi.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

O mais importante foi o Prémio José Saramago. O que me emocionou mais, pelas circunstâncias em que recebi a notícia, foi o Fernando Namora.
Mas o prémio da revista Time Out é capaz de ter dado um empurrão decisivo ao meu primeiro romance.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Só deves fazer aquilo em que achas que és bom e em que, ao mesmo tempo, sentes que podes melhorar. Se não achas que és bom ou se acreditas que não podes melhorar, então o melhor é mudares de profissão. Quando me sento a escrever, a convicção de que sou bom naquilo que faço não me serve de grande coisa. Ao contrário de um pintor de paredes ou de um carpinteiro, o escritor pode escrever uma grande crónica hoje e amanhã escrever uma crónica que não vale nada. A criação é muito mais do que uma questão de técnica, por isso a solução é escrever cada texto como se fosse o primeiro.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevendo.

19. Quem são os teus autores de referência?

Mario Vargas Llosa, Albert Camus, Nelson Rodrigues.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Não. Escrever um livro, um romance, é um processo demasiado ligado ao que sou, em todas as dimensões, para desejar ter escrito um livro que outra pessoa, com tudo aquilo que é, escreveu. Seria o mesmo que desejar ser outra pessoa. E não desejo.

De facto, os escritores são pessoas que admiro muito, mesmo não os conhecendo pessoalmente. Com o Bruno passa-se o mesmo.

Estas entrevistas acabam por me aproximar da forma como pensam e como vêem o mundo.

Obrigado, Bruno.
Pelo teu tempo e pela verdade com que respondeste a tudo e que dá para sentir deste lado do ecrã.

Podes conhecer aqui a obra de Bruno Vieira Amaral e comprar um (ou mais) dos seus livros.

Até para à semana.
No mesmo dia e à mesma hora.