Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

A primeira vez que vi a Paula foi em cima de um palco, a falar sobre podcasting. Fiquei logo convencido.
Com as ideias.
Com a forma de as apresentar.
Com a clareza de pensamento.
Com quase tudo, aliás. Mas essencialmente com a voz.

Uma voz incrível e penetrante. Claramente uma voz de rádio. Daquelas que nos leva a ver as histórias e a imaginar o mundo através das palavras que nos dizem ao ouvido.

Entretanto começámos a falar e fomos, a pouco e pouco, trocando ideias sobre várias coisas, em particular sobre conteúdos e processos de criação dos mesmos.

Tive a sorte de ser entrevistado por ela, há cerca de um ano, numa conversa difícil de esquecer (sobre paternidade) da qual resultou uma fotografia de que gosto muito.

Quando arranquei com este projecto soube logo que ia ter de a entrevistar. Porquê? Porque a Paula vive de palavras. Absoluta e completamente. Convidei-a e ela, numa timidez assumida e indisfarçável, disse-me que não sabia se fazia muito sentido… expliquei-lhe os meus porquês e… acabei por conseguir convencê-la.

Aqui fica então a Paula, numa entrevista sincera, profunda e do mais humilde e transparente que vais ver por aqui. Porque a Paula é assim. Sincera que dói. Translúcida que impressiona.

Como sempre, comecei por pedir à minha convidada que me respondesse à pergunta: Quem é a Paula Cordeiro?
A resposta chegou-me poética e desconcertante. Como tudo o resto que escreveu. Não acreditas? Então lê e depois diz-me se tenho ou não tenho razão.

A Paula Cordeiro é alguém que detesta que lhe peçam para se descrever e até pediu a uma amiga que lhe escrevesse a sua nota biográfica para enviar a uma conferência. É isto, não gosto mesmo de falar sobre mim.
Parece-me sempre vaidade embora saiba que não é, enquanto me questiono sobre se alguém quer, realmente, saber quem sou eu, especialmente porque sou irritantemente perfeccionista com aquilo que me interessa e desagradavelmente imperfeita com o que não quero fazer;
abrasivamente assertiva a observar os factos e apaixonadamente apaixonada a examinar as pessoas, numa coerência muito incoerente que sempre me caracterizou.

A partir daqui, o que se segue é incrivelmente real e verdadeiro.
Apresento-te, a Paula Cordeiro.

1. Lembras-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Começa bem… começa pelo impacto que nunca admitimos querer alcançar, mas que, efectivamente, faz parte de cada tecla que pressionamos, palavra que criamos e verbo que conjugamos. Criar é seguido da partilha, a qual conduz ao impacto e, ignorar o impacto é ignorar o que nos trouxe aqui: a explosão da ideia, o elogio da palavra, a urgência de eternizar a palavra no papel ou, agora, nos ecrãs que nos impactam. A verdade é que não escrevo para o impacto, embora o reconheça, da mesma forma que, ao escrever, dou-me ao outro e, por isso, nunca penso muito no impacto que tal possa ter. Porque nunca controlamos a impressão que provocamos no outro e porque a minha palavra principal é oral, dificilmente se eterniza e, por isso, não sei. Talvez uma frase minha, reproduzida numa parede da sala dos estudantes, escolhida por eles, na faculdade na qual dou aulas, possa ser um exemplo?

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Pagam-me para trabalhar, escrevo por prazer e, por vezes, são uma e a mesma coisa.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério ligado à escrita?

Bati à porta certa na hora certa.

4. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Devo ser muito foleira, mas não tenho mentores ou grandes inspirações porque tudo me inspira e a resposta a uma pergunta destas supõe o recurso às grandes referências literárias ou aos que, reconhecidamente, têm o dom da palavra, bem como os que nos deram algum tipo de ajuda ou empurrão. E se forem muitos e não quisermos escolher? E se a nossa inspiração nos chegar da vida de todos os dias, dos programas de rádio que escutamos, dos livros e revistas que podemos ler, das conversas que partilhamos ou, até de publicações bacocas que encontramos?
E se também isso nos inspirar a fazer melhor?
E se a nossa lista de inspirações conjugar os grandes e os que ninguém conhece, mas que, de alguma forma, nos ajudaram a chegar aqui? E se…?

5. Já tiveste vontade de parar de escrever?

Já tive vontade de parar. Ponto.

6. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Eu não deveria ter aceitado esta entrevista, a verdade é essa…
Não sou modesta mas sou tímida o suficiente para ter vergonha de responder a perguntas como esta. E poderia ficar por aqui porque seria uma resposta, daquelas que não respondem mas que, inevitavelmente, preenchem o espaço em branco. Descansa Martim, não o farei porque há vários trabalhos dos quais me orgulho, um dos quais me trouxe aqui, transformou-se em livro e muito trabalho, pago, posteriormente: a minha tese de Doutoramento, escrita de um fôlego só, que conseguiu tornar científica a minha paixão maior: a rádio.

7. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

De algumas… Raramente pelo conteúdo, resultado inevitável do contexto ou da conjuntura mas, a forma…

8. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Qualquer coisa para dizer na rádio deixa-me confortavelmente feliz e um novo formato cuja designação desconheço, que vai buscar muita inspiração ao romance e à rádio, para escrever para os media sociais. Social storytelling? Será?

9. Tens escrito coisas profundas e que procuram romper com o paradigma actual daquilo em que está transformado o Instagram. Como surgiu a ideia?

A tua questão dá a sensação de que foi premeditado ou estratégico e não foi.
A explicação é simples, porque não me identifico com o que, na maior parte das vezes, se publica  nos social media, principalmente o Instagram, que se transformou numa plataforma de narcisismo, exibição, sobretudo, de promoção e comércio. Nada contra e, ao mesmo tempo, tudo, porque a maior parte das pessoas não tem consciência de como funcionam os bastidores da plataforma (algoritmo, por exemplo) ou dos perfis que assumem uma mistura entre perfil pessoal, de divulgação, promoção e comércio. Como designar, numa era na qual somos curadores da nossa própria vida, expondo-a como profissão, para actuarmos como agentes de comunicação, numa mistura entre as diferentes técnicas do marketing (das relações públicas à publicidade) que tem como fim único a comercialização da nossa própria existência, transformando-a tanto num livro aberto como num catálogo virtual de produtos e serviços? Como se chama a isto?
Eu não sei, experimentei para perceber como funciona, a mim não me serve e, por isso, já que lá estou e que há quem goste de ler o que escrevo, porque não escrever exactamente o que me dá prazer, como uma espécie de grilo falante que coloca o dedo na ferida, roda-o e fica a ver o circo pegar fogo? Arrisquei e não há como voltar à futilidade e superficialidade dominantes.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Pela ideia da mensagem, deixo fluir e logo se vê, muitas vezes o texto dá uma volta inesperada. Sou péssima a fazer títulos e, nos tempos modernos do SEO fico sempre entre o que realmente quero dizer e o que o SEO me diz para escrever. Um drama, acredita, porque SEO é tudo menos profundo (para recorrer à tua questão anterior)…

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Também vale dizer que estive sempre atenta nas aulas de língua portuguesa, consulto o dicionário e a gramática?
Sinceramente, ou se escreve ou não.
Podemos aprender a dominar a língua para redigir correctamente mas escrever é muito mais do que isso. Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história…

Ler com atenção e dedicação ajuda, da mesma forma que observar o mundo para o interpretar também.

12. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo quando tem de ser porque passo a maior parte do tempo a escrever e sim, escrevo quando calha, também. O que é técnico segue a rotina para conseguir cumprir prazos, o que é criativo por vezes depende da fuga à rotina para, depois, a retomar.

As melhores ideias surgem quando menos esperamos e eu já sei onde surgem as minhas: no duche (o que é uma dor de cabeça porque tenho de ficar a lavar-me e a repetir as ideias para não as perder), a surfar (novamente um problema porque normalmente as ideias desaparecem entre as ondas) ou a caminhar: não interessa onde, interessa estar ao ar livre, mesmo na cidade, e caminhar, por vezes sem direcção definida, para que comecem a surgir ideias.
Pedalar também serve, mas é mais perigoso porque a pessoa não pode tomar notas e, pior, não pode distrair-se na bicicleta…

13. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

A minha vida são prazos…

14. Como é que reages às críticas?

Odeio-as porque raramente são construtivas.

15. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Não, porque sofro desse mal que é o de me valorizar muito pouco mas, como há quem acredite, eu acredito nessas pessoas e por vezes tenho aquele ahah moment em que penso damm you girl, your good (e sim, escrevo muito em inglês, não é arrogância).

16. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Estar cansada impede-me de escrever, de ser criativa, de conseguir ver as coisas por um prisma diferente, impede-me de me colocar no lugar do outro para ver a história no seu todo, anula-me a originalidade, mas isso não é exactamente um bloqueio…

17. Quem são os teus autores de referência?

Os livros são objectos maravilhosos, mas também ocupam muito espaço e ganham muito pó. O pó é o meu pior inimigo e há uns tempos decidi-me por uma abordagem minimalista (ou quase) à minha vida.
Mudámo-nos recentemente para uma casa mais pequena, doei boa parte da minha biblioteca e levei todos os livros técnicos para a faculdade.

Os que ficaram são os que têm mais valor (talvez sentimental) o que talvez queira dizer que são os meus preferidos, muito embora tenha alguma dificuldade em lidar com essa ideia da referência porque, inevitavelmente, parece-me que preciso de uma orientação para escrever e não é verdade.  Há autores que me inspiram pelos temas que abordam, outros pela forma como escrevem e, ainda, pela forma como usam as palavras na rádio, mas não deixo que isso me influencie a ponto de perder a minha voz.

18. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Qualquer bestseller que permitisse reformar-me amanhã e escrever apenas o que me apetece, sentada no alpendre de uma casa de madeira virada para um mar muito azul, embalada por uma brisa o som das árvores e das ondas do mar. Poético, não é?

19. O livro da tua vida é…

O romance que já escrevi e que ainda não publiquei.

Podes ouvir a Paula, semanalmente, no seu podcast Urbanista 2.0.

Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

A minha convidada desta semana trata o escárnio e maledicência por tu. Para além disso é um dos cérebros criativos da equipa que faz o trabalho de bastidores dos programas 5 Para a Meia-Noite e Isto é Gozar com Quem Trabalha, apresentado por um dos maiores humoristas portugueses de todos os tempos. Sim, estou a falar do Ricardo Araújo Pereira.

Tem 33 anos e é uma artista das palavras.
Aproveita para conhecer um pouco mais da Cátia Domingues, aqui mesmo.

Como a todos os outros convidados, pedi à Cátia que me respondesse à pergunta de abertura: “Quem é a Cátia Domingues?”

A resposta apareceu-me assim:

“Cátia Domingues. Colheita de 87. 0+
Nascida em Lisboa, criada entre o Minho e a região saloia.
Guionista, humorista, feminista e outras coisas acabadas em ista, que faz uma das melhores caldeiradas de peixe.
Pessoa que começou a carreira de escrita a escrever as ementas da tasca dos pais.”

Passemos à entrevista.

1. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Quando escrevia as ementas do restaurante dos meus pais. Promovia muito o consumo.

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Desde que acabaram os meus estágios curriculares.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério?

Todos os meus trabalhos foram a sério. É assim que levo isto. Foi num call-center a vender créditos pessoais. Foi horrível.

4. Tens alguma “fonte” de inspiração?

Às vezes, quando preciso de escrever e não estou especialmente inspirada, gosto de ver uns episódios de noticiários satíricos para me pôr “no mood”. Se isso não resultar vou até à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho a quem passa.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

A memória da Susana Romana, que se lembra sempre de mim nas alturas certas.

6. Já tiveste vontade de parar de escrever e fazer outra coisa completamente diferente?

Todos os dias em que me custa.

Foto Cátia Domingues_Viver_das_Palavras

7. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Se calhar, o projecto pelo qual tenho mais carinho, é um chamado “caçadora de mitos”. Porque fez e ainda faz sentir muitas borboletas na barriga.

8. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Há imensas coisas que se fosse hoje não teria escrito da mesma forma. Mas isso faz parte do processo natural de aprendizagem.

9. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Ainda não experimentei muitos, mas gosto de escrever para televisão e para imprensa.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Depende. A maioria das vezes o título é a última coisa que escrevo. Passo muito tempo a escrever um. Acho que o meu lado da publicidade contribui muito para isto.

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Sim. Tirei um curso da escrever, escrever com a Susana Romana.
De resto, é realmente ler, ver, ouvir para ir aprendendo a escrever.

12. E dar formação a gente que queira aprender a escrever. Faz parte dos teus planos?

De todo. Acho que para ensinar é preciso talento especial.

13. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Depende. Quando tenho deadlines é acordar cedo, café, televisão em trashtv, só para fazer barulho ao fundo, e computador. Quando me sinto desinspirada ou aborrecida saio de casa. Prefiro trabalhar de dia.

14. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

Lido pessimamente com prazos ao ponto de praticamente tudo se transformar em escrever sob pressão. Procrastino imenso e arrependo-me sempre.

15. Como é que reages às críticas ao teu trabalho?

Acho que um sinal de maturidade é a forma como se reage às críticas. Sejam elas boas ou más, na verdade. E tento reagir com a distância que elas merecem.

16. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Na maior parte do tempo não. Sofro bastante da síndrome do impostor.

17. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Sim. Entro em pânico porque começo a pensar que a língua portuguesa tem imensas palavras e não sei por onde começar. Faço sessões extra de terapia e aceito que não consigo escrever naquele momento. Desbloqueio saindo para fazer outras coisas que me lembrem de mim.

18. Quem são os teus autores de referência?

Depende. Tenho um woody allen como tenho uma sophia de mello breyner. Um Nelson Rodrigues como um Luiz Pacheco. Um Vilhena como um Saramago ou Raúl Brandão. Um Santos Fernando como um Vergílio Ferreira ou um Primo Levi.

19. Qual foi a pior coisa que já disseram sobre a tua escrita?

Esta gorda não tem piada. E não foi pelo gorda.

20. Há alguma coisa que queiras escrever no futuro e que nunca tenhas escrito?

Sim. Quero escrever contos e um doc. É o que tenho planeado para o futuro.

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

8 dias sem redes sociais – das razões às sensações

8 dias sem redes sociais – das razões às sensações

Pois é. Se há uns anos me dissessem que ia fazer isto. Dizia que era ridículo! Mas não é. Não foi. Estar durante 8 dias sem redes sociais foi muito bom e é exactamente sobre isso que vos vou falar. Desde as razões que me levaram a fazê-lo às sensações que pude registar durante esse (curto) período.

A ideia partiu depois de uma conversa que tive, há coisa de 1 ano, com o meu amigo e um dos meus mentores desta vida digital, o Pedro Caramez, que me disse ter feito algo semelhante numas férias recentes em família. Comecei logo a magicar uma coisa parecida e tomei a decisão quando faltavam cerca de 3 semanas para entrar de férias. “Vou fazer isto mesmo”. Pensei. “Vou (tentar) passar 8 dias sem redes sociais. E depois escrevo sobre isso. Quanto mais não seja para explicar às pessoas porque é que um Social Media Manager sentiu necessidade de fazer uma coisa destas. Explicar as razões e as sensações que recolhi durante esta “empreitada”. Parece-me bem. Já me levantei da cama por muito menos e a pagar!”

A primeira pessoa a duvidar da minha capacidade e nível de compromisso para com a missão foi, nada mais nada menos, que a minha mulher. Afirmou categoricamente que não seria capaz, que sabia perfeitamente que eu ia levar o telefone para a casa de banho e outras provocações do género. Não me fiz rogado e resolvi apostar um jantar! Era precisamente o estímulo que me faltava!! “Vou provar-te que estás redondamente enganada e ainda vou jantar à tua conta… à conta disto!”.

Posso adiantar-vos que foi bem mais fácil do que inicialmente pensei que seria. E olhem que ainda ponderei a hipótese de prolongar a coisa durante mais uma semana. Por aqui podem ficar com uma ligeira ideia do quão bem me soube. Ocupei o meu tempo de uma forma que me deixa tremendamente feliz.

Li 160 páginas d’ “O Regresso do Soldado” de William Faulkner e acabei o livro. Li os três primeiros volumes da colecção das 1001 Noites do Expresso, tendo já começado a leitura do quarto. E isso, por si só, é motivo de tremendo gáudio. Passei o tempo a brincar com a minha filha, a ver o mar, a pensar e, ocasionalmente, quando a minha mulher parava um instante para descansar e consultar as novidades nas redes… eu aproveitava para reclamar com ela… só porque… sim. (sabe tão bem ter a razão do nosso lado!)

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Foi uma excelente e muito revigorante primeira semana de férias. Mas agora importa explicar as razões e alguma das sensações que recolhi de toda esta empreitada. Comecemos então pelas razões:

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Em primeiro lugar creio que o facto de trabalhar directamente com redes sociais e em páginas de uma dimensão “assustadora” – no que diz respeito ao número de seguidores e de consumidores de conteúdos – me fez sentir este ímpeto e esta vontade. Passar um ano diariamente ligado e a ter de escutar e perscutar tudo o que se passa nas redes com as quais trabalho e nas quais me movo, produziu um cansaço grande que me fez sentir a necessidade de “virar costas” a tudo a fim de conseguir verdadeiramente desligar o cérebro e aproveitar as merecidas férias deste ano tão exigente.

Em segundo lugar está, muito possivelmente, a influência que a verborreia e o ódio bem destiladinho com que somos confrontados, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, durante todo o ano, em todas as redes onde circulamos tem em cada um de nós. Não foi exactamente disso que precisei de me desligar mas sim do acumular de tudo o que vamos lendo e vendo e tuitando e partilhando e favoritando ou detestando ao longo de um ano inteiro. Entrei nestas férias a sentir uma necessidade tremenda de falar com as pessoas, olhos nos olhos, cara a cara, de viva voz… como preferirem.

Por último, mas nem por isso menos importante, se é absolutamente inequívoco que as redes sociais se fazem de pessoas e para pessoas, não é menos verdade que é exactamente por isso que as mesmas, não raras vezes, se deixam conspurcar pelo que de pior tem cada um de nós. E disso, disso sim, parece-me que precisamos de nos libertar de quando em vez, sob pena de nos deixarmos contagiar pela maldade e acabarmos por embarcar nesse comboio pernicioso e repleto do pior da condição humana… sem o “perigo” de existir um fiscal que nos pergunte pelo bilhete.

A protecção que a máscara confortável atrás da qual nos escondemos – entenda-se por máscara aquela que nos dá o aparelho que usamos para estarmos presentes nas redes – faz destas um meio que se pode tornar perigoso, quando usado com más intenções. E sim, toda a gente sabe isto, e não, não há meio de “isto” deixar de ser assim. Porquê? Se eu soubesse a resposta a esta pergunta tantas vezes repetida… estava rico… e provavelmente andaria a escrever artigos no LinkedIn sobre coisas bem diferentes! =)

Acreditem que todos os dias vejo coisas que me deixam assustado, preocupado, incrédulo e estupefacto com o estado a que estão a chegar as relações sociais entre todos nós. Cada vez sabemos menos uns sobre os outros. Cada vez nos preocupamos menos com isso. Cada vez somos mais frios e insensíveis e despreocupados e desligados. Fisicamente desligados uns dos outros. Importam-nos mais os likes, os shares, os comments, os favorites, os retweets e reposts. Isso sim é pão para nos encher o bucho.

Cada vez mais nos interessa cada vez menos a opinião de alguém, uma vez que a possibilidade de dizermos o que queremos, como e quando queremos, aliada à tal “invencibilidade virtual” e à suposta protecção que o ecrã que nos separa dos outros permite que grasse a violência verbal, o desrespeito e falta de consideração entre a grande maioria dos utilizadores das redes.

Parecem-me razões mais do que suficientes para que tenhamos, nós, as pessoas boas, as boas pessoas, necessidade de desligar disto tudo, sobretudo se tivermos de estar nas redes, nomeadamente, por motivos profissionais. Para o ano repito a dose. E quanto a mim, espero ter-vos influenciado positivamente com esta minha narrativa meio geek mas que em muito contribuiu para que tivesse umas férias sensacionais. Longe de “tudo” e extraordinariamente daquilo que para mim é mais que tudo: os meus, a minha família. As coisas, os sítios e as pessoas de que verdadeiramente gosto. Sem filtros, sem #hashtags, sem mentions nem o diabo que nos carregue! E sabe muito bem, acreditem! É experimentar e partilhar.