“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

O que vais ler aqui é uma história daquelas que todos nós temos e devemos ler. Seja quando for, seja onde for. Temos mesmo de ler isto.

Descobri-a através do Jorge Araújo, jornalista e editor da Revista E do Expresso. Depois fui conhecê-la mais ao pormenor no site da CNN e fiquei tão impressionado e comovido que tive de a partilhar contigo.

Pouco me importa que aches que isto é lamechas, piegas ou que não acrescenta nada à tua vida.
Se sentires uma destas 3 coisas, faz-me um favor: deixa de me seguir!

Não quero que sintas que a história que aqui te trago hoje te incomoda ou não te diz nada. Porque se é esse o caso, então não temos mesmo nada em comum.

Mas se dás valor à vida e acreditas que o planeta precisa de conhecer histórias assim para se inspirar e para ganhar força numa altura tão crítica, então fica por aí e lê o resto da história que o Jorge teve a brilhante ideia de nos contar.

“Para sempre é muito pouco tempo. A vida é um relâmpago, passa num instante. E o tempo não sabe esperar.

A história de Betty e Curtis é prova disso. Dois antigos colegas de liceu que se apaixonaram. Casaram, tiveram dois filhos e, durante 53 anos, caminharam juntos pela estrada da vida.

Betty, de oitenta anos, foi a primeira a ser apanhada nas malhas do coronavírus. Dois dias depois, Curtis seguiu-lhe os passos e foi internado no mesmo hospital do Texas.

As enfermeiras da Unidade de Cuidados Intensivos sabiam que, na matemática dos sentimentos, um e um nem sempre são dois. Betty e Curtis não sabiam viver um sem o outro.

Por isso, todos os dias, levavam Curtis para a unidade de Betty. Os dois nas nuvens. Como sempre. Para sempre. A vida e a esperança nas linhas da palma das mãos.

Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar.

De repente, Betty partiu para o corredor da morte. Curtis nem precisou de ouvir a notícia para ver os seus níveis de oxigénio baixarem. Desistiu de viver.

Juntos na vida, juntos na morte.

“Assim que ele sentiu que a nossa mãe não iria aguentar, ficou em paz com a decisão de deixar de lutar”, contou um dos filhos à CNN.

Betty e Curtis morreram com menos de uma hora de diferença. De mãos dadas.

Há coisas que a morte não consegue matar.”

A força indestrutível de um amor absoluto

Há sim, Jorge. E esta tua frase é tão absoluta que dói.

O amor é uma força tão poderosa como as forças maiores da Natureza.

E se tu que estás a ler isto, nunca tiveste a sorte de sentir isso, ou se deixaste de acreditar que isso é possível, então só me resta lamentar a tua infelicidade.

O amor pode tudo e há amores que são à prova de tudo.

Vivemos um tempo de incerteza, de medo, de dúvida, de desconfiança e de terror psicológico.

Vimos o nosso mundo ser virado do avesso. Cobrimos a nossa boca e o nosso nariz, por se tratar da única forma de protecção que temos contra um inimigo que nem sequer conseguimos ver. Falamos hoje de um modo diferente. Deixámos de sorrir uns para os outros.

Claro que podemos continuar a sorrir com os olhos, mas… não é, de todo, a mesma coisa. Pois não?

Assim, quis partilhar isto contigo porque acredito que vale a pena. Acredito que vale a pena pensar na vida desta forma. Acredito que separar a vida pessoal da vida profissional é cada vez mais uma estupidez que não faz qualquer sentido. Somos um todo. Não temos caixas dentro do cérebro onde arrumamos as nossas diferentes personagens.

Caramba, se isto não servir de inspiração… o que é que pode servir?

A histórias aproximam os seres humanos desde que somos seres humanos.

As histórias vão continuar a ser o que nos une e… como diz o Rui Veloso, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.

Joana Marques: “Os meus amigos dizem que por dentro sou uma idosa de 73 anos”

Joana Marques: “Os meus amigos dizem que por dentro sou uma idosa de 73 anos”

A Joana Marques é já um nome seguro e impossível de ignorar no panorama humorístico nacional (pfff, olha para ele a usar o jargão do panorama humorístico).

Tem um graça natural aliada a um talento superior para brincar com as palavras. É isso que lhe dá piada, que a faz ser reconhecida e que a destaca no meio de um mar de humoristas masculinos no nosso país.

Já anda nisto de ser guionista há alguns anos.
Escreve para televisão (é, tal como outra das convidadas que já aqui tive, a Cátia Domingues, uma das cabeças criativas que enche de palavras bem escritas o programa Isto é Gozar com Quem Trabalha, apresentado por Ricardo Araújo Pereira), para a rádio e ainda para o Jornal de Notícias, ao Domingo e diz que por isso, a sua vida não tem 2 dias de trabalho iguais.

Para além de tudo isto e numa descrição que diz continuar a estar muito actual, é ávida consumidora de trash TV, sushi, jogos do FC Porto e alguém que nos tempos livres sonha com o que fará um dia, quando realmente tiver tempos livres.

Mas antes de arrancarmos com a entrevista vamos lá então saber quem é a Joana Marques, pela voz, ou melhor, pelos dedos da própria.

Então é para falar de mim na terceira pessoa, é isso?

Cá vai:
A Joana Marques é uma pessoa com ar relativamente inocente (o 1,53m que me faz parecer aluna da quarta classe também ajuda) mas que tem uma mente ligeiramente retorcida, e um humor um bocadinho cáustico. De resto, os meus amigos dizem que por dentro sou uma idosa de 73 anos.
E eu não nego. Gosto é de sopas e descanso. Ou chocolates e descanso.

Uma pessoa quando é septuagenária já não está para se preocupar com dietas.

Há muito poucas coisas “jovens” (só esta expressão já prova que sou velha) que eu aprecie. Não gosto de sair à noite, não bebo álcool, detesto música alta e fumo, só vou a festivais de verão “obrigada”, se tiver de trabalhar lá, não tenho paciência para multidões, não sou fã do fim de ano, nem do carnaval, nem de todas as ocasiões em que é suposto exibir a nossa felicidade. Não gosto de exibir nada, na verdade. Por isso é que sempre me pareceu muito bem ser guionista. Por isso e porque gosto muito de escrever, um pormenor que também dá jeito.

A história de “aparecer” foi uma consequência disso, um acidente nada premeditado. A minha actividade preferida continua a ser estar de pijama em casa, a escrever. Divirto-me mais nessa fase, no momento zero das piadas, do que depois a mostrar esse trabalho a alguém. Mas fui aprendendo a disfrutar das várias fases do processo… Pronto, acho que está feito um razoável retrato robot.

1. Não és escritora, mas és argumentista. Não és jornalista, mas trabalhas na rádio. Escreves todos os dias – há vários anos – e trabalhas diariamente com as palavras. O que é que te fez seguir este caminho? Como é que tudo começou?

Acho que tudo começou como começa para toda a gente. Na 1ª classe (2ª para os alunos com mais dificuldades): quando comecei a perceber que juntando letras formava palavras, e com elas frases.
Achei aquele jogo muitíssimo divertido e nunca mais parei.

Os dias em que o trabalho era fazer uma composição eram o ponto alto das minhas semanas na primária. Isso e os intervalos em que jogávamos à bola, que também apreciava.

A partir daí não parei mais de escrever.
Deixei as composições, passei a escrever por passatempo em casa, mais tarde um blog, na altura em que toda a gente tinha um blog para escrever, não para mostrar o “look of the day” (isto foi meio saudosista, agora, não foi?), fui lendo muito também, coisa que infelizmente agora não tenho feito, e interessei-me cada vez mais por tudo o que tinha a ver com isso.

Dizia, a certa altura, que queria ser escritora.
Talvez por nem saber da existência da profissão de “guionista”.
Quando via programas de humor na televisão nem me ocorria que havia alguém que escrevia aquelas coisas que o Dário e a Dora diziam (era uma rábula – na altura dizia-se rábula – que o Vitor de Sousa e a Ana Bola tinham no “Parabéns”, do Herman).

2. Porquê a Rádio, Joana? O que é que a Rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem?

A rádio aconteceu por acaso. Como quase tudo o resto que me tem acontecido…  Sempre fui grande ouvinte de rádio, sobretudo de programas de palavra, que me interessam muito mais do que playlists de música… e surgiu a oportunidade de ir fazer um workshop, curto, de um fim-de-semana, na Restart.
O curso era dado pelo Diogo Beja, e fui fazê-lo com dois amigos (na verdade um namorado e um amigo), o Daniel Leitão e o Guilherme Fonseca, mais por passatempo que outra coisa.

A verdade é que tanto o Daniel como eu acabámos por ser convidados pelo Diogo para fazermos parte da equipa dele na Antena 3, e o Guilherme foi (ou já estava, não tenho a certeza) trabalhar na Mega Hits.

Portanto digamos que foi um curso bastante útil, não só pelos ensinamentos, mas por se ter aberto, sem que eu estivesse à espera, aquela porta… e ainda por cima logo uma porta grande, para as manhãs da Antena 3, onde estive de 2012 até… 2018, acho eu!

O que a rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem é uma proximidade enorme com quem está a ouvir. Acho que é maior do que na televisão, em que há mais factores distractivos.
Na rádio, ao fim de um tempo (e normalmente os projectos são coisas duradouras) as pessoas sentem que já nos conhecem. E conhecem mesmo.

É impossível ser uma personagem durante tantas horas, e àquelas horas da manhã. Acabados de sair da cama não há filtro que nos salve.

A rádio tem também um espírito de equipa especial, cria-se uma intimidade diferente com as pessoas com quem se está 3 horas por dia no ar, 5 dias por semana. É daqueles trabalhos em que não notamos mesmo que estamos a trabalhar, mesmo que cheguemos ao fim cansados.

E, no que toca a fazer humor, a rádio tem para mim a vantagem de ser dada primazia à palavra, ao que está a ser dito. Não há guarda-roupa, acessórios, luz, maquilhagem, etc. É só uma pessoa a falar e pessoas a ouvirem.

Foto: Ricardo Fortunato/RR

3. Como é que prepararas os episódios do Extremamente Desagradável? Que sequência é que costumas seguir até chegares à parte da escrita?

O meu modus operandi costuma ser este:

1 – encontrar o tema para o dia seguinte (muitas vezes é a parte mais difícil). Tanto há dias com 3 ou 4 temas fortes, que dão para planear logo a semana toda, como há aquelas fases de silly season (que parecem cada vez mais longas) em que não há assunto, e é preciso escavar mais até o encontrar.

Às vezes a maior “angústia” (não chega a ser uma angústia, mas pode dar um nervoso miudinho) é não encontrar uma matéria que nos pareça suficientemente boa. Portanto diria que o primeiro momento “eureka!” é quando aparece o tema. Com ele surgem logo ideias e já está meio caminho andado.

2 – como o que distingue o “Extremamente Desagradável” de várias outras rubricas de humor é, normalmente, o recurso a sons (de notícias, de músicas, de discursos, seja o que for), embora não seja obrigatório que aconteça todos os dias, costumo partir daí.
Recolho os sons todos de que vou precisar.

Às vezes até demais, confesso, sou um bocadinho obsessiva nas pesquisas e sinto que podia parar muito antes…
Se calhar o tema da rubrica no dia seguinte é o que disse uma influencer no seu Instagram, e eu recuo até 2013, a ver todos os vídeos que ela fez, todas as entrevistas que deu, todas as legendas que escreveu…
Se é tempo perdido? É, sem dúvida. Mas às vezes surge uma pérola que faz valer a pena aquelas três horas desperdiçadas. Tenho sempre essa esperança.

3 – depois de ter os sons que quero usar, edito-os. Corto os vários excertos que vou de facto utilizar na rubrica. Às vezes tenho três horas de brutos, para 10 excertos de poucos segundos. E não me posso queixar, porque ultrapasso sempre largamente o tempo que a rubrica devia ter (peço aqui publicamente desculpa ao meu director e colegas pela ausência de capacidade de síntese).

4 – copio os títulos dos vários excertos para o documento e a partir daí sim, começa a parte divertida. Vou ouvindo os sons e comentando (por escrito). E pronto, está feito!

(Se calhar não querias uma descrição tão pormenorizada, parecia uma receita de bolo mármore passo a passo…)

4. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora – se é que tens alguém que tenha desempenhado esse papel.

Não tenho nenhum mentor. Vou aprendendo com várias pessoas com as quais me cruzo. Acho que é a melhor maneira de aprender, fazendo.
E vendo como os outros fazem.

Tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas que admiro, e não há nada melhor, quando trabalhamos em equipa (e acontece muito na nossa área) do que ter aquela “inveja” (sem voodoo à mistura) de não nos termos lembrado daquela piada óptima que o nosso amigo acaba de fazer.
Quer dizer que estamos a trabalhar com pessoas que nos puxam para cima (não era uma piada sobre o meu tamanho, não).

5. Já alguma vez tiveste vontade de fazer outra coisa – profissionalmente – que não fosse escrever?

Não. Acho que não teria jeito para mais nada, portanto ainda bem que tenho a sorte de poder fazer isto!

6. Consegues olhar para trás e escolher 2 momentos marcantes (o melhor e o pior) atrás do microfone?

Não tenho grande memória… já faço o Extremamente Desagradável desde 2017 (primeiro na Antena 3, depois na Renascença), e antes disso outras rubricas e programas, e é difícil isolar os melhores ou piores momentos. Aliás, piores não acho que tenha tido. Não no sentido de não ter feito rubricas sem graça, de certeza que fiz (para algumas pessoas serão todas, mesmo), mas não considero isso um momento grave ou que mereça ser apontado como “o pior”… porque o facto de termos de apresentar um texto todos os dias, de segunda a sexta, com poucas pausas pelo meio, só umas férias de quando em vez, faz com que nos apaziguemos com a ideia de que nem sempre vai ser perfeito, nem sempre vamos sentir que está hilariante, mas temos de continuar.

Quanto a melhores momentos, talvez quando há aqueles ataques de riso incontroláveis, que me transportam aos tempos da escola, quando ia para a rua na aula por não conseguir mesmo parar de rir.

Aconteceu já várias vezes, a mais marcante talvez numa edição do Extremamente Desagradável dedicada à família da Luciana Abreu.
Para quem tenha curiosidade, é este – https://www.youtube.com/watch?v=Z1-nnO8oCmY.

É raro acontecer isto, porque eu já não me surpreendo. Já sei o que escrevi, já ouvi os sons várias vezes para os cortar, já não sou apanhada na curva. Mas de vez em quando, seja pela reacção das outras pessoas em estúdio, seja por qualquer pormenor ao qual acho mesmo muita graça, isto acontece, e são mesmo momentos de alegria, nada forçados!

7. Tens vergonha de alguma coisa que tenhas escrito?

Vergonha não. Hei de ter escrito várias coisas sem piada, como dizia há pouco… mas ao ponto de me envergonharem, não. Acho que é bom sinal ler agora coisas que escrevi há dez anos e achar que as que escrevo agora são melhores. E que daqui a dez anos aconteça o mesmo.

8. Quem é que teve a ideia para o nome da rubrica – Extremamente Desagradável?

Foi a Inês Lopes Gonçalves, fica aqui a merecida homenagem.
Ela tem muito talento para títulos (e para muitas outras coisas, é uma artista polivalente, sou mesmo fã).

Antes de me estrear na Antena 3 num novo programa da manhã que ela já fazia com o Luís Oliveira e a Ana Markl, apresentei-lhes o conceito da rubrica, mas faltava-me o nome.
Tenho muita dificuldade com nomes. Seja para filhos ou trabalhos.
Se calhar vou ligar à Inês para ver se ela me arranja um nome para o rapaz que nasce no próximo mês…

9. Já escreveste guiões, argumentos, escreves humor, já escreveste um livro… O que é que te falta fazer com as palavras?

Falta-me fazer muita coisa, de certeza, mas estas são as coisas que me dão gozo fazer (neste momento, a rubrica na Renascença, o Isto é Gozar Com Quem Trabalha, na SIC, e as crónicas no JN ao domingo).
São três trabalhos que têm em comum a base, escrever, mas são completamente diferentes, e assim nunca se torna monótono.

Joana Marques_O_que_dizes_Tu
Joana Marques em estúdio na Renascença

10. Tornaste-te uma pessoa conhecida e reconhecida em Portugal. Como é que lidas com o lado da “fama”?

É uma “fama” muito relativa.
Não sou, felizmente (ou não, dependendo da perspectiva) a Cristina Ferreira. Não gostava nada de ter uma dessas famas interplanetárias (dentro deste universo fascinante que é Portugal).
Portanto o que tenho é uma quantidade razoável de gente que segue o meu trabalho, o que é óptimo, para não falar para o boneco, e alguns encontros simpáticos na rua, às vezes nos sítios mais inesperados, nada mais.

11. Como é que reages às críticas?

Se estamos a falar das críticas típicas da net, acho que fui aprendendo a reagir cada vez melhor. Ou seja, a melhor reacção normalmente é não reagir de todo.

Na maioria dos casos são coisas gratuitas, que tentam só ser ofensivas, e que vêm de pessoas a quem não reconheço a mínima autoridade na matéria. Da mesma maneira que eu não tenho autoridade para ir dizer a um advogado, a um contabilista ou a um cirurgião como é que ele há-de fazer o seu trabalho.

Isto não tem nada a ver com achar ou não piada, isso acho que é mais do que legítimo, alguém não achar graça, ou discordar deste ou daquele prisma, e dizê-lo. Faz parte da abertura e liberdade que felizmente todos temos, e que é potenciada pelas redes sociais (antigamente era mais difícil dirigirmo-nos ao autor de um livro ou a um músico, e talvez por isso pouca gente se dava ao trabalho de escrever uma carta e enviar para o Phil Collins a dizer “o último álbum está uma merda”).

Quanto às críticas positivas penso o mesmo, também não embandeiro em arco por alguém adorar. Fico contente pela simpatia e por se darem ao trabalho de o dizer (acho mais normal e saudável do que frequentar páginas de gente cujo trabalho se odeia), mas não sobrevalorizo o meu trabalho por causa disso, nem fico a achar-me o suprassumo de nada.
Acho até que tenho bastante noção de quando fiz bem ou mal…

Para mim o feedback mais interessante são comentários que complementam de alguma maneira o que escrevi, ou até avisos sobre algum erro que tenha cometido. Isso aprecio muito.

12. Já recebeste mensagens desagradáveis ou críticas destrutivas de pessoas com quem tenhas troçado (gosto tanto desta palavra)?

Já, com certeza. Mas o mais habitual é serem os fãs dessas pessoas a fazê-lo. Normalmente reagem pior do que o próprio visado (que na maioria dos casos já está calejado, e saberá que faz parte do jogo). Mas sim, de vez em quando acontece uma reacção mais azeda. Sem problema!
Eu também sei as regras do jogo, e até acho alguma graça…

13. És feliz por seres como és, ou gostavas de ser outro tipo de pessoa?

Gostava de ter 1,70m e 50 kg! Não, por acaso a parte da altura não me transtorna nada, nunca me fez nenhuma confusão. Já ter as medidas da Sofia Aparício (ou outras, mais século XXI, não sei se os 86-60-86 ainda se usa) apreciava muitíssimo, mas acho que tinha de passar menos tempo sentada a escrever, e mais no ginásio. Se calhar não nasci para isso.

14. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Sim. Acho que toda a gente que faz isto tem de acreditar, caso contrário desiste rapidamente, já que à primeira crítica negativa poria tudo em causa.

15. Continuas a ficar nervosa antes de ir para o ar ou já é tudo “normal”?

Tão natural como a sua sede. Isto era da água do Luso, não era? Mas não, não fico nada nervosa na rádio, acho que é um ambiente que nos deixa muito à vontade (às vezes até demais) porque estamos ali só três ou quatro pessoas, num estúdio, e até esquecemos a quantidade de gente que está a ouvir.

16. Muitos dos escritores que conheço ou das pessoas ligadas às palavras gostam de escrever à noite. Para quem entra no ar às 07:00, calculo que escrever pela noite dentro não seja a tua actividade preferida. Terminada esta introdução poética, aqui vai a pergunta: tens rotinas de escrita, ou escreves quando calha?

Nunca fui noctívaga, nem quando andava na escola… estudar à noite e fazer directas nunca foi para mim. Preferia acordar mais cedo e estudar antes dos exames (no fundo já estava a preparar-me para os horários de trabalho que teria no futuro!).

Não posso escrever quando calha porque não posso entregar os textos quando calha. No dia-a-dia o mais habitual é escrever o Extremamente Desagradável do dia seguinte ao início da tarde.

Claro que às vezes acontece alguma coisa incontornável à noite, e faço tudo de novo, mas o habitual é escrever mais cedo.
Quando tenho outros trabalhos, como quando escrevi os livros, por exemplo, tenho de arranjar outros métodos, normalmente obrigo-me a escrever determinada “quantidade” por semana, mas faço-o na mesma durante o dia ou aos fins-de-semana.

17. Acredito que gostes muito de ler. Quem são os teus autores de referência?

Gosto, mas como já disse leio hoje em dia muito menos do que antes. Acho até que devia ser ao contrário: devíamos ter mais tempo livre em adultos do que em crianças, porque assim corro o risco de chegar ao fim dos meus dias e ter lido mais livros de Uma Aventura do que de grandes autores clássicos. Dos livros que li ultimamente (nas férias) os que mais me encheram as medidas foram os do cronista brasileiro António Prata: “Meio intelectual, meio de esquerda” e “Nu, de botas”.

18. Quem foi a pessoa que mais gozo te deu satirizar no Extremamente Desagradável?

Não consigo eleger uma. São todos como filhos para mim. Mas daqueles filhos de que se gosta um bocadinho menos.

19. E já tiveste pena de “ter” mesmo de gozar com alguém com quem simpatizes muito?

À medida que os anos passam vou, inevitavelmente, conhecendo mais gente, apesar de ser um bicho do mato (basta ver que na rádio entrevistamos pessoas quase todos os dias). Por isso acontece muitas vezes ter de satirizar alguém que conheço e com quem simpatizo. O tratamento é o mesmo: goste ou não, tento não ser ofensiva, por isso não tenho que mudar nada na minha abordagem.

20. Já sabes o que é que vais fazer quando finalmente conseguires ter tempos livres?

Espero ir de férias. Viajar, sobretudo, o que não acontece há algum tempo (e, por este andar, vai demorar… pelo menos não me apetece andar de avião de máscara, por isso acho que vou esperar).

21. Sei que achas sempre que vai correr tudo mal, mas consegues dar-me 3 exemplos de coisas que te correram particularmente bem?

Consigo. Cá vão:

– os dois cursos que fiz, paralelamente à faculdade ou ao trabalho (um de um ano de duração, de escrita de argumento, outro mais curto, o tal workshop de rádio), já que em ambos o casos acabaram em ofertas de trabalho (e juro que não foi por dar graxa aos professores),

– ter lançado um livro de humor (e de amor) sobre o Porto no preciso momento em que o Porto se sagrou finalmente campeão, ao fim de um (enorme, para os portistas) jejum, caso contrário acho que ninguém teria disposição para o ler,

– ter-me cruzado com o Daniel (agora meu marido, e pessoa que me atura 24/7) – esta foi só para mostrar que, bem lá no fundo, também tenho coração! Mas de facto acho que é um luxo viver com alguém que se ri das mesmas coisas que nós, e que nos faz rir com outras de que não estávamos à espera.

22. Se amanhã te dissessem que era o último programa que ias fazer e que podias troçar (cá está, tinha de conseguir dizer isto novamente) com quem quisesses, à balda. Quem é que escolhias?

Não tenho ninguém guardado na gaveta à espera desse dia, estilo “vingança”. Todas as pessoas que tenho achado que “merecem” troça, já foram “analisadas”. Provavelmente gozava comigo, que é uma coisa que gosto de fazer sempre, e ainda mais nesses momentos que assinalam o fim de algum ciclo.

23. Joana, qual é a importância que as palavras têm na tua vida?
Têm toda a importância. Tenho fascínio por palavras, fico contente sempre que aprendo uma nova (lembro-me até do momento em que aprendi algumas… por exemplo, nos anos 90 aprendi “eufemismo” e “malsão” com o “Lado Lunar” do Rui Veloso, ou do Carlos Tê, neste caso, que ele é que trata do departamento das palavras).

Obrigado, Joana.

Até breve.

Aproveita e revê as outras entrevistas que estão no blog.

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Ainda era jornalista quando comecei a ouvir falar do Afonso Cruz.
Terá sido, muito possivelmente, algum colega que fez referência ao livro A Boneca de Kokoscha, com o qual o Afonso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Camilo Castelo Branco.

Como sempre, fugi ao que toda a gente andava a ler e fui comprar Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.

E acabei por ser eu a devorá-lo a ele. Ao livro, entenda-se.
Fiquei preso logo no arranque, em diálogo, e escrito com um exuberância gráfica diferente de todos os livros que tinha lido até então:

” – Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! – gritava o chefe da repartição, mas ele ouvia aquele voz lá muito ao fundo, a desaparecer numa esquina.
Foi assim que a minha avó me começou a contar a história de Vivaldo Bonfim, o meu pai.”

E depois, para mal dos pecados de um rapaz de 30 anos a quem as histórias começavam a apresentar-se-lhe como o futuro da sua vida, o livro termina assim:

“(…) Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.”

E assim foi. Assim fiquei encantado com a escrita de um homem novo.

Foi um dos primeiros nomes em que pensei quando esta loucura em que me meti se me apresentou ao pensamento em jeito de desafio.

Também pensei que fosse impossível. Que ele dissesse que não. Ou que não dissesse nada de todo.

Mas depois, antes de lhe escrever, descobri um ponto em comum nas nossas vidas. A ligação à Figueira da Foz. O Afonso é da Figueira. A minha família, do lado da minha mãe, tem o cordão umbilical assente na cidade com a maior praia do mundo. Pelo menos, para mim, é a maior praia do mundo.

Feita a explicação que se devia e agarrado o gancho para o contactar, com a ajuda do Rui, da Comunidade Cultura e Arte, escrevi ao Afonso que me respondeu prontamente aceitando a entrevista. E assim aqui chegámos.

E, claro, chegámos também à pergunta da ordem:
– Quem é o Afonso Cruz?

Respondeu-me assim:

Vivo isolado com a minha família, com três cães, duas galinhas, oliveiras e árvores de fruto. Gosto de cozinhar e de beber cerveja (mais do que fazê-la), de ler, de fotografar, de caminhar, de tocar ukulele e de viajar.

Para além disto, o Afonso diz que tem tido a sorte e a ousadia de fazer o que quer e o que gosta. E de ser livre. E tinha de ser este o título desta entrevista. Avancemos.

1. Quando é que sentiste que tinhas que (e que querias) escrever? Que era isto que querias fazer da vida. Lembras-te com que idade sentiste isso?

Estava a trabalhar numa agência de publicidade, como copywriter.
Tinha 36 ou 37 anos. Nessa altura escrevi uma série de textos que publiquei num blog privado, sem qualquer intenção de os ver editados. Só quando percebi ter uma quantidade razoável deles, pensei que poderiam dar um livro. Ou seja, não foi tanto eu querer escrever ou publicar foi mais a escrita me ter acontecido.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Na PGA (prova Geral de Acesso) era preciso escrever um texto. Tive a melhor nota da minha escola. Mais tarde, no ensino superior, na disciplina de História de Arte, a professora escreveu-me uma nota no final do teste corrigido que dizia mais ou menos o seguinte: não sabes muito de História, mas escreves muito bem. Tive dezassete.

3. Há quanto tempo é que escreves profissionalmente?

Desde 2008.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Como disse antes, trabalhei como copy. Foram uns seis meses da minha vida em que recebia para escrever. De resto, sempre estive relacionado com a animação e a ilustração.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

As minhas leituras, as minhas viagens.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

Vários: Dostoiévski, Rumi, Thomas Mann, Borges, Vonnegut, Emily Dickinson, Hrabal, Kazantzakis, Cossery, Lem, Simone Weil, etc.

7. Sendo tu também músico, ilustrador e cineasta… já tiveste vontade de parar de escrever e de te dedicares em exclusivo a alguma destas actividades? Ou mesmo a algo completamente diferente?

Dediquei-me ao cinema de animação durante muito tempo, mais de uma década. Também houve uma altura em que tive a pretensão de viver da música. Talvez um dia me torne apicultor.

8. Se a tua vida não fosse a de uma espécie de Príncipe do Renascimento, o que é que estarias a fazer agora?

Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto. Não é tão importante aquilo que faço, mas se o que faço parte de um espaço de liberdade, em que a compulsoriedade é reduzida ao mínimo.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

É um chavão, mas serão os próximos.

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não, mas há livros em que me revejo menos. Não os hierarquizo, simplesmente, não os escreveria da mesma maneira.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Depende das ideias. Os livros, para mim, são uma materialização de um conceito, por isso os formatos devem adequar-se a essa ideia inicial e se sentir que encontrei um modo eficiente, então o processo é natural mas não decorre confortavelmente, porque é uma luta.

Se não nos magoarmos no processo, é porque não nos estamos a esforçar, a superar-nos.

Tento que a escrita seja uma espécie de verdade em relação à ideia, que não haja uma traição ao conteúdo simplesmente por amor à forma ou ao conforto. A única coisa confortável deve ser a relação entre a ideia e o tipo de processo, mas não o acto em si.

Explicando de outro modo, imaginemos que pretendo fazer uma cerveja tipo Rochefort, então vou precisar de certas coisas que se adequam ao fabrico de uma cerveja com estas características.

Se optasse, por exemplo, por usar o processo e os ingredientes de uma lager, jamais teria o resultado pretendido.
Mas conhecer o processo eficiente e os ingredientes certos não significa que obterei uma boa cerveja ou que o seu fabrico não seja difícil, complexo e desconfortável.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Varia. Por vezes tenho uma ideia, que até pode declinar num bom título, mas há ocasiões em que o título nasce do texto ou imagino-o a determinada altura da escrita de modo a iluminar o conteúdo do que escrevi.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Não tenho propriamente uma rotina de escrita. Prefiro escrever à noite porque há silêncio e menos solicitações externas, mas tomo notas na fila do supermercado, escrevo em hotéis, aeroportos, aviões, cafés…

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Conforme a qualidade das críticas. São especialmente más, e não tão incomuns, quando são ad hominem.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

Talvez os primeiros prémios, porque os inícios costumam ser difíceis e qualquer ajuda extra é sempre importante.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Faço o possível por me superar e fazer o melhor que sei.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevo depois de pensar ou de estruturar uma narrativa e não me sento para escrever sem esse trabalho prévio. Um bloqueio de escrita é possível se nos sentarmos para escrever sem quaisquer ideias, sem ter pensado, imaginado, estruturado de alguma forma o que pretendemos fazer.

19. Quem são os teus autores de referência?

Alguns que nomeei antes como mentores.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos. Gostaria de ter tido a ideia que levou Edwin Abbott Abbott a escrever Flatland. Gostaria de ter escrito sobre a graça como Weil, de ter imaginado algumas parábolas de Chuang Tsé, de ter escrito alguns parágrafos de Bruno Schulz ou Michaux, de ter sido o autor de The Giving Tree, de Shel Silverstein, ter escrito o conto Bontzie, o Silencioso, de Peretz, de ter pensado em todas as parábolas geométricas que Nicolau de Cusa inventou e de ter escrito o Elogio da Calvície, de Sinésio de Cirene.

Joana Azevedo: “Gostava de ser terapeuta de casais ou presidente da Junta”

Joana Azevedo: “Gostava de ser terapeuta de casais ou presidente da Junta”

Comecei a ouvir a voz da Joana, na rádio, pois claro, há cerca de 4 anos.
À tarde, obviamente. Ouvia a Comercial no computador, quando estava a trabalhar e também no carro, quando tinha de fazer o comute entre o edifício Impresa, em Paço de Arcos, e as antigas instalações da SIC, em Carnaxide.

Durante esse período de quase 2 anos em que fui fazendo o horário da tarde/noite, ouvi muitas vezes o Já Se Faz Tarde, onde pude imediatamente perceber o tom cúmplice e amigo que existe desde então entre a Joana e o Diogo Beja – seu parceiro inseparável de Antena.

Nas primeiras vezes que a ouvi e comecei a prestar atenção ao que ouvia, às conversas descomplexadas e soltas entre os dois, houve imediatamente uma coisa que me prendeu a atenção e que cheguei a comentar várias vezes em casa, com a Ana: a gargalhada inconfundível e contagiante da seu dona Joana Azevedo.

E foi assim que comecei a tornar-me fã da sua forma genuína de comunicar e de dizer as coisas na rádio. Porque a Joana sabe falar com quem está deste lado. Sabe ser a simpatia que uma voz sem rosto é para um ouvinte de rádio que tem nos profissionais que lá trabalham uma companhia invisível.

Depois comecei a “conhecê-la” um pouco “melhor” no Twitter, onde descobri outra Joana, que se apresenta ao mundo com uma BIO muito característica, a fazer pandan com a gargalhada que soltava nos microfones:

“Portuense, mãe, afagadora de gatos, garota de programa: Já Se Faz Tarde, 17h-20h na Rádio Comercial e Podcast Cada Um Sabe de Si. I’m a perennial”

A Joana representa o que, na minha modesta opinião, de melhor existe na comunicação em Portugal:

  • genuína, autêntica, irreverente, empática, sincera, astuta, inteligente, perspicaz e consciente.

Foi também por isso que foi a ela que dediquei as “honras de Estado” de ter a entrevista publicada no Dia de Portugal.

Não é escritora. Não é crítica literária nem editora de livros. Não é jornalista, mas já fez televisão… mas tal como todos estes profissionais, trabalha diariamente (e muito bem) com as palavras.

Ganhou o seu espaço na rádio com personalidade e inteligência e hoje, para meu enorme prazer, é a minha convidada em mais um Viver das Palavras, que começa, como sempre, com a pergunta da praxe, que foi transformada em pergunta nº1, tal foi a resposta que a Joana me deu.

1. Quem é a Joana Azevedo?

A Joana Azevedo nem sempre sabe quem é, mas sabe quem não quer ser, e isso já ajuda a traçar caminho. Vamos aos factos: nascida e criada na freguesia de Paranhos, no Porto.

Estatura pequena, franzina, rabina e sonsa para quem não conhece.

E agora percebi que estava a escrever sobre mim na terceira pessoa.
Já parei.

O gosto pela música terá vindo do meu pai, sempre trabalhou em editoras discográficas e eu dormia sestas nas caixas de discos. Gosto muito de estar sozinha ou com gatos, desde miúda. Levava os gatos para casa (também cheguei a levar cães) e a minha mãe obrigava-me a encontrar famílias para eles, que não a nossa.

Foto: Rádio Comecial

Se tivesse cedido talvez não saísse de casa tão cedo, nunca se vai saber. Saí do Porto aos 21 anos para um estágio de produção na Rádio Comercial, Rua Sampaio e Pina, Lisboa. Sozinha, finalmente à solta depois de uma adolescência bastante vigiada, com vinte e poucos anos. Pois. Com toda a loucura à mistura, consegui manter-me na rádio até hoje.

Passei pela produção da Rádio Comercial, animação nas manhãs da Cidade Fm, pouco tempo como copy na Smooth Fm (escrevi os primeiros jingles/liners), voltei à produção na Rádio Comercial e, há 5 anos, comecei a fazer dupla com o Diogo Beja no Já Se Faz Tarde, das 17h às 20h na Rádio Comercial. Fiz reportagens para o programa Música do Mundo na Sic Notícias e, tal como quase todos os portugueses, apresentei o Curto-Circuito na Sic Radical. Pelo meio lá atinei, adoptei os gatos que quis e tive um filho.

2. Não és escritora. Não és copywriter. Não és jornalista. Mas trabalhas muito com as palavras. Todos os dias. O que é que fez seguir este caminho?

Não sendo a principal função, também sou copywriter na rádio. Escrevo Live Copys, que são os textos publicitários que dizemos na emissão. Escrever textos para a voz dos outros, foi o que comecei por fazer, também chamado de produção de conteúdos. O que me fez ir por este caminho foi, precisamente, a voz dos outros. As palavras ditas e ouvidas. A ideia não era usar a minha voz, não pensei que fosse possível no início. A ideia era escrever para vozes que eu gostava de ouvir. A sensação de ouvi-las dizer palavras escritas por mim. Ou seja, uma certa vaidade.

3. Como é que prepararas as entrevistas que fazes no podcast?

No Cada Um Sabe de Si temos tempo para ouvir e conversar. Normalmente, as produtoras fazem uma pesquisa sobre o convidado ou a convidada com biografia, entrevistas, vídeos, artigos, tudo. A partir daí percebemos em que pontos gostaríamos de pegar. MAS – não escrevo as perguntas. Sempre que escrevi correu menos bem, foi menos espontâneo.

Ficamos agarrados ao que queremos perguntar e não ao que estamos a ouvir. Prefiro deixar-me levar pelo entrevistado, é ele que conduz. Isto é possível porque se quer que seja mais uma conversa e menos a entrevista pura e dura.

4. Porquê a Rádio, Joana? O que é que a Rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem?

Porque eu sempre ouvi rádio, sempre gostei de ouvir rádio e, um dia, apeteceu-me saber como era o outro lado.

A primeira vez que entrei num estúdio de rádio senti um formigueiro estranho, parecia um sinal, um íman. Se eu fosse crente diria que tinha sido uma experiência sobrenatural, espiritual, sei lá.

A Rádio permite uma proximidade com o ouvinte, com as pessoas, que não existe em mais nenhum meio de comunicação.
É um tu-cá-tu-lá muito saudável, como se fosse uma comunidade, um grupo de amigos de milhares de pessoas.
O perigo é fechar a comunicação, recorrer a private jokes ou gags que excluam os novos ouvintes. É uma gestão complicada.

Não podemos brincar aos arquipélagos, devemos sempre contextualizar, receber novas pessoas, não excluir ninguém. Faço-me entender?

É que, nos grupos de amigos a tendência é para fechar o círculo, usar códigos de entendimento exclusivos. E não podemos fazer isso em rádio.

Durante

5. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Na rádio, os animadores da extinta Rádio Energia.

Fora da rádio, a Diane Keaton, a Elaine do Seinfeld (a personagem, mesmo) e a Rita Blanco.

6. Já tiveste vontade de fazer outra coisa?

Gostava de ser terapeuta de casais. Ou presidente da Junta ahahah.

7. Qual foi o teu melhor momento atrás do microfone?

Não consigo escolher um só.
Mas posso dizer que o Já Se faz Tarde apanhou-me na melhor fase.
Ou fez de mim melhor profissional. Tem a melhor equipa, o que ajuda quase tudo.

Com o companheiro de Antena, Diogo Beja

8. E o mais difícil?

Os mais difíceis são as emissões de homenagens póstumas.
Lido muito mal e fico sempre bloqueada. O luto faço-o em silêncio e, por isso, ser forçada a falar sobre a morte de alguém é-me contra-natura.

9. Tens vergonha de alguma coisa que tenhas dito ou feito com o micro ligado?

Tenho mais vergonha de coisas que fiz longe dos microfones de rádio.
Claro que há coisas que disse que, hoje em dia, nunca diria.
Quando temos vinte e tais queremos muito chocar, não é?
Podia ter usado essa coragem para algo mais útil e generoso.
As novas gerações são mais combativas e atentas ao mundo – woke – como se diz agora. A nossa era muito virada para o umbigo.
Mas tenho a esperança de ter evoluído como ser humano e, por isso, como profissional.

10. O que é que te dá mais gozo fazer: o Já se Faz Tarde ou o Cada um Sabe de Si?

Os dois. Divirto-me a fazer os dois.

11. Quem é que teve a ideia para o nome do Podcast?

Demorámos imenso tempo a escolher, adiámos o início por não conseguirmos encontrar um nome.
Havia um que era o “Com Trastes” mas não nos convenceu, parecia que estávamos a chamar trastes aos convidados. Não me lembro exactamente quem teve a ideia, mas é uma expressão que dizemos algumas vezes.
Cada Um Sabe de Si.

12. Sei que não gostas de fazer rádio sozinha. O que é que te falta quando estás sozinha na antena?

A contracena. Gosto de provocar reacção e de ser provocada, gosto dos passos dessa dança de faísca a fingir. “It takes two to tango”. É o tipo de rádio que gosto de ouvir e fazer.

13. O que é que te falta fazer em rádio?

Marketing.

14. A tua gargalhada é inconfundível e adorada por milhões de pessoas. Como é que lidas com o lado da “fama” que a rádio te traz?

 A fama que a rádio traz é pacífica e não invasiva.
É raro virem ter comigo, acontece mais fora de Lisboa, mas não o suficiente para sequer poder falar em fama. É mais uma vantagem da rádio em relação à televisão, é tudo mais discreto.

De volta aos estúdios da Comercial

15.  Como é que reages às críticas?

Depende da crítica e de quem faz a crítica. Mas faz parte da função. Se não tivesse críticas também poderia significar indiferença, que é capaz de ser pior do que saber que há pessoas que não gostam do nosso trabalho.

16.  Já recebeste mensagens desagradáveis ou críticas destrutivas e maldosas?

Claro que sim. Mas há outras engraçadas. A última crítica que recebi foi de alguém que não gostava da forma como eu respiro no ar. Dizia, no email que enviou para a rádio, que sugo saliva e que o Diogo me imita a sugar saliva. Teve graça.

17.  Aquilo que sinto por te ouvir, por te ler no Twitter, ou te seguir no Instagram é que, por trás da profissional de rádio, está uma pessoa com um coração enorme, emotiva, amiga, e que protege os seus com tudo o que tem.
És feliz por seres como és, ou gostavas de ser outro tipo de pessoa com traços de personalidade que gostavas de ter e que não tens?

Gostava de ser mais pro-activa. Eu indigno-me muito no sofá e levanto-me pouco para fazer alguma coisa por isso. Mas ser boa pessoa é um processo que dá trabalho e está sempre inacabado. Desde auto-conhecimento, auto-perdão, assumir erros e culpas, auto-policiamento.
Espero estar a evoluir e não a regredir. Às vezes a raiva dos outros afecta-nos, contagia-nos e o mundo movido a raiva não ampara ninguém.

18.  Acreditas que és boa naquilo que fazes?

 Há melhores, há piores. Acho que tiro proveito das minhas capacidades.

19. Continuas a ficar nervosa antes de ir para o ar ou já é tudo “normal”?

Quando faço alguma coisa pela primeira vez fico nervosa ao ponto de bloquear. Sofro muito dos nervos. Mas fazer o programa com o Diogo é como estar num bar à conversa com amigos, tenho muita confiança nele e relaxo.

20. Gostas de ler? Quem são os teus autores de referência?

Gosto do Phillip Roth, adoro a Dorothy Parker e tenho pena que não tenha escrito mais, tenho muita inveja da maneira como escrevia. Gosto de autores brasileiros, li o Nu de Botas do António Prata de uma vez só. Dos portugueses, tantos, Afonso Cruz e Dulce Maria Cardoso. E vou sempre folheando Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria. Prefiro ler em português.

21.  Há alguma pessoa que já tenha morrido e que gostasses muito de entrevistar no Cada um Sabe de Si?

O António Variações.

22.  Se amanhã te dissessem que era o último programa que ias fazer e que podias ter o convidado que quisesses. Quem é que escolhias?  

O Miguel Esteves Cardoso porque tem um dom de observação e por em palavras o que observa. Gosto de o ouvir e seria uma oportunidade para o ouvir mais uma vez

23. Para ti, as palavras são…

Pontes.

Obrigado, Joana!

Pela sinceridade, verdade, honestidade e profundidade das tuas respostas.
Por não teres medo das palavras e por usares tão bem as mesmas.

Se queres conhecer um pouco mais da Joana, segue-a no Twitter ou no Instagram.

Partilha a entrevista no teu perfil ou com alguém que aches que vai adorar saber mais sobre a Joana Azevedo.

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Conheci o trabalho do Bruno Vieira Amaral quando ainda estava a trabalhar no Expresso, no final de 2017, princípio de 2018.
O Zé Cardoso e o Germano falavam dele com frequência e o nome foi-me ficando, bem como os textos/contos que iam aparecendo.

Percebi logo ali que ele escrevia maravilhosamente bem.
Ah, e que escrevia sobre desporto, também.

Em 2020 começou a assinar semanalmente a rubrica “Dejá Vú – o futuro foi ontem”.

Para me preparar para esta entrevista procurei saber um pouco mais sobre este que é mais um dos talentos confirmados da nova geração de escritores portugueses. Vencedor, entre outros, de um Prémio José Saramago – que não é coisa de somenos – do Prémio Fernando Namora e do Prémio TimeOut.

Assim, na semana passada comprei o seu hoje estarás comigo no paraíso e assim que o abri, na primeira folha, deparei-me com isto:

“(…) Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir.
Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância. Não são os mortos que clama por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.”

Pensei de imediato:
– Prendeste-me, Bruno. Vou ler-te muito em breve. Ai vou, vou.

Mas antes disso, antes disso está isto. Está esta entrevista.
E, porque é a ti que te quero apresentar o Bruno, aqui fica a resposta dele à pergunta habitual. Quem é o Bruno Vieira Amaral?

Sou um escritor português, de 42 anos.
Condições temporárias, exceto a nacionalidade, que não prevejo que me venha a ser retirada nos próximos tempos.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no festival literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

Postas de lado as formalidades informais, aqui fica então a conversa.
Aqui fica o Bruno.

1. Quando é que sentiste que tinhas (e querias) que escrever?
Que querias fazer disto vida. Lembras-te que idade tinhas?

Não sei. Não houve nenhuma epifania. Não fiz planos. Fui aproveitando as oportunidades que me foram aparecendo. E é isso que continuo a fazer.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Talvez um texto na primária em que respondi à pergunta “o que é para ti o amor?” com qualquer coisa como “o amor não tem definição.”
As professoras ficaram muito intrigadas com a resposta, desconhecendo que eu a tinha roubado a uma entrevista da Isabel Bahia, então locutora de televisão, à TV Guia.

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

A primeira vez que me pagaram por um texto foi há onze anos. Senti que estava a enganar alguém porque tê-lo-ia escrito sem mo pagarem.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Era uma das minhas fontes de rendimento, mas não a única, nem a principal. Colaborava em revistas e jornais.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Naquela altura? Ninguém.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

A pessoa responsável por hoje ganhar a vida a escrever sou eu. O que não significa que não esteja grato a todas as pessoas que, apreciando o meu trabalho, me deram oportunidades para o desenvolver.
Têm sido muitas ao longo destes anos.
A mais importante foi, sem dúvida, o meu editor e amigo, Francisco José Viegas.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de fazer alguma coisa completamente diferente?

Já, mas depois ganho juízo.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer agora?

Não faço ideia. Talvez fosse responsável de secção de uma loja da Staples.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O meu trabalho mais conseguido foi o meu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no Festival Literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Gosto muito de escrever crónicas, que são muito imediatas. Mas é nos romances que encontro o meu espaço.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Sempre pelo texto porque começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo a qualquer hora. Como tenho prazos, não há muito espaço para fantasmas e angústias. Nos romances é um pouco diferente. Escrevo quando me apetece.

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Depende das críticas. Quando vêm de semi-analfabetos, não lhes dou importância. A mesma coisa quando o objeto da crítica não é o meu trabalho. Às restantes, tento não atribuir demasiado valor, sejam positivas ou negativas, porque não podem alterar aquilo que escrevi.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

O mais importante foi o Prémio José Saramago. O que me emocionou mais, pelas circunstâncias em que recebi a notícia, foi o Fernando Namora.
Mas o prémio da revista Time Out é capaz de ter dado um empurrão decisivo ao meu primeiro romance.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Só deves fazer aquilo em que achas que és bom e em que, ao mesmo tempo, sentes que podes melhorar. Se não achas que és bom ou se acreditas que não podes melhorar, então o melhor é mudares de profissão. Quando me sento a escrever, a convicção de que sou bom naquilo que faço não me serve de grande coisa. Ao contrário de um pintor de paredes ou de um carpinteiro, o escritor pode escrever uma grande crónica hoje e amanhã escrever uma crónica que não vale nada. A criação é muito mais do que uma questão de técnica, por isso a solução é escrever cada texto como se fosse o primeiro.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevendo.

19. Quem são os teus autores de referência?

Mario Vargas Llosa, Albert Camus, Nelson Rodrigues.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Não. Escrever um livro, um romance, é um processo demasiado ligado ao que sou, em todas as dimensões, para desejar ter escrito um livro que outra pessoa, com tudo aquilo que é, escreveu. Seria o mesmo que desejar ser outra pessoa. E não desejo.

De facto, os escritores são pessoas que admiro muito, mesmo não os conhecendo pessoalmente. Com o Bruno passa-se o mesmo.

Estas entrevistas acabam por me aproximar da forma como pensam e como vêem o mundo.

Obrigado, Bruno.
Pelo teu tempo e pela verdade com que respondeste a tudo e que dá para sentir deste lado do ecrã.

Podes conhecer aqui a obra de Bruno Vieira Amaral e comprar um (ou mais) dos seus livros.

Até para à semana.
No mesmo dia e à mesma hora.