“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

O que vais ler aqui é uma história daquelas que todos nós temos e devemos ler. Seja quando for, seja onde for. Temos mesmo de ler isto.

Descobri-a através do Jorge Araújo, jornalista e editor da Revista E do Expresso. Depois fui conhecê-la mais ao pormenor no site da CNN e fiquei tão impressionado e comovido que tive de a partilhar contigo.

Pouco me importa que aches que isto é lamechas, piegas ou que não acrescenta nada à tua vida.
Se sentires uma destas 3 coisas, faz-me um favor: deixa de me seguir!

Não quero que sintas que a história que aqui te trago hoje te incomoda ou não te diz nada. Porque se é esse o caso, então não temos mesmo nada em comum.

Mas se dás valor à vida e acreditas que o planeta precisa de conhecer histórias assim para se inspirar e para ganhar força numa altura tão crítica, então fica por aí e lê o resto da história que o Jorge teve a brilhante ideia de nos contar.

“Para sempre é muito pouco tempo. A vida é um relâmpago, passa num instante. E o tempo não sabe esperar.

A história de Betty e Curtis é prova disso. Dois antigos colegas de liceu que se apaixonaram. Casaram, tiveram dois filhos e, durante 53 anos, caminharam juntos pela estrada da vida.

Betty, de oitenta anos, foi a primeira a ser apanhada nas malhas do coronavírus. Dois dias depois, Curtis seguiu-lhe os passos e foi internado no mesmo hospital do Texas.

As enfermeiras da Unidade de Cuidados Intensivos sabiam que, na matemática dos sentimentos, um e um nem sempre são dois. Betty e Curtis não sabiam viver um sem o outro.

Por isso, todos os dias, levavam Curtis para a unidade de Betty. Os dois nas nuvens. Como sempre. Para sempre. A vida e a esperança nas linhas da palma das mãos.

Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar.

De repente, Betty partiu para o corredor da morte. Curtis nem precisou de ouvir a notícia para ver os seus níveis de oxigénio baixarem. Desistiu de viver.

Juntos na vida, juntos na morte.

“Assim que ele sentiu que a nossa mãe não iria aguentar, ficou em paz com a decisão de deixar de lutar”, contou um dos filhos à CNN.

Betty e Curtis morreram com menos de uma hora de diferença. De mãos dadas.

Há coisas que a morte não consegue matar.”

A força indestrutível de um amor absoluto

Há sim, Jorge. E esta tua frase é tão absoluta que dói.

O amor é uma força tão poderosa como as forças maiores da Natureza.

E se tu que estás a ler isto, nunca tiveste a sorte de sentir isso, ou se deixaste de acreditar que isso é possível, então só me resta lamentar a tua infelicidade.

O amor pode tudo e há amores que são à prova de tudo.

Vivemos um tempo de incerteza, de medo, de dúvida, de desconfiança e de terror psicológico.

Vimos o nosso mundo ser virado do avesso. Cobrimos a nossa boca e o nosso nariz, por se tratar da única forma de protecção que temos contra um inimigo que nem sequer conseguimos ver. Falamos hoje de um modo diferente. Deixámos de sorrir uns para os outros.

Claro que podemos continuar a sorrir com os olhos, mas… não é, de todo, a mesma coisa. Pois não?

Assim, quis partilhar isto contigo porque acredito que vale a pena. Acredito que vale a pena pensar na vida desta forma. Acredito que separar a vida pessoal da vida profissional é cada vez mais uma estupidez que não faz qualquer sentido. Somos um todo. Não temos caixas dentro do cérebro onde arrumamos as nossas diferentes personagens.

Caramba, se isto não servir de inspiração… o que é que pode servir?

A histórias aproximam os seres humanos desde que somos seres humanos.

As histórias vão continuar a ser o que nos une e… como diz o Rui Veloso, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.

Inês Pedrosa: “Para escrever, é importante ler devagar, ler atentamente”

Inês Pedrosa: “Para escrever, é importante ler devagar, ler atentamente”

Se há uns anos me dissessem que ia entrevistar a Inês Pedrosa, diria de imediato que isso seria impossível. A vergonha tomar-me-ia o espírito de assalto.

Entrevistar um dos grandes nomes da Literatura nacional contemporânea era algo que haveria de estar sempre longe do meu pensamento. Dificilmente acreditaria em tal disparate.

Hoje, em Abril de 2020, a entrevista acontece aqui e chegou com a simplicidade humilde de um pedido feito através de uma mensagem privada (DM) no Twitter.

Inês Pedrosa é escritora, mas antes disso foi, também ela – como acontece com tantos outros autores de sucesso – jornalista.
Tornou-se profissional de comunicação no ano em que eu nasci, em 1983, com a curiosidade de fazermos anos na mesma semana, com 2 dias de diferença. Mesmo signo. Mesma paixão pelas letras, palavras e frases com sentido puro.

Integrou a equipa fundadora d’O Independente e foi ainda redactora da revista LER e do Expresso, entre variadíssimas outras colaborações com mais alguns títulos nacionais.

Pedi-lhe que, num parágrafo, me dissesse quem é A Inês Pedrosa.
Não é uma pergunta fácil, mas a resposta chegou-me assim:

“Quem sou eu? Eis uma pergunta que nunca faço, e que por isso me é difícil responder. Sou uma mulher portuguesa, europeia, que ama o sol, o mar, a noite, as estrelas, a música, as palavras e a alegria, e que por isso gostaria de viver metade do ano no Brasil, onde dizer-se aquilo que se pensa não significa ter-se «mau-feitio», como às vezes, em Portugal, uns senhores me dizem que tenho.

Dou-me muito mal com mentiras e mentirolas, e já deixei de me esforçar para não ser «transparente», pecado que me é ciclicamente imputado.

Sim, sou impaciente, obsessiva, e dizem-me que muito exigente com os outros. Certo é que não sou mais exigente com ninguém do que sou comigo.”

Inês Pedrosa em foto de Alfredo Cunha
Foto: Alfredo Cunha

Mas passemos já às perguntas.

Quando é que começa a aventura da escrita. Ou melhor, como é que a escrita entra na sua vida?

Desde que aprendi a ler e a escrever.

Quando é que sentiu que era isto que queria fazer?

Sempre senti que era isto que queria fazer.

Recorda-se da primeira vez que conseguiu provocar impacto em alguém com algo que tivesse escrito?

Não, porque escrever sempre foi a minha maneira de ser, nunca o fiz com intenção de provocar impacto em ninguém. Durante muitos anos, escrevia só para mim. Em criança escrevia cartas à minha mãe e aos meus amigos, e lembro-me que eles gostavam. E, na escola, trocava redacções por desenhos, com uma amiga que tinha mais jeito para desenhar do que eu – o que não era difícil…

Há quanto tempo escreve profissionalmente?

No jornalismo, desde Janeiro de 1983, quando comecei a estagiar na redacção de «O Jornal» (que hoje é a Revista Visão).
Como escritora, publiquei o primeiro livro em 1991.

Como é que aparece o seu 1º trabalho a sério?

Literalmente, batendo às portas dos jornais.
Comecei a fazer isso no Verão de 1982, nas férias do curso de Ciências da Comunicação que estava a fazer, pensando que no período de férias poderiam precisar de estagiários, e chamaram-me de «O Jornal» seis meses depois.

Há tempos, a propósito da morte de Agustina Bessa-Luís, li uma entrevista sua ao Expresso onde falava sobre a importância que ela teve na sua vida e obra. Foi a sua grande inspiração, ou teve outras igualmente importantes?

Só comecei a ler Agustina aos 22 anos, e tornou-se sem dúvida uma inspiração fortíssima, pelo génio da sua escrita e da sua visão do mundo – e, mais tarde, quando nos conhecemos, tornou-se uma amiga, e uma pessoa que, além de admirar, passei a amar profundamente. Guardo dela recordações inesquecíveis, e passei com ela dias muito felizes.

A primeira influência literária forte que tive foi a de Camões, cujos poemas o meu avô materno me recitava, quando eu ainda nem sabia ler, passeando comigo de barco no rio Nabão, em Tomar.
E depois, os livros infantis de Sophia de Mello Breyner Andresen, e os contos de Hans Christian Andersen.

Destaco também os romances juvenis de Frances Burnett e Berthe Bernage, a poesia de Eugénio de Andrade, os romances de Erico Veríssimo, os ensaios de Nietzsche, os romances de Camilo Castelo Branco, as Novas Cartas Portuguesas das Três Marias, que li muito novinha, às escondidas, porque era um livro proibido. Tive muitas e variadas musas. 

Teve algum mentor? Alguém que possa dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a sua vida?

Mentor, terá sido esse meu avô Domingos que me recitava Camões, e que era um capitão do exército, praticamente autodidacta.

Tive a sorte de ter alguns bons professores, que me marcaram e depois, no jornalismo, encontrei figuras com as quais aprendi muito, como Fernando Dacosta, editor de cultura de «O Jornal», que me apoiou muitíssimo no início da profissão, Fernando Assis Pacheco ou António Mega Ferreira, que foi meu chefe de redacção no JL, onde entrei em Julho de 1984, a convite do José Carlos de Vasconcelos e dele, depois de um ano e meio de estágio ( gratuito) n’O Jornal.

Já teve vontade de parar de escrever?

Nunca.

Se não fosse escritora, quem seria a Inês Pedrosa?

Não faço a mínima ideia; nunca quis ser outra coisa. Muito menos feliz, certamente.

Qual foi o seu melhor trabalho até hoje?

Penso que o meu último romance, «O Processo Violeta».
Se não pensasse que melhoro a cada romance, creio que não teria energia para continuar, porque escrever um romance é um trabalho muito intenso. E a criação da «Sibila Publicações», em 2017, uma editora onde vou publicando livros de que gosto e que me parecem importantes.

Tem vergonha de alguma coisa que escreveu?

Não. Vergonha de quê? Dá-se o que se pode, dá-se o que se tem, a cada passo do nosso percurso. Basta-me a consciência de que dou o melhor de mim em tudo o que faço.

O que é que gosta mais de escrever?

Romance. Ficção.

Por onde é que começa? Pelo texto ou pelo título?

Começo por uma situação, uma personagem ou uma história que me intriga.

Alguma vez fez algum tipo de formação ou treino para aprender a “escrever melhor”?

Não há «escrever melhor»; o que há é a busca de uma voz, de uma verdade interior. Penso que a minha formação em Ciências da Comunicação, do modo como era feita na Universidade Nova de Lisboa, um curso de análise semiológica do mundo e da história humana, me ajudou bastante.

Ler intensamente Roland Barthes, Julia Kristeva e Jacques Derrida ensina-nos, não só a descodificar a sociedade contemporânea, mas a perceber o poder e as armadilhas da escrita.

Agora estou a escrever a minha tese em Literatura Comparada, depois de ter feito o curso de doutoramento, e sinto que o conhecimento, a reflexão e a escrita sobre outros textos literários alimenta o meu próprio trabalho criativo. Para escrever, é importante ler devagar, ler atentamente. Não basta ler muito, é preciso mergulhar na leitura e pensar criticamente sobre o que se lê.

Há quem escreva só de manhã, só à noite, ou sempre à mesma hora. No dia-a-dia, como é que a Inês escreve? Tem alguma rotina, ou escreve quando calha?

Odeio rotinas. Quando estou a escrever um romance, escrevo continuamente – em geral, pela noite e pela madrugada fora, porque sou noctívaga.

Lida bem com prazos ou prefere escrever sem pressão?

Tendo sido jornalista desde os 19 anos, obviamente que lido bem com os prazos: nunca falhei um prazo num jornal. Mas um trabalho criativo de fundo não se compadece com prazos. Nunca aceitei compromissos editoriais: seria capaz de entregar um livro por ano, porque tenho essa disciplina jornalística, mas não seria o livro que eu quereria escrever: há romances que se escrevem de um jacto, outros que necessitam de muito tempo.

Como é que reage às críticas?

Como qualquer outro escritor ou artista – com alegria, quando são positivas, e com mágoa, quando são negativas.
Procuro não me deixar afectar pelas reprimendas nem pelos louvores – claro que, quando o New York Times recentemente elogiou o meu primeiro romance publicado nos Estados Unidos da América me senti levitar, até porque os críticos do New York Times não me conhecem, não são meus amigos ou inimigos, como necessariamente são todos os nossos críticos aqui em Portugal…

Mas nunca entro em grande desassossego, porque conheço relativamente bem a História da Literatura e da Crítica; «Moby Dick», de Melville, por exemplo, foi desprezado, não só pela crítica como pelos leitores da sua época, e hoje faz parte do cânone universal.

Tudo é muito relativo, e o objectivo da arte é o de entender as falhas e a desarrumação da vida e da sociedade, não o de se arrumar nela e ser compreendida e afagada pelos códigos vigentes.

Acredita que é boa naquilo que faz?

Se não acreditasse, não o faria, porque sentiria que estava a enganar as pessoas. Uma vez fizeram exactamente essa mesma pergunta malévola à Agustina, e ela respondeu que podia garantir a qualidade da sua escrita, do mesmo modo que esperava que um marceneiro a quem encomendasse uma mesa lhe garantisse que a mesa teria qualidade e solidez.
Surgiu logo um coro de gente ignara a chamar-lhe vaidosa – curiosamente, quando António Lobo Antunes repete que escreve com a mão de Deus, ninguém parece escandalizar-se…

Tem “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lida com eles?

Nunca tive. Só me queixo de bloqueios de tempo para escrever ininterruptamente…

Quem são os seus autores de referência?

Autores que me inspiram, muitíssimos – já falei de vários, mas só quem leu muito pouco pode mencionar apenas meia-dúzia de nomes, tão variada e poderosa é a literatura universal.
Autores «de referência», nenhum: a referência de um escritor tem de ser a sua verdade, o seu conhecimento, a sua ignorância, a sua inocência, a sua imaginação, o seu pensamento, a sua coragem, a sua capacidade de arriscar.

Há algum livro de outra pessoa que a leve a dizer: “Caramba, gostava tanto de ter sido eu a escrever aquilo”?

Não. Fico genuinamente feliz com o talento dos outros.
Um livro muito bom – e há tantos! – impele-me a escrever mais, e desejavelmente melhor, os meus próprios livros.

A literatura não é uma competição, é uma conversa apaixonada e variada através dos séculos.

Obrigado, Inês. Agradeço-lhe muito a simplicidade, a simpatia, a humildade e a dose industrial com que respondeu às minhas perguntas. Até breve.

João Quadros: “Acho a condição humana muito triste”.

João Quadros: “Acho a condição humana muito triste”.

Ainda não tenho a sorte de o conhecer pessoalmente – isso vai ficar para depois – mas sou um admirador confesso do trabalho daquele que é, sem grande margem para contestações e pelas palavras do próprio, o homem com “o melhor currículo como argumentista de humor em Portugal” e que escreveu, entre milhares de outras coisas, o guião e os textos de um dos pontos altos da carreira de Herman José – Herman Enciclopédia.

O meu primeiro convidado chama-se João Quadros e se há coisa que consegue sempre que abre a boca ou bate nas teclas (ou no ecrã do seu smartphone) do computador, é fazer com que ninguém fique indiferente ao que diz ou ao que escreve.

Foi a 1ª pessoa em que pensei quando tive a ideia de fazer isto e o primeiro a dizer que sim.

Pedi-lhe um perfil. Ou melhor, pedi-lhe que me escrevesse umas linhas para me dizer quem é o João Quadros e não o que é que o João faz.
E foi assim que se descreveu:

“O João Quadros é um tipo que não gosta muito de pessoas e da vida em geral. Adoro os meus filhos. Vivo em grande parte só por causa deles. São tudo para mim. Preciso muito de espaço e de estar sozinho. Odeio injustiças, o meu coração acelera. Não acredito em nada pós morte, nem tenho medo de morrer. Talvez por isso não tenha medo físico de nada. Tenho várias depressões. Na verdade eu nunca compraria um bilhete para a vida. Acho a condição humana muito triste.”

E assim, sem mais nem menos, na última frase, do seu perfil, o João deu-me o título desta entrevista.

João Quadros_O_que_dizes_tu
Pedro Rocha / Global Imagens

Porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

É a minha profissão.
Eu nunca gostei do que fazia – Gestão Financeira – e desde pequeno que escrevia pequenos contos. O meu pai é um grande leitor e eu herdei isso dele – até aos 40 não me lembro de ter passado um dia sem ler.

Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Desde sempre. Desde que me lembro que sempre tive o sonho de escrever um livro, um filme, etc. Fui atrás disso.

Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Foi na quarta classe.
Toda a gente achava que eu era maluco porque as minhas redações fugiam totalmente ao estilo que era esperado.
Se havia a habitual redacção da vaca e do leite, eu fazia-a partindo do ponto de vista do leite. O leite era uma família num copo e vinha uma pessoa que bebia o avô e a avó, e por aí fora.

Quando é que começas a ser pago para escrever?

Assim que escrevi o primeiro sketch. O Nuno Artur Silva estava a fazer as Produções Fictícias e tinha começado a escrever para o Herman (José).
Tinha-me despedido da Gestão e depois inscrevi-me num curso de escrita criativa.

Para aí na quinta aula o Nuno perguntou-me se queria experimentar escrever um sketch para o Herman José. Claro que eu disse que sim.
Escrevi o “Eu é que sou o Presidente da Junta” – o Herman adorou e no fim-de-semana seguinte o sketch estreou na RTP1, no Parabéns.
Recebi 150 contos. O que na altura era muito dinheiro.

O que é que fizeste ao dinheiro?

Gastei tudo na noite.

Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Foi o Nuno que me descobriu, mas foi o meu médico, pediatra – Doutor Ramos de Almeida – e que me fez nascer, que quando leu as minhas redações, porque pensavam que eu era doido, adorou e incentivou-me a escrever – Publicavam os meus contos no DN Jovem.

Já tiveste vontade de parar de escrever?

Gosto de parar durante um mês, ou assim. Mas não mais do que isso.

Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Não faço ideia. Eu fui o melhor aluno a matemática quando estava na Universidade. Talvez tentasse qualquer a ver com exploração espacial.

Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

O Herman Enciclopédia, o Último a Sair e alguns episódios do Tubo de Ensaio (Podcast na TSF, escrito por mim e narrado pelo Bruno Nogueira).

Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Claro. Tive de escrever coisas como a Gala da TVI. Não gostei. Tive vergonha. Mas dá dinheiro.

Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

Texto. Eu não penso no que vou escrever. Começo e vou por ali fora. Vejo as imagens na minha cabeça e escrevo.

Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Há muito, muito trabalho. Mas sem talento, não dá.

Disseste-me, há uns tempos, que escreves quase sempre à mesma hora. Para além disso, no teu dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Tenho muitas rotinas. Trabalhar em casa obriga a isso. Caso contrário arrastas o trabalho durante o dia todo.

Como é que reages às críticas?

Não ligo muito, nem às boas nem às más. Acho que tenho noção quando faço bem ou mal.

O que é que achas do teu trabalho?

Nessas coisas não tenho problema nenhum em dizer que tenho, de longe, o melhor currículo em Portugal como argumentista de humor.

Tens autores de referência?

Tenho, mas mais na escrita de romance, como o Joseph Conrad. Mas claro, a nível da escrita de humor há os Monty Python e o (Ricky) Gervais

Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Tudo o que o Conrad escreveu. Gosto sobretudo que os heróis dele tenham vários defeitos.

Tens quase 180 mil seguidores no Twitter. Qual é o papel da rede na tua vida profissional?

É como o pequeno bar onde vou testar piadas.
É também um personagem que inventei – @omalestafeito – para ter contacto com as pessoas. Eu não gosto muito de aparecer. 

Obrigado, João. Até breve.

Gostaste da entrevista? Deixa um comentário por aqui ou partilha-a nas tuas redes sociais.

Fica atento às próximas entrevistas.

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

São tempos áureos estes que vivo desde que fui pai. (Ah até que enfim. Sempre sonhei começar uma dissertação desta índole pela expressão: “são tempos áureos”. Que maravilha.)
A imensidão da felicidade que atravessa por completo o espectro da minha existência torna-se cada vez mais difícil de contar, de partilhar, de desconstruir, de conversar sobre. Isto por si só não constitui qualquer problema, uma vez que gosto particularmente de coisas difíceis, complicadas, complexas.
Mas há, creio eu, uma explicação (não sei se entendível ou não) para tudo isto que é muito. É tanto. Se é.
Creio que a dificuldade a que me refiro possa estar ligada ao facto de me sentir acometido de uma espécie de necessidade totalitarista e egoísta de reter absoluta e absurdamente tudo o que vivo com a minha filha. Isto é, há uma necessidade bastante pronunciada de devorar e absorver todos os momentos, os cheiros (até os piores, sim…), os sorrisos, os sons, os gestos, os olhares, os toques, as brincadeiras, as aprendizagens, o crescimento, TUDO. Invariavelmente.
Só para mim. Só para nós.
Dizia eu que a vontade que tenho é de deixar fugir mesmo muito pouco ou quase nada. Porquê? Sei lá eu. É o que sinto. Ponto. Não há grande lógica por trás de uma coisa destas, é certo, mas isto faz parte da vida pensada a que Fernando Pessoa se referia. Na prática, nada disto é assim.

No entanto, e voltando à minha vontade, por é que disso que este exercício trata, é exactamente aquilo que disse acima. Apetece-me guardar e viver tudo. Às vezes apetece muito. Mas depois acalma-se a coisa.

Afinal de contas, tudo isto é perfeitamente compreensível, pelo menos na minha modesta e isentíssima opinião, uma vez que se trata da minha filha, caramba. É a minha primeira filha. Compreendem? Talvez não. Mas também pouco importa.

img_9397

Deus sabe (digo eu) que esta brincadeira de ser pai pela primeira vez, ainda para mais de uma menina, muda a forma como um homem passa a olhar de frente para as fuças da vida.
É sim, é a preciosidade maior que tenho nesta fugaz existência.
É sim, tremenda, a sensação de absurda felicidade que me invade os olhos, para depois me percorrer alegremente as veias e chegar a todos os recantos do meu 1,80m.

Mais ninguém neste planeta rasga os olhos de alegria e abre a boca num sorriso puro de felicidade sempre que me vê chegar a casa do trabalho, nem mesmo a minha querida e adorada esposa ainda mantém intacta esta alegria pura e desinteressada.
Passaram-se horas desde que me viu pela última vez, que, regra geral, é sempre antes de adormecer novamente, já no finalzinho da madrugada, de novo deitada, dizendo-me em surdina que me ama e que é a minha menina, a minha princesa adorada e tão desejada.

Não têm preço as entradas em casa quando ela está acordada.

Os segundos em que o tempo congela (não estou a falar do #MannequinChallenge) são segundos em que toda a vida que te invade as artérias parece estacar-se ali mesmo, diante de ti, naquele mesmo tapete redondo, amarelo mostrada, de pelo curto, agradavelmente disposto à entrada, para nos dar as boas vindas. E ali me planto, por baixo da ombreira da porta da sala, numa sucessão aparentemente furtuita de segundos tão absolutamente perfeitos que chego mesmo a esquecer-me da loucura do mundo em que vivemos e me foco unicamente no sopro de vida que enche os meus olhos e pelo qual sou e serei eternamente responsável.
Ser jornalista tem destas coisas. Vemos demasiado. Vemos bem mais do que aquilo que queríamos ver. Chegamos a casa, não poucas vezes, com a cabeça atafulhada de imagens estúpidas que contam e mostram o que de pior acontece no país e no mundo. Mas tudo isso parece esfumar-se quando chego à porta da sala, da cozinha, do teu quarto, e me deixo apanhar por aqueles segundos intermináveis em que a minha filha pára imediatamente o que está a fazer e fica também ela a olhar para mim.
Começa a sorrir de cima para baixo: rasgam-se e acocoram-se-lhe os olhos ao mesmo tempo que se enchem de uma luz que impressiona, sobretudo pela candura da idade. De seguida, não logo mas pouco depois, abre-se-lhe o sorriso, – Meu Deus, como é perfeita toda esta valsa – agitam-se as mãos e as pernas, pinta a cara com um pouco da cor que a vergonha já vai trazendo aos bebés desta idade e ali fica, à espera que largue tudo, que poise a mochila, tire o casaco, lave as mãos e por fim a pegue ao colo.

Depois, com as duas mãos, agarra-me cada uma das faces, sorri, esfrega a cara no meu peito, volta a levantar a cabeça como que a querer certificar-se de que sou mesmo eu que estou na frente dos seus olhos enormes, sempre muito abertos, a querer dar fé de tudo o que a circunda e envolve, e repete o gesto, como repete o sorriso. Com aquele felicidade estampada no rosto. Aquela felicidade que a inocência e o pouco que sabe da vida lhes confere. Ser feliz é uma missão e dá trabalho. Calma, filha. Um dia falar-te-emos de tudo isso.

Não tem explicação plausível, ou, pelo menos, ainda não lhe encontrei o poiso, à explicação, entenda-se, que a este amor que sinto, para ele, tenho explicações de sobra, ainda que não estejam devidamente arrumadas e fechadas nos seus devidos lugares. É somo se soubesse que o sei, mas não soubesse como faço para o saber na verdade. Sei que sinto, mas não sei como definir objectivamente o que sinto. Conclusão: não há objectividade possível num amor tão tremendo e arrebatador, num sentimento tão sanguíneo, tão vulcânico, tão avassalador.

Assim sendo, resta-me por enquanto prosseguir com esta embriaguez saudável e sem ressaca que as sensações que experimento diariamente, às mãos de uma bebé de 6 meses, tão perfeitamente perfeita, tão lindamente linda, me têm proporcionado.
Bebedeiras tão deliciosamente boas estas. Sem vidros partidos. Sem discussões. Sem confusões. Caramba filha, que é tudo tão maravilhoso quando estou contigo.

img_5149-copy

Olho para ela e vejo-a assim, tão assutadoramente indefesa e a precisar de todo o amor que tivermos para lhe dar, sem qualquer tipo de reserva, sem qualquer laivo de frustração ou do que quer que seja que não um princípio basilar de amor total, de entrega plena, de imersão no mundo em que vive e que ainda é tão diferente daquele em que vivemos nós.

Não sei ser de outra forma. Não sei amar-te de outra forma que não esta, minha querida e adorada filha. Luz que dá cor ao meu rosto. Brilho no meu olhar. Vida que traz vida a cada novo acordar. Seja a que horas for… (sim, mesmo quando acordas pela madrugada dentro e queres conversar)
Não cabe sequer em mim nada mais que não o amor e a dedicação completa a esta família que escolhi, que criei, que jurei proteger e defender de tudo o que possa tentar ameaçá-la.
Não queria outra vida. Não queria nada mais do que aquilo que tenho agora. Queria apenas que tudo isto durasse para sempre. Que a felicidade não tivesse de ser interrompida, aqui e ali pelas obrigatórias e incontornáveis obrigações a que nós, os “crescidos” não conseguimos, invariavelmente, fugir.

Ser pai muda tudo. Ser pai deita por terra todos os teus proto-conceitos de vida, de realidade, de inteligência, de sensibilidade, de humanidade. Ser pai é para sempre. Não há meios-pais, como não há meis-filhos. Ser pai é ter a noção de que vais falhar, vais errar, vais chorar, vais rir, vais consentir e vais negar, mas mais do que qualquer outra coisa. Ser pai é encaminhar, é acompanhar, é a mão que se ergue do alto quando eles olham para cima e procuram a segurança inabalável que lhes traz o nosso olhar, a nossa mão que os ajuda a caminhar. Quero isto tudo e ser o dobro do que aqui não digo.

Não, não me esqueço de como começou este artigo.
Um dia, mais tarde, saberei que foi justa e justificada a vontade de te ter sempre comigo.

Pai.