Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

A primeira vez que vi a Paula foi em cima de um palco, a falar sobre podcasting. Fiquei logo convencido.
Com as ideias.
Com a forma de as apresentar.
Com a clareza de pensamento.
Com quase tudo, aliás. Mas essencialmente com a voz.

Uma voz incrível e penetrante. Claramente uma voz de rádio. Daquelas que nos leva a ver as histórias e a imaginar o mundo através das palavras que nos dizem ao ouvido.

Entretanto começámos a falar e fomos, a pouco e pouco, trocando ideias sobre várias coisas, em particular sobre conteúdos e processos de criação dos mesmos.

Tive a sorte de ser entrevistado por ela, há cerca de um ano, numa conversa difícil de esquecer (sobre paternidade) da qual resultou uma fotografia de que gosto muito.

Quando arranquei com este projecto soube logo que ia ter de a entrevistar. Porquê? Porque a Paula vive de palavras. Absoluta e completamente. Convidei-a e ela, numa timidez assumida e indisfarçável, disse-me que não sabia se fazia muito sentido… expliquei-lhe os meus porquês e… acabei por conseguir convencê-la.

Aqui fica então a Paula, numa entrevista sincera, profunda e do mais humilde e transparente que vais ver por aqui. Porque a Paula é assim. Sincera que dói. Translúcida que impressiona.

Como sempre, comecei por pedir à minha convidada que me respondesse à pergunta: Quem é a Paula Cordeiro?
A resposta chegou-me poética e desconcertante. Como tudo o resto que escreveu. Não acreditas? Então lê e depois diz-me se tenho ou não tenho razão.

A Paula Cordeiro é alguém que detesta que lhe peçam para se descrever e até pediu a uma amiga que lhe escrevesse a sua nota biográfica para enviar a uma conferência. É isto, não gosto mesmo de falar sobre mim.
Parece-me sempre vaidade embora saiba que não é, enquanto me questiono sobre se alguém quer, realmente, saber quem sou eu, especialmente porque sou irritantemente perfeccionista com aquilo que me interessa e desagradavelmente imperfeita com o que não quero fazer;
abrasivamente assertiva a observar os factos e apaixonadamente apaixonada a examinar as pessoas, numa coerência muito incoerente que sempre me caracterizou.

A partir daqui, o que se segue é incrivelmente real e verdadeiro.
Apresento-te, a Paula Cordeiro.

1. Lembras-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Começa bem… começa pelo impacto que nunca admitimos querer alcançar, mas que, efectivamente, faz parte de cada tecla que pressionamos, palavra que criamos e verbo que conjugamos. Criar é seguido da partilha, a qual conduz ao impacto e, ignorar o impacto é ignorar o que nos trouxe aqui: a explosão da ideia, o elogio da palavra, a urgência de eternizar a palavra no papel ou, agora, nos ecrãs que nos impactam. A verdade é que não escrevo para o impacto, embora o reconheça, da mesma forma que, ao escrever, dou-me ao outro e, por isso, nunca penso muito no impacto que tal possa ter. Porque nunca controlamos a impressão que provocamos no outro e porque a minha palavra principal é oral, dificilmente se eterniza e, por isso, não sei. Talvez uma frase minha, reproduzida numa parede da sala dos estudantes, escolhida por eles, na faculdade na qual dou aulas, possa ser um exemplo?

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Pagam-me para trabalhar, escrevo por prazer e, por vezes, são uma e a mesma coisa.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério ligado à escrita?

Bati à porta certa na hora certa.

4. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Devo ser muito foleira, mas não tenho mentores ou grandes inspirações porque tudo me inspira e a resposta a uma pergunta destas supõe o recurso às grandes referências literárias ou aos que, reconhecidamente, têm o dom da palavra, bem como os que nos deram algum tipo de ajuda ou empurrão. E se forem muitos e não quisermos escolher? E se a nossa inspiração nos chegar da vida de todos os dias, dos programas de rádio que escutamos, dos livros e revistas que podemos ler, das conversas que partilhamos ou, até de publicações bacocas que encontramos?
E se também isso nos inspirar a fazer melhor?
E se a nossa lista de inspirações conjugar os grandes e os que ninguém conhece, mas que, de alguma forma, nos ajudaram a chegar aqui? E se…?

5. Já tiveste vontade de parar de escrever?

Já tive vontade de parar. Ponto.

6. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Eu não deveria ter aceitado esta entrevista, a verdade é essa…
Não sou modesta mas sou tímida o suficiente para ter vergonha de responder a perguntas como esta. E poderia ficar por aqui porque seria uma resposta, daquelas que não respondem mas que, inevitavelmente, preenchem o espaço em branco. Descansa Martim, não o farei porque há vários trabalhos dos quais me orgulho, um dos quais me trouxe aqui, transformou-se em livro e muito trabalho, pago, posteriormente: a minha tese de Doutoramento, escrita de um fôlego só, que conseguiu tornar científica a minha paixão maior: a rádio.

7. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

De algumas… Raramente pelo conteúdo, resultado inevitável do contexto ou da conjuntura mas, a forma…

8. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Qualquer coisa para dizer na rádio deixa-me confortavelmente feliz e um novo formato cuja designação desconheço, que vai buscar muita inspiração ao romance e à rádio, para escrever para os media sociais. Social storytelling? Será?

9. Tens escrito coisas profundas e que procuram romper com o paradigma actual daquilo em que está transformado o Instagram. Como surgiu a ideia?

A tua questão dá a sensação de que foi premeditado ou estratégico e não foi.
A explicação é simples, porque não me identifico com o que, na maior parte das vezes, se publica  nos social media, principalmente o Instagram, que se transformou numa plataforma de narcisismo, exibição, sobretudo, de promoção e comércio. Nada contra e, ao mesmo tempo, tudo, porque a maior parte das pessoas não tem consciência de como funcionam os bastidores da plataforma (algoritmo, por exemplo) ou dos perfis que assumem uma mistura entre perfil pessoal, de divulgação, promoção e comércio. Como designar, numa era na qual somos curadores da nossa própria vida, expondo-a como profissão, para actuarmos como agentes de comunicação, numa mistura entre as diferentes técnicas do marketing (das relações públicas à publicidade) que tem como fim único a comercialização da nossa própria existência, transformando-a tanto num livro aberto como num catálogo virtual de produtos e serviços? Como se chama a isto?
Eu não sei, experimentei para perceber como funciona, a mim não me serve e, por isso, já que lá estou e que há quem goste de ler o que escrevo, porque não escrever exactamente o que me dá prazer, como uma espécie de grilo falante que coloca o dedo na ferida, roda-o e fica a ver o circo pegar fogo? Arrisquei e não há como voltar à futilidade e superficialidade dominantes.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Pela ideia da mensagem, deixo fluir e logo se vê, muitas vezes o texto dá uma volta inesperada. Sou péssima a fazer títulos e, nos tempos modernos do SEO fico sempre entre o que realmente quero dizer e o que o SEO me diz para escrever. Um drama, acredita, porque SEO é tudo menos profundo (para recorrer à tua questão anterior)…

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Também vale dizer que estive sempre atenta nas aulas de língua portuguesa, consulto o dicionário e a gramática?
Sinceramente, ou se escreve ou não.
Podemos aprender a dominar a língua para redigir correctamente mas escrever é muito mais do que isso. Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história…

Ler com atenção e dedicação ajuda, da mesma forma que observar o mundo para o interpretar também.

12. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo quando tem de ser porque passo a maior parte do tempo a escrever e sim, escrevo quando calha, também. O que é técnico segue a rotina para conseguir cumprir prazos, o que é criativo por vezes depende da fuga à rotina para, depois, a retomar.

As melhores ideias surgem quando menos esperamos e eu já sei onde surgem as minhas: no duche (o que é uma dor de cabeça porque tenho de ficar a lavar-me e a repetir as ideias para não as perder), a surfar (novamente um problema porque normalmente as ideias desaparecem entre as ondas) ou a caminhar: não interessa onde, interessa estar ao ar livre, mesmo na cidade, e caminhar, por vezes sem direcção definida, para que comecem a surgir ideias.
Pedalar também serve, mas é mais perigoso porque a pessoa não pode tomar notas e, pior, não pode distrair-se na bicicleta…

13. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

A minha vida são prazos…

14. Como é que reages às críticas?

Odeio-as porque raramente são construtivas.

15. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Não, porque sofro desse mal que é o de me valorizar muito pouco mas, como há quem acredite, eu acredito nessas pessoas e por vezes tenho aquele ahah moment em que penso damm you girl, your good (e sim, escrevo muito em inglês, não é arrogância).

16. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Estar cansada impede-me de escrever, de ser criativa, de conseguir ver as coisas por um prisma diferente, impede-me de me colocar no lugar do outro para ver a história no seu todo, anula-me a originalidade, mas isso não é exactamente um bloqueio…

17. Quem são os teus autores de referência?

Os livros são objectos maravilhosos, mas também ocupam muito espaço e ganham muito pó. O pó é o meu pior inimigo e há uns tempos decidi-me por uma abordagem minimalista (ou quase) à minha vida.
Mudámo-nos recentemente para uma casa mais pequena, doei boa parte da minha biblioteca e levei todos os livros técnicos para a faculdade.

Os que ficaram são os que têm mais valor (talvez sentimental) o que talvez queira dizer que são os meus preferidos, muito embora tenha alguma dificuldade em lidar com essa ideia da referência porque, inevitavelmente, parece-me que preciso de uma orientação para escrever e não é verdade.  Há autores que me inspiram pelos temas que abordam, outros pela forma como escrevem e, ainda, pela forma como usam as palavras na rádio, mas não deixo que isso me influencie a ponto de perder a minha voz.

18. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Qualquer bestseller que permitisse reformar-me amanhã e escrever apenas o que me apetece, sentada no alpendre de uma casa de madeira virada para um mar muito azul, embalada por uma brisa o som das árvores e das ondas do mar. Poético, não é?

19. O livro da tua vida é…

O romance que já escrevi e que ainda não publiquei.

Podes ouvir a Paula, semanalmente, no seu podcast Urbanista 2.0.

Antologia de um medo (nada) absurdo

Antologia de um medo (nada) absurdo

Gostamos invariavelmente da força, da robustez, da solidez impactante e inspiradora que nos confere a vida, e da singular e determinada capacidade de não ceder aos caprichos em nada misericordiosos do amor, da tristeza, da solidão, da felicidade e, claro está, do medo.
Temos mais medo das coisas quanto maior é o número de coisas que temos a temer. Creio que isto é relativamente fácil de constatar se nos debruçarmos sobre a questão durante algum tempo. Somos mais temerários perante a vida quanto maior é o número de anos que vivemos, e menor é o número de anos que vai distando entre isto que hoje somos, e o fim da linha que medrosamente vamos apalpando com receio de estragar qualquer coisa.
Mãos nas janelas, pés arrastados pelo chão macio e encerado que crepita e estala à nossa passagem, mas com medo (lá está) de dar um passo em falso, de pisar o que não se deve, de calcar caminhos que não seria suposto conhecermos, ainda por cima quando – regra geral – nunca chegamos verdadeiramente a conhecer a pessoa com quem vivemos mais tempo neste passeio errático a que alguns chamam existência. Nós mesmos.
Chegam a passar-se vidas inteiras sem que nunca saibamos bem quem vive dentro daquele que julgamos ser.

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Mas então, de que é que nos alimentamos afinal? Será de medo? Será esse o pão que nos sacia a fome de viver?
Talvez. É assustadoramente possível que grande parte de nós passe grande parte da vida a comer doses ainda maiores de medo ao pequeno almoço; mas de faca e garfo, à homem, para posteriormente ser digerido enquanto somos atropelados pelo inebriante passar trôpego dos dias. E arrota-se no fim.
É assim possível que passemos na verdade grande parte da vida (mais o que fica para lá da mesma) a tentar provar à dita que não tememos nada, a não ser o seu próprio finar.

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Suponhamos que a nossa concentração é então conscientemente dedicada a percorrer todo o caminho, no descrédito consentido que tem quem o assume, tentando assim mostrar ao mundo, ou à parte do mesmo que nos sobeja de tal forma que nos atrevemos a chamar-lhe mundo, que esse medo que nos aterroriza a existência é pueril, irracional, é uma espécie de temor do precipício, do parapeito, da escarpa hipnotizante da morte e das suas terríveis e seguramente bem fundamentadas horripilâncias.
Mas… passando-lhe a bola a si, amigo leitor, como ela deve ser passada, redondinha e com o peito do pé, consegue dizer-me – para além do medo de morrer que é universal – de quantos medos (se é que é sequer plausível e aceitável que assim se escreva esta palavra) se consegue lembrar de ter sentido ao longo da vida? Com certeza que se lembra pelo menos… de uma mão cheia deles. Certo?
Errado… fácil não deve ser de certeza… isto para responder de imediato ao meu próprio pensamento, para contestar prontamente a parvoíce que me possa ter cruzado as ideias num dos fogachos de tempo tão curtos, como curta é a duração de tantas das palavras que digo sem as dizer, num gesto de atrevimento, e que me quis forçar a começar esta frase com a resposta à pergunta feita na frase anterior.
Ora, posto isso, e escrutinadas as fracções de segundo que caracterizam uma decisão tão rápida, fui ainda a tempo de emendar a mão, mesmo sabendo que já tinha cagado os pés até aos joelhos. São merdas que acontecem.
Portanto, assim de repente, num exercício que de modo algum pode ser tomado como simples, trivial e até desnecessário, convido-vos a revisitarem a vossa vida enquanto vão passeando os olhos pela quantidade tonta de enumerações que passarei de seguida a… exacto… a enumerar.
Mas atenção ao seguinte: não deve esse revisitar do passado ser uma coisa desprovida de qualquer lógica ou orientação. Nada disso! Até porque, regra geral, a coisa não costuma correr lá muito bem.
Assim sendo, aquilo que vos proponho é que, calmamente, com tempo e com a serenidade que uma viagem desta natureza vos deve merecer, tentem então encontrar nas arrecadações onde guardam grande parte daquilo que foram quando começaram verdadeiramente a ser alguma coisa, e se lembrem então dos medos que afinal de contas nunca vos largaram.

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Das manhãs, tardes, noites e madrugadas atormentadas por essa sensação tão poderosa quanto a de se ter Medo de alguma coisa, essa sensação frívola que nos entorpece as pernas e os braços, que nos retorce caprichosamente os dedos das mãos e dos pés, que nos arrepia os cabelos no finalzinho da nuca, que nos faz revirar os olhos e, mais do que qualquer outra coisa, que nos dá estaladões às ideias. A lógica simples e erudita (graças a Deus) do pensar e do ser. Simplesmente isto. Mas, para que se sintam confortáveis e não pensem que estão a ser obrigados a algo que não tenha, eu mesmo, coragem de fazer, sereno-vos e sossego-vos o espírito inquieto dizendo-vos que serei eu o primeiro a sentar-me nesse parapeito e a enumerar algumas coisas que me fizeram suar as estopinhas, e sentir o corpo a engelhar-se às mãos do horror mais inconsciente e, por vezes (tantas vezes) – mas não sempre – mais injustificado que sentimos no caminho pelos passeios da condição humana.
Então, o primeiro Medo de que me recordo, é possivelmente o medo de magoar o meu irmão, que era tão pequenino… Porquê?
A fragilidade de um bebé que gatinha é assustadora e, perante um ser humano daquele pequeno tamanho, o irmão mais velho, com mais 3 anos que o petiz que ainda não se põe de pé, pouco ou nada sabe da forma correcta de se lidar com o petiz que nem falar direito consegue.
Numa das únicas vezes em que me “descuidei”, pensando que ele não via ou compreendia patavina do que estava a “ver”, virei costas e o sacana engoliu uma moeda de 50 centavos que eu tinha escrupulosamente escondido debaixo do tapete da sala. Resultado? Hospital. Raio-X. E um “a moeda há-de sair”. Anos mais tarde, já sem medo nenhum e com ele já perfeitamente capaz de correr, saltar, brincar e falar, acabei por lhe partir um braço, enquanto brincávamos às rasteiras no SAP, à espera da vez para que ele pudesse ser visto pelo médico devido à quantidade absurda de borbulhas que a varicela lhe estava a espetar no corpo. Fomos do SAP para o Curry Cabral.
Depois, por volta dos 10 anos passei finalmente a ter medo de morrer.
Chegou já mais tarde, é verdade. Não porque não soubesse já o que era a morte, mas simplesmente porque não a compreendia de todo. Já sabia ler e escrever. Já devorava notícias na TV e nos jornais, deitado debaixo da mesa de jantar da casa dos meus avós. Ouvia atentamente as conversas dos adultos da minha vida e, pese embora o facto de fazer caminhadas de Domingo (com alguma frequência) pelo cemitério do Alto de S. João, onde um dos meus tios estava sepultado, não compreendia de modo algum a parte metafísica da coisa. Associava-lhe tão somente o desaparecimento dos olhos, pouco ou nada mais. Ou seja, para além da dificuldade de perceber o conceito, tinha a incapacidade total de perceber do que se tratava e, mais do que qualquer outra coisa, tinha a dificuldade tremenda de perceber porque razão é que a morte fazia chorar os vivos.
Percebi-o no dia em que fui a funeral da minha bisavó materna, e depois no dia em que morreu a mãe de uma colega (grande amiga) de escola.
Haveria de se me entranhar na alma alguns anos mais tarde quando, numa questão de meses, morreu um dos meus tios, e depois, quando morreu o meu melhor amigo. A partir daí esse medo estendeu-se a todos aqueles por quem tenho algum tipo de estima, de amor, carinho, amizade e consideração.

Tira os pés do chão

Pelo caminho tenho encontrado o medo em formas tão distintas como: medo de falhar, de desiludir, de me afogar, de me queimar, de não ser capaz, de perecer, de fracassar, de ser despedido, de não ser contratado, de ser esquecido, de não ser lembrado, de não ser querido nem desejado, de não ser amado, de ser iludido e enganado, de que aquilo em que acredito não dê resultado, de ser rejeitado e maltratado, do escuro, da noite, da sombra dos dias… e podia continuar nesta torrente infernal durante horas a fio… schiiiu… tenho medo de a acordar.
Continua a contar.
Depois fiquei doente. O cancro. Esse merdas insolente. E tive medo. Muito medo.
Claro que sim. Não podia não ser de outra maneira. Mas venci-o, ao Medo. E ao cancro também. Peguei-o pelo colarinho e acertei-lhe em cheio no focinho.

E hoje chego aqui, a dias de ser pai. A dias de ver a minha vida transformar-se por completo e confesso-vos. Estou todo “borrado”.
Não pela circunstância, não pelo desconhecimento da paternidade, mas pela minha mulher. E é um sentimento horroroso que me tira tempo ao sono e me traz dores à barriga. Ela é a minha vida. A condução da minha alma. O justificar feliz do meu acordar radiante. A minha Deusa. O prolongamento natural do meu sorriso e o espelho onde o mesmo se enrosca e regressa na expressão máxima de felicidade.
Pensar no sofrimento que ela pode enfrentar, nas dores, na experiência que ela vai atravessar no parto… tudo isto me sacode diariamente o esqueleto e me preocupa quanto baste. Se é absurdo? Não me parece (nada) que o seja. Mesmo sabendo que tenho a meu lado um poço de força!

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Sei que tenho comigo uma mulher praticamente indestrutível e capaz dos feitos mais incríveis, mas do medo, meus amigos, dele ninguém se livra! =)
E acreditem que o medo é, em alguns momentos desta nossa vida, um companheiro, um amigo, um conselheiro, um compincha.
E vou ensinar-te tudo isto minha filha. Tudo isto e muito mais. Porque nesta vida é tão importante que sejas forte, que te levantes sempre depois de caíres, e vais cair muitas vezes meu amor. Mas é também igualmente importante que saibas não o ser, que saibas ter medo, que saibas ceder-lhe e permitir-lhe que entre na tua vida sem que nunca deixes que este tome conta de parte alguma da mesma. Pode por lá andar mas que saibas sempre por onde é que ele anda.
Agora… agora vem ter com os papás. Não temos medo. Temos a vida inteira para te dar. E medo, só o medo de te falhar… mas isso minha querida, isso é impossível de controlar.

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