“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

O que vais ler aqui é uma história daquelas que todos nós temos e devemos ler. Seja quando for, seja onde for. Temos mesmo de ler isto.

Descobri-a através do Jorge Araújo, jornalista e editor da Revista E do Expresso. Depois fui conhecê-la mais ao pormenor no site da CNN e fiquei tão impressionado e comovido que tive de a partilhar contigo.

Pouco me importa que aches que isto é lamechas, piegas ou que não acrescenta nada à tua vida.
Se sentires uma destas 3 coisas, faz-me um favor: deixa de me seguir!

Não quero que sintas que a história que aqui te trago hoje te incomoda ou não te diz nada. Porque se é esse o caso, então não temos mesmo nada em comum.

Mas se dás valor à vida e acreditas que o planeta precisa de conhecer histórias assim para se inspirar e para ganhar força numa altura tão crítica, então fica por aí e lê o resto da história que o Jorge teve a brilhante ideia de nos contar.

“Para sempre é muito pouco tempo. A vida é um relâmpago, passa num instante. E o tempo não sabe esperar.

A história de Betty e Curtis é prova disso. Dois antigos colegas de liceu que se apaixonaram. Casaram, tiveram dois filhos e, durante 53 anos, caminharam juntos pela estrada da vida.

Betty, de oitenta anos, foi a primeira a ser apanhada nas malhas do coronavírus. Dois dias depois, Curtis seguiu-lhe os passos e foi internado no mesmo hospital do Texas.

As enfermeiras da Unidade de Cuidados Intensivos sabiam que, na matemática dos sentimentos, um e um nem sempre são dois. Betty e Curtis não sabiam viver um sem o outro.

Por isso, todos os dias, levavam Curtis para a unidade de Betty. Os dois nas nuvens. Como sempre. Para sempre. A vida e a esperança nas linhas da palma das mãos.

Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar.

De repente, Betty partiu para o corredor da morte. Curtis nem precisou de ouvir a notícia para ver os seus níveis de oxigénio baixarem. Desistiu de viver.

Juntos na vida, juntos na morte.

“Assim que ele sentiu que a nossa mãe não iria aguentar, ficou em paz com a decisão de deixar de lutar”, contou um dos filhos à CNN.

Betty e Curtis morreram com menos de uma hora de diferença. De mãos dadas.

Há coisas que a morte não consegue matar.”

A força indestrutível de um amor absoluto

Há sim, Jorge. E esta tua frase é tão absoluta que dói.

O amor é uma força tão poderosa como as forças maiores da Natureza.

E se tu que estás a ler isto, nunca tiveste a sorte de sentir isso, ou se deixaste de acreditar que isso é possível, então só me resta lamentar a tua infelicidade.

O amor pode tudo e há amores que são à prova de tudo.

Vivemos um tempo de incerteza, de medo, de dúvida, de desconfiança e de terror psicológico.

Vimos o nosso mundo ser virado do avesso. Cobrimos a nossa boca e o nosso nariz, por se tratar da única forma de protecção que temos contra um inimigo que nem sequer conseguimos ver. Falamos hoje de um modo diferente. Deixámos de sorrir uns para os outros.

Claro que podemos continuar a sorrir com os olhos, mas… não é, de todo, a mesma coisa. Pois não?

Assim, quis partilhar isto contigo porque acredito que vale a pena. Acredito que vale a pena pensar na vida desta forma. Acredito que separar a vida pessoal da vida profissional é cada vez mais uma estupidez que não faz qualquer sentido. Somos um todo. Não temos caixas dentro do cérebro onde arrumamos as nossas diferentes personagens.

Caramba, se isto não servir de inspiração… o que é que pode servir?

A histórias aproximam os seres humanos desde que somos seres humanos.

As histórias vão continuar a ser o que nos une e… como diz o Rui Veloso, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Ainda era jornalista quando comecei a ouvir falar do Afonso Cruz.
Terá sido, muito possivelmente, algum colega que fez referência ao livro A Boneca de Kokoscha, com o qual o Afonso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Camilo Castelo Branco.

Como sempre, fugi ao que toda a gente andava a ler e fui comprar Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.

E acabei por ser eu a devorá-lo a ele. Ao livro, entenda-se.
Fiquei preso logo no arranque, em diálogo, e escrito com um exuberância gráfica diferente de todos os livros que tinha lido até então:

” – Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! – gritava o chefe da repartição, mas ele ouvia aquele voz lá muito ao fundo, a desaparecer numa esquina.
Foi assim que a minha avó me começou a contar a história de Vivaldo Bonfim, o meu pai.”

E depois, para mal dos pecados de um rapaz de 30 anos a quem as histórias começavam a apresentar-se-lhe como o futuro da sua vida, o livro termina assim:

“(…) Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.”

E assim foi. Assim fiquei encantado com a escrita de um homem novo.

Foi um dos primeiros nomes em que pensei quando esta loucura em que me meti se me apresentou ao pensamento em jeito de desafio.

Também pensei que fosse impossível. Que ele dissesse que não. Ou que não dissesse nada de todo.

Mas depois, antes de lhe escrever, descobri um ponto em comum nas nossas vidas. A ligação à Figueira da Foz. O Afonso é da Figueira. A minha família, do lado da minha mãe, tem o cordão umbilical assente na cidade com a maior praia do mundo. Pelo menos, para mim, é a maior praia do mundo.

Feita a explicação que se devia e agarrado o gancho para o contactar, com a ajuda do Rui, da Comunidade Cultura e Arte, escrevi ao Afonso que me respondeu prontamente aceitando a entrevista. E assim aqui chegámos.

E, claro, chegámos também à pergunta da ordem:
– Quem é o Afonso Cruz?

Respondeu-me assim:

Vivo isolado com a minha família, com três cães, duas galinhas, oliveiras e árvores de fruto. Gosto de cozinhar e de beber cerveja (mais do que fazê-la), de ler, de fotografar, de caminhar, de tocar ukulele e de viajar.

Para além disto, o Afonso diz que tem tido a sorte e a ousadia de fazer o que quer e o que gosta. E de ser livre. E tinha de ser este o título desta entrevista. Avancemos.

1. Quando é que sentiste que tinhas que (e que querias) escrever? Que era isto que querias fazer da vida. Lembras-te com que idade sentiste isso?

Estava a trabalhar numa agência de publicidade, como copywriter.
Tinha 36 ou 37 anos. Nessa altura escrevi uma série de textos que publiquei num blog privado, sem qualquer intenção de os ver editados. Só quando percebi ter uma quantidade razoável deles, pensei que poderiam dar um livro. Ou seja, não foi tanto eu querer escrever ou publicar foi mais a escrita me ter acontecido.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Na PGA (prova Geral de Acesso) era preciso escrever um texto. Tive a melhor nota da minha escola. Mais tarde, no ensino superior, na disciplina de História de Arte, a professora escreveu-me uma nota no final do teste corrigido que dizia mais ou menos o seguinte: não sabes muito de História, mas escreves muito bem. Tive dezassete.

3. Há quanto tempo é que escreves profissionalmente?

Desde 2008.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Como disse antes, trabalhei como copy. Foram uns seis meses da minha vida em que recebia para escrever. De resto, sempre estive relacionado com a animação e a ilustração.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

As minhas leituras, as minhas viagens.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

Vários: Dostoiévski, Rumi, Thomas Mann, Borges, Vonnegut, Emily Dickinson, Hrabal, Kazantzakis, Cossery, Lem, Simone Weil, etc.

7. Sendo tu também músico, ilustrador e cineasta… já tiveste vontade de parar de escrever e de te dedicares em exclusivo a alguma destas actividades? Ou mesmo a algo completamente diferente?

Dediquei-me ao cinema de animação durante muito tempo, mais de uma década. Também houve uma altura em que tive a pretensão de viver da música. Talvez um dia me torne apicultor.

8. Se a tua vida não fosse a de uma espécie de Príncipe do Renascimento, o que é que estarias a fazer agora?

Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto. Não é tão importante aquilo que faço, mas se o que faço parte de um espaço de liberdade, em que a compulsoriedade é reduzida ao mínimo.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

É um chavão, mas serão os próximos.

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não, mas há livros em que me revejo menos. Não os hierarquizo, simplesmente, não os escreveria da mesma maneira.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Depende das ideias. Os livros, para mim, são uma materialização de um conceito, por isso os formatos devem adequar-se a essa ideia inicial e se sentir que encontrei um modo eficiente, então o processo é natural mas não decorre confortavelmente, porque é uma luta.

Se não nos magoarmos no processo, é porque não nos estamos a esforçar, a superar-nos.

Tento que a escrita seja uma espécie de verdade em relação à ideia, que não haja uma traição ao conteúdo simplesmente por amor à forma ou ao conforto. A única coisa confortável deve ser a relação entre a ideia e o tipo de processo, mas não o acto em si.

Explicando de outro modo, imaginemos que pretendo fazer uma cerveja tipo Rochefort, então vou precisar de certas coisas que se adequam ao fabrico de uma cerveja com estas características.

Se optasse, por exemplo, por usar o processo e os ingredientes de uma lager, jamais teria o resultado pretendido.
Mas conhecer o processo eficiente e os ingredientes certos não significa que obterei uma boa cerveja ou que o seu fabrico não seja difícil, complexo e desconfortável.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Varia. Por vezes tenho uma ideia, que até pode declinar num bom título, mas há ocasiões em que o título nasce do texto ou imagino-o a determinada altura da escrita de modo a iluminar o conteúdo do que escrevi.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Não tenho propriamente uma rotina de escrita. Prefiro escrever à noite porque há silêncio e menos solicitações externas, mas tomo notas na fila do supermercado, escrevo em hotéis, aeroportos, aviões, cafés…

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Conforme a qualidade das críticas. São especialmente más, e não tão incomuns, quando são ad hominem.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

Talvez os primeiros prémios, porque os inícios costumam ser difíceis e qualquer ajuda extra é sempre importante.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Faço o possível por me superar e fazer o melhor que sei.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevo depois de pensar ou de estruturar uma narrativa e não me sento para escrever sem esse trabalho prévio. Um bloqueio de escrita é possível se nos sentarmos para escrever sem quaisquer ideias, sem ter pensado, imaginado, estruturado de alguma forma o que pretendemos fazer.

19. Quem são os teus autores de referência?

Alguns que nomeei antes como mentores.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos. Gostaria de ter tido a ideia que levou Edwin Abbott Abbott a escrever Flatland. Gostaria de ter escrito sobre a graça como Weil, de ter imaginado algumas parábolas de Chuang Tsé, de ter escrito alguns parágrafos de Bruno Schulz ou Michaux, de ter sido o autor de The Giving Tree, de Shel Silverstein, ter escrito o conto Bontzie, o Silencioso, de Peretz, de ter pensado em todas as parábolas geométricas que Nicolau de Cusa inventou e de ter escrito o Elogio da Calvície, de Sinésio de Cirene.

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Conheci o trabalho do Bruno Vieira Amaral quando ainda estava a trabalhar no Expresso, no final de 2017, princípio de 2018.
O Zé Cardoso e o Germano falavam dele com frequência e o nome foi-me ficando, bem como os textos/contos que iam aparecendo.

Percebi logo ali que ele escrevia maravilhosamente bem.
Ah, e que escrevia sobre desporto, também.

Em 2020 começou a assinar semanalmente a rubrica “Dejá Vú – o futuro foi ontem”.

Para me preparar para esta entrevista procurei saber um pouco mais sobre este que é mais um dos talentos confirmados da nova geração de escritores portugueses. Vencedor, entre outros, de um Prémio José Saramago – que não é coisa de somenos – do Prémio Fernando Namora e do Prémio TimeOut.

Assim, na semana passada comprei o seu hoje estarás comigo no paraíso e assim que o abri, na primeira folha, deparei-me com isto:

“(…) Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir.
Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância. Não são os mortos que clama por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.”

Pensei de imediato:
– Prendeste-me, Bruno. Vou ler-te muito em breve. Ai vou, vou.

Mas antes disso, antes disso está isto. Está esta entrevista.
E, porque é a ti que te quero apresentar o Bruno, aqui fica a resposta dele à pergunta habitual. Quem é o Bruno Vieira Amaral?

Sou um escritor português, de 42 anos.
Condições temporárias, exceto a nacionalidade, que não prevejo que me venha a ser retirada nos próximos tempos.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no festival literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

Postas de lado as formalidades informais, aqui fica então a conversa.
Aqui fica o Bruno.

1. Quando é que sentiste que tinhas (e querias) que escrever?
Que querias fazer disto vida. Lembras-te que idade tinhas?

Não sei. Não houve nenhuma epifania. Não fiz planos. Fui aproveitando as oportunidades que me foram aparecendo. E é isso que continuo a fazer.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Talvez um texto na primária em que respondi à pergunta “o que é para ti o amor?” com qualquer coisa como “o amor não tem definição.”
As professoras ficaram muito intrigadas com a resposta, desconhecendo que eu a tinha roubado a uma entrevista da Isabel Bahia, então locutora de televisão, à TV Guia.

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

A primeira vez que me pagaram por um texto foi há onze anos. Senti que estava a enganar alguém porque tê-lo-ia escrito sem mo pagarem.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Era uma das minhas fontes de rendimento, mas não a única, nem a principal. Colaborava em revistas e jornais.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Naquela altura? Ninguém.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

A pessoa responsável por hoje ganhar a vida a escrever sou eu. O que não significa que não esteja grato a todas as pessoas que, apreciando o meu trabalho, me deram oportunidades para o desenvolver.
Têm sido muitas ao longo destes anos.
A mais importante foi, sem dúvida, o meu editor e amigo, Francisco José Viegas.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de fazer alguma coisa completamente diferente?

Já, mas depois ganho juízo.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer agora?

Não faço ideia. Talvez fosse responsável de secção de uma loja da Staples.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O meu trabalho mais conseguido foi o meu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no Festival Literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Gosto muito de escrever crónicas, que são muito imediatas. Mas é nos romances que encontro o meu espaço.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Sempre pelo texto porque começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo a qualquer hora. Como tenho prazos, não há muito espaço para fantasmas e angústias. Nos romances é um pouco diferente. Escrevo quando me apetece.

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Depende das críticas. Quando vêm de semi-analfabetos, não lhes dou importância. A mesma coisa quando o objeto da crítica não é o meu trabalho. Às restantes, tento não atribuir demasiado valor, sejam positivas ou negativas, porque não podem alterar aquilo que escrevi.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

O mais importante foi o Prémio José Saramago. O que me emocionou mais, pelas circunstâncias em que recebi a notícia, foi o Fernando Namora.
Mas o prémio da revista Time Out é capaz de ter dado um empurrão decisivo ao meu primeiro romance.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Só deves fazer aquilo em que achas que és bom e em que, ao mesmo tempo, sentes que podes melhorar. Se não achas que és bom ou se acreditas que não podes melhorar, então o melhor é mudares de profissão. Quando me sento a escrever, a convicção de que sou bom naquilo que faço não me serve de grande coisa. Ao contrário de um pintor de paredes ou de um carpinteiro, o escritor pode escrever uma grande crónica hoje e amanhã escrever uma crónica que não vale nada. A criação é muito mais do que uma questão de técnica, por isso a solução é escrever cada texto como se fosse o primeiro.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevendo.

19. Quem são os teus autores de referência?

Mario Vargas Llosa, Albert Camus, Nelson Rodrigues.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Não. Escrever um livro, um romance, é um processo demasiado ligado ao que sou, em todas as dimensões, para desejar ter escrito um livro que outra pessoa, com tudo aquilo que é, escreveu. Seria o mesmo que desejar ser outra pessoa. E não desejo.

De facto, os escritores são pessoas que admiro muito, mesmo não os conhecendo pessoalmente. Com o Bruno passa-se o mesmo.

Estas entrevistas acabam por me aproximar da forma como pensam e como vêem o mundo.

Obrigado, Bruno.
Pelo teu tempo e pela verdade com que respondeste a tudo e que dá para sentir deste lado do ecrã.

Podes conhecer aqui a obra de Bruno Vieira Amaral e comprar um (ou mais) dos seus livros.

Até para à semana.
No mesmo dia e à mesma hora.




Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

A minha convidada desta semana trata o escárnio e maledicência por tu. Para além disso é um dos cérebros criativos da equipa que faz o trabalho de bastidores dos programas 5 Para a Meia-Noite e Isto é Gozar com Quem Trabalha, apresentado por um dos maiores humoristas portugueses de todos os tempos. Sim, estou a falar do Ricardo Araújo Pereira.

Tem 33 anos e é uma artista das palavras.
Aproveita para conhecer um pouco mais da Cátia Domingues, aqui mesmo.

Como a todos os outros convidados, pedi à Cátia que me respondesse à pergunta de abertura: “Quem é a Cátia Domingues?”

A resposta apareceu-me assim:

“Cátia Domingues. Colheita de 87. 0+
Nascida em Lisboa, criada entre o Minho e a região saloia.
Guionista, humorista, feminista e outras coisas acabadas em ista, que faz uma das melhores caldeiradas de peixe.
Pessoa que começou a carreira de escrita a escrever as ementas da tasca dos pais.”

Passemos à entrevista.

1. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Quando escrevia as ementas do restaurante dos meus pais. Promovia muito o consumo.

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Desde que acabaram os meus estágios curriculares.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério?

Todos os meus trabalhos foram a sério. É assim que levo isto. Foi num call-center a vender créditos pessoais. Foi horrível.

4. Tens alguma “fonte” de inspiração?

Às vezes, quando preciso de escrever e não estou especialmente inspirada, gosto de ver uns episódios de noticiários satíricos para me pôr “no mood”. Se isso não resultar vou até à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho a quem passa.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

A memória da Susana Romana, que se lembra sempre de mim nas alturas certas.

6. Já tiveste vontade de parar de escrever e fazer outra coisa completamente diferente?

Todos os dias em que me custa.

Foto Cátia Domingues_Viver_das_Palavras

7. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Se calhar, o projecto pelo qual tenho mais carinho, é um chamado “caçadora de mitos”. Porque fez e ainda faz sentir muitas borboletas na barriga.

8. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Há imensas coisas que se fosse hoje não teria escrito da mesma forma. Mas isso faz parte do processo natural de aprendizagem.

9. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Ainda não experimentei muitos, mas gosto de escrever para televisão e para imprensa.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Depende. A maioria das vezes o título é a última coisa que escrevo. Passo muito tempo a escrever um. Acho que o meu lado da publicidade contribui muito para isto.

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Sim. Tirei um curso da escrever, escrever com a Susana Romana.
De resto, é realmente ler, ver, ouvir para ir aprendendo a escrever.

12. E dar formação a gente que queira aprender a escrever. Faz parte dos teus planos?

De todo. Acho que para ensinar é preciso talento especial.

13. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Depende. Quando tenho deadlines é acordar cedo, café, televisão em trashtv, só para fazer barulho ao fundo, e computador. Quando me sinto desinspirada ou aborrecida saio de casa. Prefiro trabalhar de dia.

14. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

Lido pessimamente com prazos ao ponto de praticamente tudo se transformar em escrever sob pressão. Procrastino imenso e arrependo-me sempre.

15. Como é que reages às críticas ao teu trabalho?

Acho que um sinal de maturidade é a forma como se reage às críticas. Sejam elas boas ou más, na verdade. E tento reagir com a distância que elas merecem.

16. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Na maior parte do tempo não. Sofro bastante da síndrome do impostor.

17. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Sim. Entro em pânico porque começo a pensar que a língua portuguesa tem imensas palavras e não sei por onde começar. Faço sessões extra de terapia e aceito que não consigo escrever naquele momento. Desbloqueio saindo para fazer outras coisas que me lembrem de mim.

18. Quem são os teus autores de referência?

Depende. Tenho um woody allen como tenho uma sophia de mello breyner. Um Nelson Rodrigues como um Luiz Pacheco. Um Vilhena como um Saramago ou Raúl Brandão. Um Santos Fernando como um Vergílio Ferreira ou um Primo Levi.

19. Qual foi a pior coisa que já disseram sobre a tua escrita?

Esta gorda não tem piada. E não foi pelo gorda.

20. Há alguma coisa que queiras escrever no futuro e que nunca tenhas escrito?

Sim. Quero escrever contos e um doc. É o que tenho planeado para o futuro.

João Quadros: “Acho a condição humana muito triste”.

João Quadros: “Acho a condição humana muito triste”.

Ainda não tenho a sorte de o conhecer pessoalmente – isso vai ficar para depois – mas sou um admirador confesso do trabalho daquele que é, sem grande margem para contestações e pelas palavras do próprio, o homem com “o melhor currículo como argumentista de humor em Portugal” e que escreveu, entre milhares de outras coisas, o guião e os textos de um dos pontos altos da carreira de Herman José – Herman Enciclopédia.

O meu primeiro convidado chama-se João Quadros e se há coisa que consegue sempre que abre a boca ou bate nas teclas (ou no ecrã do seu smartphone) do computador, é fazer com que ninguém fique indiferente ao que diz ou ao que escreve.

Foi a 1ª pessoa em que pensei quando tive a ideia de fazer isto e o primeiro a dizer que sim.

Pedi-lhe um perfil. Ou melhor, pedi-lhe que me escrevesse umas linhas para me dizer quem é o João Quadros e não o que é que o João faz.
E foi assim que se descreveu:

“O João Quadros é um tipo que não gosta muito de pessoas e da vida em geral. Adoro os meus filhos. Vivo em grande parte só por causa deles. São tudo para mim. Preciso muito de espaço e de estar sozinho. Odeio injustiças, o meu coração acelera. Não acredito em nada pós morte, nem tenho medo de morrer. Talvez por isso não tenha medo físico de nada. Tenho várias depressões. Na verdade eu nunca compraria um bilhete para a vida. Acho a condição humana muito triste.”

E assim, sem mais nem menos, na última frase, do seu perfil, o João deu-me o título desta entrevista.

João Quadros_O_que_dizes_tu
Pedro Rocha / Global Imagens

Porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

É a minha profissão.
Eu nunca gostei do que fazia – Gestão Financeira – e desde pequeno que escrevia pequenos contos. O meu pai é um grande leitor e eu herdei isso dele – até aos 40 não me lembro de ter passado um dia sem ler.

Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Desde sempre. Desde que me lembro que sempre tive o sonho de escrever um livro, um filme, etc. Fui atrás disso.

Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Foi na quarta classe.
Toda a gente achava que eu era maluco porque as minhas redações fugiam totalmente ao estilo que era esperado.
Se havia a habitual redacção da vaca e do leite, eu fazia-a partindo do ponto de vista do leite. O leite era uma família num copo e vinha uma pessoa que bebia o avô e a avó, e por aí fora.

Quando é que começas a ser pago para escrever?

Assim que escrevi o primeiro sketch. O Nuno Artur Silva estava a fazer as Produções Fictícias e tinha começado a escrever para o Herman (José).
Tinha-me despedido da Gestão e depois inscrevi-me num curso de escrita criativa.

Para aí na quinta aula o Nuno perguntou-me se queria experimentar escrever um sketch para o Herman José. Claro que eu disse que sim.
Escrevi o “Eu é que sou o Presidente da Junta” – o Herman adorou e no fim-de-semana seguinte o sketch estreou na RTP1, no Parabéns.
Recebi 150 contos. O que na altura era muito dinheiro.

O que é que fizeste ao dinheiro?

Gastei tudo na noite.

Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Foi o Nuno que me descobriu, mas foi o meu médico, pediatra – Doutor Ramos de Almeida – e que me fez nascer, que quando leu as minhas redações, porque pensavam que eu era doido, adorou e incentivou-me a escrever – Publicavam os meus contos no DN Jovem.

Já tiveste vontade de parar de escrever?

Gosto de parar durante um mês, ou assim. Mas não mais do que isso.

Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Não faço ideia. Eu fui o melhor aluno a matemática quando estava na Universidade. Talvez tentasse qualquer a ver com exploração espacial.

Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

O Herman Enciclopédia, o Último a Sair e alguns episódios do Tubo de Ensaio (Podcast na TSF, escrito por mim e narrado pelo Bruno Nogueira).

Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Claro. Tive de escrever coisas como a Gala da TVI. Não gostei. Tive vergonha. Mas dá dinheiro.

Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

Texto. Eu não penso no que vou escrever. Começo e vou por ali fora. Vejo as imagens na minha cabeça e escrevo.

Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Há muito, muito trabalho. Mas sem talento, não dá.

Disseste-me, há uns tempos, que escreves quase sempre à mesma hora. Para além disso, no teu dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Tenho muitas rotinas. Trabalhar em casa obriga a isso. Caso contrário arrastas o trabalho durante o dia todo.

Como é que reages às críticas?

Não ligo muito, nem às boas nem às más. Acho que tenho noção quando faço bem ou mal.

O que é que achas do teu trabalho?

Nessas coisas não tenho problema nenhum em dizer que tenho, de longe, o melhor currículo em Portugal como argumentista de humor.

Tens autores de referência?

Tenho, mas mais na escrita de romance, como o Joseph Conrad. Mas claro, a nível da escrita de humor há os Monty Python e o (Ricky) Gervais

Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Tudo o que o Conrad escreveu. Gosto sobretudo que os heróis dele tenham vários defeitos.

Tens quase 180 mil seguidores no Twitter. Qual é o papel da rede na tua vida profissional?

É como o pequeno bar onde vou testar piadas.
É também um personagem que inventei – @omalestafeito – para ter contacto com as pessoas. Eu não gosto muito de aparecer. 

Obrigado, João. Até breve.

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Fica atento às próximas entrevistas.