António Raminhos: “Escrever humor é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar”

António Raminhos: “Escrever humor é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar”

O meu convidado desta semana é humorista, apresentador de programas, comediante, autor, escritor de coisas, guionista, pai de 3 filhas e marido da Catarina Raminhos…
Sim, que a pessoa famosa lá em casa é ela… e isto foi ela que o disse, à minha frente, basta leres a entrevista dela.

É uma pessoa, o António, que tem a capacidade de conseguir provocar um efeito (seja ele qual for) surpresa seja em quem for que o veja, siga, ouça ou leia pela primeira vez, pela segunda, ou pela centésima décima terceira.

Sobre si próprio – porque é assim que começam todas estas entrevistas – o António Raminhos disse tão somente, e passo a citar: “oh, sei lá eu quem é que eu sou. Isso é um processo em mutação constante”.

E assim arrumas a viola no saco, desarmado por uma resposta tão sincera e crua que nem dá para dizeres mais nada.

Portanto, depois disto, resta-me apenas avançar com a entrevista, que, como diria a Joana Azevedo, já se faz tarde.

1. A experiência falhada como jornalista e que te lançou como “aspirante à pobreza”, foi decisiva para começares a escrever, ou já o fazias antes? No fundo, o que te quero perguntar é porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

Não sei muito bem. Eu lembro-me de ser puto e já escrever algumas redacções mais elaboradas e inventar algumas histórias, mas nada de mais. Gostava de representar, de imaginar e colocar essa imaginação em acção.

2. Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Penso que terá sido aí por 2008, no Funchal, quando atuei 12 vezes em 11 dias com o Carlos Moura, o Pedro Miguel Ribeiro e o Nuno Morna.
Lembro-me de uma noite pensar… é isto que quero fazer.
Não ter medo do que as pessoas possam pensar, ou se vão achar graça ou não. Não no sentido de me estar a borrifar para o público, mas no sentido de ir sem medos e fazer aquilo que achava graça.

3. Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Deve ter sido na minha mãe e de forma involuntária (hahaha).
A minha mãe estava sempre a contar uma história em que eu, em pequeno, em resposta a uma senhora que me viu e disse “aiii que ele é tão simpático, olha como ele está alto” digo eu “e também sou um bocadinho bonito”.

A minha mãe estava sempre a contar isto, mas se calhar também era para dizer que eu era um peneirento.

4. Quando é que começas a ser pago para escrever?

Na comédia, quando comecei a fazer stand-up, porque enquanto jornalista já o tinha sido. Mas na comédia foi em 2006 quando comecei a atuar. Depois, anos mais tarde, talvez em 2008, comecei a escrever guiões e aí sim comecei a ganhar para escrever para outros.
E o mais engraçado é que escrevi para tudo… para Angola, para as Tardes da Júlia, para o Malato… sei lá.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

O Carlos Moura foi uma pessoa muito importante no início da minha carreira. Foi uma espécie de mentor, sim.
Mostrou-me muita coisa, fez-me ouvir muita comédia, aprendi com o seu ritmo e conhecimento.
Para mim sempre foi um dos melhores gajos na comédia, mas quis estar sossegado e foi mais para outro caminho.
É uma espécie de Luke Skywalker na ilha.

António Raminhos ao sol e cheio de efeitos
Foto roubada (mas com autorização do autor) ao Instagram do entrevistado

6. Já tiveste vontade de parar de escrever – e de fazer vida do humor – e de ir fazer outra coisa qualquer?

Sim, claro. Volta e meia tenho, mas para fazer outra coisa teria de ser anonimato total ou, melhor ainda, ser podre de rico e não fazer nenhum.
O que, embora as pessoas possam não acreditar, está muito longe da verdade.
A televisão e o entretenimento são muito bonitos para quem tem exclusividade e mesmo para esses nem sempre é seguro.

7. O que é a escrita de humor tem que te diverte tanto?

O ver o outro lado das coisas.
O colocar a questão “e se”.
E se isto fosse assim… se isto fosse assado?
É como um novelo de lã que se vai desenrolando… melhor… é como aquela namorada que adora espremer borbulhas e não consegue parar…
É esse o efeito.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Não sei… porque também isto não foi planeado. Por isso, não sei, podia estar a ser jornalista, ou a trabalhar no Badoca Park porque gosto de animais.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

Eu digo sempre que o melhor está para vir… porque realmente nunca sabemos. Mas tenho vários… desde a Missão 100% português, o 5 para a Meia-Noite, o Esta Mensagem é para ti, a Banheira das Vaidades no Youtube, o filme Mau Mau Maria… porque todos eles têm histórias engraçadas, outras difíceis e um sucesso porreiro.

10. Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste, ou já aceitaste escrever alguma coisa que odiasses apenas por dinheiro?

Odiar, odiar não, mas obviamente já escrevi coisas com as quais não me identificava muito. A comédia é muito bonita, mas já não tem tanta graça, às vezes, quando tens casa e família e contas para pagar.
Tens que fazer uns trabalhos menos prazerosos para que possas fazer outros que queres. É normal.
Agora nos bares… havia bares em que era muito difícil atuar e quando recebias no fim da noite, um gajo sentia-se meio proxeneta!
Ahhahaahah e era bom!

11. Em que é que ser pai de 3 filhas mudou a forma como escreves?

Como qualquer experiência muda, acredito.
Os comediantes, grande parte, escrevem sobre o que os rodeia, a sua vida, as suas dores e dúvidas.
Elas nasceram e é normal que tenham começado a surgir temas, porque é aquilo que vai na minha cabeça.
Se tivesse sido um acidente, viver 15 anos no Afeganistão… era a mesma coisa.

António Rominhos numa produção de outro mundo. Ou do seu mundo
Mais uma apropriação descarada de uma foto do IG de António Raminhos,
também esta consentida pelo próprio, num momento de particular beleza familiar

12. Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

No caso da comédia, e do meu trabalho, começo com a ideia… algo que me aconteceu. Ou por exemplo, estar no médico à espera de consulta e começar a imaginar o que poderia acontecer na consulta.
Aliás, um texto deste último show surgiu assim.

Como é que seria se eu chegasse lá e isto fosse assim?
Às vezes escrevo só a ideia, o que dá merda.
Porque depois volto lá e já não me lembro qual era a piada que queria.

Olha! Agora que estou a responder a isto, estou a lembrar-me que tive uma ideia ontem e disse “Catarina não te esqueças para eu apontar…” e já não sei que porra era!

13. Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Acho que só talento não é suficiente, isso é em qualquer área.
Na comédia há tipos muito talentosos, mas se não trabalham, se não investem nas redes (e por falar nisso, espreita aqui o Instagram do Raminhos), etc… vão desaparecendo.

14. No dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Devia ter sim, mas é difícil, principalmente quando tens tanta gente em casa. Por exemplo, agora é exames da escola da mais velha, matrículas das outras que demoras 20 dias e tens de fazer sinais de fumo, depois reuniões, depois entrevistas.

O que eu faço é ir guardando algumas ideias e quando se aproxima a altura de um show para experimentar algo, aí sim, sento-me e tenho esse objectivo de explorar as ideias.

15. Como é que reages às críticas?

Já reagi pior.
As pessoas que simplesmente dizem “não gosto, não acho piada” tudo bem. Tranquilo. Mas há muita gente maldosa, que magoa, que ofende, que é gratuita nas palavras que não têm nada a ver com o simples não gostar do meu trabalho.

Eu não gosto de uma data de coisas e, das duas uma, ou não vejo ou dou o beneficio da dúvida. Mas isso não coloca em causa da qualidade do tipo, porque se há 500 mil pessoas a gostarem, eh pá… ainda bem e que faça o seu caminho.

16. Quando é começaste a escrever para séries e programas de TV?

Acho que foi por volta de 2008, sim.

17. E os livros? Aparecem por acaso ou foi algo que sempre quiseste fazer?

Foi como tudo o resto. Apareceram por acaso.
Por convite, primeiro do Alvim.
Eu escrevia para a MAxmen e ele “oh pá não queres reunir essas crónicas?!” e eu “ok!”.

Agora há três anos, na RFM “olha isto dava um livro fixe!” e eu “ok!”

18. Qual a coisa mais incrível que a escrita te trouxe?

Está a trazer agora.
O poder causar impacto nas pessoas, melhorar o seu dia.
Saber que às vezes estão à espera de ouvir só um gajo parvo e depois saem do espetáculo a rir e a chorar ao mesmo tempo… e não é porque as piadas foram uma merda.

António Raminhos e os haters
Mais uma foto subtraída ao Instagram de António Raminhos. É assim que se ilustram entrevistas, nesta era pós-moderna.

19. E a pior?

A pressão que colocamos sobre nós próprios para termos de ter piada.
De ter de ser bom ou excepcional.
Uma pressão que muitas vezes o público não coloca em cima de nós.

20. O que é que achas do teu trabalho?

Mas isto é psicoterapia agora!? Obviamente que acho uma merda. (ahahahahah) – são entrevistas escritas, isto tem de estar aqui!

21. Tens autores de referência?

Eu leio muito livros técnicos. É difícil ter uma referência.
É engraçado, gosto de saber coisas das áreas que gosto.
Não leio muito romances, thrillers, ficção no geral.
Na comédia, tenho comediantes sim de referência como Conan O’Brien, o Mitch Hedberg, Jim Gaffigan, Mike Birbiglia, Herman José…

22. Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Gostava mais de ter as oportunidades de outras pessoas (ahahahaha) mas isso é a vida, tenho de batalhar por isso como se calhar elas batalharam.
Ou não! Na realidade não interessa. Lá está, é o seu caminho.

23. Há alguns humoristas que apontam as redes sociais como o local onde testam o seu material. Qual é o papel das redes sociais na tua vida profissional?

É um pouco isso sim.
Divulgação, estar lá, mostrar um pouco.
Embora as pessoas misturem muito as coisas.
E, por exemplo, podem dizer que não gostam de mim, mas nunca me viram ao vivo. Viram coisas na tv onde estou condicionado a uma data de coisas.

Por outro lado, às vezes acham que as redes sociais são salas de espectáculo e se eu digo algo que é suposto ser apenas um comentário jocoso, há sempre um a dizer “não tem graça”, “ya ya tenta outra vez”, o que dá vontade de dizer “peço desculpa, vou já devolver-lhe o dinheiro… ah espera”.

24. O que é que as palavras representam na tua vida?

Exorcismo!

“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

O que vais ler aqui é uma história daquelas que todos nós temos e devemos ler. Seja quando for, seja onde for. Temos mesmo de ler isto.

Descobri-a através do Jorge Araújo, jornalista e editor da Revista E do Expresso. Depois fui conhecê-la mais ao pormenor no site da CNN e fiquei tão impressionado e comovido que tive de a partilhar contigo.

Pouco me importa que aches que isto é lamechas, piegas ou que não acrescenta nada à tua vida.
Se sentires uma destas 3 coisas, faz-me um favor: deixa de me seguir!

Não quero que sintas que a história que aqui te trago hoje te incomoda ou não te diz nada. Porque se é esse o caso, então não temos mesmo nada em comum.

Mas se dás valor à vida e acreditas que o planeta precisa de conhecer histórias assim para se inspirar e para ganhar força numa altura tão crítica, então fica por aí e lê o resto da história que o Jorge teve a brilhante ideia de nos contar.

“Para sempre é muito pouco tempo. A vida é um relâmpago, passa num instante. E o tempo não sabe esperar.

A história de Betty e Curtis é prova disso. Dois antigos colegas de liceu que se apaixonaram. Casaram, tiveram dois filhos e, durante 53 anos, caminharam juntos pela estrada da vida.

Betty, de oitenta anos, foi a primeira a ser apanhada nas malhas do coronavírus. Dois dias depois, Curtis seguiu-lhe os passos e foi internado no mesmo hospital do Texas.

As enfermeiras da Unidade de Cuidados Intensivos sabiam que, na matemática dos sentimentos, um e um nem sempre são dois. Betty e Curtis não sabiam viver um sem o outro.

Por isso, todos os dias, levavam Curtis para a unidade de Betty. Os dois nas nuvens. Como sempre. Para sempre. A vida e a esperança nas linhas da palma das mãos.

Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar.

De repente, Betty partiu para o corredor da morte. Curtis nem precisou de ouvir a notícia para ver os seus níveis de oxigénio baixarem. Desistiu de viver.

Juntos na vida, juntos na morte.

“Assim que ele sentiu que a nossa mãe não iria aguentar, ficou em paz com a decisão de deixar de lutar”, contou um dos filhos à CNN.

Betty e Curtis morreram com menos de uma hora de diferença. De mãos dadas.

Há coisas que a morte não consegue matar.”

A força indestrutível de um amor absoluto

Há sim, Jorge. E esta tua frase é tão absoluta que dói.

O amor é uma força tão poderosa como as forças maiores da Natureza.

E se tu que estás a ler isto, nunca tiveste a sorte de sentir isso, ou se deixaste de acreditar que isso é possível, então só me resta lamentar a tua infelicidade.

O amor pode tudo e há amores que são à prova de tudo.

Vivemos um tempo de incerteza, de medo, de dúvida, de desconfiança e de terror psicológico.

Vimos o nosso mundo ser virado do avesso. Cobrimos a nossa boca e o nosso nariz, por se tratar da única forma de protecção que temos contra um inimigo que nem sequer conseguimos ver. Falamos hoje de um modo diferente. Deixámos de sorrir uns para os outros.

Claro que podemos continuar a sorrir com os olhos, mas… não é, de todo, a mesma coisa. Pois não?

Assim, quis partilhar isto contigo porque acredito que vale a pena. Acredito que vale a pena pensar na vida desta forma. Acredito que separar a vida pessoal da vida profissional é cada vez mais uma estupidez que não faz qualquer sentido. Somos um todo. Não temos caixas dentro do cérebro onde arrumamos as nossas diferentes personagens.

Caramba, se isto não servir de inspiração… o que é que pode servir?

A histórias aproximam os seres humanos desde que somos seres humanos.

As histórias vão continuar a ser o que nos une e… como diz o Rui Veloso, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Ainda era jornalista quando comecei a ouvir falar do Afonso Cruz.
Terá sido, muito possivelmente, algum colega que fez referência ao livro A Boneca de Kokoscha, com o qual o Afonso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Camilo Castelo Branco.

Como sempre, fugi ao que toda a gente andava a ler e fui comprar Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.

E acabei por ser eu a devorá-lo a ele. Ao livro, entenda-se.
Fiquei preso logo no arranque, em diálogo, e escrito com um exuberância gráfica diferente de todos os livros que tinha lido até então:

” – Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! – gritava o chefe da repartição, mas ele ouvia aquele voz lá muito ao fundo, a desaparecer numa esquina.
Foi assim que a minha avó me começou a contar a história de Vivaldo Bonfim, o meu pai.”

E depois, para mal dos pecados de um rapaz de 30 anos a quem as histórias começavam a apresentar-se-lhe como o futuro da sua vida, o livro termina assim:

“(…) Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.”

E assim foi. Assim fiquei encantado com a escrita de um homem novo.

Foi um dos primeiros nomes em que pensei quando esta loucura em que me meti se me apresentou ao pensamento em jeito de desafio.

Também pensei que fosse impossível. Que ele dissesse que não. Ou que não dissesse nada de todo.

Mas depois, antes de lhe escrever, descobri um ponto em comum nas nossas vidas. A ligação à Figueira da Foz. O Afonso é da Figueira. A minha família, do lado da minha mãe, tem o cordão umbilical assente na cidade com a maior praia do mundo. Pelo menos, para mim, é a maior praia do mundo.

Feita a explicação que se devia e agarrado o gancho para o contactar, com a ajuda do Rui, da Comunidade Cultura e Arte, escrevi ao Afonso que me respondeu prontamente aceitando a entrevista. E assim aqui chegámos.

E, claro, chegámos também à pergunta da ordem:
– Quem é o Afonso Cruz?

Respondeu-me assim:

Vivo isolado com a minha família, com três cães, duas galinhas, oliveiras e árvores de fruto. Gosto de cozinhar e de beber cerveja (mais do que fazê-la), de ler, de fotografar, de caminhar, de tocar ukulele e de viajar.

Para além disto, o Afonso diz que tem tido a sorte e a ousadia de fazer o que quer e o que gosta. E de ser livre. E tinha de ser este o título desta entrevista. Avancemos.

1. Quando é que sentiste que tinhas que (e que querias) escrever? Que era isto que querias fazer da vida. Lembras-te com que idade sentiste isso?

Estava a trabalhar numa agência de publicidade, como copywriter.
Tinha 36 ou 37 anos. Nessa altura escrevi uma série de textos que publiquei num blog privado, sem qualquer intenção de os ver editados. Só quando percebi ter uma quantidade razoável deles, pensei que poderiam dar um livro. Ou seja, não foi tanto eu querer escrever ou publicar foi mais a escrita me ter acontecido.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Na PGA (prova Geral de Acesso) era preciso escrever um texto. Tive a melhor nota da minha escola. Mais tarde, no ensino superior, na disciplina de História de Arte, a professora escreveu-me uma nota no final do teste corrigido que dizia mais ou menos o seguinte: não sabes muito de História, mas escreves muito bem. Tive dezassete.

3. Há quanto tempo é que escreves profissionalmente?

Desde 2008.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Como disse antes, trabalhei como copy. Foram uns seis meses da minha vida em que recebia para escrever. De resto, sempre estive relacionado com a animação e a ilustração.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

As minhas leituras, as minhas viagens.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

Vários: Dostoiévski, Rumi, Thomas Mann, Borges, Vonnegut, Emily Dickinson, Hrabal, Kazantzakis, Cossery, Lem, Simone Weil, etc.

7. Sendo tu também músico, ilustrador e cineasta… já tiveste vontade de parar de escrever e de te dedicares em exclusivo a alguma destas actividades? Ou mesmo a algo completamente diferente?

Dediquei-me ao cinema de animação durante muito tempo, mais de uma década. Também houve uma altura em que tive a pretensão de viver da música. Talvez um dia me torne apicultor.

8. Se a tua vida não fosse a de uma espécie de Príncipe do Renascimento, o que é que estarias a fazer agora?

Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto. Não é tão importante aquilo que faço, mas se o que faço parte de um espaço de liberdade, em que a compulsoriedade é reduzida ao mínimo.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

É um chavão, mas serão os próximos.

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não, mas há livros em que me revejo menos. Não os hierarquizo, simplesmente, não os escreveria da mesma maneira.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Depende das ideias. Os livros, para mim, são uma materialização de um conceito, por isso os formatos devem adequar-se a essa ideia inicial e se sentir que encontrei um modo eficiente, então o processo é natural mas não decorre confortavelmente, porque é uma luta.

Se não nos magoarmos no processo, é porque não nos estamos a esforçar, a superar-nos.

Tento que a escrita seja uma espécie de verdade em relação à ideia, que não haja uma traição ao conteúdo simplesmente por amor à forma ou ao conforto. A única coisa confortável deve ser a relação entre a ideia e o tipo de processo, mas não o acto em si.

Explicando de outro modo, imaginemos que pretendo fazer uma cerveja tipo Rochefort, então vou precisar de certas coisas que se adequam ao fabrico de uma cerveja com estas características.

Se optasse, por exemplo, por usar o processo e os ingredientes de uma lager, jamais teria o resultado pretendido.
Mas conhecer o processo eficiente e os ingredientes certos não significa que obterei uma boa cerveja ou que o seu fabrico não seja difícil, complexo e desconfortável.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Varia. Por vezes tenho uma ideia, que até pode declinar num bom título, mas há ocasiões em que o título nasce do texto ou imagino-o a determinada altura da escrita de modo a iluminar o conteúdo do que escrevi.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Não tenho propriamente uma rotina de escrita. Prefiro escrever à noite porque há silêncio e menos solicitações externas, mas tomo notas na fila do supermercado, escrevo em hotéis, aeroportos, aviões, cafés…

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Conforme a qualidade das críticas. São especialmente más, e não tão incomuns, quando são ad hominem.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

Talvez os primeiros prémios, porque os inícios costumam ser difíceis e qualquer ajuda extra é sempre importante.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Faço o possível por me superar e fazer o melhor que sei.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevo depois de pensar ou de estruturar uma narrativa e não me sento para escrever sem esse trabalho prévio. Um bloqueio de escrita é possível se nos sentarmos para escrever sem quaisquer ideias, sem ter pensado, imaginado, estruturado de alguma forma o que pretendemos fazer.

19. Quem são os teus autores de referência?

Alguns que nomeei antes como mentores.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos. Gostaria de ter tido a ideia que levou Edwin Abbott Abbott a escrever Flatland. Gostaria de ter escrito sobre a graça como Weil, de ter imaginado algumas parábolas de Chuang Tsé, de ter escrito alguns parágrafos de Bruno Schulz ou Michaux, de ter sido o autor de The Giving Tree, de Shel Silverstein, ter escrito o conto Bontzie, o Silencioso, de Peretz, de ter pensado em todas as parábolas geométricas que Nicolau de Cusa inventou e de ter escrito o Elogio da Calvície, de Sinésio de Cirene.

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Conheci o trabalho do Bruno Vieira Amaral quando ainda estava a trabalhar no Expresso, no final de 2017, princípio de 2018.
O Zé Cardoso e o Germano falavam dele com frequência e o nome foi-me ficando, bem como os textos/contos que iam aparecendo.

Percebi logo ali que ele escrevia maravilhosamente bem.
Ah, e que escrevia sobre desporto, também.

Em 2020 começou a assinar semanalmente a rubrica “Dejá Vú – o futuro foi ontem”.

Para me preparar para esta entrevista procurei saber um pouco mais sobre este que é mais um dos talentos confirmados da nova geração de escritores portugueses. Vencedor, entre outros, de um Prémio José Saramago – que não é coisa de somenos – do Prémio Fernando Namora e do Prémio TimeOut.

Assim, na semana passada comprei o seu hoje estarás comigo no paraíso e assim que o abri, na primeira folha, deparei-me com isto:

“(…) Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir.
Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância. Não são os mortos que clama por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.”

Pensei de imediato:
– Prendeste-me, Bruno. Vou ler-te muito em breve. Ai vou, vou.

Mas antes disso, antes disso está isto. Está esta entrevista.
E, porque é a ti que te quero apresentar o Bruno, aqui fica a resposta dele à pergunta habitual. Quem é o Bruno Vieira Amaral?

Sou um escritor português, de 42 anos.
Condições temporárias, exceto a nacionalidade, que não prevejo que me venha a ser retirada nos próximos tempos.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no festival literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

Postas de lado as formalidades informais, aqui fica então a conversa.
Aqui fica o Bruno.

1. Quando é que sentiste que tinhas (e querias) que escrever?
Que querias fazer disto vida. Lembras-te que idade tinhas?

Não sei. Não houve nenhuma epifania. Não fiz planos. Fui aproveitando as oportunidades que me foram aparecendo. E é isso que continuo a fazer.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Talvez um texto na primária em que respondi à pergunta “o que é para ti o amor?” com qualquer coisa como “o amor não tem definição.”
As professoras ficaram muito intrigadas com a resposta, desconhecendo que eu a tinha roubado a uma entrevista da Isabel Bahia, então locutora de televisão, à TV Guia.

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

A primeira vez que me pagaram por um texto foi há onze anos. Senti que estava a enganar alguém porque tê-lo-ia escrito sem mo pagarem.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Era uma das minhas fontes de rendimento, mas não a única, nem a principal. Colaborava em revistas e jornais.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Naquela altura? Ninguém.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

A pessoa responsável por hoje ganhar a vida a escrever sou eu. O que não significa que não esteja grato a todas as pessoas que, apreciando o meu trabalho, me deram oportunidades para o desenvolver.
Têm sido muitas ao longo destes anos.
A mais importante foi, sem dúvida, o meu editor e amigo, Francisco José Viegas.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de fazer alguma coisa completamente diferente?

Já, mas depois ganho juízo.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer agora?

Não faço ideia. Talvez fosse responsável de secção de uma loja da Staples.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O meu trabalho mais conseguido foi o meu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no Festival Literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Gosto muito de escrever crónicas, que são muito imediatas. Mas é nos romances que encontro o meu espaço.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Sempre pelo texto porque começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo a qualquer hora. Como tenho prazos, não há muito espaço para fantasmas e angústias. Nos romances é um pouco diferente. Escrevo quando me apetece.

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Depende das críticas. Quando vêm de semi-analfabetos, não lhes dou importância. A mesma coisa quando o objeto da crítica não é o meu trabalho. Às restantes, tento não atribuir demasiado valor, sejam positivas ou negativas, porque não podem alterar aquilo que escrevi.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

O mais importante foi o Prémio José Saramago. O que me emocionou mais, pelas circunstâncias em que recebi a notícia, foi o Fernando Namora.
Mas o prémio da revista Time Out é capaz de ter dado um empurrão decisivo ao meu primeiro romance.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Só deves fazer aquilo em que achas que és bom e em que, ao mesmo tempo, sentes que podes melhorar. Se não achas que és bom ou se acreditas que não podes melhorar, então o melhor é mudares de profissão. Quando me sento a escrever, a convicção de que sou bom naquilo que faço não me serve de grande coisa. Ao contrário de um pintor de paredes ou de um carpinteiro, o escritor pode escrever uma grande crónica hoje e amanhã escrever uma crónica que não vale nada. A criação é muito mais do que uma questão de técnica, por isso a solução é escrever cada texto como se fosse o primeiro.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevendo.

19. Quem são os teus autores de referência?

Mario Vargas Llosa, Albert Camus, Nelson Rodrigues.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Não. Escrever um livro, um romance, é um processo demasiado ligado ao que sou, em todas as dimensões, para desejar ter escrito um livro que outra pessoa, com tudo aquilo que é, escreveu. Seria o mesmo que desejar ser outra pessoa. E não desejo.

De facto, os escritores são pessoas que admiro muito, mesmo não os conhecendo pessoalmente. Com o Bruno passa-se o mesmo.

Estas entrevistas acabam por me aproximar da forma como pensam e como vêem o mundo.

Obrigado, Bruno.
Pelo teu tempo e pela verdade com que respondeste a tudo e que dá para sentir deste lado do ecrã.

Podes conhecer aqui a obra de Bruno Vieira Amaral e comprar um (ou mais) dos seus livros.

Até para à semana.
No mesmo dia e à mesma hora.




Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

Cátia Domingues: “Quando preciso de inspiração, vou à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho.”

A minha convidada desta semana trata o escárnio e maledicência por tu. Para além disso é um dos cérebros criativos da equipa que faz o trabalho de bastidores dos programas 5 Para a Meia-Noite e Isto é Gozar com Quem Trabalha, apresentado por um dos maiores humoristas portugueses de todos os tempos. Sim, estou a falar do Ricardo Araújo Pereira.

Tem 33 anos e é uma artista das palavras.
Aproveita para conhecer um pouco mais da Cátia Domingues, aqui mesmo.

Como a todos os outros convidados, pedi à Cátia que me respondesse à pergunta de abertura: “Quem é a Cátia Domingues?”

A resposta apareceu-me assim:

“Cátia Domingues. Colheita de 87. 0+
Nascida em Lisboa, criada entre o Minho e a região saloia.
Guionista, humorista, feminista e outras coisas acabadas em ista, que faz uma das melhores caldeiradas de peixe.
Pessoa que começou a carreira de escrita a escrever as ementas da tasca dos pais.”

Passemos à entrevista.

1. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Quando escrevia as ementas do restaurante dos meus pais. Promovia muito o consumo.

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Desde que acabaram os meus estágios curriculares.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério?

Todos os meus trabalhos foram a sério. É assim que levo isto. Foi num call-center a vender créditos pessoais. Foi horrível.

4. Tens alguma “fonte” de inspiração?

Às vezes, quando preciso de escrever e não estou especialmente inspirada, gosto de ver uns episódios de noticiários satíricos para me pôr “no mood”. Se isso não resultar vou até à tasca dos meus pais servir cerveja e copos de vinho a quem passa.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

A memória da Susana Romana, que se lembra sempre de mim nas alturas certas.

6. Já tiveste vontade de parar de escrever e fazer outra coisa completamente diferente?

Todos os dias em que me custa.

Foto Cátia Domingues_Viver_das_Palavras

7. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Se calhar, o projecto pelo qual tenho mais carinho, é um chamado “caçadora de mitos”. Porque fez e ainda faz sentir muitas borboletas na barriga.

8. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Há imensas coisas que se fosse hoje não teria escrito da mesma forma. Mas isso faz parte do processo natural de aprendizagem.

9. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Ainda não experimentei muitos, mas gosto de escrever para televisão e para imprensa.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Depende. A maioria das vezes o título é a última coisa que escrevo. Passo muito tempo a escrever um. Acho que o meu lado da publicidade contribui muito para isto.

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Sim. Tirei um curso da escrever, escrever com a Susana Romana.
De resto, é realmente ler, ver, ouvir para ir aprendendo a escrever.

12. E dar formação a gente que queira aprender a escrever. Faz parte dos teus planos?

De todo. Acho que para ensinar é preciso talento especial.

13. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Depende. Quando tenho deadlines é acordar cedo, café, televisão em trashtv, só para fazer barulho ao fundo, e computador. Quando me sinto desinspirada ou aborrecida saio de casa. Prefiro trabalhar de dia.

14. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

Lido pessimamente com prazos ao ponto de praticamente tudo se transformar em escrever sob pressão. Procrastino imenso e arrependo-me sempre.

15. Como é que reages às críticas ao teu trabalho?

Acho que um sinal de maturidade é a forma como se reage às críticas. Sejam elas boas ou más, na verdade. E tento reagir com a distância que elas merecem.

16. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Na maior parte do tempo não. Sofro bastante da síndrome do impostor.

17. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Sim. Entro em pânico porque começo a pensar que a língua portuguesa tem imensas palavras e não sei por onde começar. Faço sessões extra de terapia e aceito que não consigo escrever naquele momento. Desbloqueio saindo para fazer outras coisas que me lembrem de mim.

18. Quem são os teus autores de referência?

Depende. Tenho um woody allen como tenho uma sophia de mello breyner. Um Nelson Rodrigues como um Luiz Pacheco. Um Vilhena como um Saramago ou Raúl Brandão. Um Santos Fernando como um Vergílio Ferreira ou um Primo Levi.

19. Qual foi a pior coisa que já disseram sobre a tua escrita?

Esta gorda não tem piada. E não foi pelo gorda.

20. Há alguma coisa que queiras escrever no futuro e que nunca tenhas escrito?

Sim. Quero escrever contos e um doc. É o que tenho planeado para o futuro.