Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Afonso Cruz: “Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto”

Ainda era jornalista quando comecei a ouvir falar do Afonso Cruz.
Terá sido, muito possivelmente, algum colega que fez referência ao livro A Boneca de Kokoscha, com o qual o Afonso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Camilo Castelo Branco.

Como sempre, fugi ao que toda a gente andava a ler e fui comprar Os livros que devoraram o meu pai – A estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim.

E acabei por ser eu a devorá-lo a ele. Ao livro, entenda-se.
Fiquei preso logo no arranque, em diálogo, e escrito com um exuberância gráfica diferente de todos os livros que tinha lido até então:

” – Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! Vivaldo! – gritava o chefe da repartição, mas ele ouvia aquele voz lá muito ao fundo, a desaparecer numa esquina.
Foi assim que a minha avó me começou a contar a história de Vivaldo Bonfim, o meu pai.”

E depois, para mal dos pecados de um rapaz de 30 anos a quem as histórias começavam a apresentar-se-lhe como o futuro da sua vida, o livro termina assim:

“(…) Porque um homem é feito dessas histórias, não é de adê-énes e músculos e ossos. Histórias.”

E assim foi. Assim fiquei encantado com a escrita de um homem novo.

Foi um dos primeiros nomes em que pensei quando esta loucura em que me meti se me apresentou ao pensamento em jeito de desafio.

Também pensei que fosse impossível. Que ele dissesse que não. Ou que não dissesse nada de todo.

Mas depois, antes de lhe escrever, descobri um ponto em comum nas nossas vidas. A ligação à Figueira da Foz. O Afonso é da Figueira. A minha família, do lado da minha mãe, tem o cordão umbilical assente na cidade com a maior praia do mundo. Pelo menos, para mim, é a maior praia do mundo.

Feita a explicação que se devia e agarrado o gancho para o contactar, com a ajuda do Rui, da Comunidade Cultura e Arte, escrevi ao Afonso que me respondeu prontamente aceitando a entrevista. E assim aqui chegámos.

E, claro, chegámos também à pergunta da ordem:
– Quem é o Afonso Cruz?

Respondeu-me assim:

Vivo isolado com a minha família, com três cães, duas galinhas, oliveiras e árvores de fruto. Gosto de cozinhar e de beber cerveja (mais do que fazê-la), de ler, de fotografar, de caminhar, de tocar ukulele e de viajar.

Para além disto, o Afonso diz que tem tido a sorte e a ousadia de fazer o que quer e o que gosta. E de ser livre. E tinha de ser este o título desta entrevista. Avancemos.

1. Quando é que sentiste que tinhas que (e que querias) escrever? Que era isto que querias fazer da vida. Lembras-te com que idade sentiste isso?

Estava a trabalhar numa agência de publicidade, como copywriter.
Tinha 36 ou 37 anos. Nessa altura escrevi uma série de textos que publiquei num blog privado, sem qualquer intenção de os ver editados. Só quando percebi ter uma quantidade razoável deles, pensei que poderiam dar um livro. Ou seja, não foi tanto eu querer escrever ou publicar foi mais a escrita me ter acontecido.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Na PGA (prova Geral de Acesso) era preciso escrever um texto. Tive a melhor nota da minha escola. Mais tarde, no ensino superior, na disciplina de História de Arte, a professora escreveu-me uma nota no final do teste corrigido que dizia mais ou menos o seguinte: não sabes muito de História, mas escreves muito bem. Tive dezassete.

3. Há quanto tempo é que escreves profissionalmente?

Desde 2008.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Como disse antes, trabalhei como copy. Foram uns seis meses da minha vida em que recebia para escrever. De resto, sempre estive relacionado com a animação e a ilustração.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

As minhas leituras, as minhas viagens.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

Vários: Dostoiévski, Rumi, Thomas Mann, Borges, Vonnegut, Emily Dickinson, Hrabal, Kazantzakis, Cossery, Lem, Simone Weil, etc.

7. Sendo tu também músico, ilustrador e cineasta… já tiveste vontade de parar de escrever e de te dedicares em exclusivo a alguma destas actividades? Ou mesmo a algo completamente diferente?

Dediquei-me ao cinema de animação durante muito tempo, mais de uma década. Também houve uma altura em que tive a pretensão de viver da música. Talvez um dia me torne apicultor.

8. Se a tua vida não fosse a de uma espécie de Príncipe do Renascimento, o que é que estarias a fazer agora?

Tenho tido a sorte ou a ousadia de fazer o que quero e gosto. Não é tão importante aquilo que faço, mas se o que faço parte de um espaço de liberdade, em que a compulsoriedade é reduzida ao mínimo.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

É um chavão, mas serão os próximos.

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não, mas há livros em que me revejo menos. Não os hierarquizo, simplesmente, não os escreveria da mesma maneira.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Depende das ideias. Os livros, para mim, são uma materialização de um conceito, por isso os formatos devem adequar-se a essa ideia inicial e se sentir que encontrei um modo eficiente, então o processo é natural mas não decorre confortavelmente, porque é uma luta.

Se não nos magoarmos no processo, é porque não nos estamos a esforçar, a superar-nos.

Tento que a escrita seja uma espécie de verdade em relação à ideia, que não haja uma traição ao conteúdo simplesmente por amor à forma ou ao conforto. A única coisa confortável deve ser a relação entre a ideia e o tipo de processo, mas não o acto em si.

Explicando de outro modo, imaginemos que pretendo fazer uma cerveja tipo Rochefort, então vou precisar de certas coisas que se adequam ao fabrico de uma cerveja com estas características.

Se optasse, por exemplo, por usar o processo e os ingredientes de uma lager, jamais teria o resultado pretendido.
Mas conhecer o processo eficiente e os ingredientes certos não significa que obterei uma boa cerveja ou que o seu fabrico não seja difícil, complexo e desconfortável.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Varia. Por vezes tenho uma ideia, que até pode declinar num bom título, mas há ocasiões em que o título nasce do texto ou imagino-o a determinada altura da escrita de modo a iluminar o conteúdo do que escrevi.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Não tenho propriamente uma rotina de escrita. Prefiro escrever à noite porque há silêncio e menos solicitações externas, mas tomo notas na fila do supermercado, escrevo em hotéis, aeroportos, aviões, cafés…

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Conforme a qualidade das críticas. São especialmente más, e não tão incomuns, quando são ad hominem.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

Talvez os primeiros prémios, porque os inícios costumam ser difíceis e qualquer ajuda extra é sempre importante.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Faço o possível por me superar e fazer o melhor que sei.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevo depois de pensar ou de estruturar uma narrativa e não me sento para escrever sem esse trabalho prévio. Um bloqueio de escrita é possível se nos sentarmos para escrever sem quaisquer ideias, sem ter pensado, imaginado, estruturado de alguma forma o que pretendemos fazer.

19. Quem são os teus autores de referência?

Alguns que nomeei antes como mentores.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos. Gostaria de ter tido a ideia que levou Edwin Abbott Abbott a escrever Flatland. Gostaria de ter escrito sobre a graça como Weil, de ter imaginado algumas parábolas de Chuang Tsé, de ter escrito alguns parágrafos de Bruno Schulz ou Michaux, de ter sido o autor de The Giving Tree, de Shel Silverstein, ter escrito o conto Bontzie, o Silencioso, de Peretz, de ter pensado em todas as parábolas geométricas que Nicolau de Cusa inventou e de ter escrito o Elogio da Calvície, de Sinésio de Cirene.

Joana Azevedo: “Gostava de ser terapeuta de casais ou presidente da Junta”

Joana Azevedo: “Gostava de ser terapeuta de casais ou presidente da Junta”

Comecei a ouvir a voz da Joana, na rádio, pois claro, há cerca de 4 anos.
À tarde, obviamente. Ouvia a Comercial no computador, quando estava a trabalhar e também no carro, quando tinha de fazer o comute entre o edifício Impresa, em Paço de Arcos, e as antigas instalações da SIC, em Carnaxide.

Durante esse período de quase 2 anos em que fui fazendo o horário da tarde/noite, ouvi muitas vezes o Já Se Faz Tarde, onde pude imediatamente perceber o tom cúmplice e amigo que existe desde então entre a Joana e o Diogo Beja – seu parceiro inseparável de Antena.

Nas primeiras vezes que a ouvi e comecei a prestar atenção ao que ouvia, às conversas descomplexadas e soltas entre os dois, houve imediatamente uma coisa que me prendeu a atenção e que cheguei a comentar várias vezes em casa, com a Ana: a gargalhada inconfundível e contagiante da seu dona Joana Azevedo.

E foi assim que comecei a tornar-me fã da sua forma genuína de comunicar e de dizer as coisas na rádio. Porque a Joana sabe falar com quem está deste lado. Sabe ser a simpatia que uma voz sem rosto é para um ouvinte de rádio que tem nos profissionais que lá trabalham uma companhia invisível.

Depois comecei a “conhecê-la” um pouco “melhor” no Twitter, onde descobri outra Joana, que se apresenta ao mundo com uma BIO muito característica, a fazer pandan com a gargalhada que soltava nos microfones:

“Portuense, mãe, afagadora de gatos, garota de programa: Já Se Faz Tarde, 17h-20h na Rádio Comercial e Podcast Cada Um Sabe de Si. I’m a perennial”

A Joana representa o que, na minha modesta opinião, de melhor existe na comunicação em Portugal:

  • genuína, autêntica, irreverente, empática, sincera, astuta, inteligente, perspicaz e consciente.

Foi também por isso que foi a ela que dediquei as “honras de Estado” de ter a entrevista publicada no Dia de Portugal.

Não é escritora. Não é crítica literária nem editora de livros. Não é jornalista, mas já fez televisão… mas tal como todos estes profissionais, trabalha diariamente (e muito bem) com as palavras.

Ganhou o seu espaço na rádio com personalidade e inteligência e hoje, para meu enorme prazer, é a minha convidada em mais um Viver das Palavras, que começa, como sempre, com a pergunta da praxe, que foi transformada em pergunta nº1, tal foi a resposta que a Joana me deu.

1. Quem é a Joana Azevedo?

A Joana Azevedo nem sempre sabe quem é, mas sabe quem não quer ser, e isso já ajuda a traçar caminho. Vamos aos factos: nascida e criada na freguesia de Paranhos, no Porto.

Estatura pequena, franzina, rabina e sonsa para quem não conhece.

E agora percebi que estava a escrever sobre mim na terceira pessoa.
Já parei.

O gosto pela música terá vindo do meu pai, sempre trabalhou em editoras discográficas e eu dormia sestas nas caixas de discos. Gosto muito de estar sozinha ou com gatos, desde miúda. Levava os gatos para casa (também cheguei a levar cães) e a minha mãe obrigava-me a encontrar famílias para eles, que não a nossa.

Foto: Rádio Comecial

Se tivesse cedido talvez não saísse de casa tão cedo, nunca se vai saber. Saí do Porto aos 21 anos para um estágio de produção na Rádio Comercial, Rua Sampaio e Pina, Lisboa. Sozinha, finalmente à solta depois de uma adolescência bastante vigiada, com vinte e poucos anos. Pois. Com toda a loucura à mistura, consegui manter-me na rádio até hoje.

Passei pela produção da Rádio Comercial, animação nas manhãs da Cidade Fm, pouco tempo como copy na Smooth Fm (escrevi os primeiros jingles/liners), voltei à produção na Rádio Comercial e, há 5 anos, comecei a fazer dupla com o Diogo Beja no Já Se Faz Tarde, das 17h às 20h na Rádio Comercial. Fiz reportagens para o programa Música do Mundo na Sic Notícias e, tal como quase todos os portugueses, apresentei o Curto-Circuito na Sic Radical. Pelo meio lá atinei, adoptei os gatos que quis e tive um filho.

2. Não és escritora. Não és copywriter. Não és jornalista. Mas trabalhas muito com as palavras. Todos os dias. O que é que fez seguir este caminho?

Não sendo a principal função, também sou copywriter na rádio. Escrevo Live Copys, que são os textos publicitários que dizemos na emissão. Escrever textos para a voz dos outros, foi o que comecei por fazer, também chamado de produção de conteúdos. O que me fez ir por este caminho foi, precisamente, a voz dos outros. As palavras ditas e ouvidas. A ideia não era usar a minha voz, não pensei que fosse possível no início. A ideia era escrever para vozes que eu gostava de ouvir. A sensação de ouvi-las dizer palavras escritas por mim. Ou seja, uma certa vaidade.

3. Como é que prepararas as entrevistas que fazes no podcast?

No Cada Um Sabe de Si temos tempo para ouvir e conversar. Normalmente, as produtoras fazem uma pesquisa sobre o convidado ou a convidada com biografia, entrevistas, vídeos, artigos, tudo. A partir daí percebemos em que pontos gostaríamos de pegar. MAS – não escrevo as perguntas. Sempre que escrevi correu menos bem, foi menos espontâneo.

Ficamos agarrados ao que queremos perguntar e não ao que estamos a ouvir. Prefiro deixar-me levar pelo entrevistado, é ele que conduz. Isto é possível porque se quer que seja mais uma conversa e menos a entrevista pura e dura.

4. Porquê a Rádio, Joana? O que é que a Rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem?

Porque eu sempre ouvi rádio, sempre gostei de ouvir rádio e, um dia, apeteceu-me saber como era o outro lado.

A primeira vez que entrei num estúdio de rádio senti um formigueiro estranho, parecia um sinal, um íman. Se eu fosse crente diria que tinha sido uma experiência sobrenatural, espiritual, sei lá.

A Rádio permite uma proximidade com o ouvinte, com as pessoas, que não existe em mais nenhum meio de comunicação.
É um tu-cá-tu-lá muito saudável, como se fosse uma comunidade, um grupo de amigos de milhares de pessoas.
O perigo é fechar a comunicação, recorrer a private jokes ou gags que excluam os novos ouvintes. É uma gestão complicada.

Não podemos brincar aos arquipélagos, devemos sempre contextualizar, receber novas pessoas, não excluir ninguém. Faço-me entender?

É que, nos grupos de amigos a tendência é para fechar o círculo, usar códigos de entendimento exclusivos. E não podemos fazer isso em rádio.

Durante

5. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Na rádio, os animadores da extinta Rádio Energia.

Fora da rádio, a Diane Keaton, a Elaine do Seinfeld (a personagem, mesmo) e a Rita Blanco.

6. Já tiveste vontade de fazer outra coisa?

Gostava de ser terapeuta de casais. Ou presidente da Junta ahahah.

7. Qual foi o teu melhor momento atrás do microfone?

Não consigo escolher um só.
Mas posso dizer que o Já Se faz Tarde apanhou-me na melhor fase.
Ou fez de mim melhor profissional. Tem a melhor equipa, o que ajuda quase tudo.

Com o companheiro de Antena, Diogo Beja

8. E o mais difícil?

Os mais difíceis são as emissões de homenagens póstumas.
Lido muito mal e fico sempre bloqueada. O luto faço-o em silêncio e, por isso, ser forçada a falar sobre a morte de alguém é-me contra-natura.

9. Tens vergonha de alguma coisa que tenhas dito ou feito com o micro ligado?

Tenho mais vergonha de coisas que fiz longe dos microfones de rádio.
Claro que há coisas que disse que, hoje em dia, nunca diria.
Quando temos vinte e tais queremos muito chocar, não é?
Podia ter usado essa coragem para algo mais útil e generoso.
As novas gerações são mais combativas e atentas ao mundo – woke – como se diz agora. A nossa era muito virada para o umbigo.
Mas tenho a esperança de ter evoluído como ser humano e, por isso, como profissional.

10. O que é que te dá mais gozo fazer: o Já se Faz Tarde ou o Cada um Sabe de Si?

Os dois. Divirto-me a fazer os dois.

11. Quem é que teve a ideia para o nome do Podcast?

Demorámos imenso tempo a escolher, adiámos o início por não conseguirmos encontrar um nome.
Havia um que era o “Com Trastes” mas não nos convenceu, parecia que estávamos a chamar trastes aos convidados. Não me lembro exactamente quem teve a ideia, mas é uma expressão que dizemos algumas vezes.
Cada Um Sabe de Si.

12. Sei que não gostas de fazer rádio sozinha. O que é que te falta quando estás sozinha na antena?

A contracena. Gosto de provocar reacção e de ser provocada, gosto dos passos dessa dança de faísca a fingir. “It takes two to tango”. É o tipo de rádio que gosto de ouvir e fazer.

13. O que é que te falta fazer em rádio?

Marketing.

14. A tua gargalhada é inconfundível e adorada por milhões de pessoas. Como é que lidas com o lado da “fama” que a rádio te traz?

 A fama que a rádio traz é pacífica e não invasiva.
É raro virem ter comigo, acontece mais fora de Lisboa, mas não o suficiente para sequer poder falar em fama. É mais uma vantagem da rádio em relação à televisão, é tudo mais discreto.

De volta aos estúdios da Comercial

15.  Como é que reages às críticas?

Depende da crítica e de quem faz a crítica. Mas faz parte da função. Se não tivesse críticas também poderia significar indiferença, que é capaz de ser pior do que saber que há pessoas que não gostam do nosso trabalho.

16.  Já recebeste mensagens desagradáveis ou críticas destrutivas e maldosas?

Claro que sim. Mas há outras engraçadas. A última crítica que recebi foi de alguém que não gostava da forma como eu respiro no ar. Dizia, no email que enviou para a rádio, que sugo saliva e que o Diogo me imita a sugar saliva. Teve graça.

17.  Aquilo que sinto por te ouvir, por te ler no Twitter, ou te seguir no Instagram é que, por trás da profissional de rádio, está uma pessoa com um coração enorme, emotiva, amiga, e que protege os seus com tudo o que tem.
És feliz por seres como és, ou gostavas de ser outro tipo de pessoa com traços de personalidade que gostavas de ter e que não tens?

Gostava de ser mais pro-activa. Eu indigno-me muito no sofá e levanto-me pouco para fazer alguma coisa por isso. Mas ser boa pessoa é um processo que dá trabalho e está sempre inacabado. Desde auto-conhecimento, auto-perdão, assumir erros e culpas, auto-policiamento.
Espero estar a evoluir e não a regredir. Às vezes a raiva dos outros afecta-nos, contagia-nos e o mundo movido a raiva não ampara ninguém.

18.  Acreditas que és boa naquilo que fazes?

 Há melhores, há piores. Acho que tiro proveito das minhas capacidades.

19. Continuas a ficar nervosa antes de ir para o ar ou já é tudo “normal”?

Quando faço alguma coisa pela primeira vez fico nervosa ao ponto de bloquear. Sofro muito dos nervos. Mas fazer o programa com o Diogo é como estar num bar à conversa com amigos, tenho muita confiança nele e relaxo.

20. Gostas de ler? Quem são os teus autores de referência?

Gosto do Phillip Roth, adoro a Dorothy Parker e tenho pena que não tenha escrito mais, tenho muita inveja da maneira como escrevia. Gosto de autores brasileiros, li o Nu de Botas do António Prata de uma vez só. Dos portugueses, tantos, Afonso Cruz e Dulce Maria Cardoso. E vou sempre folheando Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria. Prefiro ler em português.

21.  Há alguma pessoa que já tenha morrido e que gostasses muito de entrevistar no Cada um Sabe de Si?

O António Variações.

22.  Se amanhã te dissessem que era o último programa que ias fazer e que podias ter o convidado que quisesses. Quem é que escolhias?  

O Miguel Esteves Cardoso porque tem um dom de observação e por em palavras o que observa. Gosto de o ouvir e seria uma oportunidade para o ouvir mais uma vez

23. Para ti, as palavras são…

Pontes.

Obrigado, Joana!

Pela sinceridade, verdade, honestidade e profundidade das tuas respostas.
Por não teres medo das palavras e por usares tão bem as mesmas.

Se queres conhecer um pouco mais da Joana, segue-a no Twitter ou no Instagram.

Partilha a entrevista no teu perfil ou com alguém que aches que vai adorar saber mais sobre a Joana Azevedo.

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Bruno Vieira Amaral: “Começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.”

Conheci o trabalho do Bruno Vieira Amaral quando ainda estava a trabalhar no Expresso, no final de 2017, princípio de 2018.
O Zé Cardoso e o Germano falavam dele com frequência e o nome foi-me ficando, bem como os textos/contos que iam aparecendo.

Percebi logo ali que ele escrevia maravilhosamente bem.
Ah, e que escrevia sobre desporto, também.

Em 2020 começou a assinar semanalmente a rubrica “Dejá Vú – o futuro foi ontem”.

Para me preparar para esta entrevista procurei saber um pouco mais sobre este que é mais um dos talentos confirmados da nova geração de escritores portugueses. Vencedor, entre outros, de um Prémio José Saramago – que não é coisa de somenos – do Prémio Fernando Namora e do Prémio TimeOut.

Assim, na semana passada comprei o seu hoje estarás comigo no paraíso e assim que o abri, na primeira folha, deparei-me com isto:

“(…) Porém, bem sei, não são os mortos que falam connosco, nós é que precisamos desesperadamente de os ouvir.
Por mais que gritemos contra o vazio e o esquecimento, a única resposta que temos é o eco do nosso desespero, da nossa vaidade, da nossa arrogância. Não são os mortos que clama por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas.”

Pensei de imediato:
– Prendeste-me, Bruno. Vou ler-te muito em breve. Ai vou, vou.

Mas antes disso, antes disso está isto. Está esta entrevista.
E, porque é a ti que te quero apresentar o Bruno, aqui fica a resposta dele à pergunta habitual. Quem é o Bruno Vieira Amaral?

Sou um escritor português, de 42 anos.
Condições temporárias, exceto a nacionalidade, que não prevejo que me venha a ser retirada nos próximos tempos.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no festival literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

Postas de lado as formalidades informais, aqui fica então a conversa.
Aqui fica o Bruno.

1. Quando é que sentiste que tinhas (e querias) que escrever?
Que querias fazer disto vida. Lembras-te que idade tinhas?

Não sei. Não houve nenhuma epifania. Não fiz planos. Fui aproveitando as oportunidades que me foram aparecendo. E é isso que continuo a fazer.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Talvez um texto na primária em que respondi à pergunta “o que é para ti o amor?” com qualquer coisa como “o amor não tem definição.”
As professoras ficaram muito intrigadas com a resposta, desconhecendo que eu a tinha roubado a uma entrevista da Isabel Bahia, então locutora de televisão, à TV Guia.

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

A primeira vez que me pagaram por um texto foi há onze anos. Senti que estava a enganar alguém porque tê-lo-ia escrito sem mo pagarem.

4. Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Era uma das minhas fontes de rendimento, mas não a única, nem a principal. Colaborava em revistas e jornais.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Naquela altura? Ninguém.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje escreveres para “ganhar a vida”?

A pessoa responsável por hoje ganhar a vida a escrever sou eu. O que não significa que não esteja grato a todas as pessoas que, apreciando o meu trabalho, me deram oportunidades para o desenvolver.
Têm sido muitas ao longo destes anos.
A mais importante foi, sem dúvida, o meu editor e amigo, Francisco José Viegas.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de fazer alguma coisa completamente diferente?

Já, mas depois ganho juízo.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer agora?

Não faço ideia. Talvez fosse responsável de secção de uma loja da Staples.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O meu trabalho mais conseguido foi o meu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso.

Bruno Vieira Amaral fotografado por Eduardo Martins no Festival Literário de Macau
Foto: Eduardo Martins

10. Tens, ou já tiveste vergonha de alguma coisa que escreveste?

Não.

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Gosto muito de escrever crónicas, que são muito imediatas. Mas é nos romances que encontro o meu espaço.

12. Por onde é que começas, pelo texto ou pelo título? Porquê?

Sempre pelo texto porque começar um livro pelo título parece-me simplesmente estúpido.

13. Alguma vez fizeste formação para aprender a escrever melhor?

Não.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo a qualquer hora. Como tenho prazos, não há muito espaço para fantasmas e angústias. Nos romances é um pouco diferente. Escrevo quando me apetece.

15. Como é que reages e lidas com as críticas ao teu trabalho?

Depende das críticas. Quando vêm de semi-analfabetos, não lhes dou importância. A mesma coisa quando o objeto da crítica não é o meu trabalho. Às restantes, tento não atribuir demasiado valor, sejam positivas ou negativas, porque não podem alterar aquilo que escrevi.

16. Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Qual foi o mais especial e porquê?

O mais importante foi o Prémio José Saramago. O que me emocionou mais, pelas circunstâncias em que recebi a notícia, foi o Fernando Namora.
Mas o prémio da revista Time Out é capaz de ter dado um empurrão decisivo ao meu primeiro romance.

17. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Só deves fazer aquilo em que achas que és bom e em que, ao mesmo tempo, sentes que podes melhorar. Se não achas que és bom ou se acreditas que não podes melhorar, então o melhor é mudares de profissão. Quando me sento a escrever, a convicção de que sou bom naquilo que faço não me serve de grande coisa. Ao contrário de um pintor de paredes ou de um carpinteiro, o escritor pode escrever uma grande crónica hoje e amanhã escrever uma crónica que não vale nada. A criação é muito mais do que uma questão de técnica, por isso a solução é escrever cada texto como se fosse o primeiro.

18. Tem, ou já tiveste “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Escrevendo.

19. Quem são os teus autores de referência?

Mario Vargas Llosa, Albert Camus, Nelson Rodrigues.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Não. Escrever um livro, um romance, é um processo demasiado ligado ao que sou, em todas as dimensões, para desejar ter escrito um livro que outra pessoa, com tudo aquilo que é, escreveu. Seria o mesmo que desejar ser outra pessoa. E não desejo.

De facto, os escritores são pessoas que admiro muito, mesmo não os conhecendo pessoalmente. Com o Bruno passa-se o mesmo.

Estas entrevistas acabam por me aproximar da forma como pensam e como vêem o mundo.

Obrigado, Bruno.
Pelo teu tempo e pela verdade com que respondeste a tudo e que dá para sentir deste lado do ecrã.

Podes conhecer aqui a obra de Bruno Vieira Amaral e comprar um (ou mais) dos seus livros.

Até para à semana.
No mesmo dia e à mesma hora.




Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

Paula Cordeiro: “Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história”

A primeira vez que vi a Paula foi em cima de um palco, a falar sobre podcasting. Fiquei logo convencido.
Com as ideias.
Com a forma de as apresentar.
Com a clareza de pensamento.
Com quase tudo, aliás. Mas essencialmente com a voz.

Uma voz incrível e penetrante. Claramente uma voz de rádio. Daquelas que nos leva a ver as histórias e a imaginar o mundo através das palavras que nos dizem ao ouvido.

Entretanto começámos a falar e fomos, a pouco e pouco, trocando ideias sobre várias coisas, em particular sobre conteúdos e processos de criação dos mesmos.

Tive a sorte de ser entrevistado por ela, há cerca de um ano, numa conversa difícil de esquecer (sobre paternidade) da qual resultou uma fotografia de que gosto muito.

Quando arranquei com este projecto soube logo que ia ter de a entrevistar. Porquê? Porque a Paula vive de palavras. Absoluta e completamente. Convidei-a e ela, numa timidez assumida e indisfarçável, disse-me que não sabia se fazia muito sentido… expliquei-lhe os meus porquês e… acabei por conseguir convencê-la.

Aqui fica então a Paula, numa entrevista sincera, profunda e do mais humilde e transparente que vais ver por aqui. Porque a Paula é assim. Sincera que dói. Translúcida que impressiona.

Como sempre, comecei por pedir à minha convidada que me respondesse à pergunta: Quem é a Paula Cordeiro?
A resposta chegou-me poética e desconcertante. Como tudo o resto que escreveu. Não acreditas? Então lê e depois diz-me se tenho ou não tenho razão.

A Paula Cordeiro é alguém que detesta que lhe peçam para se descrever e até pediu a uma amiga que lhe escrevesse a sua nota biográfica para enviar a uma conferência. É isto, não gosto mesmo de falar sobre mim.
Parece-me sempre vaidade embora saiba que não é, enquanto me questiono sobre se alguém quer, realmente, saber quem sou eu, especialmente porque sou irritantemente perfeccionista com aquilo que me interessa e desagradavelmente imperfeita com o que não quero fazer;
abrasivamente assertiva a observar os factos e apaixonadamente apaixonada a examinar as pessoas, numa coerência muito incoerente que sempre me caracterizou.

A partir daqui, o que se segue é incrivelmente real e verdadeiro.
Apresento-te, a Paula Cordeiro.

1. Lembras-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Começa bem… começa pelo impacto que nunca admitimos querer alcançar, mas que, efectivamente, faz parte de cada tecla que pressionamos, palavra que criamos e verbo que conjugamos. Criar é seguido da partilha, a qual conduz ao impacto e, ignorar o impacto é ignorar o que nos trouxe aqui: a explosão da ideia, o elogio da palavra, a urgência de eternizar a palavra no papel ou, agora, nos ecrãs que nos impactam. A verdade é que não escrevo para o impacto, embora o reconheça, da mesma forma que, ao escrever, dou-me ao outro e, por isso, nunca penso muito no impacto que tal possa ter. Porque nunca controlamos a impressão que provocamos no outro e porque a minha palavra principal é oral, dificilmente se eterniza e, por isso, não sei. Talvez uma frase minha, reproduzida numa parede da sala dos estudantes, escolhida por eles, na faculdade na qual dou aulas, possa ser um exemplo?

2. Há quanto tempo é que te pagam para escrever?

Pagam-me para trabalhar, escrevo por prazer e, por vezes, são uma e a mesma coisa.

3. Como é que apareceu o teu 1º trabalho a sério ligado à escrita?

Bati à porta certa na hora certa.

4. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Devo ser muito foleira, mas não tenho mentores ou grandes inspirações porque tudo me inspira e a resposta a uma pergunta destas supõe o recurso às grandes referências literárias ou aos que, reconhecidamente, têm o dom da palavra, bem como os que nos deram algum tipo de ajuda ou empurrão. E se forem muitos e não quisermos escolher? E se a nossa inspiração nos chegar da vida de todos os dias, dos programas de rádio que escutamos, dos livros e revistas que podemos ler, das conversas que partilhamos ou, até de publicações bacocas que encontramos?
E se também isso nos inspirar a fazer melhor?
E se a nossa lista de inspirações conjugar os grandes e os que ninguém conhece, mas que, de alguma forma, nos ajudaram a chegar aqui? E se…?

5. Já tiveste vontade de parar de escrever?

Já tive vontade de parar. Ponto.

6. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Eu não deveria ter aceitado esta entrevista, a verdade é essa…
Não sou modesta mas sou tímida o suficiente para ter vergonha de responder a perguntas como esta. E poderia ficar por aqui porque seria uma resposta, daquelas que não respondem mas que, inevitavelmente, preenchem o espaço em branco. Descansa Martim, não o farei porque há vários trabalhos dos quais me orgulho, um dos quais me trouxe aqui, transformou-se em livro e muito trabalho, pago, posteriormente: a minha tese de Doutoramento, escrita de um fôlego só, que conseguiu tornar científica a minha paixão maior: a rádio.

7. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

De algumas… Raramente pelo conteúdo, resultado inevitável do contexto ou da conjuntura mas, a forma…

8. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

Qualquer coisa para dizer na rádio deixa-me confortavelmente feliz e um novo formato cuja designação desconheço, que vai buscar muita inspiração ao romance e à rádio, para escrever para os media sociais. Social storytelling? Será?

9. Tens escrito coisas profundas e que procuram romper com o paradigma actual daquilo em que está transformado o Instagram. Como surgiu a ideia?

A tua questão dá a sensação de que foi premeditado ou estratégico e não foi.
A explicação é simples, porque não me identifico com o que, na maior parte das vezes, se publica  nos social media, principalmente o Instagram, que se transformou numa plataforma de narcisismo, exibição, sobretudo, de promoção e comércio. Nada contra e, ao mesmo tempo, tudo, porque a maior parte das pessoas não tem consciência de como funcionam os bastidores da plataforma (algoritmo, por exemplo) ou dos perfis que assumem uma mistura entre perfil pessoal, de divulgação, promoção e comércio. Como designar, numa era na qual somos curadores da nossa própria vida, expondo-a como profissão, para actuarmos como agentes de comunicação, numa mistura entre as diferentes técnicas do marketing (das relações públicas à publicidade) que tem como fim único a comercialização da nossa própria existência, transformando-a tanto num livro aberto como num catálogo virtual de produtos e serviços? Como se chama a isto?
Eu não sei, experimentei para perceber como funciona, a mim não me serve e, por isso, já que lá estou e que há quem goste de ler o que escrevo, porque não escrever exactamente o que me dá prazer, como uma espécie de grilo falante que coloca o dedo na ferida, roda-o e fica a ver o circo pegar fogo? Arrisquei e não há como voltar à futilidade e superficialidade dominantes.

10. Por onde é que começas? Texto ou título?

Pela ideia da mensagem, deixo fluir e logo se vê, muitas vezes o texto dá uma volta inesperada. Sou péssima a fazer títulos e, nos tempos modernos do SEO fico sempre entre o que realmente quero dizer e o que o SEO me diz para escrever. Um drama, acredita, porque SEO é tudo menos profundo (para recorrer à tua questão anterior)…

11. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Também vale dizer que estive sempre atenta nas aulas de língua portuguesa, consulto o dicionário e a gramática?
Sinceramente, ou se escreve ou não.
Podemos aprender a dominar a língua para redigir correctamente mas escrever é muito mais do que isso. Escrever é transformar uma ideia numa imagem e uma imagem numa história…

Ler com atenção e dedicação ajuda, da mesma forma que observar o mundo para o interpretar também.

12. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo quando tem de ser porque passo a maior parte do tempo a escrever e sim, escrevo quando calha, também. O que é técnico segue a rotina para conseguir cumprir prazos, o que é criativo por vezes depende da fuga à rotina para, depois, a retomar.

As melhores ideias surgem quando menos esperamos e eu já sei onde surgem as minhas: no duche (o que é uma dor de cabeça porque tenho de ficar a lavar-me e a repetir as ideias para não as perder), a surfar (novamente um problema porque normalmente as ideias desaparecem entre as ondas) ou a caminhar: não interessa onde, interessa estar ao ar livre, mesmo na cidade, e caminhar, por vezes sem direcção definida, para que comecem a surgir ideias.
Pedalar também serve, mas é mais perigoso porque a pessoa não pode tomar notas e, pior, não pode distrair-se na bicicleta…

13. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

A minha vida são prazos…

14. Como é que reages às críticas?

Odeio-as porque raramente são construtivas.

15. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Não, porque sofro desse mal que é o de me valorizar muito pouco mas, como há quem acredite, eu acredito nessas pessoas e por vezes tenho aquele ahah moment em que penso damm you girl, your good (e sim, escrevo muito em inglês, não é arrogância).

16. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Estar cansada impede-me de escrever, de ser criativa, de conseguir ver as coisas por um prisma diferente, impede-me de me colocar no lugar do outro para ver a história no seu todo, anula-me a originalidade, mas isso não é exactamente um bloqueio…

17. Quem são os teus autores de referência?

Os livros são objectos maravilhosos, mas também ocupam muito espaço e ganham muito pó. O pó é o meu pior inimigo e há uns tempos decidi-me por uma abordagem minimalista (ou quase) à minha vida.
Mudámo-nos recentemente para uma casa mais pequena, doei boa parte da minha biblioteca e levei todos os livros técnicos para a faculdade.

Os que ficaram são os que têm mais valor (talvez sentimental) o que talvez queira dizer que são os meus preferidos, muito embora tenha alguma dificuldade em lidar com essa ideia da referência porque, inevitavelmente, parece-me que preciso de uma orientação para escrever e não é verdade.  Há autores que me inspiram pelos temas que abordam, outros pela forma como escrevem e, ainda, pela forma como usam as palavras na rádio, mas não deixo que isso me influencie a ponto de perder a minha voz.

18. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Qualquer bestseller que permitisse reformar-me amanhã e escrever apenas o que me apetece, sentada no alpendre de uma casa de madeira virada para um mar muito azul, embalada por uma brisa o som das árvores e das ondas do mar. Poético, não é?

19. O livro da tua vida é…

O romance que já escrevi e que ainda não publiquei.

Podes ouvir a Paula, semanalmente, no seu podcast Urbanista 2.0.

Catarina Raminhos: “As minhas filhas acham curioso quando digo que escrevo livros mas não sou escritora”

Catarina Raminhos: “As minhas filhas acham curioso quando digo que escrevo livros mas não sou escritora”

Catarina Raminhos é também uma espécie de sinónimo incontestável de pessoa boa. É mesmo. E digo isto sem qualquer tipo de reservas, até porque já a conheci pessoalmente e confirmei que o bom pessoísmo é coisa que transborda para fora da Catarina, mesmo que ela tente evitar que assim seja.

Há uns meses convidei-a para vir partilhar parte da sua experiência de vida enquanto criadora de conteúdos e blogger com os meus alunos da ETIC e ela nem pestanejou. Aceitou de imediato e deu uma “aula” memorável.

Veio dos confins do mundo, onde fica a zona em que vive, para fazer uma viagem de 40 minutos de carro até Lisboa e partilhar um pouco da sua história com uma turma profissional de gente que nunca tinha visto na vida.

Pois se isto não é uma prova de bom pessoísmo, não sei o que é.

Assim, quando me lembrei de arrancar com esta aventura disse de imediato: “Martim, tens de convidar a Catarina!” E ela voltou a aceitar sem pestanejar. Por isso, sem mais demoras, vamos passar ao que te fez clicar neste artigo.

Como tem acontecido com todos os convidados desta rubrica, pedi à Catarina que me respondesse à questão: “Quem é a Catarina?”.
Esta foi a resposta que me deu.

A Catarina é uma miúda com quase 40 anos que, para todos os efeitos, se vê sempre com 14. Cheia de sonhos e de caracóis no cabelo, mas com muita noção da realidade e das dificuldades que sempre se levantam no caminho – para que se possa ir aprendendo vida fora.
É uma lutadora, que não gosta de desistir. E uma chorona, que nunca dá parte fraca. Ahhh, e gosta das coisas simples da vida: de ler, de estar sossegada a olhar a paisagem, de ouvir as suas músicas e de ter tempo para fazer nada.

Posto isto e feitas as devidas apresentações, aqui fica a entrevista:

  1. Quando é que sentiste que querias fazer da vida das palavras e da escrita?

Senti desde bem cedo, apesar de ter precisado de praticamente 30 anos para ter coragem de o fazer, de uma vez por todas.

2. Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Sim, foi na adolescência – ali a partir dos 14 anos – na troca de cartas e de recadinhos que fazia com duas amigas próximas. Desabafávamos muito e escrever era a nossa forma principal de comunicar. E comunicávamos muito bem deste modo. Sentia que me expressava melhor a escrever do que a falar (ainda acho!).

3. Há quanto tempo escreves profissionalmente?

Se contar com os tempos de jornalista, há 18 anos.

4. Como é que aparece o teu 1º trabalho a sério?

A sério no sentido de ter sido paga para o fazer, foi um part-time num escritório de advogados, durante o tempo de faculdade, em que traduzia textos de inglês para português e vice-versa.

A sério no sentido de estar relacionado com a escrita, foi quando me tornei correspondente do Diário de Notícias para os concelhos da Grande Lisboa – tinha acabado a licenciatura em Jornalismo.

5. Quem foi a tua grande inspiração?

Em termos pessoais, o meu Tio Lio, irmão do meu pai, que sempre me incentivou a ler, a ouvir músicas e a ver filmes;

Em termos profissionais, a Leonor Figueiredo, jornalista do Diário de Notícias que me aturou e me ensinou (tanto!) durante o meu estágio não remunerado de 3 meses. Era uma miúda estudante de jornalismo.

Em termos artísticos, aqueles com cujas palavras eu cresci: Susanna Tamaro, Milan Kundera, Gabriel García Márquez e Carlos Ruiz Zafón.

6. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Em medidas diferentes, todos os nomes que mencionei na resposta anterior.

7. Já tiveste vontade de parar de escrever e de mudar de vida?

Não, porque sinto que só agora comecei a escrever… estou na fase de enamoramento absoluto.

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer hoje?

Provavelmente estaria a trabalhar em televisão, sempre nos bastidores, a trabalhar conteúdos.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

Ter sido directora de conteúdos da Warner Bros Portugal.

10. Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Vergonha não, mas rio-me muito quando pego nos meus diários de miúda…

11. O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

A escrita de não-ficção. Fascina-me muito mais a realidade do que qualquer outro género. Tenho perfeita noção de que não conseguiria escrever poesia ou um romance, por exemplo.

12. Por onde é que começas? Texto ou título?

Começo quase quase sempre pelo título. Depois escrevo o texto e altero o título no final.

13. Alguma vez fizeste formação para saber/aprender a escrever melhor?

Fiz o workshop de escrita criativa, o de escrita para crianças e o de escrita “do eu”, todos na Escrever, Escrever.

14. No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Numa semana tradicional de trabalho, tenho uma rotina apertada.
Depois de ir levar as crianças à escola, sento-me ao computador e escrevo até à hora de almoço. Apesar de trabalhar em casa, faço uma hora de intervalo para almoçar e aproveito para ver um episódio de uma série qualquer. Depois retomo o trabalho até às 16h, hora em que começo a adiantar o jantar e me preparo para ir buscar as três e dar início ao meu segundo part-time do dia: dar banhos, jantar e deitar três crianças.

15. Lidas bem com prazos ou preferes escrever sem pressão?

Fico ansiosa com os prazos, mas preciso deles para criar.
Se me derem três meses para escrever um livro, eu vou produzir a sério no último mês. No meu caso, o stress é aliado da criatividade.

16. Como é que reages às críticas?

Se forem construtivas reajo bem, mesmo que sejam negativas.

17. Acreditas que és boa naquilo que fazes?

Gostava muito de acreditar. Mas ainda não…

18. Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Tenho imensos. Procuro fazer outras coisas e depois voltar ao texto.
Às vezes pego num livro – novo ou que já li – para me levar para outros cenários…

19. Quem são os teus autores de referência?

A Susanna Tamaro, por ter sido das primeiras coisas que li depois dos Clubes das Chaves e da saga “Uma Aventura”; Alice Vieira; Luís Sepulveda, Milan Kundera, Julian Barnes, Bruce Chatwin, Gabriel García Márquez e Carlos Ruiz Zafón.

20. Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

“A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Záfon.

21. O que é que as tuas filhas dizem daquilo que fazes?

Elas gostam de fazer perguntas acerca do meu trabalho.
Só conhecem o livro infantil “Minore e a Magia das Cores” e gostam muito da história. Acham curioso quando digo que escrevo livros mas não sou escritora…

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