Almas cheias, carteiras vazias

Almas cheias, carteiras vazias

Partilho aqui o texto da minha “pequenina” que de pequenina nada tem!!
Há muito que não escrevia. Há muito que não sentia vontade de o fazer! Numa noite fria de fim de Novembro, viu, cheirou, falou e guardou. Eis o que de tudo isso resultou.
Que orgulho poder estar a teu lado e partilhar do tamanho do teu coração e da grandeza incomensurável da tua pessoa!

belaevitor

“Bela e Vítor são amantes.
Amantes da vida.
Amantes um do outro.
Amantes. Humildes.
Têm em comum a vida nas ruas de Lisboa.
Bela pede esmolas a quem passa, sentada no chão. O olhar perdido, mas brilhante.
Vítor arruma carros. Às vezes a troco de nada. Mas sempre, sempre de olho na sua Bela.
Pela Avenida da Liberdade passam carteiras cheias. Muitas delas, de alma vazia.
Bela e Vítor conhecem-se há pouco tempo, mas cuidam um do outro como se partilhassem o mesmo tecto há uma eternidade. Bela é sensível, ingénua.
Vítor aparenta ser de ferro. Mas por detrás da capa de super-herói, um homem como tantos outros. Não deixa, por nada, que toquem em Bela. Arrisco dizer que, por ela, seria capaz de entregar a própria vida.
Bela e Vítor foram motivo de reportagem esta semana.
Apareceram na televisão e pediam “uma casinha”, um espaço para, juntos, continuarem a dividir o que têm, que é quase nada.
Naturalmente, não consegui ficar indiferente.
O meu corpo, esse, paralisado em frente ao ecrã.
A minha atenção estava neles.
E na voz e texto doces da colega que teve estômago para relatar uma história tão bonita e tão triste.
E que estômago!
Uma semana depois, e graças à generosidade de uns quantos que por aqui andam neste mundo – graças a Deus! –, Bela e Vítor conseguiram “uma casinha”.
Fiquei a saber a notícia ao passar pela Avenida uma destas noites. Não resisti a trocar dois dedos de conversa com Bela. Desde a reportagem que o bichinho tinha cá ficado. E tinha mesmo de lá passar.
Nessa noite, fui mais rica para casa.
Levei comigo o sorriso sincero de Bela que me pediu “uns restinhos de coisas” que tivesse “por lá” e dos quais já não precisasse.
“Não se esqueça!” – insistiu ela na despedida.
Não me esqueço Bela.
Nestes dias frios em particular, dos quais todos nos temos queixado, lembro-me de si Bela.
Imagino o frio doloroso a tocar-lhe os ossos. Não me parece que a pequena manta que tinha nas pernas naquela noite seja suficiente para enfrentar este tempo.
Sei que, sozinhos, não podemos fazer muito.
Mas será sempre de coração.
Bela e Vítor não pedem comida.
O pouco dinheiro que conseguem durante o dia e até às tantas da noite vai dando para reconfortar o estômago.
Bela pede “coisinhas” para dar algum conforto ao novo lar.
Vítor pede um trabalho. Um trabalho. Vítor não quer um emprego. Quer um trabalho. A fazer o que quer que seja.
Mas posso adiantar-vos que gostaria muito de ser jardineiro – (pode ser que o Sr. Presidente da Câmara me “oiça”! Nunca se sabe! Não custa tentar, certo?).
Bela e Vítor são amantes.
Sem-abrigo num vão de escada entre as lojas mais luxuosas da cidade.
Hoje têm “uma casinha”.
Ainda assim, quem passar pela Avenida poderá continuar a encontrar Bela e Vítor.
Lutadores desconhecidos até há bem pouco tempo.
Sobreviventes.
Bela e Vítor têm tudo menos carteiras cheias.
Mas as almas, essas seguramente, estão bem quentinhas.
Até breve, Bela!

Ana Maltez