Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Não devia ter mais de 15 anos quando o conheci.
Ele andava pelos 20.
Curioso como só no dia da sua morte me dei conta de que a diferença de idades entre nós era estupidamente curta.

Era curta, sim, mas dos 15 para os 20 ainda vai um salto razoável, quando se tem 15 e 20. Desde logo porque aos 20 um tipo já pode guiar e aos 15 anda de autocarro e à boleia, que já é bem bom.

(Caramba!! 20 anos que voaram e um texto que não quero, mas que tenho mesmo de escrever)

Quer dizer, não sei bem se ele ainda andava ou se já deslizava por eles (os 20 anos) fora com aquela graciosidade destemida tão própria dos heróis. Dos seres humanos ímpares. Das almas singulares que foram beijadas pela grandiosidade de espírito antes mesmo de conhecerem a luz dos dias, os olhos dos outros, e as vidas que hão de ter a felicidade de se cruzar com as suas.

Não eram sequer 7 da manhã quando soube que o perdi.
Soube e não quis ver.
Vi e não quis ler.
Li e não quis crer.
Deitei-me e não quis saber.
E pelo meio lembrei-me que há coisas que não conseguimos esquecer.
E o malfadado dia que Deus quis escolher…
Caramba! Haverá sequer limites para fazer alguém sofrer?

O João andava de mota. Andou até há algum tempo. Fazia snowboard. Caiu delas, das motas e das pranchas algumas vezes. Aleijou-se mas levantou-se sempre.
Numa dessas vezes veio mesmo com um braço partido de Espanha, sem o saber.
Tal era a fúria de viver.
Cara lavada, sorriso rasgado, aquele cabelo comprido que me fazia chamar-lhe Brad Pitt da Flamenga. Mais do que isso. Aquela forma de ser e de estar que me levou a que um dia lhe começasse a chamar tio. Sim, tio!

Chama(va)-se João Pedro. Tinha 40 anos. Partiu cedo. Incompreensivelmente cedo. Como? Da forma que Deus parece ter encontrado para nos dizer que já chega… que a vida não é só coisa boa.

Foi, também ele, vítima da doença do século.
O flagelo que tem trucidado famílias inteiras.
O cancro – já te disse que falarei sempre de ti com letra pequena, com o desdém muito próprio de quem já te conhece de ginjeira e se recusa a dar-te mais destaque do que isto – pois claro.

O Pintas – porque era assim que o conheciam e será sempre assim que haverá de ser lembrado – foi um dos meus heróis.
Não digo isto apenas porque ele morreu.
Escrevo-o porque tive a feliz felicidade de lhe poder dizer isto em vida.
E não era herói por ter lutado heroicamente com a monstruosidade que a vida lhe reservou – não meu cabrão, não vou repetir o teu nome novamente – ou por ter olhado para tudo isto com o olhar ímpio e único com que olhou. Nada disso.

Era herói porque teve e tinha tudo aquilo que a vida reserva somente aos heróis: carisma, atitude, loucura, bondade, altruísmo, benevolência, graça, espírito de aventura, bravura, simplicidade, clareza, capacidade de movimentar gente, de inspirar quem o ouvia, de cativar quem para ele olhava.

E depois ainda há… os cães. Cada um deles.
A Nicky. O Chico. Os dois. Vi-los deitados no chão no velório e no funeral. Prostrados. Serenos. Sossegados. Tristes. Cabisbaixos. Caramba. Foi duro. Foi muito duro.
Como foi duro saber que foram ao hospital para se despedirem do dono… Jesus.
Que violência atroz. Como é possível que isto, por si só, não seja suficiente para comover cada um de nós?

Tive a sorte de me tornar seu amigo.
Tive a fortuna de poder partilhar com ele variadíssimos e inesquecíveis momentos ao longo de quase 20 anos de amizade, espalhados um pouco por este país fora.

Tive igualmente a sorte de ver nele um exemplo e de pensar, pouco depois de o ter conhecido, “quem me dera ser como tu!”. E assim foi durante muito tempo. Quis ser como tu. Quis ver o mundo como tu vias. Conhecer quem conhecias. Fazer o que fazias. Até que rapidamente percebi que não tinha estofo para tal. Chamaste-me, certa vez, coninhas, e eu disse… tens razão.

Depois deste-me um cachaço e disseste-me que preferias 1000 vezes ser coninhas e ter dentro da cabeça aquilo que eu tenho.
Seja lá isso o que for. Nunca percebi bem o que vias de tão espectacular no interior do meu pensamento. Mas sei que gostavas, muito, mas mesmo muito de conversar comigo. De me ouvir explicar coisas, contar outras tantas e eu sentia o mesmo.

Ouvia-te, em silêncio, e observava-te, no teu modo tão único de contares as tuas incríveis histórias. Os gestos, as mãos e a forma como elas te ajudavam a descrever, a pormenorizar. A isso juntavas-lhe um olhar penetrante e desconcertante. Eras do caraças. Sabias? Eras mesmo do caraças.

Mal sabia eu e mal sabíamos nós que, 19 anos depois, mais concretamente no início de 2017 – altura em que soubemos concretamente o que se passava com o João (a certa altura passei a chamá-lo assim, pelo nome, porque as alcunhas, de certo modo, acabam por ser pouco para invocar o santo nome de um herói.

E o deste deve ler-se e escrever-se com reverência, com solenidade e com um respeito que não se entrega a muita gente ao longo de toda uma vida) – o heroísmo e a capacidade de tocar na vida dos outros sem que para isso tivesse que mexer um dedo que fosse, haveriam de se tornar absolutamente esmagadores.

Não vou maçar-te com recordações só minhas, com palavras vãs e vagas, com lamechices post mortem, nada disso.

Ai de mim que o fizesse, sabendo o quanto o meu amigo gostava de me ler e a frequência com que até há 1 ano me dizia: “Quem me dera ter essa cabeçorra e escrever como tu escreves. Tens um dom que não reconheço em mais ninguém. Espero que saibas isso e que o uses como deve ser“.

Ainda assim, fiz sempre questão de lhe pedir sempre autorização para escrever sobre ele, para publicar o que quer que fosse, e Deus sabe como me está a custar escrever isto… incomparavelmente muito mais do que me custou, há pouco mais de 1 ano, escrever isto… 

A dor que sentimos não nos deixa dormir direito;
A dor que sentimos insiste em pesar no peito;
A dor que sentimos e… Meu Deus… e o saber que não há nada a fazer, que não há volta a dar, que o mundo segue imparável e que só nos resta continuar, pela vida fora, a vida toda… mesmo que existam os dias em que só nos apetece gritar “QUE SE FODA!!”.

A dor que cada um de nós carrega e que o vizinho do lado desconhece;
A dor de se olhar nos olhos, de silenciar um abraço arrasado e de dizer: desaparece!
A dor desmedida da mãe, a dor incompreensível do pai, a dor da irmã, dos tios, dos primos… dos amigos distantes e dos mais próximos… a dor da Susana… ser humano de um tamanho 1000 vezes maior que o tamanho da sua altura, que por si só já tem uma altura considerável.

Um ser humano tão maior que o amor que (nem sempre) tudo cura.
Uma mulher impressionante que impressiona quando nos fala com os olhos, antes de mesmo de nos dizer o que quer que seja. Uma mulher que nos abraça lavada em lágrimas e que, mesmo não querendo, nos confronta com aquilo que a vida tem de mais certo… a morte de alguém que amamos. Que ela amava. Muito.

Porque só alguém que ama muito outro alguém consegue caminhar de mãos dadas rumo à desgraça e não vacilar. Não tremer. Não desistir. Não o abandonar. Mesmo quando a sentença está lida e a sorte traçada. Ahhh mulher do caraças! Tenho uma assim em casa. Sei a sorte que se tem. E ele teve muita sorte em poder tê-la a seu lado nestes quase 2 anos de falta dela.

Claro que todos morremos um dia. É uma verdade inatacável. Um dado adquirido. Uma certeza.

Mas essa certeza não nos minimiza nada. Não relativiza coisíssima nenhuma.
Bem pelo contrário. Nada nos consegue fazer esquecer a ideia que temos de que somos, com toda a certeza, novos de mais para estarmos já tão cansados de perder e enterrar amigos.

Não fizemos nada para merecer esta pesada sentença, esta condenação imponderada e desmedida. Nada. Somos um bando de boa gente. De coração bom. De amizades longas, maiores e mais fortes que muitos casamentos.

Amizades que começaram lá longe, no tempo em que a amizade se forjava com a pureza inequívoca do sangue nos joelhos, arranhões nos braços, bolas furadas, berlindes, cabanas e estaladonas que ferviam. Canhões e mais canhões. Bebedeiras do tamanho de camiões. Somos isto e muito mais. Em bom. E não. Não merecemos o que a vida nos reserva. Não merecemos ter heróis que nos são roubados cedo de mais.

Merecemos a felicidade de nos vermos envelhecer. A alegria de nos vermos crescer, esquecendo e ignorando o facto de que um dia, todos nós, sem qualquer excepção, haveremos de morrer.

Diz o Palma que enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar… não se lembrou foi de nos dizer que pelo caminho há buracos, estradas cortadas, incêndios, vidas queimadas e tristezas tamanhas que fazem com que a estrada se entorte e se torne, em certas alturas do caminho, impossível de ser atravessada.

É seguir com a vida como a queremos. Tentar ter o que não tivémos, sem deixar de ser quem somos. E dizer o que pensamos. Abraçar quem amamos. Recordar quem conhecemos. Cuidar dos + pequenos para que um dia cuidem eles de nós.

E agora, João? O que fazemos para ouvir a tua voz? Nada. Nada a não ser recordar.

Acredito pouco na história do que há depois da morte. Aliás, acredito cada vez mais que morremos e pronto. Assim ficamos. Mortos. Inexistentes. Remetidos a lembranças nas cabeças de quem se lembra. E cada vez nos vamos lembrando menos. Porque a vida não perdoa um segundo a quem vive e quer sempre viver mais e melhor.

Sabias viver como poucos. Gostava da vida como quase nenhum. E é exactamente isso que guardo de ti. A paixão pela vida. A paixão pelo viver. O amor incondicional pela praia, pelo sol, pela natureza, pelos amigos, pela família.

Obrigado, João. Muito obrigado. Por estes 20 anos. Pela tua vida. Por tudo.
Garanto-te que não viveste em vão. Sei que não sou o único a achar que não.
Tenho a certeza.

A dor… a dor dói no coração. Na alma. No medo de esquecer. No medo de não ser capaz de lembrar quando um dia a memória falhar.
Porra, que este texto está a ser tão difícil de acabar.
Os dedos insistem em bater nas teclas. Parecem ter, também eles, uma vontade inexplicável de continuar e tu, e tu aí, ali, aqui, onde quer que estejas, onde quer que te vejas.

Dei-te um beijo na testa e tu, sempre com o amor na ponta da língua, disseste-me que desse beijinhos às meninas. Caramba. Nem assim. Nem ali. És incrível. És demais. És irrepetível. Não consigo escrever mais.

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

São 7h55 minutos da manhã desta segunda-feira. Sinto o telefone a vibrar dentro do bolso. Sei o que é. Pela hora inusitada da mesma sei de antemão o conteúdo da mensagem e adivinho-lhe também o remetente.

“Morreu. Já não acordou esta manhã. É isso que vou ler. Tenho a certeza.
Tiro o telefone do bolso, abrando, ponho o pisca para a direita, saio da A5, viro em direcção ao Estádio Nacional, para seguir para Laveiras.

Mudo o telefone de mão e de seguida vou poisá-lo em cima da mochila. Dou-lhe uma espreitadela, rápida… sim, vinha a conduzir, mas a força do momento assim obrigava. Olho para o telefone que já se acendeu e que me mostra a seguinte mensagem: “Desculpa estar a dar esta má notícia, mas o Ricardo já não acordou esta manhã”

É um torpor imediato. Uma tristeza que desfaz a secura de uns olhos ainda desavergonhadamente ensonados para os encher rapidamente de lágrimas que correm direitinhas pela cara abaixo. Tento acalmar-me porque ainda preciso de guiar até ao trabalho. Lá consigo, pois claro. Chego. Subo. Abro a porta. Vou à casa de banho enxugar os olhos e olhar para mim mesmo antes de me ir sentar a trabalhar. É estranha a interpretação que temos de nós no dia em que nos morre alguém.

Ligo as coisas e não aguento muito tempo. Tenho de ir lá fora. Respirar. Falar. Perguntar coisas a Deus que vão ficar, como ficam sempre, sem resposta. É demasiado cruel.
É avassalador. Dói. Dói demais Imaginar a dor de um amigo tão querido. Tão doce. Tão meigo. A dor da família. A dor da Marta.

O Ricardo foi sempre um dos melhores de nós. Foi. Não é por ter morrido que escrevo isto. É porque foi mesmo.

Puro. Impoluto. Doce. Amigo. Alegre. Sorridente. Sorridente até mesmo quando ficava sério. Quando se zangava. Quando perdia ou quando não ganhava. Na meninice fizemos muito. Fizemos tanto. Rimos. Corremos. Fugimos. Fomos apanhados. Partimos vidros. Fomos ameaçados e insultados. Insultámos e fugimos. Fomos ao Pão por Deus.
Molhámos centenas de pessoas com balões de água. Fizemos corridas. Jogámos ao berlinde. Jogámos à bola. Jogámos à lata. Jogámos ténis. Vimos filmes. Dezenas e dezenas de filmes, VHS, lá em casa. Fazíamos sessões de cinema. Não sabíamos o que fazer com tanto Verão. E os anos eram de algodão. Leves. Pareciam eternos. Todos. E depois lá chegava o Outono e o Inverno. E nós ali. Onde podíamos.

Mas essas férias de Verão prometiam sempre durar para sempre.
As noites na rua. As tardes na rua. As manhãs na rua. A rua. As manhãs nela, as tardes dela e as noites como uma flor na lapela.

A Flamenga. O nosso bairro. O bairro que nos viu crescer. O bairro que nos viu passar da meninice atrevida para a adolescência que primeiro se quis tímida para depois, sem vergonha, caminhar apressadamente para a maioridade. Aí. Nesse estado em que os caminhos se separam. Onde as amizades se esfriam. Onde as escolhas nos definem.
Ali. No bairro que nos trata por tu, que nos faz festas na cabeça, que nos conhece os pais e os filhos, e que já viu partir alguns dos seus melhores elementos. Ainda há pouco tempo lá foi o Walter, lembram-se?

Não há receita que nos proteja deste flagelo. Não há forma de prever que uma barbaridade destas vai acontecer. Sim, claro que podemos comer melhor. Dormir mais. Fazer desporto. Ser mais saudáveis. Andar a pé. Contemplar a natureza e… caramba, pá! E quem faz isso tudo e acaba por morrer na mesma?

Ver morrer um amigo é um pesadelo que, infelizmente, todos nós temos de (re)viver uma e outra e outra vez. Vezes demais. Começam a ser vezes demais para gente tão nova. Tenho 34 anos e estou cansado de enterrar pessoas de quem tanto gosto às mãos do cancro. Sim. Em minúsculas. Não merece mais. Não mereces mais. Sabes bem que não mereces porra nenhuma, sua besta!

Já tu, meu amigo, tu… que lutaste com tudo o que tinhas. Que acreditaste na felicidade milagrosa de um milagre que acabou por não chegar para te salvar. Um milagre que não podia ter chegado. Um milagre que a falibilidade do nosso corpo não permitiu que chegasse. Nem tinha como permitir. É esta, hoje e sempre, uma luta desigual. Não chega sequer a ser uma luta. ele controla o processo por completo.

Ninguém merece esta doença, mas tu és, tu eras, tu foste, tu és… que confusão! Foda-se, que puta de confusão que prá’qui vai. Tu merecias muito mais do que isto. E aqueles que te amam mereciam-te para a eternidade. Que tremenda injustiça, Ricardo. Que tremenda injustiça!

Há nos amigos de infância qualquer coisa de poético o suficiente para fazer de nós pessoas felizes durante toda uma vida. Apercebi-me disto, mais uma vez, nestes últimos dias, perante a crónica da morte anunciada do meu querido Ricardo. A quantidade de memórias que temos com estes amigos que nunca esquecemos é de tal forma esmagadora, que torna impossível que não sorríamos de imediato quando nos vemos no café, no talho ou na merceeria, ou quando nos lembramos desta ou daquela ou da outra história. E são tantas. Às dezenas. Centenas. Impossíveis de esquecer.

Isto deixa em nós uma tremenda e inquestionável certeza: gostemos ou não, estas são as únicas pessoas na vida que dificilmente esquecemos. Atrevo-me a dizer que é praticamente impossível. Passem os anos que passarem. Vivamos a vida que vivermos.

Os amigos de infância não se esquecem, por uma razão muito simples: são as pessoas mais importantes da nossa vida na fase mais importante da nossa vida, e ainda para mais são, quase sempre, escolhidos pelo que de mais puro temos dentro de nós. Ou gostamos deles ou não. Ponto. Não há cá espaço para merdas. 

Dei-lhe 1 beijo na testa à chegada e fiz o mesmo quando me vim embora.
Soube, ali mesmo, naquele olhar que foi só nosso, naqueles segundos de encontro dos teus olhos nos meus, soube, precisamente ali, naquela troca espontânea de mimos e amizade regada com um “gosto mt de ti, meu amigo.”, que nos estávamos a despedir. Escrevo a vermelho, pelo teu Benfica. Por todas as discussões que tivemos à conta do Porto e do Benfica. Caramba. Que vida. Que VIDA!

E foi assim que dissémos adeus um ao outro. Ali. Naquele quarto em StªMaria.
E soube também, pelos teus olhos, os mesmos que conheci durante 25 anos, que estavas com medo. Com muito medo. Aterrado. Aquele medo que todos temos mas que só alguns são capazes de enfrentar. O medo de morrer. Mesmo que seja por obrigação. Foste obrigado a morrer e isso… isso é imperdoável, puta de doença.

(Não tens vergonha de continuar a destruir vidas e famílias inteiras à conta dos teus caprichos? Bardamerda para isto tudo!)

Foste insuperável. Foste incrível. Foste um herói, meu querido. Foste um herói na forma como enfrentaste e tentaste dobrar o destino à força da tua força e alegria de viver. Perdeste a batalha física. Ganhaste a batalha mais importante. Mostraste-nos como é que se enfrenta uma coisa destas sem nunca fraquejar. Acreditando sempre que é possível. Que ainda há prolongamento e penálties.
Que inspiração. Que força. Que querer. Que Rei.

Dei-te um beijo na testa e vi, dentro dos teus olhos, com a meiguice que sempre neles viveu quando quem olhou para mim, pela última vez, com os olhos carregados de medo antes de me dizer: “Gosto muito de ti, amigo. Estava com o João. E ele disse-nos: “Gosto muito de vocês, meus amigos.”

Estavas a comer Nestum quando entrámos e, espreitando pelo canto do olho, nos viste. “Está a saber-me pela vida, meus amigos! Vocês nem imaginam, está mesmo a saber-me pela vida! (…) Obrigado por terem vindo.”

Obrigado eu, Ricardo. Obrigado eu.

Foi assim a tua vida. Doce. De Mel. Como o teu Nestum.
Tenho para mim que naquela taça estava todo o amor do teu mundo e de todos os que te queriam e querem bem.

Foi assim. Foi assim que a Flamenga te perdeu. Foi assim que o mundo te perdeu.

Quanto a nós,  vamos guardar-te para sempre, Ricardo. Para sempre. 

Até já, campeão!

Dia mundial da luta contra… ti!

Dia mundial da luta contra… ti!

Pensavas tu que já te tinha deixado em paz e no teu cáustico sossego?! Naaaaaa, enganas-te. E esse é aliás o mais puro e pérfido dos teus enganos, pensares que as pessoas te deixam em paz ou acabam por se esquecer da tua particular e sobretudo injustificada existência.

A quantidade de dias nacionais e dias mundiais que se assinalam em tua honra deve encher-te de orgulho não é?

Ainda agora se assinalou o maior de todos eles, mas levou-me ainda um tempinho a pensar no que poderia eu fazer para não deixar passar em claro uma oportunidade mais do que soberana para te dirigir umas palavrinhas, carregadinhas de toda a ternura e meiguice que tenho para contigo.

Deves refastelar-te nessa tua injustificada e ignóbil condição, julgando-te muito especial, pois olha que não és, de todo. Não passas daquilo a que nós, as pessoas, chamamos de um completo atrasado mental e um filho de uma grande… Meretriz.

Na verdade, Nós, teus servos e sobretudo teus hospedeiros, que te convidamos tantas vezes para o banquete das nossas vidas, numa espécie de surdina mortal, somos seres ambíguos que não temos por ventura sequer a noção do quão estranhos te devemos parecer.

Talvez seja mesmo por isso que te dedicas com tanto afinco a explorar todos os cantos dos nossos frágeis corpitos, talvez seja por isso que invades todos os becos das almas de quem beijas sem licença, com candura e indecência, numa tentativa clara e desavergonhada de nos roubares a bravura, de nos subjugares à força imensa do teu poder, que tantas vezes só conhecemos nos males dos outros.

Os teus estranhos modos

Tens uma forma estranha de te abeirares das pessoas.
És, mais do que outra coisa, muito desajeitado e trapalhão.
Dir-se-á em tua defesa, que por ventura não tiveste tempo de aprender as boas maneiras e os bons modos condizentes com a grandeza cruel daquilo que representas e com a dimensão universal que comportas.

Afinal de contas devias ser um exemplo para o resto da merda que no mundo impera, mas não, em vez disso és completamente associal e sobretudo dono de uma insensibilidade a todos os níveis inacreditável.

Foste remetido a um abandono quiçá precoce, e possivelmente terá sido isso que despoletou em ti a raiva e a inegável falta de bom senso que tanto te caracterizam.

No fundo mais não és do que o produto final de uma infância inexistente e de um propósito de existir absolutamente deprimente. Até a tua mãe te abandonou.

Não riste, não brincaste, não caíste, não te sujas e com toda a certeza que nunca te apaixonaste. Ninguém gosta de ti, ninguém nunca gostou de ti e nunca poderá sequer ser possível que alguém venha a gostar de ti.

Mais não é do que o castigo óbvio e mais do que merecido para alguém que se dedica, noite e dia, faça chuva, sol, neve, nevoeiro ou outra coisa qualquer, a atormentar a vida das pessoas em que toca, sem direito algum a tocar em quem quer que seja.

No mundo dos homens isso poderia custar-te caro, sabes?

No entanto, tens a capacidade resiliente que caracteriza os monstros e que os torna tantas vezes, aparentemente, indestrutíveis, inalcançáveis, in… tudo!!

Um dia mundial só para ti

Ter um dia mundial que luta contra nós não deve ser coisa boa de se sentir, ou de se ter.
Está bem, és mundialmente conhecido e depois?
A SIDA também o é, a FOME idem aspas, a POBREZA ganha-te aos pontos na simpatia, e tu… vales zero.

Ninguém te suporta, ninguém quer sequer ouvir falar do teu nome, do que provocas em quem tocas. Já paraste para ver bem aquilo que consegues fazer às pessoas? Pessoas essas que nunca te fizeram mal algum, que nunca sequer te dirigiram a palavra, o olhar, o pensamento, nem num momento de maior tormento. E qual é a tua resposta perante essa conclusão?

Paciência que vão ter de me aturar. Vim para ficar. Quem não gostar não tem grande remédio a não ser… acreditar e aguentar. E o homem aguenta, ai aguenta aguenta! Nem tu sabes onde te foste meter.

Despedida

Despeço-me dizendo-te que espero sinceramente que morras. Não se deseja a morte a ninguém, mas tu… a tua pode-se. E atenção que não te desejo nem metade do sofrimento que provocas em nós, homens, mulheres e crianças, desejo tão somente que morras, de uma vez por todas, que vás para onde foram as pestes e que nem elas te emprestem as vestes, para andares nu e envergonhado com o que sobrar do teu reinado.

E olha só a definição simpática que nós os portugueses arranjámos para ti:
CANCRO – Tumor maligno de origem desconhecida, com tendência a destruir os tecidos vizinhos e a disseminar-se.
Que tal? Fica-te a matar! Morre de uma vez por todas porque aqui ninguém te vai recordar, ou chorar a tua morte.

Vai sim assinalar-se eternamente o dia do teu fim, com festas e arraiais, festarolas e festivais, e outras coisas que tais.

E de ti, ficará para sempre a lembrança de uma das mais horrorosas pragas que Deus permitiu que ao mundo chegasse, ainda falta vir quem Lhe pergunte onde estava com a cabeça…

No fundo não há quem te esqueça e menos ainda quem te mereça, razões mais do que suficientes para que não se peça que desapareças.

Não há pois, em todas as tuas distintas formas e máscaras, uma que justifique sequer existir, uma que mereça que dela se fale, uma que se elogie, se distinga, nada, mais insignificante era impossível, no entanto, nada de ti é mais do aquilo que em nós te deixamos ser.

Do corpo tantas vezes te apoderas, mas da alma, dessa, não sacarás um sopro que seja, não encontrarás nada que se veja, pois num bolo nunca sobra a cereja e alma é o último bastião de um homem e de homens, de homens não sabes tu nada.

Por isso, meu menino, boca calada.

Tu aí, nós aqui. Tantas vezes em nós entras, por ali ficas e te alimentas, mas sais de mãos vazias, com as ideias mais frias e frustrado, acima de tudo isso…

Reza para que os dias do teu fim não sejam nem de perto semelhantes aos dias que dás a muitos, a tantos dos que roubas à vida, sem permissão, sem… sem… sem vergonha!

Um dia, um dia será dia.

À conversa com o Medo – Parte I

À conversa com o Medo – Parte I

Deixa-me desde já avisar-te que ao longo desta dissertação te irei tratar assim, por tu, dirigindo-me sempre a ti desta forma directa, utilizando sempre a 2ª pessoa do singular, como se conversa com qualquer pessoa com que se tem um grau de confiança elevado e um capital de proximidade inquestionável e irredutível. É pois por isso que não tenho qualquer pudor em falar contigo desta forma, quase como se te pudesse olhar nos olhos, bem lá dentro, onde vivem todas as tuas certezas e inquietações, todas as tuas histórias, todos os teus arrojados e despeitados subterfúgios, aqueles que usas para atormentar todos aqueles que conheces.

Não tens vergonha? Não tens um pingo de decência na verdade.

Não há em ti qualquer ponta de bondade. Não tens sequer uma identidade, um rosto, uma tromba nojenta que se possa encher de estaladões, nada.

Não tens nada disto, mas és tão humano como outro filho da puta qualquer.

Ouve-me bem porque não quero estar a repetir isto mais vez nenhuma, nenhuma, estás a perceber?!

Aquilo que fazes com as pessoas é abjecto, vil, cruel, sádico e chega a arrepiar, a provocar uma sensação de desespero e impotência quase impossível de combater.

Compreendo que és muitas vezes um mal necessário, que tantas outras precisamos na verdade de nos socorrermos de ti para sobreviver, que és tu quem nos mantém alerta, de “pestana aberta”, que, como o disse e bem José Luís Peixoto, és tu quem “em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em consideração”, não posso estar mais de acordo e todo e cada um de nós já sentiu e já se viu envolto numa qualquer casualidade mergulhada de pavor, em que foste de facto tu o responsável por não nos termos magoado, por não nos termos desviado, por termos seguido o caminho que está certo e que nos é mais indicado e não o caminho sujo que segue um desalinhado.

De facto ajudas a que nos regulemos, de certa forma permites que aprisionemos na impossibilidade de fazermos tudo o que nos passa pelas mentes que vais retorcendo a teu bel-prazer, meu nojento e maquiavélico manipulador de homens.

És quase palpável e tangível, pelo menos colho frequentemente essa mesma sensação, a ideia quase, quase real, que é perfeitamente possível roçar a sensação plena de te sentir o odor, quase, mas nem o quase chega para te alcançar por entre os dedos, vontade superior essa de te castigar por todos os castigos que infliges em quem não te consegue fazer frente, porque, mais do que tudo aquilo que em nós provocas, o que se passa é que de facto tens todas as características de quem vive e existe no mundo dos homens.

És mau, és sujo, desleal e falso, inversamente és tantas vezes absolutamente magnífico e sedutor, cantando com a melodia da hipnose que cantavam as sereias que quase levaram Ulisses à loucura.

Por vezes quente e sereno, mas, indo à raiz real da tua natureza, és o que de mais repugnante e execrável vi em toda a minha ainda curta mas já preenchida vida.

Confesso que não tenho na verdade o pesaroso hábito – ou costume, como preferires – de costumar prestar-te muita atenção no decorrer normal do normal dos dias, talvez por isso mesmo não tenha assim muito respeito ou consideração por ti.

És exactamente simétrico de todas aquelas pessoas com quem se trabalha e de quem nada se sabe ou quer saber, de todos aqueles que sabes serem maus pela exclusiva aspereza do carácter, pela tenebrosidade do olhar frio e tantas vezes maldoso, igual a todos os que não queremos, de quem não gostamos, que não amamos, de quem queremos distância, és, durante grande parte da vida que vivo, quase imperceptível.

Contudo, e talvez por isso mesmo, porque me atrevi a tratar-te com desdém e com alguma superioridade até, resolveste ir mais longe e tentar assustar-me de verdade com uma doença, aquela de quem todos fogem mas que de um modo ou de outro todos vão conhecendo com menor ou maior grau de dureza, tristeza e crueldade.

Não foi um daqueles horrorosos e impiedosos monstros que retiras das grutas enlameadas, insalubres e repugnantes onde escondes os teus mais horripilantes soldados, cheias de um muco viscoso que escorre pelas paredes, onde a luz é estreita e tremeluzente, ainda e toda ela obtida à custa dos archotes artesanais e rudes que penduraste nas paredes, como se de Picassos ou Dalis se tratassem.

Fiquei perdido de raiva, apoderou-se de mim uma fúria perfeitamente justificada e se te tenho encontrado em pele e ossos naquele momento, nem sei bem o que te poderia ter feito, tinha as veias do pescoço a saltitarem como uma criança feliz num trampolim.

Levou tempo, é certo, mas encontrei-te.

Tinhas que te ter esforçado mais, muito mais. És um merdas.

Digo-te aqui – como se estivesse novamente a falar-te nos olhos – que a mim não me assustas com tamanha facilidade. Já vivi várias vezes, já morri outras tantas e continuo aqui, ouviste? Continuo aqui e muito honestamente, para já, não me pareces com força suficiente para me fazeres abrandar ou sequer desviar-me do meu caminho, do caminho que traço para mim.

Fizeste-me tremer, confesso-te.

Não tenho nem nunca tive qualquer problema em dizer-te que temi – e ainda temo, uma vez que esta brincadeira ainda não terminou – pela minha saúde de uma forma consciente, que se tornou ainda mais indignada porque, na verdade, quando te armas em engraçado e te pões com brincadeiras destas, não te apercebes que estás a brincar não apenas comigo mas com todos aqueles que me estimam, que me amam e que se aprontam em temores e lágrimas de dúvida, que veem abanadas e chocalhadas as suas realidades, que se desordenam os seus sonhos, que se magoam as suas almas que são pouco dadas às coisas más.

Isto não entendes tu! E fazes o favor de não virares a cara para o lado, como quem tem até alguma vergonha do que faz e se sente embaraçado com a crueza real das palavras que é obrigado a escutar.

Meu menino, que brinques comigo no cárcere íntimo do meu pensar, até to permito, agora que brinques com aqueles de quem gosto, com aqueles que de mim gostam, isso não consigo perdoar-te de forma alguma porque não existe na língua dos homens, seja ela qual for, nenhuma justificação de que te possas socorrer para me explicares condignamente aquilo que fazes.

Pareces-te mais com aqueles com quem brincas do que alguma vez pudeste imaginar.

Comigo tens e vais ter sempre um azar que talvez não esperasses, comigo terás sempre de lidar com alguém que não tem medo de ter medo e sobretudo que há já algum tempo que deixou de ter medo de si próprio.

Aceito-te, com maior ou menor grau de (in)satisfação, com menor ou maior capacidade de perceber a tua pertinência, mas uma coisa é certa, não fujo nem nunca te fugirei, porque pese embora toda a merda que és e representas nas mais diversas situações em que te impões, como se impõe a madrugada, a chuva e alvorada, como se impõe a primavera e o inverno e todos os estados de alma, como se impõe a morte, aceito-te naturalmente, ainda que nos olhos carregue por vezes a dor das lágrimas que me fazes verter, a dor de olhar para quem me vê sofrer, a tristeza encastrada no rosto de quem me viu nascer e é isso que me faz ter-te uma repulsa incomensurável meu porco.

Arranjaste aliados, amigos e interessados que se venderam à tua propaganda, que se converteram em instrumentos disseminados dos teus intentos mal-intencionados e que se munem das armas mais cruéis para atormentarem os seus semelhantes.

Só assim se explica a tua impressionante e inquestionável ubiquidade, só assim se justifica a tua presença em toda a parte, quase tão grande como grandes são os Deuses.

E, no entanto, não creio que Deus algum, em momento nenhum te tenha glorificado. Não és um anjo escorraçado, não és filho do diabo, és dor e temor por trás de um corpo sujo num qualquer rosto mascarado. Se ao menos te pudesse mesmo encontrar os olhos…