A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

Se há coisa que fazemos com elevada frequência até certa altura da nossa vida é travar ou iniciar relações de amizade com alguém. Coisa simples e facto plenamente consumado, certo? Não. Errado. Nada poderia estar mais longe da verdade na tentativa de descrever de forma simples um dos grandes dramas da existência humana. Porquê? Passo a explicar.

Não poucas vezes neste nosso sinuoso e tantas vezes tormentoso caminho nos deparamos com qualquer coisa que se atreve ordinariamente a colocar em causa a utilidade desse sentimento, tão amplamente reconhecido e mundialmente entronizado pela nobreza que carrega desde a sua natureza e que dá pelo nome de amizade. E é por aí mesmo que quero arrancar, pela (por vezes frequente) utilidade duvidosa da Amizade enquanto ocasional veículo de transporte de dor e de um sofrimento que não tem cabimento nem fingimento.
Porque ela também se alimenta disto. A amizade, evidentemente.
De dor. De tristeza. De sofrimento. De silêncio. De incompreensão. O que seria da amizade se não houvesse no peito um lugar chamado coração?

(REcentemente tive uma das melhoras provas de que este título que escolhi é, na verdade, estúpido, mas ainda assim… atrevo-me a continuar, até porque estou há mais de dois meses a escrever e a reescrever isto)

Se certo é que a incidência e a frequência com que fazemos amigos é extremamente elevada durante os primeiros anos da nossa vida social, não é menos correcto dizer que essa necessidade de fazer amigos à velocidade da luz vai (graças a Deus Nosso Senhor) diminuindo de forma inversamente proporcional ao número de anos que vamos somando pela vida fora.

Isto é, quanto mais velhos ficamos, menos vontade temos de conhecer gente nova, de fazer amigos novos, de abrir as portas do nosso admirável mundo velho ao Novo Mundo dos outros e de deixar entrar quem por acaso se atravessa e se cruza com o nosso caminho, independentemente das razões pelas quais o faz ou isso acontece. No entanto, não quero com isto dizer que não sintamos (com frequência) falta dos amigos que já temos. Isso, meus amigos, isso é coisa completamente diferente e conversa para outros escritos.
O que me parece indesmentível e inquestionável é que a capacidade de nos relacionarmos com os outros e de com eles estabelecermos e desenvolvermos relações de proximidade e de confiança, do zero, que entrem rapidamente no espectro daquilo a que vulgarmente chamamos amizade, não deixa de ser uma das mais nobres e notáveis skills que o ser humano possuí e que o torna absolutamente distinto de todos os outros habitantes não humanos com quem divide o planeta.

(as voltas que um gajo dá a um texto para não ter de começar logo por onde mais dói)

Pode por isso dizer-se que o expoente máximo das nossas relações de amizade deve andar ali entre o início da adolescência e os 30 ou 40 anos de idade. Não mais do que isso. Não muito mais do que isso.

Depois disso entramos (não todos, mas muitos) na fase em que começamos a avaliar e a catalogar os amigos que temos. É verdade. Isto acontece, mesmo que de forma inconsciente e meiga, com quase todos nós. É uma altura em que, regra geral, também fazemos uma espécie de limpeza geral da lista de todos os amigos que temos. Ou que julgamos que temos. Que, não poucas vezes, é praticamente a mesma coisa. Os telefones e redes sociais ajudam a acreditar que isto é assim tão simples. Que a “operação de limpeza” se resume ao delete no smartphone.

Quem já está ou já passou por esta fase da vida saberá perfeitamente que tenho alguma razão naquilo que estou a afirmar de forma tão estupidamente determinada.
A partir de certa idade começamos a tentar afincadamente perceber quem são, na verdade e de verdade, aqueles que conseguimos enquadrar nessa condição tão selectiva e particular que é a de sermos amigos de alguém ou chamarmos amigo a alguém.

E o que são então essas pessoas? O que representa cada uma delas no quadro da nossa passagem pela vida?

(repare-se que já vamos no 7º parágrafo e ainda nada… nem uma linha sobre o que me trouxe aqui e me fez estar durante quase 3 meses a escrever este texto.)

No início é tudo imaculado. É tudo limpo e puro. E tudo faz o mais perfeito sentido.
Com episódios de maior ou menor juízo. Com momentos de maior ou menor tensão. Mas são relações que assentam sobretudo em lealdade, presença, cumplicidade, desafio, identificação e aprendizagem mútua. Tudo vivido com a intensidade tão própria de quem tem as ganas da vida na sola dos pés.

São pessoas que passamos a tratar como se trata um membro distinto da nobreza, da realeza. São, e muitas acabam mesmo por sê-lo pela vida fora, algumas das pessoas mais especiais da nossa vida. Quanto mais não seja porque conquistam esse lugar e porque nos conquistam a nós. De forma única.
Cada amigo é uma vitória, uma aresta, uma árvore, uma estrada com curvas, rectas, subidas e descidas. Um amigo é uma vida.
São pessoas com quem partilhamos tudo. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e demais conquistas. Isso tudo e… as meninas e meninos que nos passam pelas vistas. Artistas.
Depois há os “não insistas”, “não desistas”, “não me chateies”, “vai-te f***r”, “vai pró caral*o”. Dizemos isto tudo. Fazemos ainda mais. Somos capazes de ser tudo e de não ser absolutamente nada. De estar de boca aberta ou de a manter assim, calada e bem fechada. Por respeito. Por deferência. Por solidariedade e reverência. Por compaixão e por saudade. Porque somos amigos de verdade. E ser amigo, ser verdadeiramente amigo de alguém é muito mais do que simplesmente repetir a frase que acabei de escrever.

Mas o que me traz aqui não é – nem de perto nem de longe – a vontade de dissertar A Capella sobre o conceito de Amizade. Sobre o seu significado. Não.
O que me faz voltar a estas linhas é o particular, não o geral.
Comece-se então este texto como se na primeira linha se estivesse.

São amigos que me fazem escrever isto e não a Amizade. Porque é por eles, sempre por eles, pelas memórias de tudo o que esta para trás e tem o peso que pesa uma vida, é por eles que voltamos sempre a lugares onde já fomos, sentimos e fizemos de tudo um pouco.

É para os saudarmos, lembrarmos, homenagearmos e para os fazermos felizes que fazemos as coisas que fazemos. É por eles que quebramos barreiras, que fazemos asneiras, que bebemos e comemos durante noites inteiras. Que nos metemos em coisas com que nunca sonhámos.
É por eles.

Tenho um amigo doente. Grave e seriamente doente. Severa e injustamente doente. Cancro, uma vez mais!
E não é um amigo qualquer. É um amigo de há muito. De uma amizade com muitos anos. De um tempo em que não se pensava nas consequências nem nos danos.
Do tempo em que só se pensava no acto e no feito e, possivelmente, no jeito e no efeito e no acelerar de rompante da máquina que temos no peito. Tudo o resto era paisagem. Tudo o resto era miragem. Tudo o resto era desperdiçar tempo que se podia gastar a fazer mal ao corpo e “bem” ao cérebro. Uma coisa é a beira da estrada a outra é a Estrada da Beira. E se eu gosto da Estrada da Beira. E tanto que andei na beira da estrada. Bem ou mal iluminada.

Dizia eu que é um amigo de longe, de um tempo em que não se partilhava nada nas redes sociais, em que as redes sociais eram o muro do Manel, a roda de tendas no Verão, o amontoado de carros à porta do café, o inquantificável número de cabeças presente numa esquina do Bairro Alto, no Adamastor, na Flamenga, claro. Sempre ela. A Flamenga. O bairro onde crescemos. A rua que nos dá e nos tira.
Um tempo em que tudo era tanto mais. Um tempo em que as experiências, boas ou más, nos ficavam gravadas – muitas vezes a sangue, suor e lágrimas – nas veias, no pensar, no sentir, no dizer, no não dormir, no deitar já de dia e acordar já de noite.

É por eles, sempre por eles e quase só por eles que fazemos merda, que dizemos merda, que ouvimos merda, que comemos e bebemos merda, que vamos a sítios de merda, que nos metemos com gente de merda, que temos noites ou dias de merda… enfim. É com eles e muitas vezes por eles, porque nós nem temos vontade de ir.

Tenho um amigo doente. Muito doente. Doente com a doença do século. Cancro. Pois claro. Vai da cabeça aos pulmões, passa pelo que entre eles se intromete e e vai desaguar brutalmente no estômago. Puta que pariu esta doença de merda. Puta que pariu o ter de olhar para os olhos de um amigo e de ver a dor que ele esconde. Ver o medo que ele tapa mas não nega. Que ele sente mas a que não se rende. Herói! És um herói meu grande cabrão!
O cancro (já te disse que não escreverei o teu nome com maiúscula a não ser que calhes no começo de uma frase) De apetite voraz. Tremendo. Horrível e horripilante. Insolente e incapacitante. Não há como ser benevolente para com uma monstruosidade indigna, cobarde e tamanha. Não há como me manter sempre sorridente perante tal patranha.
Não sei o que lhe dizer. Confesso. Não sei mesmo. Ou melhor, saber até sei, mas não consigo, muitas vezes, dizer o que quero. Mas disse muito há não muito tempo. Mas por saber que foi episódico e que seria episódico sempre que o visse, e como vou estar com ele este fim-de-semana, nada mais acertado do que publicar isto agora.
E foi por me conhecer já bem, por saber que fraquejo nestas merdas, foi por isso mesmo que lhe pedi autorização para vir até aqui desancar a existência e praguejar com a vida.  por uma razão muito simples: Não sei fazer mais nada a não ser reagir assim. Escrevendo. Com o passar dos anos estou a tornar-me numa pessoa a quem custa cada vez mais ter de se expressar com profundidade sobre assuntos profundamente delicados de outra forma que não esta. E isso não é totalmente animador.

Ele ficou felicíssimo da vida. Todo contente e orgulhoso por ter um amigo que escreva sobre ele, para ele, por ele. Que conte o que é isto de estar doente. Que conte o que se sente. Até porque também eu já passei por essa aflição embora numa outra proporção. Mais leve. Mais simples. Menos aterradora e terrível. Muito menos aterradora e terrível. “Resolveu-se” a coisa com uma cirurgia.
Contudo, deste lado, o prisma é todo ele bem diferente. Agora não sou eu e não é de mim que falo. E é me sempre mais fácil falar de mim do que assumir o pulso à dor de outra pessoa. Sobretudo quando são pessoas que te dizem alguma coisa. Neste caso, diz-me muito. Uma espécie de tio mais novinho. De primo. De sei lá eu o quê. São estas pessoas que teimam em se enfiar na tua vida e que dela teimam igualmente em não sair de forma alguma. Pessoas que levarei comigo pela vida fora e pela morte dentro. Curioso como se usa esta palavra tantas vezes em conversas tão inócuas e como passas a ter medo de falar nela quando falas com alguém que a tem em risco. Vida.

Como se faz para não ficar devastado com o risco real (mesmo que ecoe surdo apenas no nosso pensamento) de perder alguém com quem já passámos tanto?! Como não chorar e fraquejar e tremelicar das pernas quando a ameaça é real? Tremenda, estúpida e assustadoramente real. Incompreensivelmente próxima e palpável, quase.
Como não sofrer quando o mundo lhes quer mal?! Como não gritar e espernear quando Deus aparentemente se esquece de quem também nós nos esquecemos na fúria velocista dos dias que correm por nós e que tantas vezes nos atropelam?

Como é que se lida com isto tudo. Como? Em silêncio?! Talvez. Muitas das vezes é a única forma possível de lidar com esta violência toda. Muitas vezes só mesmo assim. Calado. De olhar gélido e amedrontado. O que é que posso fazer mais?

Desde que comecei a escrever isto que já soube de mais dois casos de amigos doentes. Com a mesma merda. Com cancro. Em pequenino que não merece mais nada. Mais veleidade nenhuma. Já foi assim quando foi comigo. No estômago. Esta abstruza doença não pensa. Não tem memória. Esquece com uma desfaçatez e uma insensibilidade que entorpecem até o mais corajoso dos homens.

E nisto. O medo é meu. É nosso. É de todos. Quando um sofre, sofremos todos. Protegemos. Cuidamos. Ralhamos e barafustamos. Mas nunca, em momento algum, nos viramos costas quando precisamos uns dos outros.

O que será de nós se deixarmos de ser assim?
O que será de nós se não formos capaz de dizer presente.

A amizade serve de pouco nestas alturas. Ou então é mesmo tudo aquilo que precisamos sem termos a noção disso mesmo.
Já a fé, talvez seja ela a única que te vai dando alento mas, em dias de vento, a fé ganha asas e voa para sítios distantes, carregando no dorso o peso de meia-humanidade e de toda a nossa amizade.

A Amizade tem valor demasiado para ser engavetada num título de um texto sério e real. Cru. Nú. Integral. Não fiz por mal mas… é o que é.

Cartas da Palestina – A resposta

Cartas da Palestina – A resposta

(…)

O conflito armado (em parvo! só pode ser mesmo isso) Israel vs Palestina (e não o Hamas) deste ano já leva (se é que se pode sequer utilizar esta palavra aqui, neste sítio onde a pus…!) mais de 2000 mortos (mortos! vejam bem… é assim que este menino resume toda aquela gente que perdeu a vida… por que razão mórbida deixarão as pessoas que morrem aos magotes de ser pessoas para passarem tão somente a ser… mortos?), dos quais pelo menos (pelo menos… a ligação à quantidade devia ter, em português, alguma palavra mais bruta) 600 eram… custa tanto, confrange-me dizer isto, crianças.
Há uns dias falava com alguém que me dizia:
– Deixa de ser utópico. Que guerra é que é justa?
– Sim eu sei, mas são mais de 600 crianças mortas caramba! Já para não falar de todas as que não morreram, essas ficam cá, perdidas, vítimas do maior dos roubos, da maior das atrocidades que contra elas poderia alguma vez ter sido cometida, o roubo da própria infância que é, ou pelo menos em teoria ocidental romanesca deveria ser, a fase mais bonita da vida de todo e qualquer ser humano.
– Tudo bem, até percebo o que estás a dizer, mas é o preço a pagar… Israel é e tem de continuar a ser o “tampão”… que não permite que o mundo islâmico se coloque às portas da Europa… e que por lá fique.
E aqui me detive porque, na verdade, há em mim um qualquer e sobretudo inexplicável (porque já tentei e já percebi que não sou na verdade capaz de o explicar, de o exprimir apenas por palavras) bloqueio que não me permite olhar para esta palhaçada toda como quem olha e fala de outra merda qualquer (mesmo que agora não me ocorra coisa alguma que me possa parecer banal ao ponto de aqui falar dela), com pouca ou até mesmo nenhuma importância. E atenção que, quando digo merda estou a fazê-lo de forma convicta e profundamente consciente do tipo de merda de que se trata. Não me interessa absolutamente nada apontar culpados e defender posições seja de quem for (é merda que não quero pisar), aquilo que me vai corroendo ferozmente as entranhas e os sonhos das noites de verão são as mortes constantes de tantas e tantas crianças em tudo o que é guerra estúpida deste mundo, que aparenta estar cada vez mais assustadoramente debilitado.
Nas crianças está, esteve e vai estar sempre o futuro de qualquer família, qualquer aldeia, vila, cidade, região, país ou mesmo continente. Porquê? Essa pergunta pode apenas ser respondida com a simplicidade pueril e tão própria e tão óbvia das crianças: Porque são mais novas! Logo, vivem mais… “duhhhh”!
E se as matam como se matam moscas então é que o futuro fica definitivamente comprometido, seus anormais… de merda!
Por isso só olho para este ponto do conjunto de todos os pontos e vírgulas que este assunto compreende. Olho para o ponto de vista que literariamente me é mais conveniente porque o posso fazer, porque em vez de vir para aqui discutir se a culpa é de A ou B, fico-me tão somente pelo mundo das crianças. Sem crianças não há futuro. Ponto. Sem contraponto.

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“Olá Mounir.
Desculpa só responder agora mas confesso-te que tenho passado grande parte do meu tempo a brincar e nunca mais pensei sequer no trabalho de verão que a minha professora nos passou.
Num destes dias resolvi abrir o caderno porque sabia que havia qualquer coisa de importante para fazer. Abri então o meu caderno e logo fui pegar no iPad do meu pai para poder ir abrir o email da escola e ver se tinha lá alguma coisa. Sabes, sou assim um bocado distraído e às vezes preguiçoso, por isso demorei tanto tempo a responder às tuas cartas… Por isso e não só…
Olha, eu sou e vou ser sempre sincero ao longo destas conversas que vou tentar ter contigo. Acredita em mim porque isto é uma promessa.
Os meus pais e a minha professora sempre me ensinaram que nunca, mas nunca, se deve mentir, seja lá a quem for e seja lá qual for a razão que possamos achar suficiente para enganar alguém. As pessoas boas não mentem e por isso de uma coisa estou certo, pessoa má pelo menos não sou.
Quando li a tua primeira carta, disse logo cá para mim que tinha de te ensinar a escrever o nome do Ronaldo, com O e não Ronaldu, como tu escreveste na tua camisola. Se conseguires muda rápido, para não gozarem contigo e dizerem que não sabes escrever. Não é difícil, basta fechares o U para ele ficar um O.
Mounir. Meu amigo. Posso chamar-te assim? Espero que sim. O teu nome é Mounir e o meu é… Martim.
Estou há vários dias a pensar em qual será a melhor forma de falar contigo sem falar…aaaaa… nas… mortes eeeee… nas… pessoas feridas e nas casas partidas… e na guerra. Nessa tua guerra má.
Sim, eu sei isto tudo.
Quando disse aos meus pais que ia começar a trocar cartas com um menino da Palestina, eles pensaram que eu estava a brincar e que devia ter visto qualquer coisa na televisão ou na internet e que não se devia brincar com coisas tão sérias como estas, disseram-me muito zangados. E eu respondi-lhes que não era brincadeira nenhuma.
Foi então que o meu pai se lembrou da amiga que conheceu quando andava na faculdade e esteve em Erasmus, em Londres. Recordava-se do nome dela, porque era muito fácil de memorizar… Azza… como as que fazem voar os pássaros, mas sem S e com Z, aliás com dois Z, que para voar são precisas duas asas, sem Z e com S; cabelos pretos, sempre tapados, tímida e religiosamente cobertos, que só desprendia em casa, quando dava jantares. Era uma excelente aluna, muito inteligente, muito sorridente e cheia de vontade de voltar para casa para poder ensinar as crianças dos campos de refugiados palestinos da Jordânia.
– Vou falar com ela – disse ele.
No dia seguinte depois do jantar, o meu pai chamou-me à sala, ao sofá, pediu-me que me sentasse e disse-me que a professora Azza lhe tinha respondido e que já tinha tudo tratado e que ia então enviar as duas primeiras cartas. Fiquei maravilhado. Nunca tinha conhecido nenhum menino de outro país, a não ser pela televisão. Nunca tinha falado com ninguém que não fosse português.

O combinado foi então que a tua professora traduzia as cartas escritas por ti, para inglês, e o meu pai traduziria depois então de inglês para português, para que eu pudesse então ler finalmente tudo o que tu contavas.
Ora, uns dias depois, vou dar com o meu pai a chorar, no escritório, com o computador aberto, a ler a 2ª carta que a tua professora tinha mandado.
Perguntei-lhe o que se passava, porque estava a chorar? Nunca tinha visto o meu pai a chorar.
Respondeu-me de uma forma estranha:

– Estou a chorar porque nós temos muita sorte meu filho, muita sorte mesmo… Vais ter de ser muito forte para leres as cartas que o teu amigo da Palestina te escreveu e vai escrever – disse-me o meu pai muito comovido e com uma vez de fundo de poço, enquanto ia escrevendo numa folha branca, a tradução de tudo aquilo que me ias contando.
Confesso-te que quando vi aquilo tive medo, tive mesmo medo de ler a primeira, quanto mais pensar em ler duas cartas seguidas, cartas que puseram o meu pai a chorar como eu nunca tinha visto.
Os adultos às vezes choram e ficam estranhos…
Então, nessa noite, resolvi que não ia dormir. Queria, quis ficar toda a noite a ler as tuas cartas. Queria mais do que tudo perceber o que é que tinha deixado o meu pai tão perturbado e sobretudo tão triste.
E assim foi, acabei por não dormir de noite.
Acabei por adormecer com as tuas cartas na mão quando já o sol se espreguiçava para nos dar os bons dias.
Chorei. Chorei com pena de ti. Chorei porque não faço a mais pequena ideia do que é uma guerra.
Só conheço as guerras nos jogos de computador. Só conheço as guerras de que nos falam os senhores doutores, as guerras dos outros países, as guerras mundiais, e outras guerras que tais. Não conheço nem nunca vi um tanque, um míssil, ou uma casa desfeita em pedacinhos por um míssil ou uma bala de canhão. Não sei o que é isso.
Levei dias e dias a pensar em guerra. Em mortes, em feridos, em amigos perdidos, em familiares desaparecidos e no meio de tudo isto chega a terceira carta, a mais violenta, a mais bruta, a mais nojenta.
A culpa não é tua Mounir, não é mesmo. Mas só tenho 9 anos e tu também. E com a nossa idade ninguém, NINGUÉM devia ser obrigado a passar por tudo isso que te estragou a vida.
Também eu tenho um melhor amigo… O Miguel. Vive aqui na janela em frente à minha, do outro lado da minha rua.
Andamos de bicicleta, jogamos à bola, jogamos consola (sabes o que é?), pintamos, brincamos na piscina, montamos legos, andamos juntos no Karaté (e isto sabes o que é?), no inverno calçamos as galochas e vamos brincar para as poças…
Mas de que raio estou eu para aqui a falar? De brincadeiras… quando tu vives numa casa sem janelas… quando tu perdeste familiares, colegas de escola, amigos, vizinhos, a tua casa, tudo… E eu aqui a falar de brincadeiras…
Está a ser muito difícil ter alguma coisa para dizer, ou pelo menos alguma coisa que eu ache que te interesse a ti saber. Estou bloqueado. Só consigo imaginar-te com a camisa e a cara cheia de sangue, com a cabeça cheia de pó e com o coração cheio de medo. Posso contar-te um segredo?
Vou pedir aos meus pais para te tentarem tirar daí… Gostavas de vir viver para aqui?
Aqui não há bombas Mounir. Não há guerra. Há uma coisa que se chama “A Crise” mas que não rebenta as casas de ninguém, não põe tanques na rua, nem submarinos ou porta-aviões ao largo da costa portuguesa.
E podes tomar banho no Oceano Atlântico sempre que quiseres!!!
Sou filho único e os mais pais nunca pensaram em ter mais nenhum. Sabes, aqui os pais não têm assim muitos filhos.
Por um lado não é mau porque fico com as batatas fritas só para mim, mas por outro lado passo muito tempo a brincar sozinho… e isso é muito… chato. Ia dizer triste, mas triste é a vida que tu tens…
Também tenho um cão. O Rex. Ele é muito brincalhão e meu amigo. Gostas de animais? Deves gostar claro.
Olha amigo, agora tenho de ir jantar. Qual é a tua comida preferida? Tenho tanta coisa para te perguntar e tanta para responder. Bem sei que por estes dias não terás ninguém com quem falar nem nada que fazer, mas prometo-te que isso vai mudar, ou pelo menos prometo-te que vou tentar fazer alguma coisa para te tirar daí. Sim?

Um grande abraço (depois, se vieres para cá, arranjamos um “passou bem” secreto e especial, está bem?) deste teu amigo novo… 

Martim entregou a carta ao pai que tem a difícil missão de a traduzir e de a enviar para a professora Azza. A carta do seu filho emocionou-o também.

Pensou que de facto só mesmo as crianças são capazes de – naquele(s) mundo(s) que constroem em seu redor e onde imperam as suas próprias regras, os seus próprios códigos de conduta e de acção – tratar um assunto desta dimensão de uma forma tão pura, tão doce, tão meiga, com tamanho entendimento daquilo que é um ser humano semelhante, igual, de pele diferente e a viver um drama que é verdadeiramente indecifrável aos seus olhos, mas que aparenta ter uma solução tão simples quanto eficaz: Se ele está mal na Palestina, vamos trazê-lo para Portugal! Porquê? Porque ele é meu amigo e na rua dele caem bombas e morrem pessoas todos os dias.

– Já imaginaste se aqui fosse assim pai? Não gostavas que nos salvassem? Que nos ajudassem? Não gostavas que um amigo teu te tirasse da guerra?
– Sim meu filho, tens razão.
– Então vê se traduzes a carta rapidinho que o Mounir está à espera dela. Ouviste? Não te esqueças.
– Deixa comigo. Fica descansado, sim?

Levou-lhe a noite inteira. Não quer traduzir mal a primeira carta do seu filho para esta sua nova e tão importante amizade. Liga desde logo o iPad e vai ao facebook ver se Azza está ou esteve online nas últimas horas. Descobre que não, não está, mas esteve online há 16 horas. E deixou um post sugestivo: “waiting for the world to change… waiting for words to come”.
O pai do Martim assim fez. Não quis que Azza e Mounir tivessem de esperar mais tempo pela carta do seu filho.
– Não quero dar a ideia ou a impressão de que nos escolheram em vão! Vamos a isto.

Às 4h00 da manhã terminou a tradução e juntou-lhe, à carta, algumas imagens bonitas de Portugal, bem como um texto pessoal, muito particular e emotivo para Azza. No fim perguntou-lhe…

– O que vai ser da tua, da vossa vida?

Continua (…)