Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Sexta-feira.
Final de tarde cinzento rato, de um final de uma semana molhada, encharcada, ensopada esta segunda semana de Abril.
Uma semana dentro de um mês que podia perfeitamente ser alienado do calendário.
Saio de casa e deixo a minha mulher grávida a descansar. Os 8 meses e meio de gravidez já lhe vão pesando as costas, os pés, as mãos… mãos que começam a inchar e tornar incómoda a convivência com a aliança.
Subo os túneis do Grilo e não sabendo bem como consigo fazer a carrinha serpentear pelo trânsito que se precipita enlagartado para a saída de Sacavém/2ª circular.
Daí à Casa dos Bicos é um tirinho.
O que vou lá fazer? Assistir a uma conferência intitulada “Conversas sobre o futuro do Jornalismo”, com o jornalista galego Alfonso Armada e, do nosso lado, António Mega Ferreira.
O primeiro episódio desta deslocação acontece imediatamente a seguir a estacionar. Detenho-me dentro da mesma ainda durante alguns minutos para devolver uma chamada que havia perdido durante a viagem. Estou eu ao telefone e, qual não é o meu espanto quando me aparece à janela do carro um enfarruscado, mas nem por isso menos desavergonhado arrumador de carros.
Antes de mais devo dizer e confessar que a minha simpatia para com estes tipos é muito próxima dos limites mínimos, directamente proporcional à tolerância que lhes tenho, sobretudo quando, como foi o caso, me aparecem tal e qual o melhor dos paraquedistas, vindos sabe Deus de onde, com o intuito único de me virem “enfiar” a mão no bolso com a frase mítica: “Oh amigo, não tem uma moedinha?”.
Neste caso, e dado que se plantou a mirar-me mesmo junto à janela do lugar do condutor, pôde ver-me ao telefone e assim decidiu arrepiar caminho de volta ao outro lado da estrada, de onde de resto tinha saído, e onde então se estacou expectante, aguardando a minha saída.
Terminei a chamada, peguei no meu bloco de notas, abri a porta e vi-o logo pelo canto do olho esquerdo. Sim, do esquerdo. O canto do olho direito não vê a ponta de um corno. E tranquei o carro.
Ainda no meio da estrada pude escutar um balbuciar de qualquer coisa de onde apenas consegui entender um…
“Podias era dar-me…” Erro número 1. Falou comigo utilizando insolentemente a 2ª pessoa do singular. Procurou quebrar o gelo remetendo para uma proximidade inexistente. Confesso que é coisa que me aborrece. Não suporto mesmo que o façam. Sobretudo quando o objectivo é tão somente sacar dinheiro por um serviço que nem sequer se prestou. A sem vergonhice pode atingir níveis estratosféricos!
– Desculpa? – Digo-lhe, com a sobrancelha arqueada (sinal clássico, evidente, e tão bem conhecido daqueles que me conhecem de que não estou a achar piada nenhuma à conversa).
Podias era dar-me umas moedinhas! – Repete com convicção e sem qualquer vergonha nas fuças. Sem meias medidas avanço na direcção dele, estaco-me diante dele e pergunto-lhe muito calmamente:
– Mas o que é que tu fizeste para me ajudares a estacionar o carro? Posso saber?
Ohhh… qué dizer, tamém não custa muito dar umas moedinhas…
– Não te dou moedinhas nenhumas e se me fazes alguma coisa ao carro levas com essa muleta na cabeça, estás a ouvir? – Viro-lhe costas assoberbado pela indignação e pela chatice de ter de aturar coisas destas numa das zonas de que mais gosto na minha cidade e, sobretudo, chateadíssimo porque aquele “animal” nem sequer teve o cuidado de perceber que eu estava prestes a acrescentar história à minha vida. Não teve sequer a decência de pedir apenas 1 moeda, têm de ser várias, mais do que uma, usando paulatinamente o plural como se fosse de conhecimento público que agora já temos de deixar moedinhas, várias, em farto número, tudo em nome da satisfação da sede do vício, tudo para que o “menino” possa refastelar o esqueleto e entreter o reboliço de que se alimenta o desgrenhado pensamento preocupado apenas com a droga de que precisa.
Tenho o “azar” de conseguir identificar um viciado em heroína à distância, do outro lado da estrada. Pelo olhar vazio e vítreo, obcecado na satisfação constante da ressaca que lhe corrói as entranhas; pela postura física; pela ausência total do compêndio de regras sociais que nos faz respeitar o próximo. Pela capacidade que o vício lhes dá de deitarem ao rio (ali tão perto) a dignidade e de se prestarem a tudo para arranjar dinheiro para a próxima dose.
Chateado com isto tudo lá avanço rumo à Casa dos Bicos onde funciona nobremente a Fundação José Saramago. Lamentavelmente foi a primeira vez que nela entrei e não podia ter ficado mais impressionado, mais convencido da grandeza do “nosso” Nobel da Literatura.
Ao contrário da maioria dos portugueses tenho a feliz felicidade de gostar de enaltecer os feitos dos meus irmãos de terra. E Saramago, goste-se ou não do estilo, foi o único homem nascido nesta terra que conseguiu atingir o expoente máximo de um homem que se embrenha nos sinuosos e solitários caminhos da Literatura.
Das escadas que dão acesso ao mundo letrado do autor, a tudo o que ali se expõe e se vê, a memória de José Saramago é permanente e vive ali, naquele histórica e apalaçada Casa dos Bicos que tanta coisa já foi na sua existência já cansada mas majestosamente reforçada e remodelada!
À entrada há um segurança que pronta, zelosa e energicamente nos pergunta ao que viemos:
– Sou jornalista. Venho para a Conferência, sim senhor. – Retribuo-lhe a curiosidade.
– Então é no 4º andar. Sobe aqui as escadas, e depois volta a subir até ao 3º andar, onde está a loja. Eles dentro de alguns momentos já devem abrir o espaço e então pode subir até ao 4º andar onde será a Conferência.
– Muito obrigado meu caro.
– Está cá a seu dona Pilar! Disse com um olhar meio atrevido.
– Subo as escadas e logo me deparo com isto:

IMG_7833

E, para quem gosta de palavras e do quão bem elas encaixam no mundo, isto tem significância, se tem.
Vou por ali acima e chego então à antecâmara da Conferência onde me espera a espera pela abertura da sala. Percorro atentamente o espaço e leio, leio, leio, coisas atrás de coisas, papéis, postais, capas de livros, a cópia emoldurada do Prémio Nobel… Credo! Até me arrepiei! Confesso!

IMG_7834

Não é todos os dias que se pode ver tamanho espectáculo para os olhos!!
Depois seguiu-se isto… que também me deixou parado a olhar por mais uns instantes.

IMG_7836

Ali fiquei até me chamarem para o andar de cima. Ali me detive a imaginar o que teria sido a coexistência literária de Pessoa e Saramago… Meu Deus! Se os escritores desta dimensão pudessem coexistir, co-criar, co-escrever, conversar…!
Depois ainda houve um momento curioso, em plena loja, no 3º andar. Passei por ele ao de leve, mas não pude deixar de o gravar, de o registar. Duas meninas, duas jovens universitárias, travaram-se momentaneamente de razões (coisa simples e em nada violenta), ali entre o Memorial do Convento, O Ensaio sobre a Cegueira e o Ensaio sobre a Lucidez, porque, de acordo com uma delas e com o pouco que consegui ouvir mas ainda assim suficiente para conseguir reter, um determinado rapaz estava bastante diferente e inacessível desde que tinha começado a dar-se com a que estava mais perto do Memorial do Convento e do Homem Duplicado, tudo isto debaixo do olhar atento de Caim.
A amiga bem que se tentava explicar mas estava a ser alvo de uma acusação frontal, sem meias palavras, mesmo antes de ambas subirem para o andar de cima e se sentarem lado a lado a assistir à conferência. Ai o amor e a rejeição que nos chegam a toldar o pensamento até perante aqueles que supostamente nos ladeiam os dias. Aquelas meninas ter-se-ão resolvido, espero.
Chegado lá acima e tendo de imediato procurado um lugar mais resguardado mas que, simultaneamente, me permitisse ver e ouvir tudo o que ali se fosse passar, saquei do bloco e comecei a preparar-me para tirar notas.
Olhei em redor, vi a composição da sala, tweetei sobre isso e sobre a média de idades que a compunha e nisto ouço uma voz em castelhano, feminina, nervosa mas frontal, insegura mas sólida, com pouca vontade de falar, mas com um ressoar metafísico que imediatamente me fez virar a cabeça na direcção do seu som. Era Pilar del Rio e os meus olhos não podiam crer em tal coisa. Estava ali. Em pé. A apresentar a conferência. A agradecer a presença. A ser pura e genuinamente a anfitriã, a Mestre de Cerimónias que envergonhadamente se retira depois de feito o que havia a fazer. Fiquei incrédulo. Atónito. Assoberbado pela presença quase metafísica da Musa de Saramago.
Foi como se estivesse a olhar para a Ofélia do Mestre Pessoa, a Maria Sans de Hemingway… Desconcertante! Absolutamente desconcertante!
Não sou um tipo impressionável. De todo. Vinte e cinco minutos antes adverti o arrumador da possibilidade de lhe dar com a muleta na cabeça… Não sou de facto muito impressionável – neste tipo de coisas – mas sou tremendamente sensível a estas metafísicas da vida e Pilar, Pilar é a representação real de Saramago, é o prolongamento natural das suas frases intermináveis, da sua ausência pontual.
Pilar Del Rio. Não, claro que não fui falar com ela. Que ideia. A metafísica não tem voz para a humanidade! Toda a gente sabe isso. Aproximar-me-ia de Pilar para lhe dizer o quê? Essa agora…
Respirei fundo, encostei-me na cadeira e ali me deixei ficar a ouvir Alfonso Armada e António Mega Ferreira que tão bem falaram.
Que tão boas ideias deixaram. Que fizeram valer a minha deslocação. Que justificaram o ter saído de casa e deixado a minha mulher super grávida em casa durante umas horas para me ir sentar numa sala cheia de desconhecidos, em dia de folga, e ouvir falar sobre o futuro da minha profissão. Porque não?

IMG_7839

Sobre a mesma, notas importantes:

– Pensamos com palavras e é com palavras (e cada vez mais com imagens) que o jornalista conta o mundo aos outros.
– O que torna grande um jornalista é a capacidade que o mesmo tem de conhecer as várias realidades dentro da realidade da vida!
– Será que a maneira de ler o mundo vai influenciar e alterar a maneira de contar o mundo?
– Estará o digital a transformar (para não dizer alterar) a morfologia do nosso cérebro?
– O choque geracional entre Jornalistas pode determinar a luta pelo futuro do Jornalismo?
– Quem vai fazer Jornalismo no futuro?
– A perda de hábito de fazer coisas manualmente.
– A comodidade do processo comunicativo no século XXI

Que me desculpem os que contavam saber mais sobre a conferência… mas, se queriam de facto saber mais… deviam ter lá estado.
Quanto a mim a (senhora) Pilar deixou-me assoberbado, embasbacado, petrificado. Parece até que estive noutra sala ao lado.

Co-Adopção – Tu tens pais e eu não! (Versão completa)

Co-Adopção – Tu tens pais e eu não! (Versão completa)

A co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo foi chumbada no Parlamento no dia 14 de Março deste 2014.
O documento previa a possibilidade de que um dos membros de um casal homossexual pudesse legalmente adoptar o filho do cônjuge (esta palavra não me entra…). Os deputados votaram artigo a artigo, mas a direita acabou por conseguir uma maior votação que a esquerda em cada um, o que levou a presidente da Assembleia da República a abdicar da votação final global. Assim, neste 14 de Março de 2014, Portugal escolheu ficar no minúsculo grupo dos que, na Europa, não garantem que as crianças (o ponto fulcral de toda esta historieta) que vivem com casais do mesmo sexo tenham os seus direitos garantidos e iguais às crianças que vivem com casais heterossexuais, ou ditos “normais”. Com a co-adopção pretende-se apenas garantir que uma criança criada por um casal gay não fica órfã, não é forçada a ir viver com os avós ou não é entregue por um tribunal a um lar caso o pai, ou a mãe biológicos morram. É apenas e tão somente isso que está em causa. Garantir que quem “cá fica” continue a cuidar da criança a quem chama filho.

Posto isto e porque sou formado em Educação de Infância, decidi fazer uma espécie de exercício criativo, onde me propus compreender, através dos olhos de uma criança institucionalizada, o que significam estas barreiras jurídicas que foram levantadas com o chumbo da co-adopção. Ora então aqui vai disto…

Sábado. 6h00 da manhã. O despertador toca. Toca sempre. Toca quer seja Sexta, Sábado, Domingo, ou outro dia qualquer. O pequeno-almoço, esse, é servido às 06h30, na mesma sala de sempre, de todos os dias, com os mesmos e as mesmas de todos os outros dias. Todos diferentes, todos iguais, todos eles ali vivem, porque não têm pais.
Todos eles têm de estar, impreterivelmente, a pé, às 06h25, em frente ao lugar onde comem todos os dias. Ao fim-de-semana, podem ficar de pijama, é a benesse dos dias sem escola. Tic-tac, tic-tac. 06h25! Contagem matinal da “prisão” em que vivem. Já houve quem fugisse (ai a fuga do Marcos…) e quem simplesmente não aparecesse, porque tinha adormecido noutro sítio qualquer com uma companhia qualquer.
O João tem 7 anos. Já está um homenzinho. Como se espera de toda a criança de 7 anos, anda na escola, pois claro. Numa escola pública. Ele, a Jéssica, a Maria, o Edi e a Marta. Todos eles vivem desde sempre, ou quase sempre, num Abrigo para Crianças, no centro do país (o nome não interessa para nada, não é sequer relevante). É um antigo palacete. Os últimos mil e duzentos metros fazem-se por um caminho empoeirado e ladeado por muretes de vegetação bem cuidada e emproada. À esquerda, do caminho, claro está, fica um pequeno e amedrontado lago, que parece chorar de infelicidade na passagem de cada pequenino barco, que, com os remos, lhe faz festas no pêlo, ou de cada vez que uma criança lhe atira uma pedra, na infindável esperança que a mesma lhe volte à mão que a arremessou.
De volta ao palacete que bem merece a visita. É grande, é enorme e muito, mas mesmo muito, bonito e superiormente bem cuidado. Está impecavelmente vestido num amarelo-torrado de veraneio, mas um torrado leve, não muito berrante, assim a atirar para o amarelo-torrado com amarelo-limão, dá para perceber? De mangas largas e folhos empertigados e brancos, à volta das janelas sorridentes à sorte dos tempos. Tem portadas verdes, pois claro, como o verde das árvores que o rodeiam e circundam e lhe trazem a luz do sol num rendilhado quentinho das manhãs de final de Primavera, quando já está aquele calor abafado, aquele bafo com som de mar, sabor de praia e cheiro de Verão. Depois tem uma entrada simples e convidativa, amistosa, serena como serenas são as linhas dos espaçosos degraus cinzentos e engalanados, que conduzem à porta de vidro por onde se entra no casarão. Porta essa que se deixa adornar e amavelmente empresta espaço às madeiras, pintadas de branco, que oferecem à porta suas pequeninas quadrículas de janela. Uma maçaneta dourada, uma campainha que se propaga pelos campos e montes e vales em redor e uma entrada impecavelmente florada… Não falta mais nada. Até o canteiro cheio de rosas rosadas e outras tantas encarnadas, brancas e amareladas, todas tão lindas, tão demasiadamente bonitas, como se às flores não se lhes fosse conhecido qualquer limite para a sua beleza e excentricidade, que roçam, não poucas vezes, a conjugação perfeita de balanços e equilíbrios. Que casa bem pintada, logo se pensa, quando se estaca de pronto na porta de entrada. Ao menos está bem maquilhada…
Tem um imenso manto verde bem cuidado e protegido, que lhe serve de tapete e que lhe dá a volta, dando voltas e voltas à volta daquela casa tão grande, tão forte. Árvores. Tem muitas. Tem várias. Altas, densas, ramadas, bonitas. Pouco se vê de fora, de longe então, é uma cegueira absoluta.
Com baloiços pendurados, pneus velhos sustentados por cordas fortes e entroncadas, pássaros que por ali assistem ao raiar de mais um dia que se prevê mexido como o são os Sábados naquela casa aburguesada que “guarda” uma das mais tristes realidades que pode tentar “guardar” na vida humana. A orfandade.
[Final da 1ª parte]

Com 23 crianças, entre os 2 e os 18 anos, esta é uma família enorme, fora do comum, em todas as variáveis possíveis, mas, sobretudo, em variáveis intermináveis. O João é o mais crescido. Já começa a perceber as coisas. É atento. Muito. Lê que se farta e não se farta de ouvir. Ouve com atenção as coisas que dizem os senhores da televisão. Está num abrigo. Há 5 anos. Uma vida para quem tem sete. Era pequeno demais, quando aqui chegou. Continua a ser pequeno demais para aqui estar. Às vezes, cansa-me e entristece-me que assim seja, que aqui estejam, que ninguém os pegue e os leve para uma casa de verdade, com uma família que os ame como se ama um filho, como tem de se amar um filho.
A escola é para o João uma “bênção”, mas, ao mesmo tempo, a mais bruta e cruel das confrontações a que se sujeita dia após dia. A escola é pública e o João está no seu 2º ano. Não precisa de apoio escolar, ou de falar seja com quem for, porque é esperto, perspicaz e vivo. Sabe que é diferente. Já percebeu que é diferente e, sobretudo, já entendeu perfeitamente qual é a diferença que o distingue dos outros. A diferença está nos olhos. Não nos dele. Nos olhos dos meninos que vão para casa com os pais, ou com as mães. Nos olhos dos avós. Não todos, mas muitos. Nem todos vão com os pais. Às vezes, quando não está a chover, o avô do Pedro traz a cadela, a Maguie, para brincar com os meninos, que depressa se esquecem da bola de futebol, abandonando-a ali, atordoada de tanto pontapé que esteve prodigiosamente a suportar ao longo dos últimos 20 minutos, e deixando-a escorregar lânguida para a sargeta entupida de folhas que o Inverno obrigou a rastejar pelo pátio da escola.
(De volta ao pequeno almoço do moço) O pão não sabe assim tão bem ao Sábado. Apetecia-lhe sabe lá ele o quê… talvez uma taça de cereais, ou os croissants de que fala a “sua” Teresinha, com doce de morango e sumo de laranja, feito mesmo das laranjas, numa máquina que tira o sumo de dentro das laranjas. “Caraças, quem me dera beber um sumo desses! Será que a Irmã Natércia tem laranjas cá em casa? A Teresinha diz que bebe aquele sumo de manhã, porque a mãe diz que tem vitaminas e dá energia. Também quero ter energia. Estou sempre cheio de sono. Pudera, a acordar à hora a que tu acordas.”
– Irmã Natércia!
– Sim, João – diz a responsável pela casa sem sequer tirar os olhos do feijão-verde que descasca impiedosamente há quase 2 horas. Tem de fazer a sopa para o almoço daquele regimento de Infantaria. Se eles acordam às 6:00, ela muito provavelmente, ou não se deita, ou acorda às três ou quatro da madrugada.
– Posso beber sumo de laranjas?
– Desculpa? – Pergunta ela admirada com a natureza da pergunta que lhe chega ao ouvido já meio surdo dos anos.
– Se posso beber um copo de sumo de laranjas. A Teresinha diz que tem vitaminas e dá energia. Posso? Vá lá…
– Que raio de ideia João, já viste se me ponho a fazer sumo de laranja para ti e os outros meninos todos também querem. Sabes quantas laranjas tenho de arranjar, para fazer sumo para vinte e três pessoas? Faz as contas João, faz as contas! Que ideia! Volta para a mesa, que te arrefece o leite e depois vem cá dizer-me que não queres o leite, porque está frio, que eu logo te digo.
Meia volta nos calcanhares, cabeça erguida e testa franzida. Ele vai arranjar alguma forma de beber um copo de sumo de laranja esta semana, dê lá por onde der. Nem que tenha de as espremer ele mesmo. Subitamente sente-se triste, sozinho. Quer estar sozinho. Olha para as outras mesas, para os outros copos de leite, para as caras de sono até à alma, as caras de todos os dias, dos amigos, dos companheiros, da tribo de meninos que não têm pais, que aqui e ali vão perdendo a esperança. Mas hoje é Sábado. Dia de visitas.
Roupas catitas, banhos tomados, perfumes e desodorizantes emprestados e partilhados, numa lufada de aromas misturados que se propaga pela casa, que voa e sobrevoa todos os metros quadrados daquela manhã de Inverno, no centro do país. Muitos deles não têm idade para perceber a importância daquele dia. Com 3, 4 e 5 anos, uma criança não percebe que vai conhecer adultos que talvez consigam levá-la para as suas casas. Adultos, um homem e uma mulher. Às vezes vem só um deles, o outro tem vergonha e fica escondido. Não é nada fácil enfrentar o olhar puro de uma criança pela primeira vez e não deve ser nada fácil enfrentar pela primeira vez o olhar puro de uma criança a quem se vai chamar filho. Para sempre, se tudo correr bem. No meio de tudo isto, ficou ali o João. A pensar. Nas laranjas. Na Teresinha. Nos pais da Teresinha.
Entra o primeiro casal e o João nem se vira. Nem se mexe. Está ali como que petrificado a lembrar-se da conversa que teve com a melhor amiga, dois dias antes. Ela disse-lhe que era “segredo João. Daqueles que não podes contar a ninguém”. A mãe casou com outra mulher e o João ri, sorri. A Teresinha gosta mesmo muito dela. É como se tivesse duas mães, mas elas dizem que agora aqueles senhores do Governo, os que mandam em tudo, não deixam que a outra mãe dela, também possa ser mãe, porque não é um homem (mas um homem não pode ser mãe? E uma mãe pode ser pai?). Então, se acontecer alguma coisa à mãe da Teresinha, a outra senhora que também é mãe, não pode cuidar dela e a Teresinha vem para um Abrigo como este!?
E as laranjas. Onde vai ele arranjar as laranjas? Como vai ele ajudar a Teresinha? Será que algum dia ele vai ter pais também? Porque é que a outra mãe da Teresinha não há-de poder chamar-lhe filha? Que parvoíce. Que estupidez. Se acontece um acidente daqueles em que o carro fica de pernas para o ar, a deitar fumo, a Teresinha fica sozinha, como eu? Porque é que os senhores do Governo e da Assembleia da República não gostam da outra mãe da Teresinha? Porque é que não me deixam ter uma família? Só de pais, ou só de mães, quero lá saber. Só quero uma família. É mais do que tenho agora. Ninguém quer saber se tenho frio, se tenho sono, se tenho fome, se tenho boas notas, se quero sumo de laranja. Quero ter um quarto para mim. Com o meu nome na porta. Quero ter tudo assim como tem a Teresinha. Como têm as crianças felizes. Até nos livros das histórias há sempre famílias. Porque é que eu não posso ter uma? Porquê?
[Fim da Segunda Parte]

11h30 e entram em casa dois homens, simpáticos, de mão dada e trazem um menino, também pela mão. A irmã Natércia faz uma cara estranha, mas acaba por sorrir ao fim de uns segundos. Eles chegam junto de mim e um deles, o mais alto, agacha-se à altura dos olhos do João e pergunta-lhe:
– Como te chamas?
– João. E tu?
– Pedro e este é Afonso (puxando a mão do pequenote que viera com eles). Afonso cumprimenta o João, diz olá.
Aperto de mão para aqui e para ali, logo o João trata de pôr o Afonso à vontade, que lhe pede para ir ver o seu quarto. O João hesita. Não tem um quarto dele. Com os seus próprios brinquedos e gavetas cheias da sua própria roupa. Tem antes um armário com uma prateleira identificada com o seu nome e uma cama decorada com a mesma intenção. Os olhos colam-se ao chão. Os nervos são muitos. O João começa a ficar ansioso com tanta visita. Está farto. Cansado. Só quer uma família e não percebe porque continua a ficar ali. Todos os Sábados. Gostou muito de conhecer o Pedro e o Afonso. Sente que eles podiam ser o seu pai e o seu irmão. Que as suas tardes podiam ser todas elas com aquelas duas personagens e com o Manel que está a falar há mais de meia hora com a irmã Natércia. E com a Teresinha claro. Acaba a hora da visita e aproxima-se a hora de virarem costas uns aos outros e de sonharem todos com o mesmo na noite que se aproxima a passos largos. Está calor.
– João. Vamos tentar cá passar no próximo fim de semana.
– Está bem… Já vi este filme. Agora não botam cá os pés. Nunca mais nesta vida.
A noite não corre bem. O João faz xixi na cama. O Afonso também. O João tem pesadelos horríveis. Com um incêndio na casa. Todos morrem e ele fica ainda mais sozinho na vida inteira que tem pela frente. 7 anos não são nada. Acorda a chorar convulsivamente e, a alguns quilómetros dali, a mesma coisa acontece com o Afonso e o Pedro e o Manel… Estão estranhamente ligados.
– Ele tem de vir cá para casa. Não pode ser de outra maneira. Ele vem. Ponto final. Abraçam-se, aninham-se e a voltam a adormecer. O Afonso saltou para a cama deles entretanto. No entanto, há aqui um espanto. O Pedro e o Manel têm direitos distintos. O Pedro é o pai. O Manel, o companheiro. A mãe do Afonso morreu sem deixar qualquer família. O Manel só quer perfilhar, co-adoptar o Afonso. Portugal não deixa.
Na semana seguinte, fica tudo tratado. O João tem o quarto preparado. Roupas novas. Mobília moderna. Livros. Amor. A cama do Afonso ali por perto. Passam a ser irmãos. Passam a ser quatro. A felicidade invade-os, como nos invadem os olhos as cores da Primavera e o calor fresco do Verão. No fim-de-semana seguinte, eles lá estão. Prontinhos para adoptarem o João. Ele, ali está, malas na mão. Roupita lavada. Vida arrumada e olhos arregalados no futuro. Será melhor? Será o que tiver de ser, mas será qualquer coisa, em família. Um adeus emocionado a todos que aqui me vou.
– ADEUS!!
Aos que ficam renova-se a esperança de ainda conseguirem ser felizes na infância que se quer sempre assim, feliz. De serem felizes no tempo em que tem de imperar a felicidade e não a ausência de tudo e alguma coisa. No tempo em que é deles o mundo e nos cabe a nós, adultos, esses seres tão iluminados e sábios, tornarmos a sua vida melhor, em todas as formas possíveis.

Não quero, de modo algum, menosprezar tudo o que é feito num abrigo, num Lar, ou numa Casa, mas todos percebemos que esses são espaços propositadamente criados como soluções, medidas para evitar que a situação seja ainda mais dramática, triste, injusta e imerecida. Criança nenhuma devia passar por tudo o que passa aquela que cresce sem pais. Sem uma família que não aquela que lhe “conseguiram arranjar”, quando a salvaram da desgraça do abandono, ou da orfandade. A normalidade, essa, há muito que se diluiu. Quem tem afinal o direito de decidir sobre algo desta dimensão? Podia ser assim, não podia? Mas não é. Não é e não vai ser. O meu país continua a não querer. Apresenta-se agora como o país que vetou a co-adopção. Talvez se orgulhe, como se orgulham o Ruanda, a Somália, a Etiópia e aqui mais perto, a Rússia, a Roménia e a Ucrânia, tudo excelentes exemplos daquilo que é o fenomenal funcionamento da democracia e do reconhecimento dos Direitos Humanos. Portugal volta a estar na vanguarda do humanismo.
No meio de tudo isto existe uma incongruência que não entendo: Porque é que os casais homossexuais podem casar, mas não podem co-adoptar, ou adoptar, ou ter uma vida com direitos conjugais iguais/idênticos aos do restante rebanho heterossexual? (esse sim, o rebanho de ovelhinhas brancas…) Se tudo muda e evolui, porque razão se insiste na incoerência de permitir mas só até certo ponto? Para além desta incongruência, está ainda a natureza da minha estupefacção. Porque é que nenhum destes senhores iluminados e cheios de poder, nenhum destes senhores a quem o “sistema” confere a magnânima posição de decisão e, sobretudo, o poder de legislar e decidir “como vai ser”, um lugar na mesa de Deus que lhes permite decidir a vida de tanta gente, porque é que nenhum deles se preocupa com o que deveria verdadeiramente importar num assunto que não devia sequer ter direito a discussão pública: o superior interesse das crianças! Como se pode chumbar algo assim? Não será esta mais uma forma de assinalar e acentuar a diferença? Como pode ser possível que se permita que uma criança se possa manter órfã de pai/mãe, pelo capricho ideológico de manter o “provincianismo de origem contrária à canhota”?
Não era dos adultos que se falava e se tratava, mas sim de possibilidades oferecidas a estas crianças, em particular. No entanto, esta “Gente” acha sempre que sabe tudo, que eles, sim, sabem o que é a vida e como e em que moldes ela deve e tem de ser vivida. Depois, vejo autênticas barbáries escritas por mais gente que tem o poder de escrever para o público, em sítios de leitura massificada, gente essa que, enfim… Perdoai-lhes Senhor, que eles não sabem o que fazem…!
Talvez um dia consigamos perceber que os pés não são para dar tiros e que adopção e co-adopção não são temas para discussão em praça pública. Estamos a discutir o destino de muitas pessoas. Não é o presente, é o futuro. Estas crianças ficam marcadas a sangue. Para o espaço público devem ficar reservados temas que merecem verdadeiramente a opinião de toda a Nação. O BPN, o BPP, as PPP, os submarinos, as obras públicas, os estaleiros, os aeroportos, os estádios, a corrupção, a fraude, as multas dos milionários que prescrevem e os velhotes condenados por roubo de pão, não a vida das crianças e das suas famílias, ou da possibilidade de virem a ter uma família. Sobretudo, não pode ser esta lógica subvertida a decidir todo o curso de uma vida, porque quem o decide e determina, acreditem que sim, está a fazê-lo de forma totalmente irreversível.

Professores e… senhores doutores!

Aprendi, desde muito pequeno, que existem pilares básicos numa sociedade moderna que precisam de ser mantidos na mais profunda e profícua das estabilidades, a fim de se assegurar a subsistência, sobrevivência e manutenção da ordem nessa mesma sociedade.
Não é preciso ser-se uma “mente brilhante” com um Quociente de Inteligência (QI) de três dígitos para perceber esta equação mais que simples, básica, óbvia e tão óbvia quão óbvia é a capacidade de percebermos o seguinte:

Crianças = futuro 
Educadores + Professores = Quem, de forma objectiva (e, regra geral, fundamentada) é responsável por mais de 60% da educação das nossas crianças, ou seja, quem é responsável por conduzir os “condutores” da próxima geração.

– Tu, na terceira fila, aí junto à parede, do lado direito, como é que te chamas? Terei soado insegura e quase envergonhada?
– Professora, já lhe disse o meu nome 3 vezes esta semana. Olha-me bem para o estado destacoitada.
– Desculpa. Mas… posso saber como te chamas e que idade tens?
– Idade suficiente para já ter percebido há coisa de um mês que estar aqui ou não estar é praticamente a mesma coisa. Estás a pedi-las!
– Como?
– Sim. Estamos em Janeiro, as aulas já decorrem desde Setembro, a professora continua sem saber o meu nome, de onde venho, como é que chego aqui, dia após dia, a que horas acordo para aqui estar pontualmente às 07h45. Se estou, ou não, a perceber alguma coisa da matéria que a professora aqui debita três vezes por semana, não sabe absolutamente nada. Com a sorte que tenho ainda está à espera do resultado da prova de aferição, que testa as suas capacidades para dar aulas…!
– … (Silêncio geral na sala)
– Vê?
– Vejo sim, vejo que estás a ir longe de mais meu fedelho, mas deixa-me que te diga uma coisa em minha defesa. Esta turma tem 45 alunos, tenho três turmas, com aulas que começam imperiosamente às 08h00 da manhã, se me atraso… vocês vão embora, se saio de casa 10 minutos mais tarde por algum imprevisto… chego atrasada, e vocês? Vão embora! Tens razão quando dizes que eu não sei nada sobre cada um de vocês, mas também vocês pouco sabem sobre mim. Eu sei por exemplo que mais de metade de vocês copia, não estuda, “saca” as respostas dos testes para o telefone, mas não vos digo nada, não vos censuro e noutro tempo fá-lo-ia, mas não me posso dar ao luxo de perder este emprego. Estou a 150 km de casa, acordo às 04h30 da manhã, quando nunca me deito antes das 0h30, porque preciso de preparar as aulas, a que vocês não ligam, porque…?! A culpa não é vossa, mas também não é minha.
– … Pedro.
– Como?
– Sou o Pedro. Apanho dois autocarros para cá chegar, saio de casa às 06h15, para apanhar o primeiro deles às 06h25.
Bolas! Devia ter ficado calada.
– Como uma banana e um copo de leite porque à hora a que tenho de sair de casa a minha mãe ainda não chegou do emprego da noite porteira num condomínio qualquer de gente fina, como aqui o filho do senhor ministro não sei do quê, com o pão fresco que traz todas as manhãs.
Os meus irmãos mais novos vêm comigo, deixo-os no Jardim de Infância que faz a enorme gentileza de abrir propositadamente as portas para os receber, a eles e a mais umas meninas loirinhas de ranho no nariz que vivem perto de nós e que vêm no mesmo autocarro, juntamente com a irmã, a Sara. Está sentada aí mesmo à sua frente, com tanto sono que mal se aguenta de olhos abertos. E o filho do ministro que diz que está cheio de sono porque ontem se deitou às 04h00 da manhã, porque esteve a jogar PlayStation, passo a manhã à espera que chegue a hora de almoço porque a fome é tanta que nem consigo concentrar-me nas aulas. Compreendo tudo professora.
– Não sabia Pedro. Caramba, onde irá parar esta conversa? Mas olha, perdida por cem, perdida por mil.
Compreendo que não tenho as mesmas oportunidades, que não conseguirei nada desta vida, que estou destinado a sair da escola no final do próximo ano, com média de 11 valores, que não vou poder, como o fará a maioria dos meus colegas, candidatar-me a faculdade alguma, o filho do ministro talvez nem tenha de se candidatar, basta-lhe escolher, ou então daqui a uns anos dão-lhe as equivalências, como fizeram com aquele, como é que ele se chama?  
Preciso de ir trabalhar para ajudar a minha mãe com as despesas de casa. Compreendo que a professora não tem vida fácil.
Compreendes?
– Olho para si e vejo logo.
Ui. Bom talvez isto seja positivo e seja isto que eles precisam. Eu devia ser exemplar, devia conseguir que me admirassem, mas não consigo deixar de pensar que este mês não tenho dinheiro que chegue para comer até ao dia 26.
Os ténis de enfiar rápido nos pés, ideais para quem não tem tempo a perder, calças de ganga, as camisinhas aperaltadas, uma mala enorme onde traz tudo, o iPad, um casaco para o final do dia, comida, mais do que um telefone, garrafas de iogurte, leites com chocolate, depois há o olhar mortiço e tantas vezes perdido, numa vida para a qual não foi devidamente preparada.
Só me apetece chorar e desistir de tudo. Tenho uma licenciatura, um mestrado…
– Foi “mandada” para bem longe de casa. Conduz durante 1h30 para aqui chegar, muitas vezes chega à sala de olhos vazios, encarnados, de quem veio a chorar pelo caminho… deixaram-na acreditar que ser professora era uma profissão nobre, não foi? Pobrezinha. Passou anos a alimentar o sonho de trabalhar com crianças, com jovens, de os ensinar, de fazer parte das suas famílias, do seu crescimento, de ser reconhecida como uma autoridade na sua área e sobretudo ser respeitada pelo simples facto de ser professora. Enganaram-na e bem, não foi?
O que se faz aos professores chega a ser insultuoso.
E quando se perdem as referências educativas, quando se perde a noção de quem devemos ou não respeitar, de quem devemos ou não escutar, com quem podemos ou não aprender, então é caso para nos preocuparmos mormente, porque no futuro ninguém ficará contente com o futuro de toda esta gente.
Uma sociedade que não educa, que não se preocupa, que não respeita e que ao invés enjeita é uma sociedade tão imperfeita quão imperfeita é a Educação, num país em convulsão.
“A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida,  é a própria vida”, John Dewey
“É no problema da educação que assenta o aperfeiçoamento da humanidade”, Immanuel Kant
Que vida pode dar a um grupo de alunos um professor/educador em sufoco, em frustração, desalento e descrédito na sua própria posição? Ataquem-se os princípios, os processos, os métodos, mas não se ataquem as crianças, os jovens, os pequenos adultos, porque no ataque aos professores está um ataque bárbaro, impiedoso e cruel ao futuro da humanidade. Tirem o sonho às crianças e mais vale fechar tudo isto e acabar de uma vez por todas com as bacocas teorizações sobre os exercícios de poder ministeriais, porque no dia em que as crianças deixarem de sonhar e os professores deixarem de ser capazes de os levar de volta ao caminho, então aí devemos todos morrer envergonhados porque teremos reconhecido que o ser humano é de facto… fraquinho!

Futuro e Princesas

04h00 da manhã. 
Candeeiro aceso, sombras na parede, olhos ainda abertos, pensamento tão desperto, acalentando o meu dançar.
Vagueia-se-me a alma pelas ruas da cidade, em busca das respostas que tardo em não querer ignorar.
Está mais do que na hora, é mais do que tempo de seguires rumo à primavera (escrito com letra “pequena”, já a caminho do novo (des) acordo ortográfico) como cantou tão bem Manuel Cruz.
Estou a meio de um bloqueio.. penso.. e não escrevo.. sinto e não devo.. procuro e não encontro.. o que vejo.. é o que sei há tanto.. Mas conformo-me e derroto o ímpeto surreal, não sinto mais do que aquilo que sentia, não desespero, e aí deixou de estar o mal..
Ou estará aí mesmo a solução primordial?
O que faz de um homem, esse mesmo homem?
É a capacidade de superação, re-invenção, acomodação e de aprendizagem, ou é a capacidade de luta, regeneração e crescimento que advém da quantidade de sofrimento que consegue encaixar?
Ser-se humano nos dias que atravessamos, não é de todo uma tarefa simples e de fácil concretização.
Viver está difícil, crescer parece complicado, e o futuro é aos nossos (jovens moços) olhos uma missão cada vez mais imprevisível e de trajecto inobservável.
Mas aí reside também a natureza bela do incerto.
De que vale saber o que vamos encontrar? De que nos vale conhecermos os desígnios do Divino que nos esperam?
De nada.
Penso até que nos atreveríamos a apressá-los para que nos pudéssemos contentar mais depressa com o que é nosso por direito, para que de forma tão egoísta nos conseguíssemos satisfazer o mais rapidamente possível.
Quem pensa em si e não no próximo, quer para si tudo e deixa para o pobre coitado do vizinho, aquilo que não consegue com os olhos alcançar.
Os olhos comem, e onde os olhos chegam o homem quer tocar!
Nada contra.
Mas o futuro, esse figurado espaço temporal que a ninguém assiste o poder do controlo, só tem a beleza que tem porque é desconhecido, porque é distante, porque está envolto numa cortina de neblina densa, e ao mesmo tempo enigmática e sedutora, que permite um vaguear dos pensamentos idílicos, em direcção ao sonho e ao desejo.
Queremos o futuro na mão ou os sonhos esmagados no chão?
Nada disso.
Quero é viver!
Já dizia Voltaire: “Não podemos querer o que desconhecemos.”
Como tal, aspira ao que queres ser, sem nunca deixares de ser aquilo que és.
Conheço alguém com nome de princesa, sim, porque até para se ser princesa é necessário ter um nome à altura.
É uma princesa de verdade, mas dos tempos modernos, dos tempos de luta, de crença, de força, de muita força. de vestidos, ganchos e bandeletes, de brincos, anéis e pochetes, mas sobretudo com alma de guerreira, com alma de quem tudo vence, tudo dobra e tudo sente.
Ana.
Olhos em ti, pelo exemplo que doas ao mundo.
Olhos no alto, porque és do tamanho do que fazes e representas e nunca do tamanho da tua altura, olhos em ti, porque o que tu sabes, poucos sabem.
Olhos em ti, porque a vida é bem mais do que a estupidez diária dos que passam por ela, sem a viver de verdade.
Como consegues ser princesa e cavaleira ao mesmo tempo?
Como consegues gerir e comandar, sorrir e encantar?
Não sei como o fazes, mas o que é certo, é que mesmo não aparecendo em revistas, em fotografias ou entrevistas.. é enorme o espaço que conquistas.
És uma pessoa de verdade, nobre por direito, e grande na dimensão real da tua pessoa.
Que orgulho eu tenho por ser amigo de uma princesa.
Contarei isto aos meus, quando um dia os tiver.
Aprendo ao passar por pessoas assim, ao fazer parte do mundo de alguém tão grande, também eu me engrandeço e me torno melhor, maior e mais forte, mais denso e mais conciso, obrigado, muito obrigado.

BULLYING

A grande maioria de nós que tem um cérebro pensante, que foi tantas vezes catalogado como, MARRÃO, CROMO, MENINO, BETINHO, passou por situações que agora são alegremente empacotadas no estigma do BULLYING.
Ora, esses cobardes nojentos, que condicionam a vida daqueles que tÊm o “AZAR” de ter uma vida familiar tranquila, que são acarinhados e protegidos pelos seus pais, ou familiares directos, que gostam de ter boas notas na escola, que não se interessam por andar À PORRADA nos intervalos, que gostam de jogar futebol, que não roubam o dinheiro do lanche a ninguém, não passam disso mesmo, de COBARDES NOJENTOS.
Muitos deles não têm a totalidade da culpa, que deve ser distribuída pelos pais, e sobretudo, agora vão indignar-se alguns, pelos professores.
Todos sabemos que, nos dias de hoje, as crianças e adolescentes passam 70% dos dias fora de casa, mais precisamente nas escolas.
Ora, se isto é assim, e toda a gente sabe que isto é assim, tem de passar pelos professores, a missão de falar sobre estes acontecimentos, dentro e fora das salas de aula. As escolas não se podem limitar a castigar, com processos disciplinares e suspensões, os agressores, que acabarão por aumentar os seus níveis de revolta, de raiva, pepretuando-se assim o sentimento de marginalização e potenciando-se vidas problemáticas, auto-estradas para os estabelecimentos prisionais, decadência, vidas fugazes, passadas ao serviço do crime, do desacato, da VIOLÊNCIA!!!
Têm de ser criadas alternativas nas escolas, tem de se administrar formações neste tipo, não só para professores, mas também para todo o pessoal não docente.
O professor não se pode refugiar na sua posição e ficar fechado na sala ou no gabinete de professores nos intervalos.
Como parte integrante da escola, da sua orgÂnica, o professor pode e DEVE passear pela escola, tornar-se um elemento preponderante na vida dos seus alunos, com quem passa mais de metade dos seus dias úteis.
Fechar os olhos, ou olhar para o lado enquanto se assobia, e depois ligar às televisões quando acontece alguma coisa de grave, não é de todo a solução.
Mais casos como o de Mirandela irão apareceer, e se somos capazes de ser tão solidários, como o fomos agora com a MADEIRA, vamos então ser solidários com a coisa mais importante que temos na nossa sociedade, que são os homens e mulheres de amanhã, O FUTURO.
Vai levar tempo, mas se não se fizer absolutamente nada, este tipo de casos vão continuar a acontecer, crianças em tenra idade, vão desenvolver depressões, fobias, medos, e o pior é que muitas delas, vão acabar por viver toda uma vida rodeadas de medo, de depressões, de desconfiança, de AUTO ESTIMA nula, de terror interno, de descrença perante a sociedade e de incompreensão quanto ao sentido da vida, e em situações de desespero, como é aquela que lentamente se vai apoderando do país, tomam atitudes trucidantes e desmedidas…
ATENÇÃO PORTUGAL, cuida do que está MAL, ajuda-nos a ajudar-te!!!!