Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

São 7h55 minutos da manhã desta segunda-feira. Sinto o telefone a vibrar dentro do bolso. Sei o que é. Pela hora inusitada da mesma sei de antemão o conteúdo da mensagem e adivinho-lhe também o remetente.

“Morreu. Já não acordou esta manhã. É isso que vou ler. Tenho a certeza.
Tiro o telefone do bolso, abrando, ponho o pisca para a direita, saio da A5, viro em direcção ao Estádio Nacional, para seguir para Laveiras.

Mudo o telefone de mão e de seguida vou poisá-lo em cima da mochila. Dou-lhe uma espreitadela, rápida… sim, vinha a conduzir, mas a força do momento assim obrigava. Olho para o telefone que já se acendeu e que me mostra a seguinte mensagem: “Desculpa estar a dar esta má notícia, mas o Ricardo já não acordou esta manhã”

É um torpor imediato. Uma tristeza que desfaz a secura de uns olhos ainda desavergonhadamente ensonados para os encher rapidamente de lágrimas que correm direitinhas pela cara abaixo. Tento acalmar-me porque ainda preciso de guiar até ao trabalho. Lá consigo, pois claro. Chego. Subo. Abro a porta. Vou à casa de banho enxugar os olhos e olhar para mim mesmo antes de me ir sentar a trabalhar. É estranha a interpretação que temos de nós no dia em que nos morre alguém.

Ligo as coisas e não aguento muito tempo. Tenho de ir lá fora. Respirar. Falar. Perguntar coisas a Deus que vão ficar, como ficam sempre, sem resposta. É demasiado cruel.
É avassalador. Dói. Dói demais Imaginar a dor de um amigo tão querido. Tão doce. Tão meigo. A dor da família. A dor da Marta.

O Ricardo foi sempre um dos melhores de nós. Foi. Não é por ter morrido que escrevo isto. É porque foi mesmo.

Puro. Impoluto. Doce. Amigo. Alegre. Sorridente. Sorridente até mesmo quando ficava sério. Quando se zangava. Quando perdia ou quando não ganhava. Na meninice fizemos muito. Fizemos tanto. Rimos. Corremos. Fugimos. Fomos apanhados. Partimos vidros. Fomos ameaçados e insultados. Insultámos e fugimos. Fomos ao Pão por Deus.
Molhámos centenas de pessoas com balões de água. Fizemos corridas. Jogámos ao berlinde. Jogámos à bola. Jogámos à lata. Jogámos ténis. Vimos filmes. Dezenas e dezenas de filmes, VHS, lá em casa. Fazíamos sessões de cinema. Não sabíamos o que fazer com tanto Verão. E os anos eram de algodão. Leves. Pareciam eternos. Todos. E depois lá chegava o Outono e o Inverno. E nós ali. Onde podíamos.

Mas essas férias de Verão prometiam sempre durar para sempre.
As noites na rua. As tardes na rua. As manhãs na rua. A rua. As manhãs nela, as tardes dela e as noites como uma flor na lapela.

A Flamenga. O nosso bairro. O bairro que nos viu crescer. O bairro que nos viu passar da meninice atrevida para a adolescência que primeiro se quis tímida para depois, sem vergonha, caminhar apressadamente para a maioridade. Aí. Nesse estado em que os caminhos se separam. Onde as amizades se esfriam. Onde as escolhas nos definem.
Ali. No bairro que nos trata por tu, que nos faz festas na cabeça, que nos conhece os pais e os filhos, e que já viu partir alguns dos seus melhores elementos. Ainda há pouco tempo lá foi o Walter, lembram-se?

Não há receita que nos proteja deste flagelo. Não há forma de prever que uma barbaridade destas vai acontecer. Sim, claro que podemos comer melhor. Dormir mais. Fazer desporto. Ser mais saudáveis. Andar a pé. Contemplar a natureza e… caramba, pá! E quem faz isso tudo e acaba por morrer na mesma?

Ver morrer um amigo é um pesadelo que, infelizmente, todos nós temos de (re)viver uma e outra e outra vez. Vezes demais. Começam a ser vezes demais para gente tão nova. Tenho 34 anos e estou cansado de enterrar pessoas de quem tanto gosto às mãos do cancro. Sim. Em minúsculas. Não merece mais. Não mereces mais. Sabes bem que não mereces porra nenhuma, sua besta!

Já tu, meu amigo, tu… que lutaste com tudo o que tinhas. Que acreditaste na felicidade milagrosa de um milagre que acabou por não chegar para te salvar. Um milagre que não podia ter chegado. Um milagre que a falibilidade do nosso corpo não permitiu que chegasse. Nem tinha como permitir. É esta, hoje e sempre, uma luta desigual. Não chega sequer a ser uma luta. ele controla o processo por completo.

Ninguém merece esta doença, mas tu és, tu eras, tu foste, tu és… que confusão! Foda-se, que puta de confusão que prá’qui vai. Tu merecias muito mais do que isto. E aqueles que te amam mereciam-te para a eternidade. Que tremenda injustiça, Ricardo. Que tremenda injustiça!

Há nos amigos de infância qualquer coisa de poético o suficiente para fazer de nós pessoas felizes durante toda uma vida. Apercebi-me disto, mais uma vez, nestes últimos dias, perante a crónica da morte anunciada do meu querido Ricardo. A quantidade de memórias que temos com estes amigos que nunca esquecemos é de tal forma esmagadora, que torna impossível que não sorríamos de imediato quando nos vemos no café, no talho ou na merceeria, ou quando nos lembramos desta ou daquela ou da outra história. E são tantas. Às dezenas. Centenas. Impossíveis de esquecer.

Isto deixa em nós uma tremenda e inquestionável certeza: gostemos ou não, estas são as únicas pessoas na vida que dificilmente esquecemos. Atrevo-me a dizer que é praticamente impossível. Passem os anos que passarem. Vivamos a vida que vivermos.

Os amigos de infância não se esquecem, por uma razão muito simples: são as pessoas mais importantes da nossa vida na fase mais importante da nossa vida, e ainda para mais são, quase sempre, escolhidos pelo que de mais puro temos dentro de nós. Ou gostamos deles ou não. Ponto. Não há cá espaço para merdas. 

Dei-lhe 1 beijo na testa à chegada e fiz o mesmo quando me vim embora.
Soube, ali mesmo, naquele olhar que foi só nosso, naqueles segundos de encontro dos teus olhos nos meus, soube, precisamente ali, naquela troca espontânea de mimos e amizade regada com um “gosto mt de ti, meu amigo.”, que nos estávamos a despedir. Escrevo a vermelho, pelo teu Benfica. Por todas as discussões que tivemos à conta do Porto e do Benfica. Caramba. Que vida. Que VIDA!

E foi assim que dissémos adeus um ao outro. Ali. Naquele quarto em StªMaria.
E soube também, pelos teus olhos, os mesmos que conheci durante 25 anos, que estavas com medo. Com muito medo. Aterrado. Aquele medo que todos temos mas que só alguns são capazes de enfrentar. O medo de morrer. Mesmo que seja por obrigação. Foste obrigado a morrer e isso… isso é imperdoável, puta de doença.

(Não tens vergonha de continuar a destruir vidas e famílias inteiras à conta dos teus caprichos? Bardamerda para isto tudo!)

Foste insuperável. Foste incrível. Foste um herói, meu querido. Foste um herói na forma como enfrentaste e tentaste dobrar o destino à força da tua força e alegria de viver. Perdeste a batalha física. Ganhaste a batalha mais importante. Mostraste-nos como é que se enfrenta uma coisa destas sem nunca fraquejar. Acreditando sempre que é possível. Que ainda há prolongamento e penálties.
Que inspiração. Que força. Que querer. Que Rei.

Dei-te um beijo na testa e vi, dentro dos teus olhos, com a meiguice que sempre neles viveu quando quem olhou para mim, pela última vez, com os olhos carregados de medo antes de me dizer: “Gosto muito de ti, amigo. Estava com o João. E ele disse-nos: “Gosto muito de vocês, meus amigos.”

Estavas a comer Nestum quando entrámos e, espreitando pelo canto do olho, nos viste. “Está a saber-me pela vida, meus amigos! Vocês nem imaginam, está mesmo a saber-me pela vida! (…) Obrigado por terem vindo.”

Obrigado eu, Ricardo. Obrigado eu.

Foi assim a tua vida. Doce. De Mel. Como o teu Nestum.
Tenho para mim que naquela taça estava todo o amor do teu mundo e de todos os que te queriam e querem bem.

Foi assim. Foi assim que a Flamenga te perdeu. Foi assim que o mundo te perdeu.

Quanto a nós,  vamos guardar-te para sempre, Ricardo. Para sempre. 

Até já, campeão!

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

O meu último texto superou todas as expectativas que tive quando o publiquei aqui. Estava longe de imaginar que o mesmo iria gerar mais visualizações num só dia do que o blog alguma vez tivera nos 6 anos da sua dedicada e insistente existência. É certo que o tema era e é quente, recente, contundente, e que não deixa (quase) ninguém indiferente, mas daí a ser partilhado e comentado por tanta gente… isso, isso é coisa bem diferente. Mas vamos por partes. O Rogério Esteves e a Cândida Pinto (dois nomes que devem ser referidos com orgulho, reverência e solenidade) já regressaram a Portugal. E a coisa não lhes correu nada mal. Estiveram lá durante mais de duas semanas a queimar os olhos e as pestanas, a ver coisas desumanas, espantados com as atrocidades cometidas, com as palavras proferidas, com as horas perdidas, com as crianças desnutridas, com a quantidade inquantificável de gente de vistas perdidas, de olhares vazios, de lágrimas no rosto, aninhados, amedrontados e com fome e frio. (Mas estes “sacanas” merecem. Ou pensavam que era só vir aqui invadir a Europa e encontrar um mar de facilidades?)
O Rogério e a Cândida sofreram! Sim. Sofreram. Como sofre qualquer ser humano de boa índole ao ver outro ser humano em sofrimento. Talvez mais ele do que ela. A Cândida Pinto (cujo nome, como já disse e não me canso ou nada importo de repetir, se deve ler com reverência – obrigado novamente António Reis que tanto sabes) já esteve várias vezes em cenários de guerra, reais, por demais, com fogo que não é amigo, bem pelo contrário, olhando bem de perto para a cara feia do perigo, esquecendo-se sempre do seu próprio umbigo.

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Foto: Rogério Esteves

Ele não. Ele foi “lá parar” porque ela quis que ele fosse, pediu que ele fosse, porque gosta do trabalho dele, porque acredita que ele tem nos olhos e na relação íntima com a câmera e com as imagens, qualidades inequívocas e inquestionáveis no que a este tipo de trabalho diz respeito. Mas, o que também importa aqui dizer é que o R. tem 25 anos, vinte e cinco anos apenas, banhados pela luz radiante e tremendamente contagiosa de um coração enorme, de uma bondade que conhece poucos ou até mesmo nenhuns limites, purificada por uma sinceridade transcendente ao próprio corpo e que se propaga pela imensidão dos seus olhos azuis e da alma que lhe carrega tantas vezes o corpo e o senta no diafragma da lente com que nos mostra… “o país e o mundo”.
Foca e desfoca, ri, chora e não treme, como não tremeu nestes dias em que esteve com a Cândida (repito: este nome deve dizer-se com reverência) e que viu as coisas mais verdadeiramente impressionantes da sua ainda curta vida. Escrevei anteriormente que o que mais o impressionou e que foi mais difícil de aceitar foi o ter de ouvir, olhar, ver e escutar os lamentos desesperados das crianças e dos seus olhos carregados de verdade e de tristeza, de medo, fustigadas por terror a mais para anos de vida a menos.

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Foto: Rogério Esteves

Verdade. Digo, disse-o e repito-o. Sem apelo nem agravo, sem dó nem piedade, porque por cá, quem continua (depois de tantos e tantos dias, depois de tantas e tantas imagens, depois de tantos e tantos relatos) a revelar-se intransigente, inflexível, racista, xenófobo e estúpido, a mostrar ser implacável na verborreia com que apregoa o medo que os “sacanas” dos sírios lhe(s) causa(m), com argumentos translúcidos e inspirados tais como: que querem “colonizar” o mundo com um imperialismo disfarçado e hostil, querem oprimir todos os seres humanos que encontrarem pela frente e os seus animais também (que pode sempre dar jeito), quem continua a defender esse tipo de ignomínia absurda, não merece mais do que verdade. Factos. Que a realidade lhes lave os olhos fechados… com tanta gente que queria ver!

Ah e querem igualmente usurpar-nos os empregos… falo daqueles que tiverem paciência e vontade de trabalhar, obviamente, porque como é “certo e sabido”, todos eles querem vir para a Europa para serem parasitas, sanguessugas, escorpiões, cobras venenosas e malvadas, munidas de uma peçonha sem antídoto, dum venenoso e pérfido poder que nos vai dizimar a todos… logo a Nós, os europeus puros de sangue! Os do “velho continente”.
E este pensar, não está ele corrompido por ideias despóticas e imperiais, que serviram de base idealista para as piores atrocidades que se comentaram neste continente e que culminaram com a tentativa de extermínio de um povo (os judeus), que também tinha vindo aqui para procurar refúgio?

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Foto: Rogério Esteves
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Foto: Rogério Esteves

Pergunto-vos, porque gosto muito de conversar: Alguém acredita, no seu perfeito juízo, ou consegue acreditar, que existam seres humanos que gostem de ser REFUGIADOS de Guerra? Que se vangloriem de viver assim? Que se sintam felizes por não poderem viver na terra onde nasceram, onde cresceram, onde aprenderam a ser gente? Onde aprenderam o significado de ser e estar.

Ser. Mas ser mesmo. Existir. Tal grandeza só tem sentido se o coração bater, se o sangue correr, se o olhos brilharem mesmo que não vejam, se o nariz cheirar mesmo que o cheiro seja hediondo e o ar conspurcado.
Perde-se tempo, tanto tempo, demasiado tempo a tentar encontrar motivações que consigam explicar todo este fluxo migratório e, digo-vos eu, pela ponta dos meus dedos, que é tempo perdido. Porquê? Porque a verdadeira motivação desta migração massiva está, simplesmente, na luta desigual e constante pela sobrevivência. Numa vontade inabalável de viver, de sorrir, de crescer, de ser mais, de ter mais, mais do que tudo isso, de recomeçar. Quem cá chega abandonou tudo. Quem cá chega trabalhou durante meses ou até anos a fio para juntar tudo o que era possível juntar e que, não poucas vezes, acaba no fundo do Mediterrâneo. E há depois a superior e inesgotável vontade de não ter medo.

Os meus colegas viram coisas que nós, aqui, no sofá, no escritório, pela televisão, pela internet, no tablet, no telefone, não vemos! E capacitem-se de que nunca, mas nunca vamos ver… da mesma forma que eles viram! São coisas a que nunca vamos conseguir chegar, imagens que, por muitas e mais vezes que nos sejam contadas, serão sempre isso, relatos, histórias, imagens vistas pelos olhos de alguém, que, vão sendo cada vez mais difíceis de enquadrar. Mas para isso há uma explicação cabal e inequívoca. Há um nome sem rosto mas que é maior que os Deuses, que os sonhos, que o Sol. O Medo! Esse sim o verdadeiro monstro, aquele que nos impede de abrir os olhos, que nos obriga a ficar debaixo dos lençóis sedosos e apetitosos da facilidade e do conforto, tapados, submersos, impressionante imobilizados e de sangue congelado nas veias, à espera que o pesadelo passe e que seja novamente manhã, que brilhe o sol, que corram felizes as nuvens e que tudo isto não passe… de um sonho mau.
E viram coisas estranhas, coisas esquisitas, nas suas próprias palavras.
Campos de acolhimento que se esvaziaram mais depressa do que uma curta noite de sono. Centenas de pessoas a serem metidas em autocarros e levadas para parte incerta. Estratégias de combate militar da polícia húngara. E sons. Muitos sons. Sons que ficam. Sons que teimam em não os largar. A ele em particular. De pânico. De terror. De fuga. Que chegam em forma de gritos. De homens, de mulheres e de crianças. Como é horrível o som do terror da pequena infância.
O R. não se esquece do “barulho impressionante” de 5 mil pessoas a correr em todas as direcções, do tumulto, da polícia, do polícia que lhe enfiou um braço por baixo da câmara e lhe lançou uma bombada de gás pimenta para os olhos e para a boca – “nunca tinha ouvido um barulho assim meu amigo”. Não se esquece do homem sírio que, vendo-o aflito, parou a sua corrida e lhe deu um pacote de lenços de papel e lhe disse para limpar a boca e os olhos com o papel, “ajuda a tirar o gás” disse ele.

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Foto: Rogério Esteves

E todas estas são palavras em que acredito piamente. Os olhos do R. não mentem, muito menos a sua boca, onde o espaço é, regra geral, reservado a sorrisos largos e gargalhadas estridentes. A Cândida Pinto (volto a frisar que este nome deve ler-se com reverência e respeito extremo) é uma jornalista “sénior” como dizemos na redacção da SIC. Tem muitos anos “disto”. Com ela nunca troquei mais do que o cordial e educado bom dia, boa tarde ou boa noite. Não porque não quisesse falar mais, mas porque há colegas nesta casa que me merecem tal respeito pelo trajecto profissional que têm, que o embargo na voz me foi sempre emudecendo, e me impediu de ser capaz de a abordar com qualquer pergunta sobre tudo o que fez enquanto jornalista profissional.
Levei igualmente muito tempo para conseguir dirigir-me ao Rodrigo Guedes de Carvalho e à Clara de Sousa, à Ana Lourenço ou mesmo ao Mário Crespo que conheci ainda era eu um petiz de colo. Foi preciso outro tanto para não tratar com solenidade episcopal o José Manuel Mestre… e a Cândida Pinto (isso mesmo, reverência e respeito, já perceberam a lógica) faz parte desse mesmo lote. Mas para que não se pense que os húngaros agem de ânimo leve, importa recordar que este é um país traumatizado, que viveu 45 anos sob ocupação russa (com tudo o que isso implica). Não nos esqueçamos que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austrohúngaro, em Sarajevo, precipita o começo da Primeira Grande Guerra, com a invasão da Sérvia (outro dos países por onde passaram, a pé, todos estes recentes refugiados. A história a encarregar-se de nos surpreender com a sua fina ironia).

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Foto: Rogério Esteves

Não nos esqueçamos que o povo húngaro também tem um elevado historial de procura de refúgio e de asilo noutros países, de fuga em massa para escapar das garras poderosas da fome, do frio e do terror imposto pela URSS.
Dissolvido em 1918, o império austro-húngaro deu então origem à República democrática da Hungria (Lá está outra vez a fuga deliberada para a graçola, Martim).

Depois veio a ocupação russa e isso, isso, por si só, é coisinha para marcar toda a história e vida de uma nação.
Basta que olhemos para todos os países que fizeram parte da URSS e vejamos o que lhes sucedeu.
Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Moldávia, Ucrânia, Arménia, Azerbaijão, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. Tudo sítios onde é certo e sabido que a vida decorre debaixo da maior das liberdades, onde se é um ser livre para se ser, se pensar, se estar e se viver da forma que mais nos aprouver… isto enquanto não se chateia ninguém e não se “preenche” os requisitos mínimos para levar um baláziozinho nos miolos, se aquilo que quisermos e acharmos giro chatear quem não deve. Tirando isso. Tudo impecável.

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Veja-se então como vivem e pensam hoje a maioria dos habitantes destas nações independentes…

Apenas para que se olhe para a Hungria com olhos de ver, com olhos de realidade a quem os críticos, e todos aqueles que querem mandar pastar “esta gente” tanto apregoam, como sendo aquilo que nós, os que defendemos a vida “desta gente“, não somos capazes de ver; para que todos percebam a atitude que mantiveram e mantêm, os ataques aos refugiados e a Xenofobia (medo excessivo, descontrolado e desmedido em relação a pessoas estranhas, com as quais nós habitualmente não contactamos. Esta doença (sim, DOENÇA) insere-se no grupo das perturbações fóbicas…) evidente e despudorada, é preciso que se perceba que da boca do Primeiro-Ministro húngaro (que para nós é um “bolito” miniatura de pastelaria) é um senhor desses com laivos vários de ditador, hegemónico, disposto a tudo, que recentemente gastou cerca de 20 Milhões de Dólares para construir um estádio de futebol com capacidade para 4 mil lugares sentados, junto à sua casa de campo, para poder ver jogos com os amigos… parece-me tudo bem… esse mesmo senhor deixou sair pela cloaca as seguintes palavras: “É preciso manter a Europa cristã” e, meses antes, em Paris, naquela altura em que fomos todos Charlie, referiu também a necessidade de “travar o fluxo migratório não-cristão que se regista na Europa”. Robin-Hood do Cristianismo. Portanto, temos na Hungria um patriota acérrimo, que dá elevados sinais de corrupção activa e abuso de poder, e que já mandou erguer cartazes com mensagens no mínimo ameaçadoras para quem entra no país, e que se vê a ele mesmo como o salvador do Cristianismo Europeu. Tudo normal. Excepto uma coisa muito importante.
Deus não nos ensina a distinguir entre as cores da pele, meu caro Viktor! Os formatos das mãos, os decotes nas camisolas, ou aquilo com que escondemos o corpo não são, na palavra do Senhor, seja lá em que língua for, coisas retratadas e a ter em conta por todos os que O seguem. Isso é tão estúpido como dizer que quem se explode no meio de uma multidão e mata o maior número possível de pessoas tem 70 virgens à sua espera, num apregoado e idílico paraíso onde se pode beber boa pinga e enfardar fruta todo o dia, para além de passar a vida envolto na luxúria orgulhosa com tantas mulheres quantas aquelas que quiser ter. Deus ensina a amar caramba. Eu aprendi isto, com freiras, com padres, com catequistas, com bispos, com a Bíblia, com a minha família, com a minha mãe, com a minha avó e com os meus tios. Aprendi, isso sim, que Deus é Amor, ponto. No fundo é disso que se trata aqui, de A.M.O.R, como diz e bem o Pedro Abrunhosa.

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

Quanto ao Rogério e à Cândida, foram quase 20 dias, cerca de 5 mil quilómetros, 5 fronteiras na Europa Central, 2 fronteiras “protegidas” com muros de arame farpado, cargas policiais com direito a gás lacrimogéneo e pimenta nas fuças, canhões de água no corpinho (não fossem eles precisar de um banhito), com ordens dadas aos militares húngaros para que atirassem/disparassem de forma não letal sobre os migrantes… houve de tudo.
Mas houve a felicidade de familiares, colegas e amigos em saberem que, para eles, chegou por fim a hora de voltar a casa. De voltar ao… seu refúgio. Áquele que cada um de nós tem a sorte de ter.
Bye, bye Budapest, disseram na hora da partida, e bye, bye fronteiras armadas, muros erguidos para proteger os países de invasões por parte destes bárbaros de pele mais “tostada” pelo sol e de olhos enegrecidos pelo terror.
(leiam o artigo do NYTimes sobre o Primeiro-ministro húngaro que partilho no fim deste texto)
Hoje, a única coisa que quero é que levem as mãos às vossas consciências.
Os que concordam e os que discordam de tudo o que disse e repeti. Os que têm opinião e os que não têm. Os que se preocupam e os que se estão nas tintas para tudo isto e para os outros. Para as pessoas. Se vivem ou se morrem.
E a vocês, racistas, xenófobos, ignorantes, acéfalos, pequenos pedaços de vida sem sentido, até a vós eu vos pergunto meninos proto-arianos, digam-me o que fariam se tivessem nascido ali e não aqui. Porque corpo, corpo todos temos, lá por dentro é que tudo muda. Mas digam-me, preferiam morrer, a fugir, não era? Seus valentões! Claro que sim.
E preferiam ver toda a vossa família morrer, a fugir, não era? Claro que sim. Nem fuga nem rendição. Que quem se rende são os pretos, os monhés, os judeus, os chineses, os índios e essa “escumalha toda”. Mais nada!

Agora olhem para os vossos filhos já deitados na cama, para a vossa mulher a terminar de lhes arrumar a comida nas mochilas, para as fotografias dos vossos pais, amigos e familiares espalhadas pela sala, pelo corredor, pelo hall, pelo quarto e pensem… e se amanhã perdessem tudo isto e só vos restasse… fugir, de barco, de carro, a pé, de comboio, para salvar a minha família. O que faziam? O que faziam se as fronteiras da vossa fuga vos fossem fechadas na cara? Se toda a esperança vos fosse deliberadamente trancada a cadeado. Que tudo isto sirva, ao menos, para percebermos que é urgente voltar a pensar pela nossa própria cabeça. É urgente regressarmos à educação que tivemos, aos princípios básicos da vida humana em sociedade. A morte, o abandono, o nojo, o medo, a repulsa… não fazem parte desse lote de leis com que se deve pautar uma vida. Nem podem fazer. Nem ontem, nem hoje nem nunca. Seja qual for a cor da tua pele, o som da tua língua, a origem do teu povo, a bandeira do teu país, o teu hino, o teu pequeno-almoço, ou a roupa que vestes nos dias em que festejas seja lá o que for. Somos todos homens. Já fomos todos Charlies. E o que não vão chamar os nossos netos? A estes dois jornalistas eu agradeço porque graças a eles, hoje sei mais, sou maior, sou melhor. E devemos agradecer todos porque, mesmo estando ali para fazer o seu trabalho, para o qual são pagos no final de cada mês, são capazes de nos contar as histórias, sejam elas melhores ou piores, tenham elas um final mais ou menos feliz. Ser jornalista é isto mesmo, contar a história que não foi contada, mostrar as imagens que ainda não foram vistas. Obrigado Rogério e Cândida. (Estes dois nomes devem ler-se com respeito e reverência, apenas ao alcance dos que o merecem pela distinção nobre do trabalho que fazem e da vida que vivem)

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Foto: Cândida Pinto

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Co-Adopção – Tu tens pais e eu não! (Versão completa)

Co-Adopção – Tu tens pais e eu não! (Versão completa)

A co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo foi chumbada no Parlamento no dia 14 de Março deste 2014.
O documento previa a possibilidade de que um dos membros de um casal homossexual pudesse legalmente adoptar o filho do cônjuge (esta palavra não me entra…). Os deputados votaram artigo a artigo, mas a direita acabou por conseguir uma maior votação que a esquerda em cada um, o que levou a presidente da Assembleia da República a abdicar da votação final global. Assim, neste 14 de Março de 2014, Portugal escolheu ficar no minúsculo grupo dos que, na Europa, não garantem que as crianças (o ponto fulcral de toda esta historieta) que vivem com casais do mesmo sexo tenham os seus direitos garantidos e iguais às crianças que vivem com casais heterossexuais, ou ditos “normais”. Com a co-adopção pretende-se apenas garantir que uma criança criada por um casal gay não fica órfã, não é forçada a ir viver com os avós ou não é entregue por um tribunal a um lar caso o pai, ou a mãe biológicos morram. É apenas e tão somente isso que está em causa. Garantir que quem “cá fica” continue a cuidar da criança a quem chama filho.

Posto isto e porque sou formado em Educação de Infância, decidi fazer uma espécie de exercício criativo, onde me propus compreender, através dos olhos de uma criança institucionalizada, o que significam estas barreiras jurídicas que foram levantadas com o chumbo da co-adopção. Ora então aqui vai disto…

Sábado. 6h00 da manhã. O despertador toca. Toca sempre. Toca quer seja Sexta, Sábado, Domingo, ou outro dia qualquer. O pequeno-almoço, esse, é servido às 06h30, na mesma sala de sempre, de todos os dias, com os mesmos e as mesmas de todos os outros dias. Todos diferentes, todos iguais, todos eles ali vivem, porque não têm pais.
Todos eles têm de estar, impreterivelmente, a pé, às 06h25, em frente ao lugar onde comem todos os dias. Ao fim-de-semana, podem ficar de pijama, é a benesse dos dias sem escola. Tic-tac, tic-tac. 06h25! Contagem matinal da “prisão” em que vivem. Já houve quem fugisse (ai a fuga do Marcos…) e quem simplesmente não aparecesse, porque tinha adormecido noutro sítio qualquer com uma companhia qualquer.
O João tem 7 anos. Já está um homenzinho. Como se espera de toda a criança de 7 anos, anda na escola, pois claro. Numa escola pública. Ele, a Jéssica, a Maria, o Edi e a Marta. Todos eles vivem desde sempre, ou quase sempre, num Abrigo para Crianças, no centro do país (o nome não interessa para nada, não é sequer relevante). É um antigo palacete. Os últimos mil e duzentos metros fazem-se por um caminho empoeirado e ladeado por muretes de vegetação bem cuidada e emproada. À esquerda, do caminho, claro está, fica um pequeno e amedrontado lago, que parece chorar de infelicidade na passagem de cada pequenino barco, que, com os remos, lhe faz festas no pêlo, ou de cada vez que uma criança lhe atira uma pedra, na infindável esperança que a mesma lhe volte à mão que a arremessou.
De volta ao palacete que bem merece a visita. É grande, é enorme e muito, mas mesmo muito, bonito e superiormente bem cuidado. Está impecavelmente vestido num amarelo-torrado de veraneio, mas um torrado leve, não muito berrante, assim a atirar para o amarelo-torrado com amarelo-limão, dá para perceber? De mangas largas e folhos empertigados e brancos, à volta das janelas sorridentes à sorte dos tempos. Tem portadas verdes, pois claro, como o verde das árvores que o rodeiam e circundam e lhe trazem a luz do sol num rendilhado quentinho das manhãs de final de Primavera, quando já está aquele calor abafado, aquele bafo com som de mar, sabor de praia e cheiro de Verão. Depois tem uma entrada simples e convidativa, amistosa, serena como serenas são as linhas dos espaçosos degraus cinzentos e engalanados, que conduzem à porta de vidro por onde se entra no casarão. Porta essa que se deixa adornar e amavelmente empresta espaço às madeiras, pintadas de branco, que oferecem à porta suas pequeninas quadrículas de janela. Uma maçaneta dourada, uma campainha que se propaga pelos campos e montes e vales em redor e uma entrada impecavelmente florada… Não falta mais nada. Até o canteiro cheio de rosas rosadas e outras tantas encarnadas, brancas e amareladas, todas tão lindas, tão demasiadamente bonitas, como se às flores não se lhes fosse conhecido qualquer limite para a sua beleza e excentricidade, que roçam, não poucas vezes, a conjugação perfeita de balanços e equilíbrios. Que casa bem pintada, logo se pensa, quando se estaca de pronto na porta de entrada. Ao menos está bem maquilhada…
Tem um imenso manto verde bem cuidado e protegido, que lhe serve de tapete e que lhe dá a volta, dando voltas e voltas à volta daquela casa tão grande, tão forte. Árvores. Tem muitas. Tem várias. Altas, densas, ramadas, bonitas. Pouco se vê de fora, de longe então, é uma cegueira absoluta.
Com baloiços pendurados, pneus velhos sustentados por cordas fortes e entroncadas, pássaros que por ali assistem ao raiar de mais um dia que se prevê mexido como o são os Sábados naquela casa aburguesada que “guarda” uma das mais tristes realidades que pode tentar “guardar” na vida humana. A orfandade.
[Final da 1ª parte]

Com 23 crianças, entre os 2 e os 18 anos, esta é uma família enorme, fora do comum, em todas as variáveis possíveis, mas, sobretudo, em variáveis intermináveis. O João é o mais crescido. Já começa a perceber as coisas. É atento. Muito. Lê que se farta e não se farta de ouvir. Ouve com atenção as coisas que dizem os senhores da televisão. Está num abrigo. Há 5 anos. Uma vida para quem tem sete. Era pequeno demais, quando aqui chegou. Continua a ser pequeno demais para aqui estar. Às vezes, cansa-me e entristece-me que assim seja, que aqui estejam, que ninguém os pegue e os leve para uma casa de verdade, com uma família que os ame como se ama um filho, como tem de se amar um filho.
A escola é para o João uma “bênção”, mas, ao mesmo tempo, a mais bruta e cruel das confrontações a que se sujeita dia após dia. A escola é pública e o João está no seu 2º ano. Não precisa de apoio escolar, ou de falar seja com quem for, porque é esperto, perspicaz e vivo. Sabe que é diferente. Já percebeu que é diferente e, sobretudo, já entendeu perfeitamente qual é a diferença que o distingue dos outros. A diferença está nos olhos. Não nos dele. Nos olhos dos meninos que vão para casa com os pais, ou com as mães. Nos olhos dos avós. Não todos, mas muitos. Nem todos vão com os pais. Às vezes, quando não está a chover, o avô do Pedro traz a cadela, a Maguie, para brincar com os meninos, que depressa se esquecem da bola de futebol, abandonando-a ali, atordoada de tanto pontapé que esteve prodigiosamente a suportar ao longo dos últimos 20 minutos, e deixando-a escorregar lânguida para a sargeta entupida de folhas que o Inverno obrigou a rastejar pelo pátio da escola.
(De volta ao pequeno almoço do moço) O pão não sabe assim tão bem ao Sábado. Apetecia-lhe sabe lá ele o quê… talvez uma taça de cereais, ou os croissants de que fala a “sua” Teresinha, com doce de morango e sumo de laranja, feito mesmo das laranjas, numa máquina que tira o sumo de dentro das laranjas. “Caraças, quem me dera beber um sumo desses! Será que a Irmã Natércia tem laranjas cá em casa? A Teresinha diz que bebe aquele sumo de manhã, porque a mãe diz que tem vitaminas e dá energia. Também quero ter energia. Estou sempre cheio de sono. Pudera, a acordar à hora a que tu acordas.”
– Irmã Natércia!
– Sim, João – diz a responsável pela casa sem sequer tirar os olhos do feijão-verde que descasca impiedosamente há quase 2 horas. Tem de fazer a sopa para o almoço daquele regimento de Infantaria. Se eles acordam às 6:00, ela muito provavelmente, ou não se deita, ou acorda às três ou quatro da madrugada.
– Posso beber sumo de laranjas?
– Desculpa? – Pergunta ela admirada com a natureza da pergunta que lhe chega ao ouvido já meio surdo dos anos.
– Se posso beber um copo de sumo de laranjas. A Teresinha diz que tem vitaminas e dá energia. Posso? Vá lá…
– Que raio de ideia João, já viste se me ponho a fazer sumo de laranja para ti e os outros meninos todos também querem. Sabes quantas laranjas tenho de arranjar, para fazer sumo para vinte e três pessoas? Faz as contas João, faz as contas! Que ideia! Volta para a mesa, que te arrefece o leite e depois vem cá dizer-me que não queres o leite, porque está frio, que eu logo te digo.
Meia volta nos calcanhares, cabeça erguida e testa franzida. Ele vai arranjar alguma forma de beber um copo de sumo de laranja esta semana, dê lá por onde der. Nem que tenha de as espremer ele mesmo. Subitamente sente-se triste, sozinho. Quer estar sozinho. Olha para as outras mesas, para os outros copos de leite, para as caras de sono até à alma, as caras de todos os dias, dos amigos, dos companheiros, da tribo de meninos que não têm pais, que aqui e ali vão perdendo a esperança. Mas hoje é Sábado. Dia de visitas.
Roupas catitas, banhos tomados, perfumes e desodorizantes emprestados e partilhados, numa lufada de aromas misturados que se propaga pela casa, que voa e sobrevoa todos os metros quadrados daquela manhã de Inverno, no centro do país. Muitos deles não têm idade para perceber a importância daquele dia. Com 3, 4 e 5 anos, uma criança não percebe que vai conhecer adultos que talvez consigam levá-la para as suas casas. Adultos, um homem e uma mulher. Às vezes vem só um deles, o outro tem vergonha e fica escondido. Não é nada fácil enfrentar o olhar puro de uma criança pela primeira vez e não deve ser nada fácil enfrentar pela primeira vez o olhar puro de uma criança a quem se vai chamar filho. Para sempre, se tudo correr bem. No meio de tudo isto, ficou ali o João. A pensar. Nas laranjas. Na Teresinha. Nos pais da Teresinha.
Entra o primeiro casal e o João nem se vira. Nem se mexe. Está ali como que petrificado a lembrar-se da conversa que teve com a melhor amiga, dois dias antes. Ela disse-lhe que era “segredo João. Daqueles que não podes contar a ninguém”. A mãe casou com outra mulher e o João ri, sorri. A Teresinha gosta mesmo muito dela. É como se tivesse duas mães, mas elas dizem que agora aqueles senhores do Governo, os que mandam em tudo, não deixam que a outra mãe dela, também possa ser mãe, porque não é um homem (mas um homem não pode ser mãe? E uma mãe pode ser pai?). Então, se acontecer alguma coisa à mãe da Teresinha, a outra senhora que também é mãe, não pode cuidar dela e a Teresinha vem para um Abrigo como este!?
E as laranjas. Onde vai ele arranjar as laranjas? Como vai ele ajudar a Teresinha? Será que algum dia ele vai ter pais também? Porque é que a outra mãe da Teresinha não há-de poder chamar-lhe filha? Que parvoíce. Que estupidez. Se acontece um acidente daqueles em que o carro fica de pernas para o ar, a deitar fumo, a Teresinha fica sozinha, como eu? Porque é que os senhores do Governo e da Assembleia da República não gostam da outra mãe da Teresinha? Porque é que não me deixam ter uma família? Só de pais, ou só de mães, quero lá saber. Só quero uma família. É mais do que tenho agora. Ninguém quer saber se tenho frio, se tenho sono, se tenho fome, se tenho boas notas, se quero sumo de laranja. Quero ter um quarto para mim. Com o meu nome na porta. Quero ter tudo assim como tem a Teresinha. Como têm as crianças felizes. Até nos livros das histórias há sempre famílias. Porque é que eu não posso ter uma? Porquê?
[Fim da Segunda Parte]

11h30 e entram em casa dois homens, simpáticos, de mão dada e trazem um menino, também pela mão. A irmã Natércia faz uma cara estranha, mas acaba por sorrir ao fim de uns segundos. Eles chegam junto de mim e um deles, o mais alto, agacha-se à altura dos olhos do João e pergunta-lhe:
– Como te chamas?
– João. E tu?
– Pedro e este é Afonso (puxando a mão do pequenote que viera com eles). Afonso cumprimenta o João, diz olá.
Aperto de mão para aqui e para ali, logo o João trata de pôr o Afonso à vontade, que lhe pede para ir ver o seu quarto. O João hesita. Não tem um quarto dele. Com os seus próprios brinquedos e gavetas cheias da sua própria roupa. Tem antes um armário com uma prateleira identificada com o seu nome e uma cama decorada com a mesma intenção. Os olhos colam-se ao chão. Os nervos são muitos. O João começa a ficar ansioso com tanta visita. Está farto. Cansado. Só quer uma família e não percebe porque continua a ficar ali. Todos os Sábados. Gostou muito de conhecer o Pedro e o Afonso. Sente que eles podiam ser o seu pai e o seu irmão. Que as suas tardes podiam ser todas elas com aquelas duas personagens e com o Manel que está a falar há mais de meia hora com a irmã Natércia. E com a Teresinha claro. Acaba a hora da visita e aproxima-se a hora de virarem costas uns aos outros e de sonharem todos com o mesmo na noite que se aproxima a passos largos. Está calor.
– João. Vamos tentar cá passar no próximo fim de semana.
– Está bem… Já vi este filme. Agora não botam cá os pés. Nunca mais nesta vida.
A noite não corre bem. O João faz xixi na cama. O Afonso também. O João tem pesadelos horríveis. Com um incêndio na casa. Todos morrem e ele fica ainda mais sozinho na vida inteira que tem pela frente. 7 anos não são nada. Acorda a chorar convulsivamente e, a alguns quilómetros dali, a mesma coisa acontece com o Afonso e o Pedro e o Manel… Estão estranhamente ligados.
– Ele tem de vir cá para casa. Não pode ser de outra maneira. Ele vem. Ponto final. Abraçam-se, aninham-se e a voltam a adormecer. O Afonso saltou para a cama deles entretanto. No entanto, há aqui um espanto. O Pedro e o Manel têm direitos distintos. O Pedro é o pai. O Manel, o companheiro. A mãe do Afonso morreu sem deixar qualquer família. O Manel só quer perfilhar, co-adoptar o Afonso. Portugal não deixa.
Na semana seguinte, fica tudo tratado. O João tem o quarto preparado. Roupas novas. Mobília moderna. Livros. Amor. A cama do Afonso ali por perto. Passam a ser irmãos. Passam a ser quatro. A felicidade invade-os, como nos invadem os olhos as cores da Primavera e o calor fresco do Verão. No fim-de-semana seguinte, eles lá estão. Prontinhos para adoptarem o João. Ele, ali está, malas na mão. Roupita lavada. Vida arrumada e olhos arregalados no futuro. Será melhor? Será o que tiver de ser, mas será qualquer coisa, em família. Um adeus emocionado a todos que aqui me vou.
– ADEUS!!
Aos que ficam renova-se a esperança de ainda conseguirem ser felizes na infância que se quer sempre assim, feliz. De serem felizes no tempo em que tem de imperar a felicidade e não a ausência de tudo e alguma coisa. No tempo em que é deles o mundo e nos cabe a nós, adultos, esses seres tão iluminados e sábios, tornarmos a sua vida melhor, em todas as formas possíveis.

Não quero, de modo algum, menosprezar tudo o que é feito num abrigo, num Lar, ou numa Casa, mas todos percebemos que esses são espaços propositadamente criados como soluções, medidas para evitar que a situação seja ainda mais dramática, triste, injusta e imerecida. Criança nenhuma devia passar por tudo o que passa aquela que cresce sem pais. Sem uma família que não aquela que lhe “conseguiram arranjar”, quando a salvaram da desgraça do abandono, ou da orfandade. A normalidade, essa, há muito que se diluiu. Quem tem afinal o direito de decidir sobre algo desta dimensão? Podia ser assim, não podia? Mas não é. Não é e não vai ser. O meu país continua a não querer. Apresenta-se agora como o país que vetou a co-adopção. Talvez se orgulhe, como se orgulham o Ruanda, a Somália, a Etiópia e aqui mais perto, a Rússia, a Roménia e a Ucrânia, tudo excelentes exemplos daquilo que é o fenomenal funcionamento da democracia e do reconhecimento dos Direitos Humanos. Portugal volta a estar na vanguarda do humanismo.
No meio de tudo isto existe uma incongruência que não entendo: Porque é que os casais homossexuais podem casar, mas não podem co-adoptar, ou adoptar, ou ter uma vida com direitos conjugais iguais/idênticos aos do restante rebanho heterossexual? (esse sim, o rebanho de ovelhinhas brancas…) Se tudo muda e evolui, porque razão se insiste na incoerência de permitir mas só até certo ponto? Para além desta incongruência, está ainda a natureza da minha estupefacção. Porque é que nenhum destes senhores iluminados e cheios de poder, nenhum destes senhores a quem o “sistema” confere a magnânima posição de decisão e, sobretudo, o poder de legislar e decidir “como vai ser”, um lugar na mesa de Deus que lhes permite decidir a vida de tanta gente, porque é que nenhum deles se preocupa com o que deveria verdadeiramente importar num assunto que não devia sequer ter direito a discussão pública: o superior interesse das crianças! Como se pode chumbar algo assim? Não será esta mais uma forma de assinalar e acentuar a diferença? Como pode ser possível que se permita que uma criança se possa manter órfã de pai/mãe, pelo capricho ideológico de manter o “provincianismo de origem contrária à canhota”?
Não era dos adultos que se falava e se tratava, mas sim de possibilidades oferecidas a estas crianças, em particular. No entanto, esta “Gente” acha sempre que sabe tudo, que eles, sim, sabem o que é a vida e como e em que moldes ela deve e tem de ser vivida. Depois, vejo autênticas barbáries escritas por mais gente que tem o poder de escrever para o público, em sítios de leitura massificada, gente essa que, enfim… Perdoai-lhes Senhor, que eles não sabem o que fazem…!
Talvez um dia consigamos perceber que os pés não são para dar tiros e que adopção e co-adopção não são temas para discussão em praça pública. Estamos a discutir o destino de muitas pessoas. Não é o presente, é o futuro. Estas crianças ficam marcadas a sangue. Para o espaço público devem ficar reservados temas que merecem verdadeiramente a opinião de toda a Nação. O BPN, o BPP, as PPP, os submarinos, as obras públicas, os estaleiros, os aeroportos, os estádios, a corrupção, a fraude, as multas dos milionários que prescrevem e os velhotes condenados por roubo de pão, não a vida das crianças e das suas famílias, ou da possibilidade de virem a ter uma família. Sobretudo, não pode ser esta lógica subvertida a decidir todo o curso de uma vida, porque quem o decide e determina, acreditem que sim, está a fazê-lo de forma totalmente irreversível.