A incomparável arrogância da morte

A incomparável arrogância da morte

Tinha umas mãos que impressionavam pela história que tinham e que contavam quando se mexiam. A morte encarregou-se de, arrogantemente, as levar e as impedir de fazer o que quer que fosse. E como é arrogante a morte quando decide seguir a sua vontade sem olhar a meios ou a fins. Sendo tudo justificável em nome do seu superior desígnio.

E aquelas mãos que nunca morreram. Independentes. Seguras. Decididas. Firmes. Mãos que sabiam o que faziam. Mãos que não tremiam. Mãos que escreviam. Criavam. Contavam. Estudavam. Aprofundavam e conheciam bem os desígnios do seu dono.

Depois, às mãos, acompanhavam-no os olhos, a capela, e regra geral apresentavam-se se igualmente seguros de toda a sua existência.

Olhos que marejavam e raramente choravam. Olhos que nos penetravam o olhar e nos iam remexer nos cantos mais recônditos do pensar.

Era um sem fim de conversas sérias. De histórias da imensidão de uma vida pintada de fresco pela vontade furiosa de contrariar a sorte que o destino lhe parecia querer impor. Assim fez. Assim lutou toda uma vida contra aquilo que a vida lhe queria dar como vida. Viveu. Fez viver. Teve 10 filhos. Viu morrer dois. E fez. Se fez.
Fez e hoje, hoje fazia 91 anos. E eu faria o telefonema habitual.

Olá, avô. Como está? É o Martim. Sim. Era só para lhe deixar um grande beijinho de parabéns e desejar um resto de dia muito bom.

Não era preciso mais do que isto. Chegava perfeitamente.

Mário.

Assim se chamava este “enorme” ser humano que continua a povoar a minha mente de recordações e exemplos que ele nunca sonhou ser.

Parabéns, avô. Muitos parabéns.

Não se foge à morte de sapatilhas e cordões por apertar.

Não se foge à vida de mãos dadas com o rancor.

O espaço que o amor ocupa na nossa existência é tantas vezes descurado e ignorado, quando devia ser dele o Espaço todo.

A morte encarrega-se de nos mostrar que a vida tem fim mas que o amor, esse, esse pode durar para sempre.

SAUDADE, saudade… digo eu!

E foi mesmo assim como tinha de ser.
Agora? Recordo.
Recordo-me das manhãs, das tardes e do final dos dias.
Recordo-me do acordar, do deitar e das noites frias.
Recordo-me dos passeios.
Eu do lado de fora, junto à estrada, tu do lado de dentro junto ao que de mais próximo por lá houvesse. Porquê?
Porque é mesmo assim quando tem de ser.
Porque era a minha maneira simples de te proteger.
Se o carro viesse, acertava em mim primeiro, lembras-te?
Digo-te isto assim baixinho, falando com jeitinho, sabendo que não ouves já tão bem, que o som te soa distante e se torna mesmo incompreensível, aí, viras a cabeça para perto dos sons mais perto.
Não te censuro, é mais… perto e real, não é?
Gosto de te lembrar. Sabe bem no pensamento, traz aos olhos um sorriso de menino, ou um esgar de traquinice.
São as noites o meu capuz, nelas se protegem as saudades do que agora é disperso e distante, nelas se libertam as memórias de um passado fresco com cheiro de primavera.
As relações entre homens e mulheres são, certamente, um dos pontos mais altos da vida humana.
Dividir a vida com alguém, toda a vida, é algo de uma nobreza e coragem tremendas.
É TUDO, sempre, durante, ao longo de, e é assim que tem de ser.
Só assim se pode almejar o alcance difícil e complicado da felicidade plena, e mesmo esta, está dividida por camadas invisivelmente delimitadas, com fronteiras não especificadas e que são facilmente confundidas por estados de alma que têm tanto de sedutores como de enganadores.
É, no entanto, uma experiência e tanto, uma daquelas que certamente vamos querer contar aos netos, se um dias os chegarmos a ter.
O HOMEM É LEMBRANÇA!
É uma das mais belas palavras que a língua portuguesa um dia gerou.
Uma palavra que tem tanto de bela e poderosa, como tem também a capacidade de nos transportar para imagens que trazem ALEGRIA aos olhos e à boca, boca essa que sorri desavergonhadamente.
SAUDADE! SAUDADE, digo eu!
Soa tão bem ao ouvido, aos olhos, (isto considerando a enormidade de vezes que a palavra saudade é utilizada por vias não orais) à boca, a todos os músculos e sensores do corpo que são activados pela romanesca, positiva e explosiva sensação que afoga o cérebro em prazeres imagéticos e sensoriais, automaticamente retribuídos em doses industriais de Adrenalina!
Somos matéria, órgãos, sensores, conexões, ligações, sinapses nervosas, lembranças, sonhos, desejos, instintos, alegrias, tristezas, ilusões, fantasias, desilusões, sofrimento, regeneração e reinvenção.
Somos tudo o que dizemos, o que fazemos, o que comemos, o que amamos e detestamos, o que acertamos e erramos, o que perdemos e o que ganhamos.
Quem sou eu hoje afinal?
Onde me deixei que agora de repente não estou a ver?!
Onde me posso eu ter separado de mim?!
Se usasses a cabeça para te situares e não para escrever parvoíces…
E tu?
Quando é que deixaste de me ver?
Onde me deixaste tu também?
“Parto rumo à primavera…” (Obrigado Manuel Cruz, ex-Ornatos Violeta) e caminho em direcção a sei lá o quê, na mesma rua do… “lá para a frente. Olha o que tiver de ser, será, e o que é teu às tuas mãos virá para…”.
E é assim que se vai.
Dormias sempre pertinho e com frio, tapada até aos cabelinhos que aos meus olhos brilhavam no breu da noite.
Sabes do que sinto falta? De te fazer sorrir só de olhar… para ti!
Agora, recordo!
Recordar é sorrir e é também, perdoem-me a ousadia, sinal de consciência tranquila.
Mais não sei, e mais não sabia.
O conhecimento vem depois, vem sempre depois.
E tudo isto se passa à noite, debaixo do capuz que protege a saudade.
Tudo se passa de noite, depois do postulado de libertinagem que a mente me concede, uma espécie de biscoito com que se treinam e premeiam os canídeos.
A noite é sempre bela e hoje também serena.
Porque não há-de ter interesse a versão do viajante do caminho longo e sinuoso da mágoa e da derrota, do desalento e da incredulidade, tempo durante o qual o tempo parece pesar tanto quanto a ponte que une as duas margens da cidade, carregada com as vidas de todos os que a atravessam.
Porque não?
É um tempo triste, tão triste quanto a dimensão do que se perde na estrada de um tempo que não capta o que deve, no tempo em que devia, fica perdido e não sabe como regressar, não sabe o caminho de volta mas percebe o tempo a esgotar.
Está perdido e não avança, saltita, qual folha que da árvore que se solta e acaba a brincadeira no chão.
Da vida pouco se sabe até se viver.
Ouves aqui e ali e só as lembras (lá está, sempre a memória) quando as compreendes na totalidade, geralmente num pós qualquer merda, que também não interessa.
A vida de quem nos rodeia não ajuda mesmo quando tenta.
O que é teu para ti está guardado, podes preparar os ouvidos, mas nem mesmo esses te vão servir se os teus olhos não quiserem ver.
Por isso, recordo.
Agora recordo, e aos olhos, faço o que me apetecer!