Vês com os olhos que trazes!

Os dias contam-se, as noites também, as semanas são ligeiramente mais irregulares e difíceis de contabilizar. Já os meses, esses, voltam ao princípio aplicado aos dias e às noites, às tardes e ao fim das mesmas, às manhãs e às madrugadas, cabeças tapadas e as surdas gargalhadas de cristal.
Quem não conta, mente!
O quantificável permanece tangível, alcançável por entre os dedos saudosos e os lábios secos, gretados, gelados, implorando desesperadamente por uma abençoada salvação…
Levantam.se os olhos para o céu numa cadência nervosa e arisca, pensa-se e repensa-se, procura-se algo mais, encontram-se novidades em cada esquina, o cérebro não pára, não pode, não deve, não QUER!
Parar para quê? Fazer o quê mais que o impossível já tantas vezes feito?
Onde nos leva a cegueira?
Ás palmas das mãos. Nuas, frias, mas de uma genialidade sensorial e comunicacional a todos os títulos notável. Tudo depende das mãos nos dias que correm por nós.
Passamos os dias em comunicações surdas, com a única ferramenta ao nosso dispor que permite estabelecer uma conversa.
Não será por certo o resultado da mais frutuosa inspiração, mas quem não consegue de facto falar, os mudos, comunicam gestualmente, utilizando as mãos.
Ora o ser humano do século XXI utiliza o mesmo rigoroso princípio.
Escreve no computador, no Iphone, no Ipad, no BlackBerry, no telefone, whatever, mas conversa com a boca fechada, sentado, deitado, a conduzir, na santia, a andar, a trabalhar, de folga, seja lá onde for.
Portanto o cérebro não pára um instante e nós não damos a cara e escondemos-nos atrás das mãos, dizendo dessa forma tudo aquilo que as nossas próprias mãos tiverem a assumida coragem de dizer.
Se falamos tanto assim, mas sem falar de todo, sobra tempo para se pensar em mais e mais e mais e mais e ontem…
Ninguém lê em voz alta!
O coração, esse, ainda salta!
De quando em vez acorda-se como quem dorme, entorna-se o copo de água, dizes “Merda” e soltas uma daquelas respirações vindas das profundezas de tudo o que em ti existe e de tudo aquilo em que pensavas no teu sono profundo e perturbado, pensas, “porque estou agora acordado?”.
Mais tarde queres acreditar que foste acordado(a), para seres poupado(a).
Já basta o dano por si só causado…
E ao cérebro, perguntas se está cansado?
Não pode, não tem sequer esse direito se eu tenho de viver, ele tem de trabalhar, agora, mais ainda, horas extra sobre outro extra de horas por contar, nas folgas, nas foras e nas noites e nos dias, não há descanso, em absolutamente nenhum destes dias.
Porquê? Porque não podes parar, não podes descansar.
Deus-te deu-te a capacidade de pensares, de lutares, racionalizares as coisas da forma que melhor, ou não, te aprouver, para que assim de pudesses diferenciar dos demais quadrúpedes e bichos (alguns bem mais feio do que qualquer um de vocês) que se passeiam pela Terra.
Se nos foi dada tamanha veleidade, porque não pensar em usá-la?
Ninguém descansa, ninguém pára, porque parar é ficar lá, é ir também, uma espécie de prisão auto-imputada. Com que fim? Com que lógica o ser humano se prende a coisas quantificáveis  e se embebeda com todas as memórias com que se consegue enfrascar, nos bilhetes, fotografias, músicas, ruas, pores-do-sol, estradas, músicas em estradas, de mãos dadas, as caras transpiradas, conversas inacabadas, estridentes gargalhadas, as conversas terminadas, as viagens, os sorrisos das viagens, as conversas e memórias, das memórias das viagens. Para quê tanta coragem?
Está já ali a outra margem. Sim, quando entras é frio ao início, mas depois, fica mais fácil.
Acredita em mim.
Eu já consigo acreditar… E falo comigo para me mentalizar, e penso, muito, muito mais do que alguma vez pensei.
Viver sozinho tem esse traço tão característico.
Quando sais de tudo o que és, dos papéis que desempenhas e representas, nos círculos por onde te movimentas, voltas par aonde estás só, para o sítio que é teu, que és tu com móveis e cadeiras, sozinho, de manhã, de tarde ou mesmo à noite.
E assim cresces, só, tu!
E se assim é, é porque é assim que tem de ser.
Não contraries as vontades do tempo, contraria as tuas e segues-as, percebes a complexidade da ideia? Eu sei que sim.
Escolhas.
Tudo são escolhas. Vais, não vais. Levantas-te, ficas deitado, falas ou ficas calado, escreves ou ficas parado.
Cada escolha tem o seu tempo próprio e apropriado.
Deixa-o estar, deixa-o passar, passa por ele e sobretudo aprende a deixá-lo passar por ti…
Mais do que tempo, somes o fruto mais puro e fresco do próprio pensamento.
Vamos, somos, fazemos, escrevemos, dizemos, tudo aquilo que queremos e pensamos que podemos…
Aprendemos, ou pensamos que o fazemos e não sabemos e lá vamos vendo o mundo, cada dia numa forma, observando o que cresce em teu redor, verás que o amanhã pode sempre ser melhor, ou pior.
Sente quem és, reconhece quem no espelho encontras, fala-lhe e relembra-lhe quem tem pela frente, não só na feliz felicidade se ter a oportunidade de olhar a vida, com os olhos de quem tudo sente.
Uma coisa te garanto, há nesta vida, nesta, por vezes, estranha forma de vida, quem nunca a olhe frente e permaneça indiferente ao que diz o seu pensar…
Escreves com os olhos que hoje trazes… e deles o que vês e o que deles fazes.
Neste mundo, nem tudo são bons rapazes…

Este sou eu… Madalena!

No decorrer dos dias que passam…
Não.
Não posso começar isto assim.
No passar dos dias que correm…
Bem melhor agora.
No passar dos dias que correm e passam por nós como se de torpedos se tratassem, é cada vez mais certa a certeza de que actualmente se conversa muito, mas fala-se pouco.
As conversas são tantas vezes inócuas, inconclusivas, insípidas, insólidas, ilíquidas, incorrectas, disparatadas, vazias, fechadas, estúpidas e desconexas.
Conversa-se sobre tudo, mas não se fala sobre nada.
Diz-se tanta coisa, mas tanta coisa fica por dizer, é deixada por dizer, propositadamente com o despropósito de esconder, não revelar, proteger uma qualquer estúpida ideia de privacidade, de “só a mim me diz respeito”, “ninguém tem nada a ver com isso”, e para quê?
Com que finalidade?
Com que propósito viramos costas à significância da palavra, do desabafo, do aconselhamento, do simples partilhar, com vista a um secretismo secular de igreja, que na verdade a única que coisa que faz é isolar, segregar, magoar, e tantas outras anormalidades terminadas em AR.
Somos animais de partilha.
Partilhamos comida, dinheiro, roupa, pensamentos, ideias, personalidades, desejos, interesses e até esses, são mantidos na escuridão.
De que temos afinal medo?
O que receamos ao certo, para, a céu aberto, nos embrenharmos no mais puro deserto de companhia, pelo mais pantanoso lodo de solidão.
Voltando a Madalena.
Voltando a Madalena, tanto se acrescenta ao pensamento que alimenta.
Os dias também passam por ela a correr, também tem conversas em que não fala, mas vive e olha a vida de uma forma atrevida.
Madalena sorri ao acordar, portanto, uma autêntica anormal dirão muitos, mas eu digo que ela sim, a Madalena vive, sonha e acorda feliz, simplesmente porque acordou, porque abriu novamente os olhos e lá fora o sol já aquece novamente, os livros cantam o seu nome em letras de surdina orquestrada e dele não sabe ela mais nada?
Soube.
Soube que se chama Francisco. Que mora na rua paralela à da casa onde trabalha.
Que escreve, ri e conta com uma alegria infantil.
Atenção, quando lhe atribuo essa mesma, alegria infantil, não o faço com o sentido depreciativo que o fazem os tristes que não falam.
Faço-o porque poucas coisas se comparam à alegria virtuosa de uma criança feliz.
Ao sorriso entregue e puro nos olhos de um petiz.
E quem discorda, é tolo ou não sabe o que diz.
Madalena e Francisco falam, conversam, sorriem como duas crianças, observados de perto por cachos de bananas, molhos de agriões, montanhas de laranjas, maçãs e limões, com o tempo contado, mas todo ele tão bem aproveitado, tão dedicado, como um namoro confirmado, que brilha em qualquer lado, sem medo do passado, com o futuro pela frente, sem pensar nele constantemente, assim vivem no presente.
Para quê pensar em mais, enquanto não é tempo de o fazer?
Para quê estragar tudo, com desejos impossíveis, vontades impostas e sonhos delirantes?
Para quê acabar o que pode estar somente a começar?
Para quê conversar sem sequer falar?
Para quando o compromisso para com a verdade, não a dos outros, mas a nossa própria verdade, escavada daquilo a que chamamos de realidade.
– Está na hora Madalena, tens de voltar para cima, diz Francisco com os olhos meio molhados e pensativos de quem se vai ver afastado de tudo o que de maior e melhor tem na vida.
Madalena pestaneja vagarosamente, como vagarosos e revoltados são os passos que dá rua acima, em direcção ao dever, afastando-se do querer, porque é assim que tem de ser.
Por estes dias, Madalena cresceu, amadureceu e tornou-se uma mulher linda, de mãos suaves e pequeninas, dedos finos e desenhados, que com os de Francisco entrelaçados, criam um tricô de felicidade e pureza.
É amor pois com certeza.
Aos 23 anos, Madalena brilha, como nunca antes brilhou, ama, como nunca sonhou, lembra o que para trás já ficou, e sabe que a felicidade chegou.
Francisco espera diariamente pela Deusa que vê descer a rua, brilha num tom que está entre o sol e a lua, olha-a como se a visse a cada dia pela primeira vez, uma e outra vez, sofre com a partida, leva horas a recompor-se, não come se ela não aparece, não adormece sem lhe falar.
Francisco e Madalena sabem bem o que é amar.
Se para sempre é medida tempo, eles não o querem contar.
Dizem: “Que o para sempre seja o tempo, do tempo que o para sempre durar!”
E dizem-no tantas, vezes, muitas delas, falando tão somente com o olhar.
Tem o sonho de casar. De branco, de véu, tem o sonho de ter sonhos que não deixam de a encantar, ver Francisco à sua espera no altar, e esse dia, irá chegar?
Francisco adivinha o seu pensar.
De anéis percebe pouco, precisa de quem o possa orientar.
De sua mãe, Madalena ouve os conselhos preocupados, de quem vê a filha e o namorado, num bairro bem falado, de orgulhos e maledicências.
Para a Madalena só a verdade e não há consequências.
Francisco pede ajuda, mas não sabe nem sequer por onde começar?
De uma coisa tem ele a certeza.
É Madalena.
A pequena está na biblioteca.
Devora livros sem parar.
Tudo graças a Francisco e a todo o seu “maroto” cortejar. 
Se na vida há mais que isto, onde está então escondido, onde se deve procurar?
Dizem que o amor é um livro.
Quantas páginas pode ter?
De que género deve ser?
Em que língua se deve ler?
O amor é lindo em português.
Francisco vai pedir, mas não sabe bem como…
Começa a conversa dizendo…
– Este sou eu Madalena… Sou assim como tu sabes que sou.
– E eu que gosto tanto… desse, deste que tu és Kiko.
Ele diz tudo o resto ao ouvido.
Ela fecha os olhos. Arrepios. Acenos com a cabeça, sorrisos, olhos esbugalhados… olhar já encharcado e estende os abraços para o abraçar.
Um abraço é um beijo desenhado.



 

 
 

LER, mas o quê?

Ontem, em conversa com um amigo meu, tive a magnífica e egocêntrica supresa de saber, que ó único material escrito com o qual ele contacta, ou melhor, e vamos lá a ser exactos ao falar deste tipo de informação, o único material escrito que ele procura na WEB, são os textos humildemente publicados neste espaço de ignorância e eloquência, em que me atrevo a escrever, com a legítima esperança de ser lido.
Ora, se encontro alguém que me diz, que a única informação escrita que procura na net são os meus textos, obviamente que tenho de sentir um contentamento ligeiro, por ter, pelo menos, um fiel seguidor.
Também sinto uma enorme responsabilidade por saber agora, que tenho um fiel seguidor, que pode também transformar-se rapidamente num fiel inquisdor, ou num fiel crítico daquilo que irresponsavelmente me atrevo a escrever.
Se no meio de tantos milhares de páginas, blogs, motores de busca, posts e por aí fora, ele decide e elege o MEU BLOG, como espaço predilecto, para se distraír e acima de tudo, e o mais importante, se me elege como ponto de interesse, ao qual está disposto a “desperdiçar” o seu precioso tempo, a irresponsabilidade textual terá de dar lugar a uma responsabilização pessoal e a uma capacidade de perceber que aquilo que estou a escrever, está agora constantemente sujeito aos olhos da crítica, e à tenacidade do comentário com que o meu fiel leitor me poderá brindar.
Acima de tudo, deixo a promessa de tentar contribuir para que ele continue a seguir-me, esquecendo a amizade que nos une, e apelando ao seu sentido crítico e à sua curiosidade textual.
Assim, se eu conseguir de alguma forma incentivá-lo a ler, a ler mais, a querer ler muito, a aperceber-se de que quanto mais lê, mais sabe e que quanto mais sabe, mais quer saber, e quanto mais quer saber, mais vai querer ler, daqui a pouco tempo, estarei com toda a certeza habilitado a perder um leitor fiel, diário, mas a dar ao mundo, mais um leitor interessado, motivado e desejoso de mais informação, se tal acontecer, o orgulho será ainda maior, a satisfação idem, e a vontade de continuar a publicar babuseiras, só conhecerá como limite, a minha capacidade motora de articular ideias, com a velocidade do meu teclar.
Obrigado João Pedro.