CINQUENTA, Mamã!!

Cinquenta anos são 18.262 dias mamã.
Upa, upa, puxadote.
Importa-se que lhe agradeça pelos meus 10.919??
Digam o que disserem, façam o que fizerem, inventem lá o que quiserem inventar, cinquenta anos serão sempre uma data memorável e impossível de não assinalar, de não decorar, memorizar, celebrar, festejar, marcar e aceitar.
Aqui chegado, é chegado também o tempo de perceber o porquê deste texto, o porquê da sua existência, da sua natureza, o porquê da celebração do amadurecimento, da vivência, da experiência, do sorriso, sim, esse sorriso, essa gargalhada solta e esvoaçante, essa alegria que tem tanto de alegre e perene como de absolutamente contagiante.
Quão difícil é ser a minha mãe.
Quão complicado é seres TU Maria Luisa, mas ao mesmo tempo, quão fácil se torna sentar-me aqui a escrever sobre si.
Recordo-me de tanto e de tanta coisa nestes quase 29 anos que se assinalam desde o dia em que a conheci, desde o dia em que corajosamente fez nascer o primeiro dos seus dois filhos.
Tinha apenas 21 anos, fresquinhos, acabadinhos de fazer. Pobrezinha, não fazia ideia de onde se estava a meter.
Não foram, muitas vezes, dias fáceis.
Foram noites soltas, horas vagas, choradas, tardes quentes, suadas, manhãs lindas de partilha.
Diria que foram, acima de tudo, intensas todas as experiências, conversas, educações e explicações, repreensões e ensinamentos sábios, foram também todas as coisas que quis(emos) e não quis(emos) ouvir, por absolutamente tudo e concretamente nada.
Criou dois rapazes sozinha, caramba.
Enfrentando de mangas arregaçadas, o futuro e o presente nem sempre inocente na demonstração da imposição fria e cruel da realidade.
Nem sempre fiz o que era certo, correcto, esperado e desejado, mas tentei sempre ajudar.
Recordo tanta coisa mamã.
Recordo as viagens nos autocarros antigos, sentados atrás do condutor, com os cestos de verga, com os termos, os sacos do supermercado, o mais novo no regaço, e transpirar de cansaço, mas nunca nos faltou o sorriso nem tão pouco aquele, o seu abraço. 
Nas pernas e braços partidos, nas febres e palavras doces aos ouvidos, no cabelo penteado e no passeio anunciado, íamos os três para todo o lado.
Dos flocos de aveia e da tapioca.
Dos campos de férias e do desejo que chegasse a hora de refeição, que tocasse o telefone, e nas colunas de Foz de Arouce se ouvissem os nossos nomes, para corrermos para o telefone, estava a sua voz do outro lado.
De comboio para a praia e do mano, em casa da avó, agarrado à sua saia.
Tenho, sem dúvida, um dos melhores e mais notáveis exemplares de mãe que esta Natureza um dia produziu e consigo perceber, a incomensurável dimensão humana das palavras simples que acabo de escrever.
O que é na verdade, ser mãe assim?
Fazer tudo, de tudo, por tudo, pelas duas crias que colocou no mundo.
Defendê-las com a tenacidade de um felino e com a supremacia agigantada de um quase secular paquiderme.
A minha mãe é de uma outra era, de um outro tempo, de um outro lugar que não este da mentira e da falsidade, da pobreza e da falência, da burla e da insolvência, da corrupção e da ganância, da falta de oportunidades desde tenra infância.
As noites de inverno, os recados no caderno, o toque do carteiro e a importância do mealheiro, a camisa mais bonita, o perfume mais cheiroso, a saudade.
Estive 6 meses sem a ver, sem olhar para os seus olhos, longe, na curiosa ironia de ter sido a mãe quem me permitiu estar lá.
E foram na verdade os seis meses mais difíceis de viver, mais duros de aprender, mais loucos de entender, mais lindos de se ter. E quando cheguei e a vi no aeroporto, tudo o resto ficou branco e nada mais importou.
Dos 49 aos 50 e dos 28 aos 29, tornámos-nos ainda mais nós, ainda mais fiéis, companheiros, mãe e filho, verdadeiros.
Não amo nem nunca amarei ninguém assim.
Porque de facto, para mim, não há ninguém assim, não existe, é impossível serem duas, existir uma outra, igual, impossível.
Já festejámos tantos, mas lá está, cinquenta são cinquenta mamã.
Que este seja, um novo começo, uma nova era na sua vida, sempre para cima e nunca para lado algum que não esse.
Sou assim e serei sempre, imparcial, porque do seu sangue nasci e é esse sumo que me corre nas veias.
Consigo serei sempre partidário, e ai de quem me queira tentar convencer do contrário!
Ser seu filho é ser Pedro Maria e ser Martim, Neto Mariano pois claro.
Não podia ser de outra maneira.
Há palavras que nos trazem as pessoas aos olhos.
Mãe, traz aos meus a vida.
Parabéns mamã, muitos parabéns. 
Pelos de hoje, por tudo e por todos, pelo antes o agora e o depois.
Um beijo, do mais velho.

Tens medo? Compra um cão!

MedoDo latim metu, sentimento de inquietação que surge perante um perigo real ou aparente, terror, susto, temor, receio e apreensão.
Assim tentou, o senhor que redigiu o grande Dicionário da Língua Portuguesa, definir um sentimento que, neste caso, é tão sobejamente maior do que a (perdoe-me caríssimo senhor que redigiu o grande Dicionário da Língua Portuguesa) pobre definição da palavra em si.
Em livros, filmes, poemas, peças de teatro, canções, sinfonias, sonhos, histórias, vidas, vividas, com tanto e tão pouco e aquele que fica louco e a loucura que mais não é que a vitória do medo!
O medo é por ventura, a par da saudade, possivelmente a mais forte das sensações que o ser humano experimenta.
Ter medo é terrível, mas também pode ser benéfico.
Ter medo é viver aprisionado ou numa diferente liberdade.
O medo aparece ao homem nas mais variadas formas e complexidades, nos mais absurdos e disparatados contextos, momentos, e nas mais diversas situações, grandezas e dimensões.
Muito se fala sobre a sociedade controlada pelo medo, que nunca deixou de ser sentido nas democracias modernas, que é a mensagem subliminar do poder para manter unido o “rebanho” (e esta é uma clara referência bíblica).
Mas isso são outros quinhentos e com o mal dos outros posso eu bem, ou não.
Ora o medo é todo ele igual e a diferença situa-se somente no receptor da sensação.
O medo a todos apavora, diminuí, enfrenta, sonega, consome, tira o sono, a fome, a sede, a vontade, a lucidez, a calma, a alegria, a felicidade, a saúde.
O medo a todos faz retrair, recuar, parar, pensar, sentar, deitar, levantar, fechar os olhos, tremer, ter frio, ter dores de barriga, dores de cabeça, prisão de ventre e exacto oposto, assim é o medo.
Vem, ou melhor, advém potencialmente de situações que na sua maioria, são por nós criadas, pretendidas, desejadas, assumidas, mal pensadas, mal geridas, mal tratadas, mal resolvidas.
O medo entra logo a ganhar, quando em muitas situações, nos chega pela simples equação de ter medo, de vir a ter medo do que quer se seja.
Ora, logo por aqui estamos a encher a mala.
Depois vem, o medo por si só.
O menino nem pede licença, chega e é tudo dele, é assim uma espécie do amigo grande do liceu, que como não queremos que nos parta a cara, o convidamos para ir almoçar lá a casa e jogar playstation, ou outra merda qualquer, e a besta chega e fica com a tua cadeira, com o teu comando, dás-lhe o teu copo, mexe nas tuas coisas, começas a ganhar o jogo e dá-te um caldo, e tu vais e pimba, laxante no copo de sumo, vai buscar.
E depois o gajo passa-se e parte a sanita em dois, e quase desmaia e tu ajudas o ogre, e o o animal fica-te agradecido para a vida, e ganhas um guarda-costas que podes subtilmente manipular, sem nunca deixares de ter medo que ele perceba e de parta a cara.
Por isso, o medo ganha… quase sempre.
Quem sofre tem medo de voltar a sofrer, quem perde, tem medo de voltar a perder, quem erra tem medo de voltar a errar, quem sonha tem medo do que consegue sonhar e do que quer que o sonho possa significar, mas fica por certo a pensar e com medo de arriscar, quem deseja tem medo daquilo que quer encontrar. Que direito tem o medo de me paralisar?
Ora te conto em segredo do que o medo é capaz.
É capaz de te sorrir, de te beijar, e de te dizer como se faz.
Ele é capaz de te acordar e de te adormecer, de te amar e de te fazer sofrer, de te fazer chorar, de te fazer perder, é, é capaz de te fazer corar, de te fazer dizer, de te fazer calar, de te fazer tremer, de te fazer sonhar, e sobretudo de te descontrolar, de te enganar, de te matar, de te salvar, de te ajudar, de te prejudicar, de te fortalecer, e também te pode congelar, cegar, e consegue ainda impedir-te de acreditar que na vida a chuva pode parar, o calor pode voltar, o homem pode sorrir e sonhar, a música pode continuar a tocar, a brisa voltar a soprar, o sorriso não sair do lugar, e a lua continuar a mudar.
É o medo e sua ânsia de te tocar, talvez o medo também tenha medo de não ter a quem chegar… 
O que seria se desaparecesse o medo de todo e qualquer lugar? Que me dizes?
O teu medo também traz luta e formas de o ultrapassar, traz oportunidade e possibilidade de avançar, de aprender, memorizar, compreender, ultrapassar, descobrir, valorizar, perseguir, continuar, evoluir, melhorar… É de medo que estou a falar, certo?
Como pode a definição fazer jus ao seu significado, se de medo tão pouco está ali falado.
O medo é duro em português, e também o é noutras línguas, é sempre medo, o meu, o teu, o dele, o dela, deles, delas, dos outros, daqueles, e ainda mais.
De onde vem o medo?
Caminha de mão dada com a insegurança do indivíduo e isso é inegável.
Namoram, passam muito tempo juntos, diz até que se conhecem desde sempre, que nunca existiram em separado.
Se perguntar a alguém: “Diz-me, achas que o medo tem um papel relevante na vida do ser humano? Na tua vida?” tenho a certeza absoluta que a primeira expressão facial será rígida, dura, sofrida e apreensiva, os primeiros 2 segundos são essenciais, a partir daí, cada um irá pensar numa situação, possivelmente das mais recentes, em que sentiu medo, em que verdadeiramente teve medo de alguma coisa, e vai lembrar-se rapidamente, num milésimo de segundo, do que sentiu quando se amedrontou, quando esse medo o consumiu vivo, de dentro para fora. Em segundos qualquer me vai dar uma resposta sincera, os que fugirem à questão, vão fazê-lo com um sorriso, ou com respostas do tipo, “eu não tenho medo de nada nem de ninguém”, “o medo é uma cena que a mim não me assiste, ahahaha”(dois chapadões e ainda era pouco) e esses são os que verdadeiramente têm receio de falar sobre o medo, porque é grande e é muito feio e mau.
Como lidar com o medo?
Cada medo é um caso específico, clinicamente falando.
Os medos/fobias clássicos(as) de bichos, plantas, animais, sítios, sons, tipos de pessoas, paranóias, obsessões, são todos eles precedidos de medos e experiências iniciais, nossas, que nos tenham sido relatadas, oralmente, ou fruto de informação que nos tenha chegado por outras vias (televisão, internet, livros, etc. 
Porque é que termino uma frase com etc? Podia perfeitamente dizer, e não me lembro de mais possibilidades, mas não quero ser intelectualmente respeitado e por isso uso um etc. ‘Tá bonito, ’tá!
Tive medo, foi o que foi.
Sem segredo, o medo é delicado, merece atenção, luta, ajuda, precisa de ser combatido, de uma ou de outra ou de outra maneira, forma, com tácticas, regras, desafios, pensamentos, experiências, reflexões e sobretudo, conclusões.
“A chegada é apenas mais um ponto de partida”, humildemente citando uma empresa de transportes públicos, que tem esta enorme lona com esta frase por cima de duas meninas que são muito amiga, mesmo no centro do Porto.
É uma frase que atira para o pensamento e para a lembrança, pede coragem e bravura, pede luta e dedicação.
Dou por mim diante de situações em que tenho medo, tenho receio, de não ser capaz, de não conseguir, não outra vez, de não suportar, de não me apetecer, de não querer quando devia querer, de querer quando devia não querer, sobretudo de falhar, de querer muito alcançar e não conseguir alcançar, de querer segurar e deixar escapar, de querer muito e mais ainda e mesmo assim não chegar.
Se assim for, terei com que me ocupar.
Caso contrário, saberá bem deliciar-me com uma orgulhosa.
Porque quando se vence o medo tem-se todo o direito de celebrar, festejar e marcar essa vitória a ferros, outras lutas virão, depressa, bem depressa, para não te deixar baixar os braços.
Tens medo?
Compra um cão.
Sempre me disse isto a minha mãe. A minha santa mãe sabe tudo.
Compreende o medo, questiona-o, interpreta-o e analisa-o, sem medos.
O medo faz da alma refém, o medo toca sempre em alguém, terá medo quem para além de viver não tenha mais ninguém?