Antologia de um medo (nada) absurdo

Antologia de um medo (nada) absurdo

Gostamos invariavelmente da força, da robustez, da solidez impactante e inspiradora que nos confere a vida, e da singular e determinada capacidade de não ceder aos caprichos em nada misericordiosos do amor, da tristeza, da solidão, da felicidade e, claro está, do medo.
Temos mais medo das coisas quanto maior é o número de coisas que temos a temer. Creio que isto é relativamente fácil de constatar se nos debruçarmos sobre a questão durante algum tempo. Somos mais temerários perante a vida quanto maior é o número de anos que vivemos, e menor é o número de anos que vai distando entre isto que hoje somos, e o fim da linha que medrosamente vamos apalpando com receio de estragar qualquer coisa.
Mãos nas janelas, pés arrastados pelo chão macio e encerado que crepita e estala à nossa passagem, mas com medo (lá está) de dar um passo em falso, de pisar o que não se deve, de calcar caminhos que não seria suposto conhecermos, ainda por cima quando – regra geral – nunca chegamos verdadeiramente a conhecer a pessoa com quem vivemos mais tempo neste passeio errático a que alguns chamam existência. Nós mesmos.
Chegam a passar-se vidas inteiras sem que nunca saibamos bem quem vive dentro daquele que julgamos ser.

IMG_4647

Mas então, de que é que nos alimentamos afinal? Será de medo? Será esse o pão que nos sacia a fome de viver?
Talvez. É assustadoramente possível que grande parte de nós passe grande parte da vida a comer doses ainda maiores de medo ao pequeno almoço; mas de faca e garfo, à homem, para posteriormente ser digerido enquanto somos atropelados pelo inebriante passar trôpego dos dias. E arrota-se no fim.
É assim possível que passemos na verdade grande parte da vida (mais o que fica para lá da mesma) a tentar provar à dita que não tememos nada, a não ser o seu próprio finar.

IMG_4567

Suponhamos que a nossa concentração é então conscientemente dedicada a percorrer todo o caminho, no descrédito consentido que tem quem o assume, tentando assim mostrar ao mundo, ou à parte do mesmo que nos sobeja de tal forma que nos atrevemos a chamar-lhe mundo, que esse medo que nos aterroriza a existência é pueril, irracional, é uma espécie de temor do precipício, do parapeito, da escarpa hipnotizante da morte e das suas terríveis e seguramente bem fundamentadas horripilâncias.
Mas… passando-lhe a bola a si, amigo leitor, como ela deve ser passada, redondinha e com o peito do pé, consegue dizer-me – para além do medo de morrer que é universal – de quantos medos (se é que é sequer plausível e aceitável que assim se escreva esta palavra) se consegue lembrar de ter sentido ao longo da vida? Com certeza que se lembra pelo menos… de uma mão cheia deles. Certo?
Errado… fácil não deve ser de certeza… isto para responder de imediato ao meu próprio pensamento, para contestar prontamente a parvoíce que me possa ter cruzado as ideias num dos fogachos de tempo tão curtos, como curta é a duração de tantas das palavras que digo sem as dizer, num gesto de atrevimento, e que me quis forçar a começar esta frase com a resposta à pergunta feita na frase anterior.
Ora, posto isso, e escrutinadas as fracções de segundo que caracterizam uma decisão tão rápida, fui ainda a tempo de emendar a mão, mesmo sabendo que já tinha cagado os pés até aos joelhos. São merdas que acontecem.
Portanto, assim de repente, num exercício que de modo algum pode ser tomado como simples, trivial e até desnecessário, convido-vos a revisitarem a vossa vida enquanto vão passeando os olhos pela quantidade tonta de enumerações que passarei de seguida a… exacto… a enumerar.
Mas atenção ao seguinte: não deve esse revisitar do passado ser uma coisa desprovida de qualquer lógica ou orientação. Nada disso! Até porque, regra geral, a coisa não costuma correr lá muito bem.
Assim sendo, aquilo que vos proponho é que, calmamente, com tempo e com a serenidade que uma viagem desta natureza vos deve merecer, tentem então encontrar nas arrecadações onde guardam grande parte daquilo que foram quando começaram verdadeiramente a ser alguma coisa, e se lembrem então dos medos que afinal de contas nunca vos largaram.

IMG_2066
Das manhãs, tardes, noites e madrugadas atormentadas por essa sensação tão poderosa quanto a de se ter Medo de alguma coisa, essa sensação frívola que nos entorpece as pernas e os braços, que nos retorce caprichosamente os dedos das mãos e dos pés, que nos arrepia os cabelos no finalzinho da nuca, que nos faz revirar os olhos e, mais do que qualquer outra coisa, que nos dá estaladões às ideias. A lógica simples e erudita (graças a Deus) do pensar e do ser. Simplesmente isto. Mas, para que se sintam confortáveis e não pensem que estão a ser obrigados a algo que não tenha, eu mesmo, coragem de fazer, sereno-vos e sossego-vos o espírito inquieto dizendo-vos que serei eu o primeiro a sentar-me nesse parapeito e a enumerar algumas coisas que me fizeram suar as estopinhas, e sentir o corpo a engelhar-se às mãos do horror mais inconsciente e, por vezes (tantas vezes) – mas não sempre – mais injustificado que sentimos no caminho pelos passeios da condição humana.
Então, o primeiro Medo de que me recordo, é possivelmente o medo de magoar o meu irmão, que era tão pequenino… Porquê?
A fragilidade de um bebé que gatinha é assustadora e, perante um ser humano daquele pequeno tamanho, o irmão mais velho, com mais 3 anos que o petiz que ainda não se põe de pé, pouco ou nada sabe da forma correcta de se lidar com o petiz que nem falar direito consegue.
Numa das únicas vezes em que me “descuidei”, pensando que ele não via ou compreendia patavina do que estava a “ver”, virei costas e o sacana engoliu uma moeda de 50 centavos que eu tinha escrupulosamente escondido debaixo do tapete da sala. Resultado? Hospital. Raio-X. E um “a moeda há-de sair”. Anos mais tarde, já sem medo nenhum e com ele já perfeitamente capaz de correr, saltar, brincar e falar, acabei por lhe partir um braço, enquanto brincávamos às rasteiras no SAP, à espera da vez para que ele pudesse ser visto pelo médico devido à quantidade absurda de borbulhas que a varicela lhe estava a espetar no corpo. Fomos do SAP para o Curry Cabral.
Depois, por volta dos 10 anos passei finalmente a ter medo de morrer.
Chegou já mais tarde, é verdade. Não porque não soubesse já o que era a morte, mas simplesmente porque não a compreendia de todo. Já sabia ler e escrever. Já devorava notícias na TV e nos jornais, deitado debaixo da mesa de jantar da casa dos meus avós. Ouvia atentamente as conversas dos adultos da minha vida e, pese embora o facto de fazer caminhadas de Domingo (com alguma frequência) pelo cemitério do Alto de S. João, onde um dos meus tios estava sepultado, não compreendia de modo algum a parte metafísica da coisa. Associava-lhe tão somente o desaparecimento dos olhos, pouco ou nada mais. Ou seja, para além da dificuldade de perceber o conceito, tinha a incapacidade total de perceber do que se tratava e, mais do que qualquer outra coisa, tinha a dificuldade tremenda de perceber porque razão é que a morte fazia chorar os vivos.
Percebi-o no dia em que fui a funeral da minha bisavó materna, e depois no dia em que morreu a mãe de uma colega (grande amiga) de escola.
Haveria de se me entranhar na alma alguns anos mais tarde quando, numa questão de meses, morreu um dos meus tios, e depois, quando morreu o meu melhor amigo. A partir daí esse medo estendeu-se a todos aqueles por quem tenho algum tipo de estima, de amor, carinho, amizade e consideração.

Tira os pés do chão

Pelo caminho tenho encontrado o medo em formas tão distintas como: medo de falhar, de desiludir, de me afogar, de me queimar, de não ser capaz, de perecer, de fracassar, de ser despedido, de não ser contratado, de ser esquecido, de não ser lembrado, de não ser querido nem desejado, de não ser amado, de ser iludido e enganado, de que aquilo em que acredito não dê resultado, de ser rejeitado e maltratado, do escuro, da noite, da sombra dos dias… e podia continuar nesta torrente infernal durante horas a fio… schiiiu… tenho medo de a acordar.
Continua a contar.
Depois fiquei doente. O cancro. Esse merdas insolente. E tive medo. Muito medo.
Claro que sim. Não podia não ser de outra maneira. Mas venci-o, ao Medo. E ao cancro também. Peguei-o pelo colarinho e acertei-lhe em cheio no focinho.

E hoje chego aqui, a dias de ser pai. A dias de ver a minha vida transformar-se por completo e confesso-vos. Estou todo “borrado”.
Não pela circunstância, não pelo desconhecimento da paternidade, mas pela minha mulher. E é um sentimento horroroso que me tira tempo ao sono e me traz dores à barriga. Ela é a minha vida. A condução da minha alma. O justificar feliz do meu acordar radiante. A minha Deusa. O prolongamento natural do meu sorriso e o espelho onde o mesmo se enrosca e regressa na expressão máxima de felicidade.
Pensar no sofrimento que ela pode enfrentar, nas dores, na experiência que ela vai atravessar no parto… tudo isto me sacode diariamente o esqueleto e me preocupa quanto baste. Se é absurdo? Não me parece (nada) que o seja. Mesmo sabendo que tenho a meu lado um poço de força!

MARL2222

Sei que tenho comigo uma mulher praticamente indestrutível e capaz dos feitos mais incríveis, mas do medo, meus amigos, dele ninguém se livra! =)
E acreditem que o medo é, em alguns momentos desta nossa vida, um companheiro, um amigo, um conselheiro, um compincha.
E vou ensinar-te tudo isto minha filha. Tudo isto e muito mais. Porque nesta vida é tão importante que sejas forte, que te levantes sempre depois de caíres, e vais cair muitas vezes meu amor. Mas é também igualmente importante que saibas não o ser, que saibas ter medo, que saibas ceder-lhe e permitir-lhe que entre na tua vida sem que nunca deixes que este tome conta de parte alguma da mesma. Pode por lá andar mas que saibas sempre por onde é que ele anda.
Agora… agora vem ter com os papás. Não temos medo. Temos a vida inteira para te dar. E medo, só o medo de te falhar… mas isso minha querida, isso é impossível de controlar.

DSCF0193

À conversa com o Medo – Parte II

medo

Faço questão de retomar exactamente do ponto em que te deixei.
Não que pense que esta seja a atitude certa a tomar, até porque sempre fui o oposto desta resolução.
Sempre fui de deixar as coisas a meio, de começar uma e depois partir para outra, começava uma brincadeira, desarrumava metade dos brinquedos (também não eram tantos assim…) para exasperação da minha santa mãezinha, para não muito depois me sentar em cima destes, a ler um qualquer livro das Aventuras de Tintim, e assim brincava o Martim.
Como dizia, sempre fui desorganizado, sempre me organizei na minha própria desorganização, frase tão cabalmente utilizada por todos os “desarrumados” e “desalinhados” ao longo dos tempos.
Mas como como comecei por dizer, vou pegar exactamente onde te deixei… Deixei-te a meio da tua brincadeira, do cobarde e inacreditável ataque que ousaste disferir-me, sem me avisares, sem sequer ao menos te teres dado ao trabalho de perceber o que estavas a fazer e onde estavas tu a mexer, meu cabrão! Sabes? Irritas-me!
Creio que não preciso sequer de te dizer que te vou tratar por tu novamente, na verdade, não vejo outra forma de me poder dirigir a quem me tenta, perdão, a quem me tentou foder de forma tão suja como tu tentaste…
Mas, e agora vem a parte deliciosa no meio de tudo isto, falhaste meu porco de merda, falhaste, falhaste, falhaste! Sim, 3 vezes, porque não me vou cansar nunca de te gritar bem alto dentro desses ouvidos de filho da puta, que falhaste tão redondamente quanto aquilo que alcançaste primeiramente!
Não sou injusto e cada dia mais não suporto injustiças, e por essa mesma razão reconheço que não falhaste na totalidade, não falhaste, por exemplo, na natureza do que me fizeste, falhaste sim na vontade, falhaste porque foste curto de vista e eu, mesmo vendo mal, vi bem melhor do que tu, vi mais longe, mais fundo, mais para lá e para mais longe e vi que te foste deliciando a ver-me, a ver-nos, a ver-me na cara o sofrimento, a desconfiança, a dúvida, a incerteza.
Esfregavas as mãos de contente e recostavas-te na tua cadeira de pele, apetitosamente moldada à falta de espinha da tua existência.
Falhaste porque me subestimaste, porque pensaste, e foi aqui que na verdade te “esmerdaste”, que me tinhas deitado abaixo quando me deste aquela tareia há três meses atrás, pouco depois de ter feito trinta anos.
Conheces-me mal rapaz, conheces-me muito mal e esse foi o teu grande erro, pensaste saber já tudo o que havia para saber sobre a minha pessoa.
Pensaste que me vergarias como vergas o melhor dos homens e mais forte das mulheres à tua passagem, julgaste-te dono e senhor da situação e quiseste divertir-te um pouco, não foi?
Confesso que conseguiste em determinados e mais variados momentos deitar-me por terra, é certo, como seria de esperar, fiquei sem reacção quando percebi que aos trinta anos, com poucos dias, estava perante um cancro, eu.
Fiquei atónito, não queria crer nos sons, nas palavras e no seu significado.
De repente quis não entender uma palavra do que me disse o médico, quis não ser português, não entender uma palavra desta língua absolutamente maravilhosa, quis sorrir sem querer chorar, quis crer que não estava a acreditar.
Agiste como ages sempre. Sorveste-me a fé e imiscuíste-te no meu corpo, na minha alma, no corpo e na alma dos que me amam e me rodeiam. Não pensaste, talvez…
Não pensaste de todo!
Bem sei que não tens quem te ame verdadeiramente, que nunca tiveste, que nunca vais ter, mas isso não te dá o direito de brincares com quem te respeita, de humilhares quem cedo acorda e quem tarde se deita.
Pensaste que um cancrozinho de merda servia para me atirar ao chão e ali me deixar!
Pensaste que eras tão mais forte que eu que nem ponderaste sequer dares-te ao trabalho de ver se eu continuava a respirar.
Foste sobranceiro e arrogante ao ponto de achares que tinhas ganho, que tinhas fodido mais um e que agora era só sentares-te de bracinhos cruzados, copo na mão, as pedras de gelo balouçando e dançando alegremente em corropios coordenados, em coreografias tão densas quantos os teus próprios intentos, mas… deste-te mal e comigo dar-te-às sempre mal, pelo menos no que a este tipo de merdas diz respeito.
Estou especialmente violento na linguagem?
Desculpa, estás a ficar ligeiramente sensível e com requintes de burguês apalaçado de bigode aparvalhado!
Aquilo que me fizeste merecia muito mais, merecia que te desfizesse um dos maxilares, mas, infelizmente, és tão físico como o ar que respiramos e, como tal, nada feito.
Estou certo que assim te dói mais… e o prazer sádico que isso me provoca é simples e absolutamente delicioso!
Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013, pela primeira vez desde que decidiste vir “brincar” com a minha vida, olhei-te verdadeiramente nos olhos, com a alegria de quem vence, com a raiva de quem dobra uma tormenta maior do que inicialmente se aguenta. Soube que não tenho mais nada a fazer para te expulsar do quotidiano que me levou de mão dada pelo tempo dentro. Pelo tempo em que parei e te enfrentei, olhos nos olhos, cão!
A primeira coisa em que pensei, depois das lágrimas de alegria, comoção e alívio que derramei, foi em escrever-te.
Diz lá que não sou um querido, não me esqueci de ti, viste?
Deves ter muitos assim, deves… deves, deves!
Pensei no imediato instante em que o doutor de nome importante me serenou a alma em esfregar-te nessa cara imunda, porca, sem expressão, sem nada.
Tens uma tromba de um porco sádico e trocista, trocismo reles todavia, insalubre e descabido.
Sempre me foi dito que é feio, muito feio brincar com os sentimentos das pessoas e tu, mais do que ninguém nesta vida, brincas e brincas como bem te apetece, com o que te apetece, quando te apetece, mas para mim, por agora, chega! Estou farto, ouviste?
Foste, decididamente, longe demais, consegues entender isso?! Que não és, de modo algum, inocente, “Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade” e tu és tremendamente responsável por grande parte do mal que há na vida das gentes.
Apertaste-me. Vergaste-me, mas não me partiste, isso não, isso nunca.
Durante três meses a minha vida sofreu uma rude mudança e a mudança, como é sabido, implica encaixe, implica transformação, percepção, compreensão, entendimento, aceitação e também sofrimento.
No entanto louvo-te a resiliência e capacidade invulgar de resistência, uma resistência quase maquiavélica, perturbado e profundamente insensível, que não pode ser explicada por palavras curtas, que pode até não ser explicável de forma alguma, pois se existe coisa subjectiva nesta vida é a relação do homem com o medo e com o amor.
Se no amor e na paixão testamos os nossos limites metafísicos e as nossas capacidades desconhecidas em cada novo fulgor da alma, junto a ti, somos pequenos e percebo o quão penosos e ridículos te devemos parecer, acagaçados com um problema de saúde, atarantados com o nome que significa o que tu sabes que significa.
Consegues ao menos entender a dimensão da palavra cancro?
Consegues perceber que as pessoas possam ter medo de morrer? Possam não gostar de sofrer? Que possam, em tempos cada vez mais agradáveis, agarrar-se à vida e ao amor, sem que para isso tenham que caminhar diariamente a teu lado?
Porque não és tu capaz de perceber o quanto és mal amado? Porque não vais chatear os cornos do teu pai?
Se soubesses o quão desagradável consegues ser, o quão inconveniente e mau sabes e gostas de ser… às vezes julgo na verdade estar a falar com alguém que ouve e que vai para casa pensar em tudo aquilo que lhe gritam aos ouvidos, mas depois, depois…
Análises, ecografias, raio-x, TACs, cirurgia, remoção, prótese, cicatriz, grande, enorme, agrafada, isenção, oncologia, impressão, dor instalada, pânico, sofrimento, alma assustada, MEDO, MUITO MAS MUITO MEDO!
Bem sabes que a minha relação contigo é saudável e não tens tão pouco a coragem para o desmentir, certo?
Tive sempre para contigo um trato que foi sobretudo digno e de alguma admiração até, nas alturas em que te sabes comportar e que não és verdadeiro parasita que és, a sanguessuga vampiresca, o monte de esterco indecoroso que na verdade todos sabemos que és.
És com toda a certeza a sensação mais aterradora que experimentei na minha vida.
Estou certo que esta não é a última vez que tenho de te encher as fuças de verdades e coisas que não gostas de ouvir.
És aquele miúdo estúpido com que ninguém brinca e por isso roubas a bola e furas com uma faca, bates em todos só porque és maior e mais velho, ameaças, roubas, fazes chantagem, mas no final dos dias, vais-te sempre embora sozinho. Choras de noite e ninguém te acode. Tens raiva de tudo o que sorri e tem vida. Tens raiva de quem tem saúde e por isso… metes-me nojo!
Já eu, de uma forma ou de outra, sozinho nunca fico, percebes?
Percebes, meu filho de uma grandessíssima puta porque é que nunca me vais dobrar? Percebes ou não? Foda-se!!! Havia alguma necessidade desta merda? Havia?
Com tanto assassino, violador, pedófilo, político, banqueiro à solta, vens escolher-me justamente a mim para me tentares arruinar a vida?
Mudaste tudo! Estragaste muito e muita coisa! Tornaste os meus olhos mais duros, a minha cara mais fechada, o meu pensar mais puro.
E deixo-te com isto: não destruíste o mais importante, a minha vontade de viver, le joie de vivre, (pode ser que em francês entendas melhor) de querer sempre mais, melhor, ser mais, ser maior, ser feliz, mais feliz, ontem, hoje e sempre.
Não foste capaz de aniquilar o sorriso com que acordo e me deito, não foste nem nunca serás, meu rapaz!
Por isso sugiro-te que agora vás fazer a tua vida para outros lados e que não me faças ter de vir desancar-te publicamente tão cedo, ouviste? Porque da próxima vez prometo-te que o espectáculo não será bonito.
Não tenhas… não é caso disso.
Mudaste-me e agradeço-te por isso, mas… já chega.
Já diz o ditado que, tudo o que é de mais enjoa!
E agora, ficas aí, de bico calado!
– Mas..
– Pschhht… está calado! Está caladinho.

À conversa com o Medo – Parte I

À conversa com o Medo – Parte I

Deixa-me desde já avisar-te que ao longo desta dissertação te irei tratar assim, por tu, dirigindo-me sempre a ti desta forma directa, utilizando sempre a 2ª pessoa do singular, como se conversa com qualquer pessoa com que se tem um grau de confiança elevado e um capital de proximidade inquestionável e irredutível. É pois por isso que não tenho qualquer pudor em falar contigo desta forma, quase como se te pudesse olhar nos olhos, bem lá dentro, onde vivem todas as tuas certezas e inquietações, todas as tuas histórias, todos os teus arrojados e despeitados subterfúgios, aqueles que usas para atormentar todos aqueles que conheces.

Não tens vergonha? Não tens um pingo de decência na verdade.

Não há em ti qualquer ponta de bondade. Não tens sequer uma identidade, um rosto, uma tromba nojenta que se possa encher de estaladões, nada.

Não tens nada disto, mas és tão humano como outro filho da puta qualquer.

Ouve-me bem porque não quero estar a repetir isto mais vez nenhuma, nenhuma, estás a perceber?!

Aquilo que fazes com as pessoas é abjecto, vil, cruel, sádico e chega a arrepiar, a provocar uma sensação de desespero e impotência quase impossível de combater.

Compreendo que és muitas vezes um mal necessário, que tantas outras precisamos na verdade de nos socorrermos de ti para sobreviver, que és tu quem nos mantém alerta, de “pestana aberta”, que, como o disse e bem José Luís Peixoto, és tu quem “em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em consideração”, não posso estar mais de acordo e todo e cada um de nós já sentiu e já se viu envolto numa qualquer casualidade mergulhada de pavor, em que foste de facto tu o responsável por não nos termos magoado, por não nos termos desviado, por termos seguido o caminho que está certo e que nos é mais indicado e não o caminho sujo que segue um desalinhado.

De facto ajudas a que nos regulemos, de certa forma permites que aprisionemos na impossibilidade de fazermos tudo o que nos passa pelas mentes que vais retorcendo a teu bel-prazer, meu nojento e maquiavélico manipulador de homens.

És quase palpável e tangível, pelo menos colho frequentemente essa mesma sensação, a ideia quase, quase real, que é perfeitamente possível roçar a sensação plena de te sentir o odor, quase, mas nem o quase chega para te alcançar por entre os dedos, vontade superior essa de te castigar por todos os castigos que infliges em quem não te consegue fazer frente, porque, mais do que tudo aquilo que em nós provocas, o que se passa é que de facto tens todas as características de quem vive e existe no mundo dos homens.

És mau, és sujo, desleal e falso, inversamente és tantas vezes absolutamente magnífico e sedutor, cantando com a melodia da hipnose que cantavam as sereias que quase levaram Ulisses à loucura.

Por vezes quente e sereno, mas, indo à raiz real da tua natureza, és o que de mais repugnante e execrável vi em toda a minha ainda curta mas já preenchida vida.

Confesso que não tenho na verdade o pesaroso hábito – ou costume, como preferires – de costumar prestar-te muita atenção no decorrer normal do normal dos dias, talvez por isso mesmo não tenha assim muito respeito ou consideração por ti.

És exactamente simétrico de todas aquelas pessoas com quem se trabalha e de quem nada se sabe ou quer saber, de todos aqueles que sabes serem maus pela exclusiva aspereza do carácter, pela tenebrosidade do olhar frio e tantas vezes maldoso, igual a todos os que não queremos, de quem não gostamos, que não amamos, de quem queremos distância, és, durante grande parte da vida que vivo, quase imperceptível.

Contudo, e talvez por isso mesmo, porque me atrevi a tratar-te com desdém e com alguma superioridade até, resolveste ir mais longe e tentar assustar-me de verdade com uma doença, aquela de quem todos fogem mas que de um modo ou de outro todos vão conhecendo com menor ou maior grau de dureza, tristeza e crueldade.

Não foi um daqueles horrorosos e impiedosos monstros que retiras das grutas enlameadas, insalubres e repugnantes onde escondes os teus mais horripilantes soldados, cheias de um muco viscoso que escorre pelas paredes, onde a luz é estreita e tremeluzente, ainda e toda ela obtida à custa dos archotes artesanais e rudes que penduraste nas paredes, como se de Picassos ou Dalis se tratassem.

Fiquei perdido de raiva, apoderou-se de mim uma fúria perfeitamente justificada e se te tenho encontrado em pele e ossos naquele momento, nem sei bem o que te poderia ter feito, tinha as veias do pescoço a saltitarem como uma criança feliz num trampolim.

Levou tempo, é certo, mas encontrei-te.

Tinhas que te ter esforçado mais, muito mais. És um merdas.

Digo-te aqui – como se estivesse novamente a falar-te nos olhos – que a mim não me assustas com tamanha facilidade. Já vivi várias vezes, já morri outras tantas e continuo aqui, ouviste? Continuo aqui e muito honestamente, para já, não me pareces com força suficiente para me fazeres abrandar ou sequer desviar-me do meu caminho, do caminho que traço para mim.

Fizeste-me tremer, confesso-te.

Não tenho nem nunca tive qualquer problema em dizer-te que temi – e ainda temo, uma vez que esta brincadeira ainda não terminou – pela minha saúde de uma forma consciente, que se tornou ainda mais indignada porque, na verdade, quando te armas em engraçado e te pões com brincadeiras destas, não te apercebes que estás a brincar não apenas comigo mas com todos aqueles que me estimam, que me amam e que se aprontam em temores e lágrimas de dúvida, que veem abanadas e chocalhadas as suas realidades, que se desordenam os seus sonhos, que se magoam as suas almas que são pouco dadas às coisas más.

Isto não entendes tu! E fazes o favor de não virares a cara para o lado, como quem tem até alguma vergonha do que faz e se sente embaraçado com a crueza real das palavras que é obrigado a escutar.

Meu menino, que brinques comigo no cárcere íntimo do meu pensar, até to permito, agora que brinques com aqueles de quem gosto, com aqueles que de mim gostam, isso não consigo perdoar-te de forma alguma porque não existe na língua dos homens, seja ela qual for, nenhuma justificação de que te possas socorrer para me explicares condignamente aquilo que fazes.

Pareces-te mais com aqueles com quem brincas do que alguma vez pudeste imaginar.

Comigo tens e vais ter sempre um azar que talvez não esperasses, comigo terás sempre de lidar com alguém que não tem medo de ter medo e sobretudo que há já algum tempo que deixou de ter medo de si próprio.

Aceito-te, com maior ou menor grau de (in)satisfação, com menor ou maior capacidade de perceber a tua pertinência, mas uma coisa é certa, não fujo nem nunca te fugirei, porque pese embora toda a merda que és e representas nas mais diversas situações em que te impões, como se impõe a madrugada, a chuva e alvorada, como se impõe a primavera e o inverno e todos os estados de alma, como se impõe a morte, aceito-te naturalmente, ainda que nos olhos carregue por vezes a dor das lágrimas que me fazes verter, a dor de olhar para quem me vê sofrer, a tristeza encastrada no rosto de quem me viu nascer e é isso que me faz ter-te uma repulsa incomensurável meu porco.

Arranjaste aliados, amigos e interessados que se venderam à tua propaganda, que se converteram em instrumentos disseminados dos teus intentos mal-intencionados e que se munem das armas mais cruéis para atormentarem os seus semelhantes.

Só assim se explica a tua impressionante e inquestionável ubiquidade, só assim se justifica a tua presença em toda a parte, quase tão grande como grandes são os Deuses.

E, no entanto, não creio que Deus algum, em momento nenhum te tenha glorificado. Não és um anjo escorraçado, não és filho do diabo, és dor e temor por trás de um corpo sujo num qualquer rosto mascarado. Se ao menos te pudesse mesmo encontrar os olhos…

 

Pequeno ensaio sobre a… pequenez!

Alto mas não muito, Miguel é o tipo de pessoa que deseja ardentemente deixar de ser.
Magro mas não tanto, come mal e dorme pior, passa as noites acordado e os dias envolto numa profunda e funesta letargia que torna cada vez mais complicado distinguir entre os sonhos que tem e o mundo que conhece.
Tem noites em que acorda e julga que o que estava a sonhar é o real e o real confunde-o, em jeito de embriaguez, com os sonhos que tem.
Miguel vive e dorme sozinho, come e acorda de igual forma.
Arrasta-se para o trabalho.
No Metro não cruza ou descruza o olhar com absolutamente ninguém, vai de auscultadores nos ouvidos e de olhos semicerrados que têm como finalidade afastar seja quem for.
Tem pavor a qualquer forma de sociabilização por mais primária e inocente que seja.
É avesso a toda a espécie de convívios que não sejam tidos e mantidos sentado, deitado, em pé ou encostado, atrás de um ecrã e de um teclado.

Vive petrificado com medo de se apaixonar.

Na verdade chega a sentir-se irremediavelmente frustrado e intimamente amargurado por nunca se ter deliciado ou sequer tocado numa mulher.
Por nunca ter sentido o bafo quente e ofegante da luxúria feminina na jugular, por nunca ter tido as costas arranhadas por uma ou mesmo as duas mãos cheias de unhas pintadas.
Não sonha, pois nunca chega a perceber se dorme.
Não lê assim muito nem sai assim tanto.
Tem 28 anos e é órfão desde os 17, altura em que sozinho conheceu a força bruta da injustiça de uma vida.
Trabalha num centro comercial.
Secção de fruta e legumes de um conhecido hipermercado.
É aquele tipo de homem que só é reconhecido porque tem uma placa no peito que o identifica e, mesmo essa, já deixou teimosamente fugir a tinta e Miguel é agora MI UEL.
Não alimenta o sonho de casar, não ambiciona tamanho feito nem tão pouco se julga capaz de o alcançar. O forte de Miguel não é, não foi, nem será o acreditar.
Nem mesmo dentro do azul vivo e trepidante dos seus olhos entristecidos e conformados se acende a ilusão e o sonho do matrimónio.

Come sobretudo empacotados e congelados.
Entretém-se na internet e nem sequer tem uma televisão no apartamento, não lhe faz falta, diz, não quer saber de nada nem ninguém.
Vive perdido e não quer ser encontrado.
A exclusão é parte da equação.
A solidão espreita-o por entre o cortinado e Miguel já foi por Ela contratado.
Vai ser despedido do hipermercado.
Sozinho, isolado, despedido e… desesperado.
Será este o retrato moderno do homem abandonado? Será este arrastar de vida, vida para alguém?  Vivem-se tempos estranhos na verdade, muito estranhos e as pessoas acompanham cada vez mais a estranheza dos tempos! Para onde caminhamos?
Dizia, já não sei a quem, num destes dias, que tenho curiosidade em saber como vai ser o mundo daqui por 20 anos.
Isto porque não é mais o Homem que dita o avanço da vida mas a tecnologia que permite e controla o avanço do Homem.
Senhor Darwin, que lhe parece a si tudo isto? Hein?
Será lívida e eterna a insensatez? Tudo, e ao mesmo tempo tanto se assemelha ao eterno dilema da humana pequenez.
Queres que diga outra vez?

Tens medo? Compra um cão!

MedoDo latim metu, sentimento de inquietação que surge perante um perigo real ou aparente, terror, susto, temor, receio e apreensão.
Assim tentou, o senhor que redigiu o grande Dicionário da Língua Portuguesa, definir um sentimento que, neste caso, é tão sobejamente maior do que a (perdoe-me caríssimo senhor que redigiu o grande Dicionário da Língua Portuguesa) pobre definição da palavra em si.
Em livros, filmes, poemas, peças de teatro, canções, sinfonias, sonhos, histórias, vidas, vividas, com tanto e tão pouco e aquele que fica louco e a loucura que mais não é que a vitória do medo!
O medo é por ventura, a par da saudade, possivelmente a mais forte das sensações que o ser humano experimenta.
Ter medo é terrível, mas também pode ser benéfico.
Ter medo é viver aprisionado ou numa diferente liberdade.
O medo aparece ao homem nas mais variadas formas e complexidades, nos mais absurdos e disparatados contextos, momentos, e nas mais diversas situações, grandezas e dimensões.
Muito se fala sobre a sociedade controlada pelo medo, que nunca deixou de ser sentido nas democracias modernas, que é a mensagem subliminar do poder para manter unido o “rebanho” (e esta é uma clara referência bíblica).
Mas isso são outros quinhentos e com o mal dos outros posso eu bem, ou não.
Ora o medo é todo ele igual e a diferença situa-se somente no receptor da sensação.
O medo a todos apavora, diminuí, enfrenta, sonega, consome, tira o sono, a fome, a sede, a vontade, a lucidez, a calma, a alegria, a felicidade, a saúde.
O medo a todos faz retrair, recuar, parar, pensar, sentar, deitar, levantar, fechar os olhos, tremer, ter frio, ter dores de barriga, dores de cabeça, prisão de ventre e exacto oposto, assim é o medo.
Vem, ou melhor, advém potencialmente de situações que na sua maioria, são por nós criadas, pretendidas, desejadas, assumidas, mal pensadas, mal geridas, mal tratadas, mal resolvidas.
O medo entra logo a ganhar, quando em muitas situações, nos chega pela simples equação de ter medo, de vir a ter medo do que quer se seja.
Ora, logo por aqui estamos a encher a mala.
Depois vem, o medo por si só.
O menino nem pede licença, chega e é tudo dele, é assim uma espécie do amigo grande do liceu, que como não queremos que nos parta a cara, o convidamos para ir almoçar lá a casa e jogar playstation, ou outra merda qualquer, e a besta chega e fica com a tua cadeira, com o teu comando, dás-lhe o teu copo, mexe nas tuas coisas, começas a ganhar o jogo e dá-te um caldo, e tu vais e pimba, laxante no copo de sumo, vai buscar.
E depois o gajo passa-se e parte a sanita em dois, e quase desmaia e tu ajudas o ogre, e o o animal fica-te agradecido para a vida, e ganhas um guarda-costas que podes subtilmente manipular, sem nunca deixares de ter medo que ele perceba e de parta a cara.
Por isso, o medo ganha… quase sempre.
Quem sofre tem medo de voltar a sofrer, quem perde, tem medo de voltar a perder, quem erra tem medo de voltar a errar, quem sonha tem medo do que consegue sonhar e do que quer que o sonho possa significar, mas fica por certo a pensar e com medo de arriscar, quem deseja tem medo daquilo que quer encontrar. Que direito tem o medo de me paralisar?
Ora te conto em segredo do que o medo é capaz.
É capaz de te sorrir, de te beijar, e de te dizer como se faz.
Ele é capaz de te acordar e de te adormecer, de te amar e de te fazer sofrer, de te fazer chorar, de te fazer perder, é, é capaz de te fazer corar, de te fazer dizer, de te fazer calar, de te fazer tremer, de te fazer sonhar, e sobretudo de te descontrolar, de te enganar, de te matar, de te salvar, de te ajudar, de te prejudicar, de te fortalecer, e também te pode congelar, cegar, e consegue ainda impedir-te de acreditar que na vida a chuva pode parar, o calor pode voltar, o homem pode sorrir e sonhar, a música pode continuar a tocar, a brisa voltar a soprar, o sorriso não sair do lugar, e a lua continuar a mudar.
É o medo e sua ânsia de te tocar, talvez o medo também tenha medo de não ter a quem chegar… 
O que seria se desaparecesse o medo de todo e qualquer lugar? Que me dizes?
O teu medo também traz luta e formas de o ultrapassar, traz oportunidade e possibilidade de avançar, de aprender, memorizar, compreender, ultrapassar, descobrir, valorizar, perseguir, continuar, evoluir, melhorar… É de medo que estou a falar, certo?
Como pode a definição fazer jus ao seu significado, se de medo tão pouco está ali falado.
O medo é duro em português, e também o é noutras línguas, é sempre medo, o meu, o teu, o dele, o dela, deles, delas, dos outros, daqueles, e ainda mais.
De onde vem o medo?
Caminha de mão dada com a insegurança do indivíduo e isso é inegável.
Namoram, passam muito tempo juntos, diz até que se conhecem desde sempre, que nunca existiram em separado.
Se perguntar a alguém: “Diz-me, achas que o medo tem um papel relevante na vida do ser humano? Na tua vida?” tenho a certeza absoluta que a primeira expressão facial será rígida, dura, sofrida e apreensiva, os primeiros 2 segundos são essenciais, a partir daí, cada um irá pensar numa situação, possivelmente das mais recentes, em que sentiu medo, em que verdadeiramente teve medo de alguma coisa, e vai lembrar-se rapidamente, num milésimo de segundo, do que sentiu quando se amedrontou, quando esse medo o consumiu vivo, de dentro para fora. Em segundos qualquer me vai dar uma resposta sincera, os que fugirem à questão, vão fazê-lo com um sorriso, ou com respostas do tipo, “eu não tenho medo de nada nem de ninguém”, “o medo é uma cena que a mim não me assiste, ahahaha”(dois chapadões e ainda era pouco) e esses são os que verdadeiramente têm receio de falar sobre o medo, porque é grande e é muito feio e mau.
Como lidar com o medo?
Cada medo é um caso específico, clinicamente falando.
Os medos/fobias clássicos(as) de bichos, plantas, animais, sítios, sons, tipos de pessoas, paranóias, obsessões, são todos eles precedidos de medos e experiências iniciais, nossas, que nos tenham sido relatadas, oralmente, ou fruto de informação que nos tenha chegado por outras vias (televisão, internet, livros, etc. 
Porque é que termino uma frase com etc? Podia perfeitamente dizer, e não me lembro de mais possibilidades, mas não quero ser intelectualmente respeitado e por isso uso um etc. ‘Tá bonito, ’tá!
Tive medo, foi o que foi.
Sem segredo, o medo é delicado, merece atenção, luta, ajuda, precisa de ser combatido, de uma ou de outra ou de outra maneira, forma, com tácticas, regras, desafios, pensamentos, experiências, reflexões e sobretudo, conclusões.
“A chegada é apenas mais um ponto de partida”, humildemente citando uma empresa de transportes públicos, que tem esta enorme lona com esta frase por cima de duas meninas que são muito amiga, mesmo no centro do Porto.
É uma frase que atira para o pensamento e para a lembrança, pede coragem e bravura, pede luta e dedicação.
Dou por mim diante de situações em que tenho medo, tenho receio, de não ser capaz, de não conseguir, não outra vez, de não suportar, de não me apetecer, de não querer quando devia querer, de querer quando devia não querer, sobretudo de falhar, de querer muito alcançar e não conseguir alcançar, de querer segurar e deixar escapar, de querer muito e mais ainda e mesmo assim não chegar.
Se assim for, terei com que me ocupar.
Caso contrário, saberá bem deliciar-me com uma orgulhosa.
Porque quando se vence o medo tem-se todo o direito de celebrar, festejar e marcar essa vitória a ferros, outras lutas virão, depressa, bem depressa, para não te deixar baixar os braços.
Tens medo?
Compra um cão.
Sempre me disse isto a minha mãe. A minha santa mãe sabe tudo.
Compreende o medo, questiona-o, interpreta-o e analisa-o, sem medos.
O medo faz da alma refém, o medo toca sempre em alguém, terá medo quem para além de viver não tenha mais ninguém?