“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

“Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar”

O que vais ler aqui é uma história daquelas que todos nós temos e devemos ler. Seja quando for, seja onde for. Temos mesmo de ler isto.

Descobri-a através do Jorge Araújo, jornalista e editor da Revista E do Expresso. Depois fui conhecê-la mais ao pormenor no site da CNN e fiquei tão impressionado e comovido que tive de a partilhar contigo.

Pouco me importa que aches que isto é lamechas, piegas ou que não acrescenta nada à tua vida.
Se sentires uma destas 3 coisas, faz-me um favor: deixa de me seguir!

Não quero que sintas que a história que aqui te trago hoje te incomoda ou não te diz nada. Porque se é esse o caso, então não temos mesmo nada em comum.

Mas se dás valor à vida e acreditas que o planeta precisa de conhecer histórias assim para se inspirar e para ganhar força numa altura tão crítica, então fica por aí e lê o resto da história que o Jorge teve a brilhante ideia de nos contar.

“Para sempre é muito pouco tempo. A vida é um relâmpago, passa num instante. E o tempo não sabe esperar.

A história de Betty e Curtis é prova disso. Dois antigos colegas de liceu que se apaixonaram. Casaram, tiveram dois filhos e, durante 53 anos, caminharam juntos pela estrada da vida.

Betty, de oitenta anos, foi a primeira a ser apanhada nas malhas do coronavírus. Dois dias depois, Curtis seguiu-lhe os passos e foi internado no mesmo hospital do Texas.

As enfermeiras da Unidade de Cuidados Intensivos sabiam que, na matemática dos sentimentos, um e um nem sempre são dois. Betty e Curtis não sabiam viver um sem o outro.

Por isso, todos os dias, levavam Curtis para a unidade de Betty. Os dois nas nuvens. Como sempre. Para sempre. A vida e a esperança nas linhas da palma das mãos.

Amor é ficar sem chão e não ter medo de voar.

De repente, Betty partiu para o corredor da morte. Curtis nem precisou de ouvir a notícia para ver os seus níveis de oxigénio baixarem. Desistiu de viver.

Juntos na vida, juntos na morte.

“Assim que ele sentiu que a nossa mãe não iria aguentar, ficou em paz com a decisão de deixar de lutar”, contou um dos filhos à CNN.

Betty e Curtis morreram com menos de uma hora de diferença. De mãos dadas.

Há coisas que a morte não consegue matar.”

A força indestrutível de um amor absoluto

Há sim, Jorge. E esta tua frase é tão absoluta que dói.

O amor é uma força tão poderosa como as forças maiores da Natureza.

E se tu que estás a ler isto, nunca tiveste a sorte de sentir isso, ou se deixaste de acreditar que isso é possível, então só me resta lamentar a tua infelicidade.

O amor pode tudo e há amores que são à prova de tudo.

Vivemos um tempo de incerteza, de medo, de dúvida, de desconfiança e de terror psicológico.

Vimos o nosso mundo ser virado do avesso. Cobrimos a nossa boca e o nosso nariz, por se tratar da única forma de protecção que temos contra um inimigo que nem sequer conseguimos ver. Falamos hoje de um modo diferente. Deixámos de sorrir uns para os outros.

Claro que podemos continuar a sorrir com os olhos, mas… não é, de todo, a mesma coisa. Pois não?

Assim, quis partilhar isto contigo porque acredito que vale a pena. Acredito que vale a pena pensar na vida desta forma. Acredito que separar a vida pessoal da vida profissional é cada vez mais uma estupidez que não faz qualquer sentido. Somos um todo. Não temos caixas dentro do cérebro onde arrumamos as nossas diferentes personagens.

Caramba, se isto não servir de inspiração… o que é que pode servir?

A histórias aproximam os seres humanos desde que somos seres humanos.

As histórias vão continuar a ser o que nos une e… como diz o Rui Veloso, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.

Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Não devia ter mais de 15 anos quando o conheci.
Ele andava pelos 20.
Curioso como só no dia da sua morte me dei conta de que a diferença de idades entre nós era estupidamente curta.

Era curta, sim, mas dos 15 para os 20 ainda vai um salto razoável, quando se tem 15 e 20. Desde logo porque aos 20 um tipo já pode guiar e aos 15 anda de autocarro e à boleia, que já é bem bom.

(Caramba!! 20 anos que voaram e um texto que não quero, mas que tenho mesmo de escrever)

Quer dizer, não sei bem se ele ainda andava ou se já deslizava por eles (os 20 anos) fora com aquela graciosidade destemida tão própria dos heróis. Dos seres humanos ímpares. Das almas singulares que foram beijadas pela grandiosidade de espírito antes mesmo de conhecerem a luz dos dias, os olhos dos outros, e as vidas que hão de ter a felicidade de se cruzar com as suas.

Não eram sequer 7 da manhã quando soube que o perdi.
Soube e não quis ver.
Vi e não quis ler.
Li e não quis crer.
Deitei-me e não quis saber.
E pelo meio lembrei-me que há coisas que não conseguimos esquecer.
E o malfadado dia que Deus quis escolher…
Caramba! Haverá sequer limites para fazer alguém sofrer?

O João andava de mota. Andou até há algum tempo. Fazia snowboard. Caiu delas, das motas e das pranchas algumas vezes. Aleijou-se mas levantou-se sempre.
Numa dessas vezes veio mesmo com um braço partido de Espanha, sem o saber.
Tal era a fúria de viver.
Cara lavada, sorriso rasgado, aquele cabelo comprido que me fazia chamar-lhe Brad Pitt da Flamenga. Mais do que isso. Aquela forma de ser e de estar que me levou a que um dia lhe começasse a chamar tio. Sim, tio!

Chama(va)-se João Pedro. Tinha 40 anos. Partiu cedo. Incompreensivelmente cedo. Como? Da forma que Deus parece ter encontrado para nos dizer que já chega… que a vida não é só coisa boa.

Foi, também ele, vítima da doença do século.
O flagelo que tem trucidado famílias inteiras.
O cancro – já te disse que falarei sempre de ti com letra pequena, com o desdém muito próprio de quem já te conhece de ginjeira e se recusa a dar-te mais destaque do que isto – pois claro.

O Pintas – porque era assim que o conheciam e será sempre assim que haverá de ser lembrado – foi um dos meus heróis.
Não digo isto apenas porque ele morreu.
Escrevo-o porque tive a feliz felicidade de lhe poder dizer isto em vida.
E não era herói por ter lutado heroicamente com a monstruosidade que a vida lhe reservou – não meu cabrão, não vou repetir o teu nome novamente – ou por ter olhado para tudo isto com o olhar ímpio e único com que olhou. Nada disso.

Era herói porque teve e tinha tudo aquilo que a vida reserva somente aos heróis: carisma, atitude, loucura, bondade, altruísmo, benevolência, graça, espírito de aventura, bravura, simplicidade, clareza, capacidade de movimentar gente, de inspirar quem o ouvia, de cativar quem para ele olhava.

E depois ainda há… os cães. Cada um deles.
A Nicky. O Chico. Os dois. Vi-los deitados no chão no velório e no funeral. Prostrados. Serenos. Sossegados. Tristes. Cabisbaixos. Caramba. Foi duro. Foi muito duro.
Como foi duro saber que foram ao hospital para se despedirem do dono… Jesus.
Que violência atroz. Como é possível que isto, por si só, não seja suficiente para comover cada um de nós?

Tive a sorte de me tornar seu amigo.
Tive a fortuna de poder partilhar com ele variadíssimos e inesquecíveis momentos ao longo de quase 20 anos de amizade, espalhados um pouco por este país fora.

Tive igualmente a sorte de ver nele um exemplo e de pensar, pouco depois de o ter conhecido, “quem me dera ser como tu!”. E assim foi durante muito tempo. Quis ser como tu. Quis ver o mundo como tu vias. Conhecer quem conhecias. Fazer o que fazias. Até que rapidamente percebi que não tinha estofo para tal. Chamaste-me, certa vez, coninhas, e eu disse… tens razão.

Depois deste-me um cachaço e disseste-me que preferias 1000 vezes ser coninhas e ter dentro da cabeça aquilo que eu tenho.
Seja lá isso o que for. Nunca percebi bem o que vias de tão espectacular no interior do meu pensamento. Mas sei que gostavas, muito, mas mesmo muito de conversar comigo. De me ouvir explicar coisas, contar outras tantas e eu sentia o mesmo.

Ouvia-te, em silêncio, e observava-te, no teu modo tão único de contares as tuas incríveis histórias. Os gestos, as mãos e a forma como elas te ajudavam a descrever, a pormenorizar. A isso juntavas-lhe um olhar penetrante e desconcertante. Eras do caraças. Sabias? Eras mesmo do caraças.

Mal sabia eu e mal sabíamos nós que, 19 anos depois, mais concretamente no início de 2017 – altura em que soubemos concretamente o que se passava com o João (a certa altura passei a chamá-lo assim, pelo nome, porque as alcunhas, de certo modo, acabam por ser pouco para invocar o santo nome de um herói.

E o deste deve ler-se e escrever-se com reverência, com solenidade e com um respeito que não se entrega a muita gente ao longo de toda uma vida) – o heroísmo e a capacidade de tocar na vida dos outros sem que para isso tivesse que mexer um dedo que fosse, haveriam de se tornar absolutamente esmagadores.

Não vou maçar-te com recordações só minhas, com palavras vãs e vagas, com lamechices post mortem, nada disso.

Ai de mim que o fizesse, sabendo o quanto o meu amigo gostava de me ler e a frequência com que até há 1 ano me dizia: “Quem me dera ter essa cabeçorra e escrever como tu escreves. Tens um dom que não reconheço em mais ninguém. Espero que saibas isso e que o uses como deve ser“.

Ainda assim, fiz sempre questão de lhe pedir sempre autorização para escrever sobre ele, para publicar o que quer que fosse, e Deus sabe como me está a custar escrever isto… incomparavelmente muito mais do que me custou, há pouco mais de 1 ano, escrever isto… 

A dor que sentimos não nos deixa dormir direito;
A dor que sentimos insiste em pesar no peito;
A dor que sentimos e… Meu Deus… e o saber que não há nada a fazer, que não há volta a dar, que o mundo segue imparável e que só nos resta continuar, pela vida fora, a vida toda… mesmo que existam os dias em que só nos apetece gritar “QUE SE FODA!!”.

A dor que cada um de nós carrega e que o vizinho do lado desconhece;
A dor de se olhar nos olhos, de silenciar um abraço arrasado e de dizer: desaparece!
A dor desmedida da mãe, a dor incompreensível do pai, a dor da irmã, dos tios, dos primos… dos amigos distantes e dos mais próximos… a dor da Susana… ser humano de um tamanho 1000 vezes maior que o tamanho da sua altura, que por si só já tem uma altura considerável.

Um ser humano tão maior que o amor que (nem sempre) tudo cura.
Uma mulher impressionante que impressiona quando nos fala com os olhos, antes de mesmo de nos dizer o que quer que seja. Uma mulher que nos abraça lavada em lágrimas e que, mesmo não querendo, nos confronta com aquilo que a vida tem de mais certo… a morte de alguém que amamos. Que ela amava. Muito.

Porque só alguém que ama muito outro alguém consegue caminhar de mãos dadas rumo à desgraça e não vacilar. Não tremer. Não desistir. Não o abandonar. Mesmo quando a sentença está lida e a sorte traçada. Ahhh mulher do caraças! Tenho uma assim em casa. Sei a sorte que se tem. E ele teve muita sorte em poder tê-la a seu lado nestes quase 2 anos de falta dela.

Claro que todos morremos um dia. É uma verdade inatacável. Um dado adquirido. Uma certeza.

Mas essa certeza não nos minimiza nada. Não relativiza coisíssima nenhuma.
Bem pelo contrário. Nada nos consegue fazer esquecer a ideia que temos de que somos, com toda a certeza, novos de mais para estarmos já tão cansados de perder e enterrar amigos.

Não fizemos nada para merecer esta pesada sentença, esta condenação imponderada e desmedida. Nada. Somos um bando de boa gente. De coração bom. De amizades longas, maiores e mais fortes que muitos casamentos.

Amizades que começaram lá longe, no tempo em que a amizade se forjava com a pureza inequívoca do sangue nos joelhos, arranhões nos braços, bolas furadas, berlindes, cabanas e estaladonas que ferviam. Canhões e mais canhões. Bebedeiras do tamanho de camiões. Somos isto e muito mais. Em bom. E não. Não merecemos o que a vida nos reserva. Não merecemos ter heróis que nos são roubados cedo de mais.

Merecemos a felicidade de nos vermos envelhecer. A alegria de nos vermos crescer, esquecendo e ignorando o facto de que um dia, todos nós, sem qualquer excepção, haveremos de morrer.

Diz o Palma que enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar… não se lembrou foi de nos dizer que pelo caminho há buracos, estradas cortadas, incêndios, vidas queimadas e tristezas tamanhas que fazem com que a estrada se entorte e se torne, em certas alturas do caminho, impossível de ser atravessada.

É seguir com a vida como a queremos. Tentar ter o que não tivémos, sem deixar de ser quem somos. E dizer o que pensamos. Abraçar quem amamos. Recordar quem conhecemos. Cuidar dos + pequenos para que um dia cuidem eles de nós.

E agora, João? O que fazemos para ouvir a tua voz? Nada. Nada a não ser recordar.

Acredito pouco na história do que há depois da morte. Aliás, acredito cada vez mais que morremos e pronto. Assim ficamos. Mortos. Inexistentes. Remetidos a lembranças nas cabeças de quem se lembra. E cada vez nos vamos lembrando menos. Porque a vida não perdoa um segundo a quem vive e quer sempre viver mais e melhor.

Sabias viver como poucos. Gostava da vida como quase nenhum. E é exactamente isso que guardo de ti. A paixão pela vida. A paixão pelo viver. O amor incondicional pela praia, pelo sol, pela natureza, pelos amigos, pela família.

Obrigado, João. Muito obrigado. Por estes 20 anos. Pela tua vida. Por tudo.
Garanto-te que não viveste em vão. Sei que não sou o único a achar que não.
Tenho a certeza.

A dor… a dor dói no coração. Na alma. No medo de esquecer. No medo de não ser capaz de lembrar quando um dia a memória falhar.
Porra, que este texto está a ser tão difícil de acabar.
Os dedos insistem em bater nas teclas. Parecem ter, também eles, uma vontade inexplicável de continuar e tu, e tu aí, ali, aqui, onde quer que estejas, onde quer que te vejas.

Dei-te um beijo na testa e tu, sempre com o amor na ponta da língua, disseste-me que desse beijinhos às meninas. Caramba. Nem assim. Nem ali. És incrível. És demais. És irrepetível. Não consigo escrever mais.

A incomparável arrogância da morte

A incomparável arrogância da morte

Tinha umas mãos que impressionavam pela história que tinham e que contavam quando se mexiam. A morte encarregou-se de, arrogantemente, as levar e as impedir de fazer o que quer que fosse. E como é arrogante a morte quando decide seguir a sua vontade sem olhar a meios ou a fins. Sendo tudo justificável em nome do seu superior desígnio.

E aquelas mãos que nunca morreram. Independentes. Seguras. Decididas. Firmes. Mãos que sabiam o que faziam. Mãos que não tremiam. Mãos que escreviam. Criavam. Contavam. Estudavam. Aprofundavam e conheciam bem os desígnios do seu dono.

Depois, às mãos, acompanhavam-no os olhos, a capela, e regra geral apresentavam-se se igualmente seguros de toda a sua existência.

Olhos que marejavam e raramente choravam. Olhos que nos penetravam o olhar e nos iam remexer nos cantos mais recônditos do pensar.

Era um sem fim de conversas sérias. De histórias da imensidão de uma vida pintada de fresco pela vontade furiosa de contrariar a sorte que o destino lhe parecia querer impor. Assim fez. Assim lutou toda uma vida contra aquilo que a vida lhe queria dar como vida. Viveu. Fez viver. Teve 10 filhos. Viu morrer dois. E fez. Se fez.
Fez e hoje, hoje fazia 91 anos. E eu faria o telefonema habitual.

Olá, avô. Como está? É o Martim. Sim. Era só para lhe deixar um grande beijinho de parabéns e desejar um resto de dia muito bom.

Não era preciso mais do que isto. Chegava perfeitamente.

Mário.

Assim se chamava este “enorme” ser humano que continua a povoar a minha mente de recordações e exemplos que ele nunca sonhou ser.

Parabéns, avô. Muitos parabéns.

Não se foge à morte de sapatilhas e cordões por apertar.

Não se foge à vida de mãos dadas com o rancor.

O espaço que o amor ocupa na nossa existência é tantas vezes descurado e ignorado, quando devia ser dele o Espaço todo.

A morte encarrega-se de nos mostrar que a vida tem fim mas que o amor, esse, esse pode durar para sempre.

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

São 7h55 minutos da manhã desta segunda-feira. Sinto o telefone a vibrar dentro do bolso. Sei o que é. Pela hora inusitada da mesma sei de antemão o conteúdo da mensagem e adivinho-lhe também o remetente.

“Morreu. Já não acordou esta manhã. É isso que vou ler. Tenho a certeza.
Tiro o telefone do bolso, abrando, ponho o pisca para a direita, saio da A5, viro em direcção ao Estádio Nacional, para seguir para Laveiras.

Mudo o telefone de mão e de seguida vou poisá-lo em cima da mochila. Dou-lhe uma espreitadela, rápida… sim, vinha a conduzir, mas a força do momento assim obrigava. Olho para o telefone que já se acendeu e que me mostra a seguinte mensagem: “Desculpa estar a dar esta má notícia, mas o Ricardo já não acordou esta manhã”

É um torpor imediato. Uma tristeza que desfaz a secura de uns olhos ainda desavergonhadamente ensonados para os encher rapidamente de lágrimas que correm direitinhas pela cara abaixo. Tento acalmar-me porque ainda preciso de guiar até ao trabalho. Lá consigo, pois claro. Chego. Subo. Abro a porta. Vou à casa de banho enxugar os olhos e olhar para mim mesmo antes de me ir sentar a trabalhar. É estranha a interpretação que temos de nós no dia em que nos morre alguém.

Ligo as coisas e não aguento muito tempo. Tenho de ir lá fora. Respirar. Falar. Perguntar coisas a Deus que vão ficar, como ficam sempre, sem resposta. É demasiado cruel.
É avassalador. Dói. Dói demais Imaginar a dor de um amigo tão querido. Tão doce. Tão meigo. A dor da família. A dor da Marta.

O Ricardo foi sempre um dos melhores de nós. Foi. Não é por ter morrido que escrevo isto. É porque foi mesmo.

Puro. Impoluto. Doce. Amigo. Alegre. Sorridente. Sorridente até mesmo quando ficava sério. Quando se zangava. Quando perdia ou quando não ganhava. Na meninice fizemos muito. Fizemos tanto. Rimos. Corremos. Fugimos. Fomos apanhados. Partimos vidros. Fomos ameaçados e insultados. Insultámos e fugimos. Fomos ao Pão por Deus.
Molhámos centenas de pessoas com balões de água. Fizemos corridas. Jogámos ao berlinde. Jogámos à bola. Jogámos à lata. Jogámos ténis. Vimos filmes. Dezenas e dezenas de filmes, VHS, lá em casa. Fazíamos sessões de cinema. Não sabíamos o que fazer com tanto Verão. E os anos eram de algodão. Leves. Pareciam eternos. Todos. E depois lá chegava o Outono e o Inverno. E nós ali. Onde podíamos.

Mas essas férias de Verão prometiam sempre durar para sempre.
As noites na rua. As tardes na rua. As manhãs na rua. A rua. As manhãs nela, as tardes dela e as noites como uma flor na lapela.

A Flamenga. O nosso bairro. O bairro que nos viu crescer. O bairro que nos viu passar da meninice atrevida para a adolescência que primeiro se quis tímida para depois, sem vergonha, caminhar apressadamente para a maioridade. Aí. Nesse estado em que os caminhos se separam. Onde as amizades se esfriam. Onde as escolhas nos definem.
Ali. No bairro que nos trata por tu, que nos faz festas na cabeça, que nos conhece os pais e os filhos, e que já viu partir alguns dos seus melhores elementos. Ainda há pouco tempo lá foi o Walter, lembram-se?

Não há receita que nos proteja deste flagelo. Não há forma de prever que uma barbaridade destas vai acontecer. Sim, claro que podemos comer melhor. Dormir mais. Fazer desporto. Ser mais saudáveis. Andar a pé. Contemplar a natureza e… caramba, pá! E quem faz isso tudo e acaba por morrer na mesma?

Ver morrer um amigo é um pesadelo que, infelizmente, todos nós temos de (re)viver uma e outra e outra vez. Vezes demais. Começam a ser vezes demais para gente tão nova. Tenho 34 anos e estou cansado de enterrar pessoas de quem tanto gosto às mãos do cancro. Sim. Em minúsculas. Não merece mais. Não mereces mais. Sabes bem que não mereces porra nenhuma, sua besta!

Já tu, meu amigo, tu… que lutaste com tudo o que tinhas. Que acreditaste na felicidade milagrosa de um milagre que acabou por não chegar para te salvar. Um milagre que não podia ter chegado. Um milagre que a falibilidade do nosso corpo não permitiu que chegasse. Nem tinha como permitir. É esta, hoje e sempre, uma luta desigual. Não chega sequer a ser uma luta. ele controla o processo por completo.

Ninguém merece esta doença, mas tu és, tu eras, tu foste, tu és… que confusão! Foda-se, que puta de confusão que prá’qui vai. Tu merecias muito mais do que isto. E aqueles que te amam mereciam-te para a eternidade. Que tremenda injustiça, Ricardo. Que tremenda injustiça!

Há nos amigos de infância qualquer coisa de poético o suficiente para fazer de nós pessoas felizes durante toda uma vida. Apercebi-me disto, mais uma vez, nestes últimos dias, perante a crónica da morte anunciada do meu querido Ricardo. A quantidade de memórias que temos com estes amigos que nunca esquecemos é de tal forma esmagadora, que torna impossível que não sorríamos de imediato quando nos vemos no café, no talho ou na merceeria, ou quando nos lembramos desta ou daquela ou da outra história. E são tantas. Às dezenas. Centenas. Impossíveis de esquecer.

Isto deixa em nós uma tremenda e inquestionável certeza: gostemos ou não, estas são as únicas pessoas na vida que dificilmente esquecemos. Atrevo-me a dizer que é praticamente impossível. Passem os anos que passarem. Vivamos a vida que vivermos.

Os amigos de infância não se esquecem, por uma razão muito simples: são as pessoas mais importantes da nossa vida na fase mais importante da nossa vida, e ainda para mais são, quase sempre, escolhidos pelo que de mais puro temos dentro de nós. Ou gostamos deles ou não. Ponto. Não há cá espaço para merdas. 

Dei-lhe 1 beijo na testa à chegada e fiz o mesmo quando me vim embora.
Soube, ali mesmo, naquele olhar que foi só nosso, naqueles segundos de encontro dos teus olhos nos meus, soube, precisamente ali, naquela troca espontânea de mimos e amizade regada com um “gosto mt de ti, meu amigo.”, que nos estávamos a despedir. Escrevo a vermelho, pelo teu Benfica. Por todas as discussões que tivemos à conta do Porto e do Benfica. Caramba. Que vida. Que VIDA!

E foi assim que dissémos adeus um ao outro. Ali. Naquele quarto em StªMaria.
E soube também, pelos teus olhos, os mesmos que conheci durante 25 anos, que estavas com medo. Com muito medo. Aterrado. Aquele medo que todos temos mas que só alguns são capazes de enfrentar. O medo de morrer. Mesmo que seja por obrigação. Foste obrigado a morrer e isso… isso é imperdoável, puta de doença.

(Não tens vergonha de continuar a destruir vidas e famílias inteiras à conta dos teus caprichos? Bardamerda para isto tudo!)

Foste insuperável. Foste incrível. Foste um herói, meu querido. Foste um herói na forma como enfrentaste e tentaste dobrar o destino à força da tua força e alegria de viver. Perdeste a batalha física. Ganhaste a batalha mais importante. Mostraste-nos como é que se enfrenta uma coisa destas sem nunca fraquejar. Acreditando sempre que é possível. Que ainda há prolongamento e penálties.
Que inspiração. Que força. Que querer. Que Rei.

Dei-te um beijo na testa e vi, dentro dos teus olhos, com a meiguice que sempre neles viveu quando quem olhou para mim, pela última vez, com os olhos carregados de medo antes de me dizer: “Gosto muito de ti, amigo. Estava com o João. E ele disse-nos: “Gosto muito de vocês, meus amigos.”

Estavas a comer Nestum quando entrámos e, espreitando pelo canto do olho, nos viste. “Está a saber-me pela vida, meus amigos! Vocês nem imaginam, está mesmo a saber-me pela vida! (…) Obrigado por terem vindo.”

Obrigado eu, Ricardo. Obrigado eu.

Foi assim a tua vida. Doce. De Mel. Como o teu Nestum.
Tenho para mim que naquela taça estava todo o amor do teu mundo e de todos os que te queriam e querem bem.

Foi assim. Foi assim que a Flamenga te perdeu. Foi assim que o mundo te perdeu.

Quanto a nós,  vamos guardar-te para sempre, Ricardo. Para sempre. 

Até já, campeão!

O Walter morreu. E com ele foi parte da bondade do mundo

O Walter morreu. E com ele foi parte da bondade do mundo

Antes de falar do Walter. Deixem-me falar-vos um pouco da Flamenga.
A Flamenga é um bairro, um lugar, nem sequer ao menos é uma freguesia. Mas desengane-se quem julga que isso a demove.
A Flamenga tem pessoas do caraças e o Walter era uma das suas estrelas maiores. Deixou-nos e com ele levou, de facto, parte da bondade do mundo.

A Flamenga, para aqueles que a conhecem e que lá tiveram a sorte e felicidade de crescer é muito mais do que isso. Atrevo-me a dizer que a Flamenga é o centro do mundo. Pelo menos do nosso. Mais para uns do que para outros, na medida em que cada homem sente coisas diferentes relativamente a uma mesma coisa, neste caso, a um mesmo lugar. Contudo, da Flamenga guardamos sempre uma coisa que se sobrepõe a tudo o resto. O sentimento de comunidade, de família, de pertença. E isto, naturalmente que é também diferente para cada um de nós, os que lá crescemos. Porquê? Porque, tal como em cada uma das nossas famílias, a Flamenga é feita de pessoas, todas elas únicas na sua autenticidade, todas elas especiais na sua singularidade, mas sobretudo isto, todas elas unidas pelas memórias transversais que temos daquele sítio, daquele bairro, daquele lugar, do centro do nosso mundo.

A Flamenga é, como qualquer outro lugar, feita de pessoas e são essas pessoas – que se fizeram gente em conjunto – que determinam a natureza das ligações que as unem. Certo é que todos nós, esta geração do final dos anos 70 e dos anos 80 do século passado, fomos sendo trazidos até essa condição de gente pelos mais velhos, por todos aqueles que, não sendo da nossa família de casa, olharam para nós e por nós, sabendo que estavam ali os futuros homens daquele bairro. Que estava ali a alegria da amizade e da partilha. Tudo isto no saudoso e já distante tempo em que crescíamos e brincávamos na rua, sendo as únicas pausas permitidas e consentidas aquelas que se destinavam ao propósito único de nos matar a fome e dar energias para continuarmos a brincar. Ninguém se metia connosco. Metíamo-nos nós uns com os outros e eles, os homens, olhavam sempre para nós pelo canto do olho, ligando sem ligar muito. Davam-nos aquela sensação de estarmos sempre seguros. Sempre.

O Walter foi, sem qualquer sombra de dúvida, um dos homens mais queridos e doces que a Flamenga alguma vez conheceu. Que eu alguma vez conheci. E certo é que nunca lhe conheci, em todos estes anos, um conflito, uma animosidade, uma falha grave, uma resposta errada, um gesto feio, um maldade. Nada! Nunca lhe ouvi uma palavra amarga, um gesto rude, uma desconsideração um destratamento, gritos ou coisa parecida. E caramba, se há coisa que dele guardo é aquele sorriso enorme e rasgado, que contrastava em tudo com a imagem que dá a cor possível a este amontoado de palavras que procuram desesperadamente ter algum sentido, quando o que sinto é que é impossível dar sentido a coisas que não têm sentido nenhum.

Guardo dele imagens recentes que me enchiam de esperança num mundo melhor. O Walter tinha o lindo hábito de se comover com as crianças. Com os filhos dos amigos. Tinha sempre a candura e deliciosa atenção de oferecer sempre um presente aos pequenotes, daqueles das máquinas dos cafés. Com uma alegria e um brilho no olhar que merecem ser eternamente recordados.

A morte de pessoas como o Walter nunca faz sentido. Não pode fazer sentido. Não tem como fazer sentido. É despropositado e dele desprovido. Absurdo. Abjecto. Incompreensível. Inaceitável. Estúpido. Inatingível. Inqualificável. Irreal. Inqualificavelmente estúpido e estupidamente inqualificável. Uma merda que não se explica nem se discute. Lamenta-se.

É um dos grandes pecados da morte. A ausência de explicação possível para a mesma. É assim. Sabemos bem que um dia chegará a nossa vez, mas é e continuará a ser sempre uma merda. Dói e continuará sempre a doer. O tempo não tem força para apagar a dor da morte. Seja lá onde for que as pessoas estejam a viver.

Podemos regressar mais ou menos vezes ao local onde crescemos.
Podemos passar mais ou menos tempo com as pessoas ao lado de quem nos fizemos, também nós, pessoas. Mas se há coisa que não podemos, de forma alguma, é ignorar a dor de uma terra que nos viu crescer e chegar ao sítio onde hoje estamos, cada um de nós. Porque sim, caríssimos, a terra também chora e a Flamenga vive desolada por estes dias. Levantar-se-á, pois claro, como sempre o fez. Mas caminhará manca durante muito tempo.

Até sempre, Walter. Ficas para sempre na memória de toda a gente que teve a sorte de te conhecer.