A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

Cartas da Palestina – Também tu?

Cartas da Palestina – Também tu?

(…)

Os dias que se seguiram ao envio da primeira carta de Mounir foram aterradores para quem vive na faixa de Gaza e efectivamente não tem mais sítio para onde ir. Tudo o que se assoma por diante dos olhos dos ridiculamente pequenos territórios da Palestina é Israel e a sudoeste é Egipto (País de origem de Arafat). Importa não permitir que nos esqueçamos que estamos a falar de um Estado (dividido em 2 partes fisicamente afastadas) juridicamente equivalente ao Vaticano, assim reconhecido pela esmagadora maioria dos países membros da ONU em 2012, Portugal inclusive.
As informações que chegam de quem está no terreno apontam para mais de 1500 mortes do “lado palestiniano”, das quais me atrevo a afirmar que 80 ou 90 por cento são, por certo, civis, gente que nada tem a ver com todo este jogo de “mija mais longe” indesmentivelmente desmedido entre Israel e… o Hamas.
E aqui há algo que me parece evidente e que devia ser o ponto de partida para a grande maioria das análises que se fazem no sofá, na cadeira da esplanada, na mesa do escritório, ou seja lá onde for; uma coisa é o Hamas e os seus braços e pernas armados, repletos de extremistas (muitos deles de outros países árabes que também não reconhecem o Estado de Israel) que se alimentam de lançamentos de rockets, que os escondem em escolas, em mesquitas, em hospitais, em pátios de casas de famílias, que fazem escudo do próprio povo e que, também eles, matam de forma indiscriminada, civis que nada têm que ver com o exército israelita; outra coisa completamente diferente é o povo palestiniano, subjugado à força deste extremismo terrorista (em metade do território palestiniano, ou mais…).

bomba

Meus senhores, não serão nem mais nem menos, nem tão pouco melhores ou piores do que ninguém por reconhecerem este mesmo facto, por reconhecerem que a (des)proporção com que as mortes se vão somando de um lado e de outro da mesa é totalmente assimétrica e desigual e, passe a redundância desavergonhadamente assumida, desproporcional, porque o é.

É também fantástico ver como se pode fazer da guerra, de um sem fim de mortes em catadupa, uma coisa pura e ordinariamente matemática. Uma coisa simples e sobretudo simplificada pela distância a que as televisões, os jornais e todo o tipo de ecrãs onde hoje vemos as notícias nos remetem.
De resto, talvez seja mesmo essa a única forma de não nos importarmos sequer com toda a merda que acontece naquela terra.

Na verdade, os números são o medidor oficial e por excelência simpática da gravidade das guerras recentes. Pelo menos para quem está longe das mesmas e apenas sabe delas através de imagens mostradas na televisão, servidas à pressão com um texto tantas vezes escrito quase a correr, num esforço para pelo menos destacar numa narração séria e fidedigna os números que são “avançados” por quem lá está, por quem consegue estóica e condecoravelmente realizar a tarefa de apurar e conferir informação num cenário de rebentamentos, explosões, trocas de tiros, corpos mutilados, esmagados, despedaçados, aos caídos no que resta das ruas que aos poucos vão perdendo a forma e deixando de o ser para serem agora empilhados de entulho. E chora-se. E grita-se, um pouco por toda a parte. E depois há ainda o gemido surdo da terra que chora em vão… um choro pachorrento sai das pedras e dos montes que estas formam, que ainda bem há pouco eram casas adultas e viçosas, e sobretudo de pé como devem estar os homens e as casas. Agora velam-se umas às outras e choram desconsoladas por mais não serem  do que tão somente montes de pedras encarquilhadas e funestas.

Esses homens e mulheres que o fazem, que lá andam à procura de informação, não sabem, mas com os dados que nos fazem chegar são os principais causadores de discussões, de controvérsias, de trocas de opiniões, de debates acesos, de incompreensões e consensos naqueles que ainda se dão ao trabalho de falar sobre isto, de pensar em tudo isto, de sentir que este mundo está a atravessar dias cada vez mais escuros, de pensar que de facto a maldade e a ganância do homem são grandezas quase absolutas que não conhecem limites.
Quem lá anda tenta dar expressão a tudo o que vai  sentindo, sabendo, conhecendo, presenciando, ouvindo e observando… para contar aos que cá ficam e esperam, sem grande ponta de preocupação ou de interesse mas com vastíssima curiosidade opinativa. Porque é essa a missão. É esse o dever. É matemática. É vontade. É uma luta pessoal. Uma escolha. Com riscos. Mas é sempre uma escolha e eles… escolhem.

palestin

 Ora isto são 1500 + 70 + 135 + civis + fogo cruzado!  é preciso cuidado! diz o senhor presidente daquele  país que manda o exército invadir e semear a morte  por (quase) tudo o quanto é lado… Ah pois que  ele(s) sabe(m) bem onde é que não pode(m) meter o  bedelho. É tudo matemática. Até quando partes um  espelho.

 Crianças. São as mortes das crianças as que me  corroem as vísceras, que me rasgam o pensamento.  As crianças são a esperança que resta a este planeta  doente de que de facto tudo pode ainda vir a ser  diferente. As que não morrem, crescem com a  morte bordada na pele, na roupa que veste, na  comida que comem, nos livros que lêem, nos jogos  que fazem.

É impossível não se crescer com desejo de vingança quando nos dizimam a família, os amigos, os vizinhos. Quando nos rebentam com as escolas, com os hospitais, com as mercearias e tudo o mais.

E se fossem vocês? Se esta fosse a vossa vida, como seria?
Já deram a vós mesmos 1 minuto que seja para pensar nisso? Somos animais e somos instintivos e protectores dos nossos, como são todos os animais deste planeta agraciado com a existência de vida… animal.
Pensem por um momento que era aí, na vossa rua, no vosso bairro, na vossa aldeia, na vossa vila, na vossa cidade.
Pensem. Quanto mais não seja para… não ser como é sempre, para não acharem que não têm nada a ver com isso, que é na Palestina, que é em Israel e… azar o deles, que se amanhem e se resolvam e sobretudo, que não sobre nada cá para o meu lado.
Por uma vez (perdoem-me aqueles que já o fazem) tentem de facto fechar os olhos, olhem que não vos toma muito tempo, uns minutos bastam para tentarem imaginar a vossa realidade, o vosso quotidiano, o vosso mundo a ser devastado diária e ciclicamente desta forma atroz e inexplicável. Até que um dia… Pum! Matam-vos a mulher, a mãe, o pai, a amiga, a filha, o filho, a neta, o neto, sei lá mais quem! A vocês. Aos vossos amigos. Aos vizinhos. Não é na televisão é mesmo ali, aí, no prédio, na rua, no bairro, na vila, na cidade.

FOTO: LEFTERIS PITARAKIS/ASSOCIATED PRESS
FOTO: LEFTERIS PITARAKIS/ASSOCIATED PRESS

 Até o cheiro é familiar, é o sangue do nosso  sangue, são as lágrimas dos que amamos, são as  roupas que lhes conhecemos que agora se  despojam no chão empoeirado, rasgadas,  esventradas e empapadas do sangue do nosso  sangue. E agora? E agora?! Olhem nos olhos de  quem amam e pensem… e se fosses tu? E se  amanhã nos bombardeassem a rua, o que  fazíamos? Temos medo de morrer e pouco ou  nada disto nos atormenta, como será viver  assim? Adormecer abraçado à morte e não      saber se amanhã se dorme ou sequer se se volta    a acordar.
E a chuva lá fora vai chovendo como é, de resto, seu dever. Devagar, devagarinho, lânguida e funerária, como o sangue que escorre pelas ruas de Gaza, de Rafa, por vezes de Tel Aviv e de Ramallah.

Sangue por toda a  parte. E o cheiro que dele emana ao fim de uns dias a coalhar pelas esquinas desfeitas, pelos cantos desencantados, pelos diferentes e variados amontoados de escombros, esse cheiro que se entranha na pele, que viaja à boleia no pó que do chão se ergue caprichosamente para nos cobrir da cabeça aos pés, para se barricar no interior das narinas durante dias e dias a fio. O cheiro a podre e a morte. E nos olhos? Nos olhos corre desenfreado um rio mortiço e conformado que carrega nas costas todos os seus afluentes e faz desaguar neles uma tempestade de lágrimas impossível de suster. São feridas que não podem ser estancadas com a velocidade que o mundo pede. São olhos de dor. De raiva. De medo. De alegria. De vida. De crença. De quem só quer sair dali e voltar a casa, poder voltar a ser homem, a usar os olhos para olhar bem dentro, lá no fundo dos olhos da mulher, lá onde ela arruma a alma diariamente; quer olhar os filhos e abraçá-los, dizer-lhes que os ama enquanto os volta a olhar ainda de sacola no ombro, acabado de chegar de mais um dia de trabalho. Tem a guerra múltiplos capítulos, sem ordem, mas com vidas dentro… e com vidas que mete fora… ou dentro… depende sempre da perspectiva.

“Olá outra vez.
Como não respondeste resolvi escrever-te novamente até porque não me resta praticamente mais ninguém com quem falar.
Passaram-se muitas coisas feias desde o dia em que entreguei a carta anterior à minha professora até… agora, aqui, sentado em cima daquilo que costumava ser a casa do M. Fallah e da sua família. A escrever com um lápis numas folhas que tinha dobradas no bolso. Disse que esta costumava ser a casa do M. Fallah porque ela está completamente destruída. Há 2 dias, num dos bombardeamentos que Israel fez naquela noite, a casa do Fallah, que é, era mesmo em frente à minha, foi atingida por uma bomba enorme, maior do que eu, e olha que não sou nenhum pequenote. Era tão grande e tão exageradamente forte que não só rebentou com a casa dele como destruiu mais 3 que estavam ao lado e atrás. Morreram todos. Morreu o Fallah, os irmãos, os pais e a avó que vivia com eles. Acordou o bairro inteiro com a violência da explosão. Eles não dormiam no bunker. O pai dele recusava-se. Dizia que homem nenhum pode ter medo de dormir na sua cama, no seu quarto, ao lado da sua mulher. E olha o que lhe aconteceu.

O Fallah nunca fez mal a nenhum israelita. Nunca falou mal sequer mal deles. Era o tipo mais calmo que eu conhecia. Só queria brincar. Não se zangava. Não se irritava. Não se chateava. SÓ QUERIA BRINCAR E SER FELIZ!! Porque é que o mataram? Porquê? Porque é que Alá, Deus, Maomé, ou seja lá quem for permitem que isto aconteça, aqui? Todos os dias morre alguém. Tenho as mãos cobertas de sangue que não é meu. Sangue seco e grosso e escuro.
Perdi todos os meus amigos. Perdi a minha escola. Perdi o campo de futebol. Tenho a camisola do Ronaldu vestida há uma semana. Não tenho mais roupa.

FOTO: AFP - Mohammed Abed
FOTO: AFP – Mohammed Abed

O meu melhor amigo. Juntos aprendemos a andar, a comer, a falar, a jogar à bola, a andar de bicicleta, a pescar, a nadar, tudo. Não é justo. NÃO É JUSTO!!! E eu a dormir no bunker.

Recordo poucas coisas desse dia. Lembro-me sobretudo que era bem cedo quando comecei a ouvir o choro dos meus pais.
Levantei-me para ir ver o que se passava e fiquei parado à porta de casa. À minha frente só havia um gigantesco monte de entulho, de pedras, chapas, paus, ferros, roupas, sapatos, pneus e junto à janela pequena, azul e mal pintada, que ficava do lado direito da porta da rua, e que era a janela do quarto dos rapazes, nesse sítio, estava o Fallah, com metade do corpo tapado por umas pedras e com as pernas limpinhas de fora, sem um arranhão.
Puxei-o, gritei, chamei-o, mas ele não se mexia.
Depois os meus pais puxaram-me para casa e não me lembro de muito mais. Há dois dias que só ouço gritos e tiros e explosões e choro e depois dos tiros o silêncio e chora a rua e cheira mal em todo o lado.
Cheira a morte em todo o lado. As ruas já não são ruas, são caminhos estranhos e perigosos.
Foi muito triste. É muito triste. É horrível!! Não quero viver assim. Não quero estar aqui. Não tenho amigos.

Vou andando até casa da professora para ainda voltar antes de ficar escuro. Não sei como vou lá chegar nem sequer sei se ela lá está. Ficámos sem telefone por isso não consigo telefonar para casa da professora, tenho de ir a pé…
Vou ver se a minha mãe me deixa lá ir…
Grrr… não me quer deixar sair. Mas eu vou na mesma. Vou pela janela, não custa nada. Depois conto-te como é que faço isto… Vou ali chamar o… Não posso. Ele morreu…

Vou entregar a carta à professora.
Adeus e espero que desta vez respondas.
Peço-te que digas qualquer coisa por favor… peço-te que não sejas igual à grande parte do mundo que não quer saber de nós. Que tem muita pena mas… não faz nada. Tu podes fazer alguma coisa.
Não tenho mais ninguém com quem falar. E tu? Também és igual aos outros?
Um abraço,

M.”

Continua (…)

Cartas da Palestina – Apresentação

Cartas da Palestina – Apresentação

(…)

Mounir tem de começar cedo a escrever, que ao final da tarde já a luz se foi e a electricidade, essa, essa partiu de malas aviadas há já uns bons meses. Por isso, a vida transfigura-se neste recanto atormentado da Terra depois de o sol lavar a cara e ir à sua vida e de o mundo reduzir consideravelmente o seu tamanho, isto, no colete de forças do planeta. Contudo, nas últimas duas semanas, a tensão aumentou e com ela, o número de mortes, de mão dada. A morte e a falta de sorte.

As dúvidas do petiz são incontáveis, não sabe sequer como e por onde há-de começar. Sente um nervoso miudinho daqueles que empurra violentamente a barriga contra o fundo das costas, que desarranja por completo a flora intestinal. Mounir está agora emerso numa multiplicidade de pensamentos que o assustam, mas ainda assim, consegue ter a leveza de espírito suficiente para perceber que o que verdadeiramente o atemoriza é, tão somente, o receio de fazer alguma coisa mal, de escrever e não dizer nada de jeito. Lá fora continuam as mortes e os rebentamentos. Concentra-te no que queres verdadeiramente fazer Mounir.

Ora, passado que fica o susto inicial, lá se consegue acalmar e reunir um conjunto de pensamentos que lhe permitem, minutos depois, ter mais ou menos uma ideia do que vai começar por dizer. A professora conseguiu arranjar-lhe, a ele em particular, um email directo de um amigo, que tem um filho da mesma idade de Mounir, mas do qual ela nem o nome sabe, mas ainda assim, resolve que vai retomar o contacto com o Português, para lhe enviar as cartas de Mounir. Prometeu-lhe isto mesmo, quando o encontrou numa destas manhãs, junto à padaria e lhe perguntou pelo trabalho das férias, se já tinha pensado em alguma coisa. Ele, radiante, pediu-lhe que lhe arranjasse maneira de ele poder escrever cartas em vez de apenas uma carta, para ser entregue quando regressassem às aulas (sabe Deus quando, onde e se alguma vez vão voltar a ter aulas).

foto: reuters
foto: reuters

A professora comoveu-se e encheu-se de orgulho e tristeza, numa rebelião de sentimentos simultâneos e inadvertidos, que a levaram a deixar-se cair num choro pueril e a sentir-se alegremente obrigada a dar um beijo maternal na face direita e arranhada (estilhaços de uma explosão) de Mounir.

– Sim senhor, tu é que mandas! Tens dois dias para escrever a primeira carta. Pode ser?
– Aaaa… Sim! Claro que sim. Daqui por 2 dias venho ter consigo aqui ao Mercado, se as bombas estiverem a rebentar lá em cima. Combinado?
– Combinado. 10h30?

A professora tinha o email de um amigo do Facebook que é Português, não sabe sequer de onde, não se lembra tão pouco do seu nome. Num pequeno bloco tem apenas escrito: Português – amigo (Erasmus), e o respectivo email que se apressa a dar ao pequeno. Felizes, despedem-se. Ela baixa a cabeça e de pronto se lhe encharcam copiosamente os olhos num choro de felicidade misturado com pavor. Ela sabe o que se passa e sobretudo, não sabe se vai voltar a vê-lo.

– Sim. 10h30. Adeus!! – E saiu a correr, tão depressa e brilhante quanto estava quando entrou e encontrou a professora. Partiu a grande velocidade a caminho do bunker. Afinal de contas, tinha tido uma ideia e não queria esquecer-se dela.
– Vou contar-lhe como são os dias aqui, pensou em voz alta e ofegante; como são as nossas brincadeiras, como é a nossa comida, como é mergulhar no Mediterrâneo e depois também vou querer saber o que se sente quando se mergulha num oceano. Sim, isso mesmo. Vou apontar para não me esquecer, disse enquanto parou um pouco para respirar, correr e falar ao mesmo tempo não é pêra doce, quando as ruas nadam em pó e bocados de casas sem enterro.
Quero saber como é o Oceano Atlântico, se tem mesmo ondas de verdade.
Terei igualmente de lhe falar da guerra. É impossível falar-lhe de mim, sem lhe falar do monstro da guerra.
Tenho de lhe explicar que a guerra maldita trava-se entre Israel e o Hamas e tenho de lhe contar que… enfim… falar-lhe daquilo que já vi… Dos mísseis nas escolas, nos hospitais e nas mesquitas. Dos homens e mulheres que se rebentam… de ouvir chorar todas as noites quando vou dormir.

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E as noites são sempre tristes. As ruas choram, as casas choram com mais força ainda numa tristeza própria das pessoas, as mães, mulheres e filhas parecem não ter outro destino que não o de chorar. Os homens… os homens bebem.
Tenho de lhe falar de todos aqueles outros homens, que andam armados e de caras feias, outras vezes nem caras têm, são homens sem cara e com mochilas cheias…
Tenho tanta coisa para lhe contar e nem sei bem por onde começar. Também não posso ser eu a fazer as perguntas todas senão ele cansa-se… Bom.
Vamos lá que a luz já é curta e depois lá em baixo não consigo fazer absolutamente nada! Vou escrever em papel primeiro e depois entrego a carta à professora para ela a enviar para ti.

Olá. O meu nome é Mounir e tenho 9 anos. Vivo na Faixa de Gaza. Já ouviste falar? Sabes onde fica? Vivo bem pertinho do mar e adoro nadar e ir à pesca com os meus amigos e os nossos pais e irmãos mais velhos (tenho 3 irmãos e o M. Fallah tem outros 5), nós somos os mais novos. O M. Fallah é o meu melhor amigo. Estamos sempre juntos. Jogamos à bola todos os dias. Pescamos. Nadamos. Fugimos dos homens das metralhadoras de Israel. Estamos outra vez em guerra. Estamos quase sempre em guerra e é tudo muito difícil para os adultos. Cresci sempre a acreditar que Deus nos protegeria e não deixaria que nos fizessem mal, a mim e aos meus amigos, mas infelizmente, Deus não nos tem ajudado. 

Não te vou chatear a contar a história desta guerra que não acaba, porque não ias gostar nada da minha carta e se calhar depois não me respondias e depois eu não podia saber como é que é o teu país, que é o país do Ronaldu. Mas tenho que te contar a história destes últimos 15 dias, porque foram os 15 dias mais tristes da minha vida.  
Bom, espero não parecer um mariquinhas. Eu não sou mariquinhas nenhum. Sou um homem.

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O Hamas e Israel entraram novamente em guerra e o que te posso dizer é que tem sido o terror todos os dias. Não tenho ido à escola de manhã, não vejo os meus colegas da escola há muitos dias, disseram-me que muitos morreram nas explosões, os pais de alguns deles também, e amigos deles, e amigos de amigos meus. E isto é muito triste. Não sei dizer-te em palavras porque ainda não sei muitas palavras, só tenho 9 anos, mas sei muitas daquelas feias que não se dizem, mas eu digo-as e ouço-as dentro da minha cabeça de noite e de dia. Não fizemos nenhuma maldade para vermos os nossos amigos a morrer na rua, no chão, cobertos de sangue. 

Ainda ontem. Estávamos a atirar pedras para água no pontão, só isso, pedras para a água no pontão, a brincar e a apanhar o sol da manhã, a falar sobre este nosso trabalho das férias, de termos de escrever uma carta para um amigo de outro país e de repente, um dos barcos de guerra dos israelitas começa a disparar para onde nós estávamos, conseguimos fugir, eu e o M. Fallah, mas o Youssuf e o Idriss morreram. Morreram!! Porque estávamos a atirar pedras para a água, de manhã. Merda para isto tudo. Desculpa estar a falar-te de mortes e mais mortes mas, na verdade, não tenho mais ninguém com quem falar, não há ninguém aqui a quem eu possa contar o quanto isto dói, porque aqui toda a gente tem dores… Toda a gente chora, grita, berra, bate, bebe, dispara, pragueja… Aqui a guerra em cada rua e nós fugimos para perto da água, mas… já nem aí estamos em paz… Em paz, não sei o que significa a palavra paz. E tu? Tens paz em Portugal? Também há guerra na tua rua? 

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Como será a vida sem guerra? Será que vou morrer? Hoje, amanhã, depois? Tenho medo. Ajudem-nos. Alguém que nos ajude. Não quero morrer. Quero ver o oceano azul do teu país e ainda nem sequer sei o teu nome.

Também há sempre fumo na cauda da tua Lua? A que sabe e cheira a Liberdade? Conheces o Cristianu Ronaldu?
Por agora não te chateio mais. As bombas têm caído mais na parte de cima da cidade, por isso vou ali chamar o M. Fallah para ver se vamos jogar à bola. Eu tenho a minha camisola. Nº7, RONALDU! Espero que respondas rápido. A minha professora vai enviar-te esta carta amanhã.

Adeus,

Mounir. 

Continua (…)

De volta

Passados vários meses sem a publicação de uma única linha neste espaço, eis que o fervor criativo me abraça e me impele à escrita neste espaço egoísta que tenho orgulho em reclamar como MEU!
Muito passou, muito se fez, muito se conquistou, muito se disse, muito se viveu, se perdeu, se ganhou, se transformou…
Regresso às palavras, fugindo dos sentimentos, regresso às palavras tendo na mente as palavras sábias de Alberto Caeiro, que nos deixou a mensagem pura, de que “Pensar é estar doente dos olhos.”….
E de facto talvez seja mesmo isso que o mundo tem tido falta de doenças nos olhos, porque de pensamento pouco ou nada tem aproveitado.
Guerras, aumentos, recibos verdes, transferências e ordenados milionários, desemprego, fome, torturas, Wikileaks, Carlos Castro, Coreias, Futebol, Mourinho, José Manuel Coelho, já disse Carlos Castro??
Acho que sim… (Aches to aches… dust to dust)…
Que reviravolta é esta a que os olhos estão sujeitos?
Todos os dias se fazem perguntas, se contam histórias, se dizem coisas, se esquecem memórias, em torno do imediato, que hoje em dia é sem dúvida o principal prato da ementa imagética a que nos propomos assistir.
Quantas vezes imagino estar sentado, sossegado, descansado, feliz e conformado, com o presente, futuro e passado… Mas também quantas vezes sinto que esse mesmo pensamento é de todo impossível de alcançar.
Dou por mim a pensar… lá está.. estou doente dos olhos…
Dou por mim a pensar, que não há sequer tempo para respirar, neste corropio frenético de imposições sociais de um mundo que caminha a passos mais que rápidos para a incerteza dominante, para a pobreza relacional de quem faz do mundo, O MUNDO… Nós!
Em que nos transformámos nós?
Somos hoje pessoas com cada vez mais problemas relacionais.. temos como objecto pessoal primordial, algo que nos obriga a tirar os olhos do horizonte e a centrá-los num pequeno ecrã….
IPhones, Blacberrys, Samsungs, Ipads.. tudo serve para nos tornarmos pessoas mais sós, para nos tornarmos menos pessoas, e mais indivíduos.
Sempre soube, ou melhor, sempre tive como garantido que o ser humano era essencialmente fruto do meio onde está inserido…
Hoje em dia acredito que o ser humano é cada vez mais influenciado pelo mundo onde se insere.
Hoje escolhemos o que há uns anos atrás não era sequer hipótese de escolha..
Hoje temos total controlo daquilo que queremos ser, ou melhor hoje temos total acesso à projecção daquilo que gostaríamos de ser.. e se não o conseguimos ser, fingimos que somos, porque para os outros é exactamente a mesma merda!
E é isso que na verdade mais importa, aquilo que eu sou, tem mais valor, quando é valorizado pelo outro, e não quando me distingue do outro.
Obrigado avô por tudo o que me ensinou.
Nos meus 27 anos de vida, aprendi muito com a sua rectidão, com a constância de um pensamento estruturado, edificado a tijolo e cimento, e assente numa preponderância de convicções inabaláveis que tanta falta fazem a este mundo do qual partiu.
A mim fazem-me muita falta, e acho que aqui, agora, com as lágrimas que me escorrem pela cara, fruto das palavras que aqui escrevo, praticamente 2 meses depois da sua morte, agora sim sinto verdadeiramente a falta que me faz.
Tenho pena de não lhe ter dito as últimas coisas que tinha para lhe dizer, para lhe contar, para lhe mostrar.
Aprendi muito, contarei tanto, pensarei sempre, mesmo que isso seja a doença dos meus olhos, que tive a sorte de ter sido educado por alguém que sempre considerei uma entidade deveras superior, magnânime, acima de todas as coisas térreas.
Continuarei a missão de ser o que sou, de ser como sou, de tentar que os outros sejam mais como eu, porque não quero de todo ser igual a todos os outros.