Guilherme Duarte: “Se calhar passei ao lado de uma carreira como escritor de lamechices para fazer senhoras de meia idade chorar”

Guilherme Duarte: “Se calhar passei ao lado de uma carreira como escritor de lamechices para fazer senhoras de meia idade chorar”

O Guilherme é engraçado. É mesmo.
E não digo isto apenas por dizer.
Digo-o porque já o vi em palco, já jantei com ele e, nessa mesma noite, vimos um jogo da seleção. Isto tudo passou-se em Leiria.

Convidei-o porque para além de ter graça, é criativo.
Para além de ter piada, tem espinha.
Para além de ser humorista, pareceu-me sempre um tipo sério (não muito, claro) e verdadeiro.
E depois, cresceu no bairro, como eu. Sabe das coisas da vida.
Sabe bem o que é que isso significa. E sabe o que são os valores.

Um humorista vive daquilo que escreve e do sucesso (e muitas vezes do insucesso) das piadas que testa. E o Guilherme não é diferente.
Só é diferente na forma como o faz. E faz o que faz de uma forma que agrada a muita gente. Basta ver o número de visualizações que têm os vídeos no seu canal de Youtube.

Poucas pessoas lidam com a crítica como ele o faz e foi também das primeiras pessoas que convidei para participar nesta série de conversas com artistas das palavras.

Por isso e porque já não há razão que justifique o estar para aqui a falar dele como se o amanhã não chegasse, senhoras e senhores, convosco, Guilherme Duarte.
(Há tanto tempo que queria escrever esta frase. Peço desculpa, sim?)

Vamos então à primeira pergunta que acaba sempre por servir de desbloqueador de conversa.

Quem é o Guilherme Duarte?

Quem é o Guilherme? Ora bem, o Guilherme sou eu.
Sou um gajo introvertido que gosta de fazer os outros rir, em parte por gostar da atenção, mas principalmente porque gosta de espalhar alegria neste mundo chato.

Sou cínico com o mundo, resultado de algum idealismo frustrado e de ter percebido que esta experiência da humanidade não correu muito bem.

Acho que sou um gajo decente e com valores, mas também tenho o meu preço. Gosto de admitir a minha hipocrisia e não me colocar em pedestais de moralidade. Sou uma pessoa de gostos simples, para mim um carro é um instrumento para me levar de A a B, para mim comer é convívio e não uma experiência fine dining, mas começo a preferir hotéis de 5 estrelas face a pensões de uma. Posso estar a ficar uma diva, não sei.

1. Porque é que escreves e porque é que começaste a escrever?

Eu sei lá de quem é a culpa, menino.
Algures no tempo, por um acaso, em vez de escrever uma linha de código escrevi uma piada algures e tomei-lhe o gosto. Escrevo porque gosto e porque me dá prazer. Nunca tive jeito nenhum para qualquer coisa artística, mas sempre gostei de criar coisas e como nunca soube criar melodias ou pinturas, deu-me para começar nos Legos e ir parar à engenharia.

Acho que está tudo ligado a isso, a uma necessidade de criar coisas a partir do nada. E sempre gostei de pensar, dava-me prazer estar com os meus pensamentos e a escrita veio por acréscimo, materializar esses pensamentos.

2. Quando é que sentiste que era isto que querias fazer da vida? Lembras-te?

Isso foi há pouco tempo, há uns 4 anos, pouco antes de decidir despedir-me do meu trabalho de gente séria como informático.
Percebi que talvez conseguisse tornar o que começou como um hobbie no meu trabalho e rendimento o que é sempre um perigo porque pode começar a ser mais obrigação e menos prazer, mas cá estamos.

Foi um sentimento gradual, foi ver que aquilo que fazia de borla me podia sustentar em várias vertentes e arriscar.
Não sei se será um amor eterno, acho que me pode dar na cabeça de mudar de vida outra vez.

3. Recordas-te da primeira vez que provocaste algum tipo de impacto em alguém com aquilo que escreveste?

Lembro-me de deixar uma professora a chorar com uma composição que fiz no 7º ano sobre Timor. Foi giro ver que conseguia ter impacto apenas com palavras, especialmente num adulto.
Se calhar passei ao lado de uma carreira como escritor de lamechices para fazer senhoras de meia idade chorar.

Mais tarde, foi quando comecei o blogue e na internet dá logo para ver o impacto e com os primeiros textos e piadas vieram os primeiros risos e as primeiras “Não se brinca com coisas sérias” o que também é bom.

Para um humorista, o impacto, seja ele qual for, é sempre melhor do que a indiferença do público.

4. Quando é que começas a ser pago para escrever?

Pago directamente para escrever acho que foi há uns 3 anos quando comecei a minha crónica semanal no jornal online SAPO 24, que ainda mantenho. Até aí tinha sido pago indirectamente com publicidade no blogue ou através do stand-up em que pagavam para me ver interpretar aquilo que eu tinha escrito.

5. Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Nem por isso. Tenho referências e pessoas que admiro, mas mentor e responsável por este percurso acho que sou só eu e os meus pais e amigos que formaram esta minha forma de pensar e me ajudaram a não ter medo de arriscar e sempre me apoiaram nesta mudança.

6. Já tiveste vontade de parar de escrever e de ir fazer outra coisa qualquer?

De parar mesmo ainda não, mas de fazer um intervalo grande já.
De pelo menos deixar de publicar o que escrevo e tirar um tempo para escrever só para mim, mas ainda não surgiu o momento certo para isso. Quanto a deixar de escrever completamente, acho que só quando sentir que já não tenho nada de interessante para dizer, o que acaba por ser um sentimento que tenho todos os dias, mas lá vou espremendo e vai saindo alguma coisa.

7. O que é a escrita de humor tem que te diverte?

Acho que é um jogo de forças entre um lado mais intelectual e sério e um lado mais infantil e non-sense que por norma vamos perdendo à medida que crescemos. Acho que escrever humor exercita esses dois lados do cérebro e acaba por ser divertido e desafiante.
Depois há um fenómeno raro que é escrever uma piada e rir-me automaticamente sozinho com ela. Quando isso acontece, normalmente são as piadas que o público vai gostar mais.

Foto de Guilherme Duarte no Tivoli

8. Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer?

Estaria no que fazia antes, ligado à informática, principalmente na óptica de criar novos produtos e start-ups e gerir todo esse processo desde a génese da ideia até à introdução no mercado e angariação de clientes.

9. Qual foi o teu melhor trabalho até hoje?

É difícil de escolher, porque muitos deles são um processo contínuo como as crónicas ou os podcasts, por isso é sempre mais fácil eleger um produto fechado como o melhor.

Diria que será a série de sketches Falta de Chá, tanto as duas temporadas como o especial de Natal, orgulho-me bastante desse projecto, mas talvez os espectáculos a solo de stand-up que culminaram na gravação e divulgação no YouTube seja o que mais me representa como humorista.

10. Já sentiste vergonha de alguma coisa que escreveste, ou já aceitaste escrever alguma coisa que odiasses apenas por dinheiro?

Sentir vergonha muitas vezes, especialmente quando vou reler coisas antigas, até me encolho às vezes, mas acho que faz parte, se eu gostasse de tudo o que já fiz passado uns anos era sinal que não estava a evoluir.

Quanto à outra parte da pergunta, que odiasse ainda não, nunca me pagaram suficiente para isso, mas já fiz coisas pelo dinheiro, claro, qualquer publicidade ou evento corporativo acaba por ser mais o dinheiro que move, apesar de depois poderem correr muito bem e ficarmos orgulhosos do resultado final.

10. Por onde é que começas? Texto ou título? Porquê?

Um misto, já que quase sempre começo por uma premissa ou um ângulo de um determinado tema que acaba por dar o título.
Depende muito se é algo sobre atualidade, ou algo que me aconteceu, ou simplesmente uma misturada de assuntos, não tenho um processo muito definido, às vezes já tenho tudo mais ou menos estruturado que vou escrever, outras apenas uma ideia que depois vai por caminhos que não estavam previstos.

Em relação ao stand-up, cada vez mais parto de uma ideia e ou tentando escrever em cima do palco, apesar de ser um processo muito doloroso porque a maioria das piadas acaba por ir ao lado.

11. Há muito trabalho e dedicação, ou acreditas que o talento é suficiente?

Talento não é suficiente, mas acho que há qualquer coisa além de trabalho e dedicação, especialmente no humor.
Há qualquer coisa que resultou da nossa infância e adolescência que nos faz ver o mundo de uma determinada maneira e fazer perguntas que a maioria das pessoas não faz, ou não dá conta que as faz.

Agora, há gente talentosíssima que não trabalha e nunca chega a lado nenhum e há gente sem talento que trabalha muito e acaba por ter sucesso. Se tivesse de atribuir percentagens diria que no humor é 80/20, trabalho e “talento”.

12. No dia-a-dia, tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Fora os prazos de alguns dos trabalhos que faço, que me obrigam a ter a rotina, normalmente é quando calha, mas obrigo-me a escrever quase todos os dias. Durante a manhã menos que o meu cérebro só está a capaz a partir das 12h.

13. Como é que reages às críticas?

Fazem parte, acho que temos desvalorizar tanto as críticas bota a baixo sem qualquer fundamento como “És uma merda, não tens gracinha nenhuma” como as demasiado elogiosas estilo “És um génio, o melhor de sempre”.
São ambas mentira e convém não acreditar muito nas primeiras se não perdemos auto-estima nem nas segundas se não perdemos a humildade e a capacidade de melhorar.

O humor é tão subjectivo que acho contraproducente dar ouvidos às críticas.

Claro que as há construtivas e que podemos aprender com elas, mas um médico não vai ter em conta os conselhos médicos dados pelo senhor da padaria.

Um humorista tem de ter um bocado essa arrogância de pensar “Eu é que percebo disto do humor”, apesar de o feedback do público é que diz se aquilo tem piada ou não.

Isto é um misto e um limbo entre respeitar o público e não dar ouvidos ao que ele diz. Acho que o maior respeito que eu posso ter pelo meu público é não respeitar o que ele diz e continuar a fazer aquilo em que eu acredito e acho piada.

No dia em que eu der ouvidos a dicas e a críticas individuais deste e daquele, começo a desvirtuar o meu conteúdo e a fazer coisas para “bater” e não porque acho que têm piada.

Guilherme Duarte a espalhar magia no Tivoli

14. Quando é que te lembraste de começar a expor as mensagens e “ameaças” que recebes?

Foi logo no início, eu nunca fui um ávido utilizador das redes sociais, fora os tempos do mIRC e lá tinha o meu hi5, mas não era muito de usar as redes, então esse mundo todo que se abriu fascinou-me, tanto as pessoas que têm a generosidade de perder tempo a deixar um comentário de parabéns ou mandar uma mensagem a elogiar, o reverso da medalha também é interessante.

Começou de forma inconsciente do género “Olhem este anormal?
Vocês também estão surpreendidos como eu por haver gente assim que fica ofendida e ameaça pessoas por causa de uma piada?” e depois vi que era um bocado o normal das redes sociais e decidi sempre usar esse ódio que me é dirigido para divertir os outros.

Acho que transformar ódio em riso é uma espécie de mecanismo de defesa que eu tenho e que acaba por complementar o meu trabalho e imagino que não haja pior sentimento para alguém que me ofende por não me achar piada, do que ver essa ofensa a ser transformada em combustível para eu fazer rir outros.

15. Em 2018 ouvi-te contar uma história hilariante, num evento em Leiria, sobre teres ido falar com a mãe de um miúdo que te “ameaçou”. Queres contá-la aqui?

Se for o que eu estou a pensar faz parte do meu primeiro espectáculo a solo. Então, foi um rapaz que me foi deitar um chorrilho de insultos a mim, à minha mãe e a à minha hipotética irmã, em forma de comentário na página. Daqueles insultos valentes.
Eu fui ver o perfil dele e dei de caras com uma foto dele com a mãe, em que o perfil da mãe estava identificado.
Então, depois voltei ao comentário e respondi taggando o perfil da mãe para ela ver o que o filho dela andava a dizer nas redes sociais.
Ele apagou e bloqueou-me logo, mas eu já tinha tirado print.

Foi giro, pelo menos para mim. Cumprimentos à dona Manuela.

16. Qual a coisa mais incrível que a escrita te trouxe?

A liberdade desta profissão, de fazer algo que gosto e de me conseguir sustentar com isso. Acho que também me traz alguma sanidade e acuidade mental, parece-me.

17. E a pior?

A constante pressão de criar coisas novas.

18. O que é que achas do teu trabalho?

É sempre complicado fazer de júri do que faço.
Qualquer humorista que diga que não sabe se tem piada ou não, está a mentir.

É preciso acreditar muito que temos piada para lançar um texto às críticas e especialmente para subir a um palco e fazer stand-up.
Agora, a comédia existe quase no imediatismo em que é publicada, antes de publicar acho que está bom, umas vezes mais outras menos, depois há ali umas horas em que aquilo é giro e faz sentido e depois é passado e complicado de avaliar em retrospectiva, até porque a comédia tende a envelhecer mal.

Mas sinto orgulho no meu percurso, acho que conquistei coisas giras e que tenho um público exigente.
Tenho alguma segurança relativamente ao meu trabalho feito, mas muita insegurança quanto ao trabalho que está para vir, estou sempre com aquele medo que acho que é comum aos humoristas que é deixar de ter piada e coisas interessantes para dizer.

19. Tens autores de referência?

Por cá é a santíssima trindade Herman, Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira, são os que mais influenciaram o meu sentido de humor enquanto crescia, especialmente o Herman com o Herman Enciclopédia. Lá fora o George Carlin talvez seja a minha maior referência, mas neste momento o Ricky Gervais, como autor, é dos mais completos.

20. Há algum livro, texto, guião ou outro trabalho qualquer de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

Muitos, muitas piadas que oiço e que fico roído de inveja de não ter sido eu. Assim projectos mais de ficção por cá acho que o Último a Sair é talvez o projecto mais diferente e verdadeiramente genial, porque inventou algo. Tanto a ideia como a execução são brilhantes.

21. Qual é o papel do Twitter (e das outras redes sociais em que estás presente) na tua vida profissional?

O Twitter é o meu caderno de piadas, não tenho grande critério com o que coloco lá, é um bloco de notas a céu aberto e, como tal, 90% das coisas que lá meto são lixo, mas faz parte do meu processo criativo.
Também serve quase para registar piadas sobre um tema, assim fica lá marcadinho que eu fiz aquela piada primeiro.

O Facebook e Instagram uso mais para formatos longos e coisas mais polidas (fora as stories que também são lixo ou a minha cadela).

O YouTube para vídeos, até porque se fosse para outra coisa era estranho. Todas tem o seu papel e retroalimentam-se de alguma forma, às vezes faço a mesma piada de 3 maneiras diferentes, consoante a rede onde estou a publicar.

Tento não descurar as redes porque foi aí que “nasci”.
Cada vez mais protejo algum material para ser exclusivo para stand-up, mas não quero deixar de publicar coisas nas redes sociais para o público que me tem acompanhado por lá.

22. O que é que as palavras representam na tua vida?

Sinto que tens esta pergunta preparadas para quando entrevistas escritores a sério. Não tenho nenhuma resposta profunda para isto. Se eu ganhasse à palavra diria que representavam 50 cêntimos cada uma ou assim. Representam uma forma de fazer sentido do mundo e de contar histórias e entreter.
Enquanto humorista significam os blocos essenciais para a construção do humor. É na palavra que tudo começa, o humor na forma escrita é a forma mais pura de humor, porque não tem caretas, inflexões de voz, nada, só palavras.

Fazer rir alguém só com palavras é um fenómeno giro.
As próprias palavras em si, sozinhas, podem ser cómicas.
Picha tem mais piada do que Piça.
E com esta nota profunda e erudita me despeço, obrigado e até à próxima.

Eu é que agradeço, Guilherme.
Eu é que agradeço.

Dizer-te apenas que deste das melhores respostas a esta última pergunta. Assim está bem.

E para ti que acabaste de ler esta entrevista, deixa o teu comentário aqui mesmo ou partilha-a nas tuas redes com o #oguilhermeéquesabe.

Estou a gozar. Não é nada para partilhar o hashtag, que ele nem existe.
Agora, podes comentar, claro e partilhar com quem achares que vá gostar de saber um pouco mais sobre o Guilherme.

Até para a semana.

Joana Azevedo: “Gostava de ser terapeuta de casais ou presidente da Junta”

Joana Azevedo: “Gostava de ser terapeuta de casais ou presidente da Junta”

Comecei a ouvir a voz da Joana, na rádio, pois claro, há cerca de 4 anos.
À tarde, obviamente. Ouvia a Comercial no computador, quando estava a trabalhar e também no carro, quando tinha de fazer o comute entre o edifício Impresa, em Paço de Arcos, e as antigas instalações da SIC, em Carnaxide.

Durante esse período de quase 2 anos em que fui fazendo o horário da tarde/noite, ouvi muitas vezes o Já Se Faz Tarde, onde pude imediatamente perceber o tom cúmplice e amigo que existe desde então entre a Joana e o Diogo Beja – seu parceiro inseparável de Antena.

Nas primeiras vezes que a ouvi e comecei a prestar atenção ao que ouvia, às conversas descomplexadas e soltas entre os dois, houve imediatamente uma coisa que me prendeu a atenção e que cheguei a comentar várias vezes em casa, com a Ana: a gargalhada inconfundível e contagiante da seu dona Joana Azevedo.

E foi assim que comecei a tornar-me fã da sua forma genuína de comunicar e de dizer as coisas na rádio. Porque a Joana sabe falar com quem está deste lado. Sabe ser a simpatia que uma voz sem rosto é para um ouvinte de rádio que tem nos profissionais que lá trabalham uma companhia invisível.

Depois comecei a “conhecê-la” um pouco “melhor” no Twitter, onde descobri outra Joana, que se apresenta ao mundo com uma BIO muito característica, a fazer pandan com a gargalhada que soltava nos microfones:

“Portuense, mãe, afagadora de gatos, garota de programa: Já Se Faz Tarde, 17h-20h na Rádio Comercial e Podcast Cada Um Sabe de Si. I’m a perennial”

A Joana representa o que, na minha modesta opinião, de melhor existe na comunicação em Portugal:

  • genuína, autêntica, irreverente, empática, sincera, astuta, inteligente, perspicaz e consciente.

Foi também por isso que foi a ela que dediquei as “honras de Estado” de ter a entrevista publicada no Dia de Portugal.

Não é escritora. Não é crítica literária nem editora de livros. Não é jornalista, mas já fez televisão… mas tal como todos estes profissionais, trabalha diariamente (e muito bem) com as palavras.

Ganhou o seu espaço na rádio com personalidade e inteligência e hoje, para meu enorme prazer, é a minha convidada em mais um Viver das Palavras, que começa, como sempre, com a pergunta da praxe, que foi transformada em pergunta nº1, tal foi a resposta que a Joana me deu.

1. Quem é a Joana Azevedo?

A Joana Azevedo nem sempre sabe quem é, mas sabe quem não quer ser, e isso já ajuda a traçar caminho. Vamos aos factos: nascida e criada na freguesia de Paranhos, no Porto.

Estatura pequena, franzina, rabina e sonsa para quem não conhece.

E agora percebi que estava a escrever sobre mim na terceira pessoa.
Já parei.

O gosto pela música terá vindo do meu pai, sempre trabalhou em editoras discográficas e eu dormia sestas nas caixas de discos. Gosto muito de estar sozinha ou com gatos, desde miúda. Levava os gatos para casa (também cheguei a levar cães) e a minha mãe obrigava-me a encontrar famílias para eles, que não a nossa.

Foto: Rádio Comecial

Se tivesse cedido talvez não saísse de casa tão cedo, nunca se vai saber. Saí do Porto aos 21 anos para um estágio de produção na Rádio Comercial, Rua Sampaio e Pina, Lisboa. Sozinha, finalmente à solta depois de uma adolescência bastante vigiada, com vinte e poucos anos. Pois. Com toda a loucura à mistura, consegui manter-me na rádio até hoje.

Passei pela produção da Rádio Comercial, animação nas manhãs da Cidade Fm, pouco tempo como copy na Smooth Fm (escrevi os primeiros jingles/liners), voltei à produção na Rádio Comercial e, há 5 anos, comecei a fazer dupla com o Diogo Beja no Já Se Faz Tarde, das 17h às 20h na Rádio Comercial. Fiz reportagens para o programa Música do Mundo na Sic Notícias e, tal como quase todos os portugueses, apresentei o Curto-Circuito na Sic Radical. Pelo meio lá atinei, adoptei os gatos que quis e tive um filho.

2. Não és escritora. Não és copywriter. Não és jornalista. Mas trabalhas muito com as palavras. Todos os dias. O que é que fez seguir este caminho?

Não sendo a principal função, também sou copywriter na rádio. Escrevo Live Copys, que são os textos publicitários que dizemos na emissão. Escrever textos para a voz dos outros, foi o que comecei por fazer, também chamado de produção de conteúdos. O que me fez ir por este caminho foi, precisamente, a voz dos outros. As palavras ditas e ouvidas. A ideia não era usar a minha voz, não pensei que fosse possível no início. A ideia era escrever para vozes que eu gostava de ouvir. A sensação de ouvi-las dizer palavras escritas por mim. Ou seja, uma certa vaidade.

3. Como é que prepararas as entrevistas que fazes no podcast?

No Cada Um Sabe de Si temos tempo para ouvir e conversar. Normalmente, as produtoras fazem uma pesquisa sobre o convidado ou a convidada com biografia, entrevistas, vídeos, artigos, tudo. A partir daí percebemos em que pontos gostaríamos de pegar. MAS – não escrevo as perguntas. Sempre que escrevi correu menos bem, foi menos espontâneo.

Ficamos agarrados ao que queremos perguntar e não ao que estamos a ouvir. Prefiro deixar-me levar pelo entrevistado, é ele que conduz. Isto é possível porque se quer que seja mais uma conversa e menos a entrevista pura e dura.

4. Porquê a Rádio, Joana? O que é que a Rádio tem que mais nenhum outro meio de comunicação tem?

Porque eu sempre ouvi rádio, sempre gostei de ouvir rádio e, um dia, apeteceu-me saber como era o outro lado.

A primeira vez que entrei num estúdio de rádio senti um formigueiro estranho, parecia um sinal, um íman. Se eu fosse crente diria que tinha sido uma experiência sobrenatural, espiritual, sei lá.

A Rádio permite uma proximidade com o ouvinte, com as pessoas, que não existe em mais nenhum meio de comunicação.
É um tu-cá-tu-lá muito saudável, como se fosse uma comunidade, um grupo de amigos de milhares de pessoas.
O perigo é fechar a comunicação, recorrer a private jokes ou gags que excluam os novos ouvintes. É uma gestão complicada.

Não podemos brincar aos arquipélagos, devemos sempre contextualizar, receber novas pessoas, não excluir ninguém. Faço-me entender?

É que, nos grupos de amigos a tendência é para fechar o círculo, usar códigos de entendimento exclusivos. E não podemos fazer isso em rádio.

Durante

5. Quem foi a tua grande inspiração? O teu mentor ou musa inspiradora.

Na rádio, os animadores da extinta Rádio Energia.

Fora da rádio, a Diane Keaton, a Elaine do Seinfeld (a personagem, mesmo) e a Rita Blanco.

6. Já tiveste vontade de fazer outra coisa?

Gostava de ser terapeuta de casais. Ou presidente da Junta ahahah.

7. Qual foi o teu melhor momento atrás do microfone?

Não consigo escolher um só.
Mas posso dizer que o Já Se faz Tarde apanhou-me na melhor fase.
Ou fez de mim melhor profissional. Tem a melhor equipa, o que ajuda quase tudo.

Com o companheiro de Antena, Diogo Beja

8. E o mais difícil?

Os mais difíceis são as emissões de homenagens póstumas.
Lido muito mal e fico sempre bloqueada. O luto faço-o em silêncio e, por isso, ser forçada a falar sobre a morte de alguém é-me contra-natura.

9. Tens vergonha de alguma coisa que tenhas dito ou feito com o micro ligado?

Tenho mais vergonha de coisas que fiz longe dos microfones de rádio.
Claro que há coisas que disse que, hoje em dia, nunca diria.
Quando temos vinte e tais queremos muito chocar, não é?
Podia ter usado essa coragem para algo mais útil e generoso.
As novas gerações são mais combativas e atentas ao mundo – woke – como se diz agora. A nossa era muito virada para o umbigo.
Mas tenho a esperança de ter evoluído como ser humano e, por isso, como profissional.

10. O que é que te dá mais gozo fazer: o Já se Faz Tarde ou o Cada um Sabe de Si?

Os dois. Divirto-me a fazer os dois.

11. Quem é que teve a ideia para o nome do Podcast?

Demorámos imenso tempo a escolher, adiámos o início por não conseguirmos encontrar um nome.
Havia um que era o “Com Trastes” mas não nos convenceu, parecia que estávamos a chamar trastes aos convidados. Não me lembro exactamente quem teve a ideia, mas é uma expressão que dizemos algumas vezes.
Cada Um Sabe de Si.

12. Sei que não gostas de fazer rádio sozinha. O que é que te falta quando estás sozinha na antena?

A contracena. Gosto de provocar reacção e de ser provocada, gosto dos passos dessa dança de faísca a fingir. “It takes two to tango”. É o tipo de rádio que gosto de ouvir e fazer.

13. O que é que te falta fazer em rádio?

Marketing.

14. A tua gargalhada é inconfundível e adorada por milhões de pessoas. Como é que lidas com o lado da “fama” que a rádio te traz?

 A fama que a rádio traz é pacífica e não invasiva.
É raro virem ter comigo, acontece mais fora de Lisboa, mas não o suficiente para sequer poder falar em fama. É mais uma vantagem da rádio em relação à televisão, é tudo mais discreto.

De volta aos estúdios da Comercial

15.  Como é que reages às críticas?

Depende da crítica e de quem faz a crítica. Mas faz parte da função. Se não tivesse críticas também poderia significar indiferença, que é capaz de ser pior do que saber que há pessoas que não gostam do nosso trabalho.

16.  Já recebeste mensagens desagradáveis ou críticas destrutivas e maldosas?

Claro que sim. Mas há outras engraçadas. A última crítica que recebi foi de alguém que não gostava da forma como eu respiro no ar. Dizia, no email que enviou para a rádio, que sugo saliva e que o Diogo me imita a sugar saliva. Teve graça.

17.  Aquilo que sinto por te ouvir, por te ler no Twitter, ou te seguir no Instagram é que, por trás da profissional de rádio, está uma pessoa com um coração enorme, emotiva, amiga, e que protege os seus com tudo o que tem.
És feliz por seres como és, ou gostavas de ser outro tipo de pessoa com traços de personalidade que gostavas de ter e que não tens?

Gostava de ser mais pro-activa. Eu indigno-me muito no sofá e levanto-me pouco para fazer alguma coisa por isso. Mas ser boa pessoa é um processo que dá trabalho e está sempre inacabado. Desde auto-conhecimento, auto-perdão, assumir erros e culpas, auto-policiamento.
Espero estar a evoluir e não a regredir. Às vezes a raiva dos outros afecta-nos, contagia-nos e o mundo movido a raiva não ampara ninguém.

18.  Acreditas que és boa naquilo que fazes?

 Há melhores, há piores. Acho que tiro proveito das minhas capacidades.

19. Continuas a ficar nervosa antes de ir para o ar ou já é tudo “normal”?

Quando faço alguma coisa pela primeira vez fico nervosa ao ponto de bloquear. Sofro muito dos nervos. Mas fazer o programa com o Diogo é como estar num bar à conversa com amigos, tenho muita confiança nele e relaxo.

20. Gostas de ler? Quem são os teus autores de referência?

Gosto do Phillip Roth, adoro a Dorothy Parker e tenho pena que não tenha escrito mais, tenho muita inveja da maneira como escrevia. Gosto de autores brasileiros, li o Nu de Botas do António Prata de uma vez só. Dos portugueses, tantos, Afonso Cruz e Dulce Maria Cardoso. E vou sempre folheando Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria. Prefiro ler em português.

21.  Há alguma pessoa que já tenha morrido e que gostasses muito de entrevistar no Cada um Sabe de Si?

O António Variações.

22.  Se amanhã te dissessem que era o último programa que ias fazer e que podias ter o convidado que quisesses. Quem é que escolhias?  

O Miguel Esteves Cardoso porque tem um dom de observação e por em palavras o que observa. Gosto de o ouvir e seria uma oportunidade para o ouvir mais uma vez

23. Para ti, as palavras são…

Pontes.

Obrigado, Joana!

Pela sinceridade, verdade, honestidade e profundidade das tuas respostas.
Por não teres medo das palavras e por usares tão bem as mesmas.

Se queres conhecer um pouco mais da Joana, segue-a no Twitter ou no Instagram.

Partilha a entrevista no teu perfil ou com alguém que aches que vai adorar saber mais sobre a Joana Azevedo.

João Tordo: “Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende”

João Tordo: “Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende”

Os escritores são, regra geral, pessoas diferentes das outras. Porquê?
Porque sorvem tudo o que vêem. Fazem da realidade a maior das suas fontes de inspiração. Fazem do que os olhos vêem, do que os ouvidos ouvem, do que os cheiros contam, as musas inspiradoras para as realidades que criam à posteriori.

O meu 3º convidado desta série é um dos “novos” (em idade, apenas) talentos da Literatura portuguesa.

Nascido em 1975 e filho do mítico Fernando Tordo, João publicou treze romances (isso mesmo) e recebeu vários prémios, entre eles o Prémio Literário José Saramago em 2009, o prémio GQ e o Prémio Literário Europeu.

Quando lhe pedi que me dissesse quem é o João Tordo, respondeu-me assim:

“João Tordo, lisboeta, escritor, tio de muitos sobrinhos, indeciso, inquieto, obsessivo e, sempre que consegue, um tipo decente.”

Foto: Pedro Ferreira

Destaco o “sempre que consegue”, quanto mais não seja porque se trata de um homem. De um ser humano como todos nós. Que escreve muito bem mas que, acima de tudo, também sente como os homens.

Por isso, João, se nem sempre conseguires, não tem mal nenhum, pelo menos é isto que me parece. Os homens são ainda maiores quando falham as tentativas de ser decentes, quando o tentam com afinco.

Passemos então à entrevista que é para isso que estamos aqui.

Quando é que sentiste que tinhas (e querias) ser escritor?
Lembras-te da idade que tinhas?

Sim, tinha treze anos. Embora escrevesse desde muito novo (6, 7 anos), foi quando li o “Crime e Castigo” do Dostóievski que, interiormente, devo ter decidido qualquer coisa do género: Um dia, quero fazer isto.

Recordas-te da primeira vez que conseguiste provocar impacto em alguém com alguma coisa que tivesses escrito?

Julgo que na família, talvez. Era muito miúdo e passava os dias a escrever histórias, jornais, bandas desenhadas, etc. Talvez olhassem para mim como uma “ave rara” ou um rapazinho meio maluco, demasiado solitário, que gastava o seu tempo a alimentar a imaginação com aquelas coisas. As minhas tias e avós ficavam muito impressionadas, e guardaram esses “recortes” de infância. Alguns deles surgem no “Manual de sobrevivência de um escritor”, que será publicado em Maio.

Há quanto tempo escreves profissionalmente?

Bom, desde que comecei a trabalhar, em 1998. Primeiro como jornalista, depois cronista e, a partir de 2004, como romancista. Por vezes também escrevo guião de cinema e televisão.

Antes do 1º livro, já escrevias para ganhar a vida?

Sim. Foi sempre o meu ganha-pão.

Quem foi a tua grande inspiração?

Tive muitas ao longo do tempo. Não só da área da escrita, mas de outras áreas. O Saramago continua a ser uma inspiração, mas também o Philip Roth, por exemplo. E não podiam ser mais diferentes. Por vezes, uma canção do Tom Waits inspira-me, ou um filme do Bergman. Depende das alturas da vida.

Tiveste algum mentor? Alguém que possas dizer que é a pessoa responsável por hoje ser esta a tua vida?

Não, isso não existe. Isto é algo que nasceu comigo, eu nem sabia quem era e já estava a escrever ou a rabiscar em papéis. Nem sequer sabia o que era um escritor, e já escrevia. Desde criança. Não precisei de um mentor porque a própria vida — biológica, psicológica — empurrou-me para isto. Tive um professor importante no Liceu, e outro na faculdade; e sim, idolatrei alguns escritores ao longo da vida – Auster, Roth, Saramago, Cercas, Bolaño, etc. – para mais tarde descobrir que não era nenhum deles, que era o João.

Já tiveste vontade de parar de escrever e de mudar de vida?

Não.

Se não fizesses isto da vida, o que é que estarias a fazer hoje?

Não consigo imaginar, isso não existe. Não escrever como modo de vida é algo que não existe para mim.

Qual foi o teu melhor trabalho até hoje? Aquele de que mais te orgulhas.

O romance que vou publicar ainda em 2020.

Tens vergonha de alguma coisa que escreveste?

Sim, de muitas. Há certos livros que nem consigo olhar para eles.
Fazem parte de um tempo de aprendizagem, da juventude. São difíceis de “digerir”, ainda. Escrever é um ofício que leva muitos anos a aprender e que nunca se aprende. Por isso é tão fascinante e tão frustrante.
Também não gosto de escrever nas redes sociais; não tenho “vergonha”, mas tento restringir essa prática ao mínimo possível.

O que é que gostas mais de escrever? Que formatos é que te deixam mais confortável?

O romance e o ensaio.

Por onde é que começas: texto ou título? Porquê? 

Depende. Às vezes um título aparece logo com muita força e fica aquele; noutras vezes, escrevo um livro inteiro e só “descubro” o título mais tarde.

Alguma vez fizeste formação para saber escrever melhor?

Fiz workshops de Escrita nos Estados Unidos, há muitos anos.
Mas lembro-me de muito pouco. Acho que aprendi bastante com os meus alunos de escrita literária nos cursos que fui dando ao longo dos anos.

No dia-a-dia, como é que escreves? Tens alguma rotina, ou escreves quando calha?

Escrevo de manhã, entre as 8h30 e as 14h. Normalmente, reservo as tardes para fazer outras coisas, a menos que surja uma inspiração qualquer.

Como é que reages e lidas com as críticas?

Essa resposta é longa e está no livro “Manual de sobrevivência de um escritor”, não a posso dar aqui num espaço muito curto.

Recebeste vários prémios pelo teu trabalho. Acreditas que és bom naquilo que fazes?

Acho que sou muito dedicado e que trabalho muito. Todos os dias estou ali sentado a escrever, para o bem e para o mal, e alguns dias são muito bons e outros muito maus, e ainda assim continuo e persisto, apesar das dúvidas e da incerteza e das poucas recompensas financeiras. Parece-me que escrevi alguns livros muito bons e outros razoáveis, mas que vou melhorando com a idade e a experiência.

Tens “bloqueios de escrita”? Se sim, como é que lidas com isso?

Só tive um bloqueio e deveu-se a uma fase em que viajei demasiado e expus-me em demasia. Tive muita dificuldade em regressar à escrita depois disso.

Quem são os teus autores de referência?

Já falámos de alguns: Melville, Saramago, Dostoévski, Bolaño, Ian McEwan, Barnes, Cercas, Cardoso Pires, Twain, Joyce, Borges, tantos…

Há algum livro de outra pessoa que gostavas de ter sido tu a escrever?

“Os Detectives Selvagens” de Roberto Bolanõ.

Começo a acreditar que vou querer conhecer pessoalmente todos os meus convidados. Com o João Tordo passa-se precisamente o mesmo.

Obrigado, João. Pela sinceridade. Pela honestidade. Pela verdade.
Mas sobretudo muito obrigado pelas generosidade das palavras.

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

Estes “sacanas” destes refugiados

Estes “sacanas” destes refugiados

Tenho um amigo a trabalhar na Hungria, agora, neste preciso e delicado momento. É repórter de imagem da SIC, ou se preferirem cameramen. Está lá há pouco mais de uma semana, na Hungria, entenda-se.
Como é um daqueles amigos que realmente estimo e com quem realmente me preocupo tenho procurado saber dele com regularidade, sem ser chato nem o atrapalhar no trabalho de enorme importância que ele está a desempenhar. Não consigo sequer ter uma leve ideia do que os olhos dele vêm. Ainda hoje (4ª feira) levou um banho de gás lacrimogéneo, só para não ter a mania que é jornalista e que anda para aí a querer informar as pessoas do que se está ali a passar, o abelhudo.
Antes de se ir embora estava realmente apreensivo. Não porque tenha medo de trabalhar, de andar de avião, de dormir no chão, de ver a tristeza, a dor, o desalento e a desilusão, mas sim porque era e é de facto o trabalho mais importante da sua ainda curta mas já bem recheada vida profissional.
O meu amigo é um funcionário impressionante, daqueles com quem dá gosto trabalhar e sair em reportagem. É diferente da maioria dos seus colegas. Porquê? Porque é. Ponto.
É mesmo uma jóia de menino.
É assim porque tem na boca o coração. É assim porque tem nos olhos a preocupação de querer mostrar a quem cá está, cómoda e refasteladamente sentado no sofá, na cadeira do escritório, ou na secretária do trabalho, a emitir opiniões tão certas quanto despropositadas, sobre coisas que não percebe, não conhece, não sabe e não vê.

Claro que eu também cá estou, mas, ao contrário de toda esta gente que tenho visto a levantar vozes de Ira e raiva contra pessoas que nunca viram, conheceram, cheiraram, e sobretudo com quem nunca trocaram uma palavra que seja, a mim chega-me, porque a procuro, informação privilegiada do que se passa, por estes dias, na Hungria. E não são coisas nada agradáveis de se saber.
O R. tem-me contado coisas inacreditáveis.
Em primeiro lugar deve ser desde logo ressalvado que não tem conseguido dormir! E quando não dormes, alguma coisa de errado se está a passar contigo, tal é a necessidade imperiosa que o corpo tem de descansar. Rapidamente me apercebo de que a força e a violência do que vê e grava durante o dia é de tal ordem e índole que à noite, quando se estende estenuado na cama do quarto solitário de hotel onde está hospedado, já fisicamente exausto, não consegue pregar olho. Vira-se e revira-se. Tem vontade de chorar. Tem saudades da mulher que cá está, sozinha em casa, coisa de que não gosta particularmente. Hoje ela vem jantar connosco e isso descansa-o.
A impotência que o arromba e esbofeteia exprime-se com tamanha violência que, à noite, quando pára finalmente de trabalhar, perde ligeiramente o tino e sofre por não conseguir fazer absolutamente nada para atenuar, diminuir ou mesmo acabar de imediato com o sofrimento daquela gente.
O R. é assim mesmo. Querido, meigo, amigo, sempre pronto e desejoso de ajudar quem precisa, munido de um altruísmo difícil de replicar.
Diz-me então que o mais difícil de aceitar são as crianças e os seus olhos carregados de verdade e de tristeza, de medo, fustigadas por terror a mais para anos de vida a menos.
Diz-me também que há gente a enriquecer com isto tudo. Não estranho porque há sempre abutres nas tragédias. Há sempre quem ganhe com as desgraças dos outros e se sinta feliz e orgulhoso por assim ser.
Diz-me que cada pessoa paga quase 5 mil euros para chegar até aqui.
Diz-me que há agiotas a cobrar e à espera de receber o seu “dízimo” que, trocado por miúdos, mais não é do que as poupanças de toda uma vida, agora “gastas” na mais vil das despesas, a luta pela sobrevivência.

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Mas nisto os milhares de portuguesinhos inflamados e “ditadores” não pensam.
Somos um povo que agride muito melhor do que consegue proteger e defender. É histórico. Cultural.
Não fazemos ideia do que é viver e passar por isto que esta gente está a viver, mas, ainda assim, escolhemos, não poucas vezes, defender o indefensável, acreditar no inacreditável…
Os portuguesinhos que agora se revelam racistas, intolerantes, despóticos, alarves, munidos de uma sabedoria que assenta sobretudo nas opiniões dos outros e nunca, jamais, na própria cabeça, são os mesmos que se inflamam contra políticos, contra ordenados de futebolistas, contra tudo… fazendo rigorosamente nada que não… reclamar, injuuriar, criticar, ou seja, não fazendo absolutamente nada.

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Foto: Rogério Esteves

Mas já lá vamos…
Diz-me o R. que as horas que estas pessoas (importante lembrar que são pessoas, antes de serem migrantes, refugiados ou qualquer outra porra que se goste de lhes chamar, são pessoas caramba) passaram dentro de um barco foram as mais longas, mais terríveis, mais imprevisíveis de toda a sua vida.
Não são pedintes. Não são ladrões. Não são violentos. São educados. São letrados. São doutores, engenheiros e advogados. Admirados?
Entretanto vou espreitando o Twitter a cada hora que passa para saber se há novidades.
É de longe a plataforma que mais rapidamente difunde informação, que a dissemina, que a exporta e expatria pelo mundo fora. Só não sabe mais e não vê mais quem não quer saber e ver mais.
E o R. que não dorme, penso. Pobre coitado.
Faço-te um Gin triplo quando chegares e abrimos as garrafas de tinto que quiseres! Ouviste meu amigo?
Conheço-o bem e sei que, embora seja um miúdo de ferro, tudo isto tem de afectar, tem de marcar, tem de moldar, tem de mudar, tem de influenciar o olhar, tem de o fazer chorar!
Desespera por ver tanta criança infeliz. Tanta criança com fome, com frio, com bolhas nos pés de tanto andar, com ranho seco colado ao buço, remelosas que dói, com sede, mas ainda capazes de encontrar forças para sorrir.
Há semanas que não ouvem um rebentamento de uma bomba, que não vêm amigos morrer esmagados ou estilhaçados, que sentem o doce cheiro da liberdade, ainda que não percebam bem o que lhes está a acontecer e que raio é isso de liberdade afinal.
São as crianças que mais o impressionam e têm de impressionar. Porque nelas não há maldade, ganância, terrorismo ou extremismo. Nelas há tão somente a vontade de brincar e de satisfazer as suas mais básicas necessidades. Conforto, carinho, amor, segurança, felicidade e brincadeira.
Mas deixemos agora o R. por um pouco que já lá voltamos, creio que ele está a descansar e por isso vamos deixá-lo estar.
Entretanto, por cá, a coisa pinta-se de uma forma completamente inesperada mas não incompreendida.
Pelas redes sociais, um fenómeno e um mundo que adoro, admiro e onde estou activamente presente, mas que produz efeitos nefastos sobre as mentes das pessoas mais mal formadas, menos capazes de pensar pelo próprio cérebro e, sobretudo, que difundem a palavra de qualquer coisa que encontram postado, tuitado, partilhado ou publicado, como se fossem verdades incontestáveis. Vivem de axiomas e acreditam piamente no que dizem, sendo que nem sequer sabem o que estão a dizer ou mesmo o que estão a fazer. Nem sequer sabem o que pensam as suas próprias cabeças. Defendem e difundem aberrações escritas por terceiros, com notícias tantas vezes não verificadas, não confirmadas, nas diversas contas de origem extremamente duvidosa que existem nas redes sociais, sem sequer se darem conta do sentido escrito e lacto das anormalidades incríveis do que dizem. Mas atenção que estes “meninos” foram os primeiros a partilhar, a retweetar e a repostar, por exemplo, a fotografia da criança morta à beira mar numa praia da Turquia, de cara na areia, ainda vestido, abandonado ao destino que quis que ali se finasse a história da vida daquele menino. Porque isso sim, essa é a realidade desta gente…
Veiculam e partidarizam uma discussão que não tem sequer moralidade para existir.
E agora já não há charlies em lado nenhum…

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

É certo e sabido que todos temos o direito a pensar o que quisermos sobre o que quisermos, onde quisermos, como quisermos, mas uma coisa também devia ser certa, não temos o direito de ser gratuitamente maus, estúpidos, velhacos, desrespeitosos, racistas, xenófobos e sobretudo injustos para com quem nunca nos fez mal, nunca nos desrespeitou, nunca nos vilipendiou de forma alguma.
O medo do desconhecido produz no ser humano reacções tão estúpidas e abjectas que chego a pensar que na verdade não dou para este mundo. Não me revejo nestas práticas, nestas índoles, nestas manifestações odiosas e repugnantes contra pessoas indefesas, incapazes sequer de decidir o próprio destino.
Senhoras e senhores, informem-se! Por favor! Procurem informação para lá dos pasquins que vos enchem a mente de cocó! É tão fácil, tão simples, tão acessível. Hoje em dia só diz e defende merda desta cor, cheiro e consistência quem efectivamente quer ser estúpido, quem efectivamente quer ser e dizer merda. Porque se o maior valor humano é a defesa e o aproveitar da própria existência, da vida, da vivência, como é possível alguém defender que estas pessoas, estes “monhés” que vêm lá da Síria ou do cú de judas, que “cheiram mal”, que são todos terroristas e que se vão todos rebentar, porque eles passam a vida a rebentar-se por dá cá aquela palha, só por causa das sereias, perdão, das virgens prometidas.
Tanta ignorância em tão poucos caracteres.
Tanta alarvidade e tão pouca solidariedade.
Tenho esperança no futuro da humanidade.
Tenho esperança nas pessoas, nos homens, nas mulheres e sobretudo nas crianças.
Mas se a tenho é também porque tenho amigos como o meu querido R., que tem olhos limpos, carregados de esperança e bondade, de solidariedade, de altruísmo.
Obrigado meu amigo por tudo o que nos tem mostrado dia após dia, noite após noite.
Tu e a Cândida Pinto (citando o meu amigo e colega António Reis: “este nome deve pronunciar-se com reverência)” têm mostrado a Portugal que estamos “muito mal” na verdade…
Por fim, dizer apenas que, ao que parece, Portugal vai receber entre mil e três mil refugiados sírios (o número não é claro, não é redondo, nem é definitivo), num país com perto de 11 milhões de habitantes. Acham mesmo que eles nos vão roubar os empregos, que vão constituir organizações terroristas e que todas as mulheres passarão a usar Burkas?

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

Mais depressa me parece que veremos elefantes a andar de patins em Belém. Mas isso, isso não seria estranho para ninguém. Volta rápido meu amigo. E volta bem. Nós por cá vamos mantendo acesa a chama do orgulho que temos por ti, está bem?
Dá um beijo meu a todos e todas aqueles que encontrares ou para quem olhares.
Por vezes um olhar faz tanto ou mais do que uma palavra.