A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

Quando a morte escolhe à sorte

Quando a morte escolhe à sorte

Sem dó nem piedade nem tão pouco uma simples súmula de dignidade.
Escolhe a Morte, a dedo, ou à sorte, alguém a quem tomar de assalto a vida, com uma imprecisão aterradora e cruel tão própria dos mercenários a soldo, dos carrascos guilhotineiros, dos que executam olhando a vítima nos olhos, bem lá para dentro, direitinho até à porta das traseiras que dá para o pátio onde está sentada a nuca.
Chega na forma mais intrépida e arrogante, no momento mais… no momento mais inapropriado (posso usar esta palavra aqui?)… Credo que me faltam as palavras! Qual momento qual quê…!
Continuamos a mais não ser do que de máquinas elegantes (umas mais do que outras) mas estúpida e avassaladoramente falíveis. Com tempo e duração extremamente limitados.

E na verdade dias há em que fica extraordinariamente difícil para um homem conseguir aguentar-se de pé.
É. Pois é. De pé. Com fé.
Mas nem sempre se consegue e de repente levas um obtuso e doloroso pontapé! Redondo. Disferido com uma violência primitiva e obscena. Em cheio. Na boca. A vida está louca.

E lá foi ela.
Lá foi ela de abalada, tão estupidamente decidida e determinada a alcançar o seu ideal celeste e inexistente de liberdade.
Sim, era, era ainda tenra na idade, é verdade, mas cansou-se e fartou-se das bofetadas impiedosas da sua própria e tão pungente condição que não encontrou mais remédio que não o da partida sem volta, sem retorno, sem regresso. Sem nada.

Quantas vidas tem o pensamento? Quantas?! Até onde aguenta ele? Como?! Quantos anos vivemos de verdade? Quantos?! Quanta vida tem a tua mente de verdade? Está tudo doido majestade! Tudo doido!
Menina do campo e da cidade.
Até onde aguenta o cérebro na realidade?

É verão e chove com teimosia.
É verão e chora toda a noite numa melancólica e encurvada sinfonia.
É verão e não se percebe bem onde acaba a noite e começa o dia.
Não me fales de magia que truques destes não iludem, não me fales de paz sequer!!
Parece-me óbvio que tantas, mas tão demasiadas vezes, a Morte, perdão… já chega!! Já escrevi esta palavra com M grande vezes a mais! Vezes demais! Palavras fatais! Chega. Não escrevo mais!
Estou a escrever há 3 dias e não me ocorrem dois pensamentos iguais ou outras coisas que tais…
Mesmo estando mais do que certo de que esta é a estação final de qualquer viagem pelos caminhos sagrados da existência, mesmo aceitando-a como a mais normal e natural consequência da vida dos homens, a sua antecipada e previsível finitude, não consigo compreender, com ou sem tempo para o fazer, porque o tempo nem sempre traz o que se diz que ele há-de trazer! não, não consigo compreender este apetite voraz e insaciável que se ergue tantas vezes com um ódio e uma cólera exageradamente desmedidas, e sobretudo esta invencibilidade que lhe permite levar tudo à frente e deixar um rasto de destruição massivo e arrepiante para aqueles que lhe ficam atrás e ela, ela bem sabe, ela bem sabe que isso não se faz! Que não está certo!! Que não se deixam feridas de carne sarar a céu aberto.

A realidade é o choro da vida numa chávena de café.

A realidade é o horror de uma vida que termina sem que quem a viveu se possa sequer lembrar do que fez enquanto viveu, a realidade é a frieza do destino para todos os que cá ficam, e a quem tudo lhes parece incerto, deserto. E para quê? Com que fim?
Com que lata é que se faz uma coisa destas e se escapa impune, uma e outra e mais outra vez!
Já chega, não vês? Não vês?!
E as horas que passam indiferentes a toda esta desgraça.
Os dias que correm soltos e embalados pelo vento e pelas ondas do mar e as noites que se transformam invariavelmente no desassossegar do espírito atormentado pelo comboio de palavras atoladas em sentimentos diversos, em medos dispersos, em tristeza absoluta. Nenhum pai deveria ter de travar tamanha luta. Bem sei que digo isto e a morte não me escuta, não o fará nunca.

No esperado e protector sossego de uma sala me falta a voz à fala e não sei tão pouco onde as palavras me vão encontrar.
Sei que entre a dor e o horror que nos atinge pouco mais conseguimos fazer a não ser tentar inventar uma falsa protecção, num conjunto de almofadas que, estrategicamente, vamos colocando pelo caminho a fim de nos encostarmos com jeitinho.

Mas nem sempre a almofada te abre os braços daquela forma que só os braços têm de se abrir para dar e receber…

Os homens, esses, choram sozinhos nas madrugadas que os abraçam, fustigados pelas lágrimas de um desespero surdo de ver desaparecer alguém com tamanho estrondo, com tamanha violência, com a crueldade própria da morte que escolhe e aponta sem critério, com a inqualificável constatação de que tantas vezes a morte escolhe à sorte.

E depois é num eleito cemitério que acabamos todos por ficar a morar, que ficamos todos por ficar a… viver!?
Não, não posso usar esta palavra aqui… julgo eu… ou será que… será que os mortos também vivem?
Será que as coisas sem vida deixam de facto de viver?
Será que quem morre perde o direito que tem de poder ser? Vá-se lá saber.

Saudade.

Palavra tão de cada um de nós, dos netos aos avós.
Com toda a certeza que é uma das mais pesadas palavras da língua portuguesa.
Carregando eternamente nas costas o peso dos sentimentos de quem gosta, de quem sente, de quem sofre e de quem mente.

Saudade. É o que teremos sempre. Saudades.

Do riso e do choro. Da piada e do gozo.
Das birras.
Dos gritos.
Dos cuidados para com os aflitos.
De como a vida não te escolheu no seu escolher sem razão.
De como o caminho te doeu.
Doeu porque te foi sendo dificultado. Doeu porque a razão te atraiçoou e te falhou. Doeu porque a doença que te vergou foi a pior de todas elas.
Foste vergada pela força superior da tua mente cansada e revoltada, perdida e desencontrada.
Foste traída pela vida e foste escolhida numa tarde sem sentido.
Foste levada sem um som, sem um aviso. Sem tempo para te darmos um beijo de despedida. Sem tempo para nos rirmos mais um pouco do pouco que vai havendo para nos rirmos na vida.
Foi de tarde que a morte te escolheu e foi também de tarde que o teu último sorriso se deu.
Aqui estaremos sempre para te lembrar.
E tu leva-nos contigo no teu pensar.
Beijos, do teu irmão mais velho.
Beijos também do mais novo.
Beijos do teu povo que insistirá em nunca te deixar.
Descansa agora pequenota, que a vida já te foi pesada por demais.
Descansa que agora é o tempo do barco do teu tempo não mais voltar ao cais.

Gabriel… Se ha ido

Gabriel… Se ha ido

Vou começar isto de uma forma diferente. Vou tentar.
Tenho 30 anos (que original), e, como tal, as grandes referências da minha existência são, eram e foram, muitos deles, homens e mulheres que rondam hoje a notável estação dos “entre os 70 e muitos e os 90”. Porquê? Fácil.

Quando comecei a ler, a ouvir música, a ver cinema e televisão e mais tarde a escrever, procurei sempre seguir os vivos, aqueles que produziam obra e que estavam cá para falar dela, mas muito mais do que isso, estavam cá para nos surpreender com algo fantástico na vida de um Autor, a sua obra, a continuidade na mesma, a criação.

Lamentavelmente, a vida é finita, tangível, fantástica e sobretudo, tão curta, para quem tem dentro de si uma imensidão de coisas para deixar a quem cá fica e a todos os outros que hão-de vir.
Escritores, músicos, arquitectos, pintores, todos eles têm comum uma e uma só coisa, o legado, a obra, o ter obra.
E ter obra não é para todo e qualquer “artista”. Quantos são os artistas que vivem toda uma vida envoltos em “artes” sem obra e que no final não deixam sequer uma obra de arte que mereça a pena ser destacada, ouvida, lida, observada?
Quantos são os vigaristas com almas de artistas em capas de revistas?

Esta semana, talvez pela primeira vez em muito, muito tempo, comovi-me com a morte de um destes mestres. Com a morte do Coronel das palavras, do artesão das histórias bem contadas, das mais bem contadas que alguma vez tive o prazer de ler e ouvi-las posteriormente a saltitar no meu imaginário, no pensar atabalhoado de quem quer guardar sofregamente tudo o que as letras têm para dar.

Recordo-me do primeiro que li, o inimitável Cem Anos de Solidão. De uma simplicidade de processos, de uma capacidade de prender, de agarrar, de desviar do caminho. Recordo-me de ter a sensação de estar a ser chamado em voz alta por García Márquez para ir ler, para continuar a história. De estar sentado nas aulas e desatento, a pensar nele, na casa, na terra, no cheiro do ar e das manhãs ensolaradas.
De pensar e sonhar com uma Colômbia onde nunca estive.
De Medellín a Bogotá, passei-lhe os dedos e os olhos pelas letras vezes sem conta. Quem conta uma coisa dessas?

Depois seguiu-se a crueza e a virilidade de Crónica de uma Morte Anunciada. E depois disso pensei para comigo: Quero escrever e contar assim, desta forma a que não consigo sequer dar adjectivos. Quero que um dia as pessoas falem nos livros e nos contos do Martim. Escrever daquela forma é escrever quase em absoluto. É magnífico e magnânimo. Para quem lê, é desejar que os livros não tenham fim e as personagens nunca se “resolvam”. Que a realidade do que ali está nos apareça ao próximo Bom Dia. É acordar com a sensação de ter a boca cheia de ideias e o cérebro cheio de gritos, de urros, de uivos, de loucuras e desventuras de personagens que não são nossas, mas que nos são gentilmente emprestadas, sem a chatice do V de volta, sem o problema comezinho de ter de devolver toda aquela vida e aquele sem fim de sensações que nos inundam os olhos e nos amassam o corpo, rendido ao despretensioso estilo de narrativa com que este Homem nos moldou.

Fiquei triste no dia da sua morte.

Sem o saber ou entender.
Sem o ter inicialmente percebido. Sem ter percebido ainda porquê. Percebendo apenas que um homem destes, alguém que entra tão completamente na cabeça das pessoas, não pode deixar de ser chorado, lembrado, recordado, porque foi alguém que foi amigo, companheiro, professor, de todos os que o leram com vontade ou com curiosidade apenas, dos que guardaram o bocadinho de si que quis oferecer, em cada manuscrito que se dispôs a partilhar com o mundo, que, feliz, o agarrou e publicou de toda e cada vez que quis dar mais um pouco.
Não era obrigado a fazê-lo, claro está. Podia simplesmente ter guardado as histórias para os filhos e netos, para caminhos desertos sem homens cobertos da infelicidade que os livros tantas vezes ajudam a atenuar.
Mas fê-lo. Com vontade.

Vou recordar a última imagem que dele vi e a última notícia que dele ouvi:
“García Márquez disse aos jornalistas para irem trabalhar, para fazerem qualquer coisa de útil!”

A sabedoria de quem alcança a idade dos Mestres com lucidez.
Quem o leu vai recordá-lo para sempre.

E hoje, num tempo em que a memória se vai alojando em espaços virtuais de armazenamento, em que guardamos cada vez menos e registamos e partilhamos cada vez mais, guardar García Márquez numa das gavetas mentais em que arrumamos e atafulhamos tudo é, sem margem para dúvidas, um risco, mas que pode sempre ser compensado com a possibilidade de o procurar na estante e escolher um qualquer, só porque sim, só porque me apetece, só porque quero ouvi-lo falar para mim durante uns minutos. Os livros têm esta força. Podemos conversar com o autor de quando em vez e de vez em quando. Ontem, hoje, amanhã, ou noutro dia qualquer de uma vida que é curta, mas que dá para ler. Sem hora marcada. Sem a força forçada do tempo que corre tantas vezes ao contrário, que pura e simplesmente não pára. Não pára, é certo, mas enquanto corre, permite-nos a veleidade de podermos admirar o que escrevem estas nobres e altruístas criaturas, de podermos enriquecer a língua, o olhar, o estar e o pensar. Permitem-nos viajar seja a que horas for, onde for e como for. Acompanham-nos e sobretudo marcam-nos com a aquela soberana capacidade de marcar que só as palavras têm. Bem ditas. Tão bem escritas. A ecoarem no tempo como notas plenas de perfeição.

Quando um escritor nos agarra ao que escreve, ganha tudo. Quando nos faz comprar às cegas, é Rei na terra de quem lê.

Obrigado Gabriel García Márquez. Até logo, no sofá, possivelmente.

Saudade é para quem tem!

“Mas dou-te mais uma vez, meu bem, saudade é pra quem tem”.
http://www.youtube.com/watch?v=URD3-bID9d8

 A Marcelo Camelo tenho de agradecer obrigatoriamente a construção destas frases em forma melodiosa que segredam ao ouvido sensações únicas a que nos remete a palavra SAUDADE.

No limiar da fronteira entre o dia e a noite assume o escritor a sua veia criativa.
Pensa de dia e plastifica de noite.
Novos desafios e construções de significâncias surgem aos olhos do homem que em tempos não o foi, da criança que hoje não é mais.
As ilusões são criadas pela vontade de as ver acontecer.
Os sonhos são tão somente vontades projectadas e epifanias disfarçadas.
Sonhar é o querer inconsciente, “pintado” com imagens do real, que na mente são dobradas, retorcidas, adequadas, encaixadas e devidamente traduzidas.
Ser sonhador é tão mais do que fazer simples transposições de imagéticas da vida para o local onde acordados nunca estamos.
Ninguém sonha acordado.
Tal coisa não existe.
Ou se sonha a dormir, ou se dejesa conscientemente o que se quer.
Sendo o sonho a matéria abrilhantada que reside no subconsciente e sendo essa a sua magia, o facto de aparecer de noite, ou de dia, mas única e exclusivamente enquanto dormimos, descansados ou nem tanto assim.
O tempo tende a trazer-nos memórias do que sonhámos, do que sonhamos, na correcta proporção e no verdadeiro equilíbrio e balanço de uma sequência Fibonacci.
– Não desisto, ouviste bem? Não o farei. Te garanto e te prometo que nunca virarei as costas, nunca o faço, nunca o fiz e nunca o farei.
– Mas porque me dizes tudo isso Kiko?
– Porque sim.
E Madalena logo se calou, e aquelas palavras permaneceram na sua mente durante semanas, meses.
Francisco foi, voltou, sorriu e mais tarde, já de noite, já deitado, chorou.
Não era seu hábito quebrar assim, mas o ser humano precisa disto, precisa de quebrar, precisa de cair para se poder levantar com o erguer-se do chão perceber que de facto o mundo e a vida não são junto ao alcatrão!
Madalena e Francisco continuaram a viver o quase platónico sonho de uma manhã de verão no mercado da Lapa.
Ele esperou, esperou, esperou e continuou a esperar pelo dia que sabia, que um dia, iria ver chegar.
Ela não sabia, não sabia como saber, não tinha como o fazer.
Ele descansou-a, fê-la perceber que não havia medo a ter.
Que o futuro era um lugar todo ele desconhecido, mas na verdade, é assim que ele deve permanecer.
Haverá notícia pior que saber o que futuro irá trazer?
Os dias vão passando.
Multiplicam-se pelo expoente máximo os sorrisos, os abraços, as conversas, as brincadeiras, os beijinhos e as bebedeiras de felicidade, sem nunca se prometer nada mais, do que ser fiel ao compromisso de verdade e sinceridade assumidos diariamente um com o outro.
– Não vou a lado nenhum. Não tenho pressa para nada, nem planos de partir, disse Francisco ao ouvido de Madalena.
Ela voltou a fechar os olhos, sentiu o arrepio tão doce, e perguntou-lhe ainda mais baixinho:
– Abraças-me até ser dia?
– Seja qual for o dia!
Este amor dura e perdura no tempo.
Quem são os Franciscos e as Madalenas desta nossa existência?
São os que esperam sem prazo imposto, são os que aguardam sem pensar em desgosto, são os que se olham sempre, mas sempre, de sorriso no rosto.
A vida é para a frente, a vida é ontem, hoje e amanhã?
Que bem que sabe o trincar fresco de uma maçã.
Já mais tarde, de meninos pela casa, de rugas orgulhosas na cara, brinquedos espalhados na sala, olham-se em certa tarde, e perguntam sem dizer nada…
– Foi esta a viagem encantada?
– Foi esta a viagem desejada e sonhada?
Respondem com um piscar de olho, com um sorriso rasgado, o gesto apaixonado de dizer gosto de ti sem abrir a boca.
Quem sabe do que se fala quando a boca se cala?
De mãos dadas no terraço, envolve-os o abraço e o olhar terno de uma vida já vivida, com a cumplicidade merecida.
São amores de uma vida, que se viu a espaços perdida, mas sem nunca se desleixar!
São entregas perpetuadas, de uniões abençoadas pelo destino que insistiu em os juntar.
Se haveria alguém que um dia pudesse prever como esta história se viria a desenrolar?
E não é essa mesma imprevisibilidade que traz o brilho ao nosso olhar?
Sinto hoje um qualquer burburinho das almas, perdidas entre noites quentes e calmas de arrepios e borboletas.
Sei que no fundo tudo se resume à ebulição de todas as emoções concentradas, de tantas tentativas falhadas, de percepções assutadas, que na vida enebriadas, se desvancem com o tempo, te trazem à boca o lamento, mas subitamente…
Devolve-se à alma o alento, sim e sei que sou eu que o alimento, mas chega, já não aguento, já não aguentava.
Era a porta que batia e a janela que fechava. E a mim, em mim, pouco ou nada se encontrava…
Pretérito do verbo encontrar, conjugado na forma correcta, porque é na presente que vivo agora, vou, na janela com a cabeça de fora, sorrindo até te encontrar…
Não páro, não tranco a cara nem cerro os lábios, ao invés reinvento a lógica tantas vezes subjugada, de procurar pontos de luz em casas de janelas fechadas.
É tarefa dura? É, mas sabe bem, sabe tão bem dar e receber, sabe tão bem, olhar, não falar e perceber.
Sabe tão bem sentir saudades de quem…
Sabe tão bem não pensar em mais ninguém.
De flores se retira o cheiro, dos teus olhos o olhar, fico nele assim bem preso, até o dia voltar para me acordar.

SAUDADE, saudade… digo eu!

E foi mesmo assim como tinha de ser.
Agora? Recordo.
Recordo-me das manhãs, das tardes e do final dos dias.
Recordo-me do acordar, do deitar e das noites frias.
Recordo-me dos passeios.
Eu do lado de fora, junto à estrada, tu do lado de dentro junto ao que de mais próximo por lá houvesse. Porquê?
Porque é mesmo assim quando tem de ser.
Porque era a minha maneira simples de te proteger.
Se o carro viesse, acertava em mim primeiro, lembras-te?
Digo-te isto assim baixinho, falando com jeitinho, sabendo que não ouves já tão bem, que o som te soa distante e se torna mesmo incompreensível, aí, viras a cabeça para perto dos sons mais perto.
Não te censuro, é mais… perto e real, não é?
Gosto de te lembrar. Sabe bem no pensamento, traz aos olhos um sorriso de menino, ou um esgar de traquinice.
São as noites o meu capuz, nelas se protegem as saudades do que agora é disperso e distante, nelas se libertam as memórias de um passado fresco com cheiro de primavera.
As relações entre homens e mulheres são, certamente, um dos pontos mais altos da vida humana.
Dividir a vida com alguém, toda a vida, é algo de uma nobreza e coragem tremendas.
É TUDO, sempre, durante, ao longo de, e é assim que tem de ser.
Só assim se pode almejar o alcance difícil e complicado da felicidade plena, e mesmo esta, está dividida por camadas invisivelmente delimitadas, com fronteiras não especificadas e que são facilmente confundidas por estados de alma que têm tanto de sedutores como de enganadores.
É, no entanto, uma experiência e tanto, uma daquelas que certamente vamos querer contar aos netos, se um dias os chegarmos a ter.
O HOMEM É LEMBRANÇA!
É uma das mais belas palavras que a língua portuguesa um dia gerou.
Uma palavra que tem tanto de bela e poderosa, como tem também a capacidade de nos transportar para imagens que trazem ALEGRIA aos olhos e à boca, boca essa que sorri desavergonhadamente.
SAUDADE! SAUDADE, digo eu!
Soa tão bem ao ouvido, aos olhos, (isto considerando a enormidade de vezes que a palavra saudade é utilizada por vias não orais) à boca, a todos os músculos e sensores do corpo que são activados pela romanesca, positiva e explosiva sensação que afoga o cérebro em prazeres imagéticos e sensoriais, automaticamente retribuídos em doses industriais de Adrenalina!
Somos matéria, órgãos, sensores, conexões, ligações, sinapses nervosas, lembranças, sonhos, desejos, instintos, alegrias, tristezas, ilusões, fantasias, desilusões, sofrimento, regeneração e reinvenção.
Somos tudo o que dizemos, o que fazemos, o que comemos, o que amamos e detestamos, o que acertamos e erramos, o que perdemos e o que ganhamos.
Quem sou eu hoje afinal?
Onde me deixei que agora de repente não estou a ver?!
Onde me posso eu ter separado de mim?!
Se usasses a cabeça para te situares e não para escrever parvoíces…
E tu?
Quando é que deixaste de me ver?
Onde me deixaste tu também?
“Parto rumo à primavera…” (Obrigado Manuel Cruz, ex-Ornatos Violeta) e caminho em direcção a sei lá o quê, na mesma rua do… “lá para a frente. Olha o que tiver de ser, será, e o que é teu às tuas mãos virá para…”.
E é assim que se vai.
Dormias sempre pertinho e com frio, tapada até aos cabelinhos que aos meus olhos brilhavam no breu da noite.
Sabes do que sinto falta? De te fazer sorrir só de olhar… para ti!
Agora, recordo!
Recordar é sorrir e é também, perdoem-me a ousadia, sinal de consciência tranquila.
Mais não sei, e mais não sabia.
O conhecimento vem depois, vem sempre depois.
E tudo isto se passa à noite, debaixo do capuz que protege a saudade.
Tudo se passa de noite, depois do postulado de libertinagem que a mente me concede, uma espécie de biscoito com que se treinam e premeiam os canídeos.
A noite é sempre bela e hoje também serena.
Porque não há-de ter interesse a versão do viajante do caminho longo e sinuoso da mágoa e da derrota, do desalento e da incredulidade, tempo durante o qual o tempo parece pesar tanto quanto a ponte que une as duas margens da cidade, carregada com as vidas de todos os que a atravessam.
Porque não?
É um tempo triste, tão triste quanto a dimensão do que se perde na estrada de um tempo que não capta o que deve, no tempo em que devia, fica perdido e não sabe como regressar, não sabe o caminho de volta mas percebe o tempo a esgotar.
Está perdido e não avança, saltita, qual folha que da árvore que se solta e acaba a brincadeira no chão.
Da vida pouco se sabe até se viver.
Ouves aqui e ali e só as lembras (lá está, sempre a memória) quando as compreendes na totalidade, geralmente num pós qualquer merda, que também não interessa.
A vida de quem nos rodeia não ajuda mesmo quando tenta.
O que é teu para ti está guardado, podes preparar os ouvidos, mas nem mesmo esses te vão servir se os teus olhos não quiserem ver.
Por isso, recordo.
Agora recordo, e aos olhos, faço o que me apetecer!