Presentemente presenciando o que assim se apresenta

Presentemente presenciando o que assim se apresenta

O presente – sem papel de embrulho – e tudo aquilo que desejávamos nunca ter visto com estes mesmos olhos tristes com que vamos olhando para uns e para os outros, mais para uns do que para outros, é hoje uma convulsão ininterrupta de atropelos, desrespeitos, mentiras, enganos, desenganos, desonestidades e tantas outras atrocidades, diariamente expressas em assumidos e sinceros laivos de selvajaria, mordidelas venenosas e assomos de prepotência que, mais do que roçar, se esparramam na lama porca em que dorme a falta de educação. Há, com excepção da altura do Natal, um ausência total de Compaixão, de solidariedade entre os homens, e isso é assustador, é mesmo, pelo menos a mim, que já não sou nenhum menino, assusta-me, assusta-me que o homem não saiba, ou não queira, ou que pura e simplesmente não consiga ser mais do que isto.
Bem sei que são palavras caras, e grandes, que, e sobretudo que se tratam de palavras, de verdade. Vocábulos emparelhados com algum sentido.
E é isso que descompõe o arranjo.
Ah, Realidade!
Sacana, tu que foste esculpida a crédito e te apoiaste na pobreza de tantos e tantos mais, e que os usaste depois para sustentar a riqueza infeliz e vazia de tão poucos, daqueles de quem se diz que: “prosperaram”, à custa de coisas que… que sabemos nós quais, tu que assistes, aqui e ali, ao inegável esvaziar do que falta dos remendos dos bolsos das calças, dos casacos, até dos cordões gastos dos sapatos, também eles manifestamente desgastados pelas unhas que os esgravatam inconformadas e impiedosas, tanto aos bolsos como aos sapatos, diz-nos: – Que queres tu da gente boa?
Que esperas tu que A Gente faça?
É que isto, a continuar assim, é uma desgraça e sobretudo não tem lá muita graça.
É tudo, sim?
Adeuzinho,
Passar bem.
Para si também.
És tu.
És tu também.

Pequeno ensaio sobre a Compaixão… ou não

Pequeno ensaio sobre a Compaixão… ou não

Vou começar pelo fim.

Espero, do fundo quente do meu coração, que o Natal tenha sido santo e feliz, repleto de reencontros, de reconsiderações, reuniões, jantares, copos cheios e gargalhadas aos trambolhões. Espero igualmente que se tenham reunido em família, ou simplesmente que se tenham prostrado no sossego impenetrável dos vossos lares e no conforto quente dos sofás, mas que tenham, acima de tudo, tido uma agradável noite de Natal. Posto isto vamos ao que aqui me traz:

Pergunto-me se na noite de Natal, sim, nessa precisa e santificada noite, tiveram a decência de se recolherem, ainda que por pouco tempo (que ninguém está à espera que agora se tenham convertido em fervorosos pensadores, ou em sociopatas insuportáveis), com os vossos pensamentos. Sim, que o Natal é para estar com a família e não para se porem com meditações budistas, nada disso. Mas… o que vos pergunto é tão simples quanto isto: Tiveram, ou não a hombridade de se recolherem, durante alguns minutos com os vossos pensamentos? Cinco minutos imberbes que tenham sido, a fim de repensarem tudo o que foi o ano que agora termina e para tentarem adivinhar alguma coisa que vos possa calhar em sorte no novo ano que se aproxima, tiveram? Ai não? Posso ao menos perguntar-vos… porquê?

Permitam-me desde já sossegar-vos e assegurar-vos que não estou aqui para julgar seja quem for, até porque, como já deu para perceber, um tipo que escreve um texto destes e tem o descaramento de atirar perguntas para o ar e falar como se de facto alguém lhe estivesse a responder, não tem grande legitimidade para julgar quem quer que seja, mas, ainda assim, atrevo-me a perguntar uma vez mais: Porquê?

Salvo aqueles que tenham de facto uma boa razão, que justificação têm para não o terem feito? O que vos impediu de se recolherem, sozinhos, em solilóquios mentais de curta duração, em flashbacks de 2014 a pedido, a fim de pensarem um pouco… nos outros, nos que não tiveram ceia de Natal, nos que não tiveram prendas, chocolates, Bolo Rei ou Rainha, ou filhoses da vizinha. Nos que não tiveram os pais por perto no Natal, em todos aqueles para quem esta é, de longe, a mais triste das quadras, a mais vil das épocas, a mais estúpida das festas? Qual foi, então, o motivo?

MM_pequenoensaiosobreacompaixaoounao_3 Pois, tal como eu calculava, nenhum. Por razão alguma não existe razão ou explicação, pois não? Estão por aí ainda? Ainda não vos fiz arrepiar caminho, pegar  no rato, ou alçar do dedo para irem ler as missas do padre de outra freguesia, fartinhos que já devem estar deste começo de sermão a atirar para o ofensivo?  Não?

 Tanto pior…

 Ora, assim sendo e passado este primeiro foco inicial de perturbação, desafio-vos a algo que pode dar que fazer. Num papel, numa agenda, nas notas do  telemóvel, em folhas de papel higiénico, onde quiserem, onde vos der mais jeito, prazer, adiante… escrevam um e um só objectivo de cariz social para 2015 que não tenha sido alcançado em 2014, mesmo que a ele se tenham proposto. Vá lá, não custa nada. Sim, já percebi que não estou a ser muito específico e que ando para aqui em circunlóquios apatetados, que acabam por vos levar a nenhum lado (bem diferente de não levar a lado nenhum), sem que pelo caminho consigam perceber a natureza de toda esta retórica. Então, vamos por partes:

1º – O Natal tem uma capacidade que não se encontra em mais nenhuma outra época festiva do ano, que é a capacidade de agregação;

2º – Toda esta quadra embrulha o ser humano, regra geral (porque há sempre a excepção que confirma a regra), num papel suave e sedoso que o torna mais macio, mais doce, mais atento, mais carinhoso, mais amigo, mais familiar, mais bondoso e generoso, mais tudo;

3º – É a época da COMPAIXÃO por excelência, por inerência. E é mesmo por aqui que vou. Vamos? Então vá…

Atrevo-me a fazer-vos mais uma pergunta. Desta vez prometo ser menos invasivo. Ora então, aquilo que vos quero perguntar é então o seguinte: Qual o primeiro significado que vos ocorre, quando ouvem, ou simplesmente pensam na palavra compaixão? (Tenham calma! Um de cada vez e ponham o dedo no ar)

Para não fugir ao habitual, tive de responder à minha própria pergunta. Se orgulhosa e desavergonhadamente falo sozinho, não será de todo inusitado que coloque perguntas e lhes responda de seguida. Faz parte do manual de sobrevivência de qualquer tipo minimamente “avariado”. Para mim foi assim bastante fácil. Pena, isso mesmo, foi precisamente essa a palavra que quase de imediato começou a saltitar aos gritos na mente. Nem mais, nem menos. De facto, quando comecei a aperceber-me das respostas que me davam alguns dos amigos a quem fiz a mesmíssima pergunta, vi que estas eram bastante diferentes da minha Pena.

Três pessoas usaram a palavra Amor como primeiro e imediato sinónimo para compaixão. Outras três disseram, Perdão. Duas apontaram para Solidariedade e outras tantas para Simpatia. E seguiram-se respostas tão distintas como Caridade, Empatia, Entrega, Carinho, Dor, Piedade, Indiferença, Crescimento, Maturidade, Outro, Dedicação, Respeito, Entreajuda e Amizade. Ninguém pensou instintivamente em Pena. Enfim… é pena. Esperei para ver se aparecia algum amigo, ou amiga a referir a mesma palavra, mas nada, zero. De facto é pena, porque tenho pena de não poder perguntar a essa pessoa: Pena? Porquê Pena?

MM_pequenoensaiosobreacompaixaoounao_2 Porque a minha resposta é tão simples e falível quanto isto: Compaixão parece ser hoje mais do que o substantivo que atabalhoadamente a enjaula. Começa  por ser uma palavra que parece poder ser apenas explicada através de exemplos que apontam sempre para acções para com uma pessoa, ou um grupo de  pessoas. Acções palpáveis, visíveis.

 Logo por aqui se vê e mede a complexidade da palavra que estamos a tentar humildemente analisar.

 Na verdade, não poucas vezes nos deparamos com palavras que são bem maiores do que o redutor número de letras que as compõem. Compaixão é uma dessas palavras justificadamente grandiosas, tão grandes que são capazes de provocar nas pessoas uma confusão enorme quando lhes perguntamos directamente o que é, ou pior, quando as entalamos entre a conhecida e maquiavélica representação metafórica da espada e da parede e lhes pedimos que nos digam um sinónimo de forma quase instintiva para a palavra em questão.

Não. Não sou ou tenho a pretensão de ser sábio, ou qualquer coisa que o valha e, volto a sublinhar, que não estou nem vou julgar a opinião de ninguém, porque, na verdade, o conceito sobre o qual estou para aqui a dissertar correndo o sério risco de vos maçar é, de facto, um conceito que só existe debaixo do pressuposto social em que estamos irremediavelmente inseridos. É absolutamente imperativo e simultaneamente fantástico que assim seja.

É notável que possa pedir ajuda aos meus amigos para conseguir terminar este texto e que os mesmos se prontifiquem, via Facebook (esse “monstro” que alegadamente “desvirtua” as relações sociais), a responder-me de imediato, para me manifestarem o que pensam e entendem por compaixão, tendo eles próprios, talvez até de forma inconsciente, dado uma demonstração cabal do que pode ser a compaixão entre os homens. Expuseram-se para ajudar um amigo. Fazem-no quando e porque querem. Natal é quando o homem o quê? Pois…

Por isso, Pena, Martim Mariano, Pena não é de todo o único e mais acertado sinónimo para a palavra Compaixão, mas é um dos muitos possíveis, porquê? Porque a Pena é um dos variados sentimentos que saltitam por nós dentro e nos levam a assumir publicamente a necessidade de ajudar, de apoiar, de reparar, de contribuir e de auxiliar aqueles de quem efectivamente acabamos por ter pena, por ter dó, piedade, pena dos e pelos Outros. Damos sinais fortes de uma maturidade e consciência que nos permitem concluir facilmente que só podemos existir porque existem os outros, que, de uma forma ou de outra, são também responsáveis pela dinâmica daquilo que é a sociedade em que vivemos. Daquilo que foi e daquilo que há-de ser. É verdade que se trata de uma palavra cheia, que se quer conceito, que se sente no peito, que nos obriga a cortar tantas vezes a eito, a sacudir as bases do que temos como certo e errado.

MM_pequenoensaiosobreacompaixaoounao_1 Somos, nós os homens, seres verdadeiramente únicos neste planeta. Somos, nós os homens a “nata” da própria vida. E porquê? Essencialmente, porque temos, regra  geral (cá está ela novamente, a malandra), a capacidade que nos distingue dos demais habitantes da bola azul, a superior faculdade do pensamento. Esse Ás de trunfo é  o responsável por todos os restantes recursos dos quais nos servimos diária e consecutivamente.

 Infelizmente, aos pérfidos e nefastos efeitos do poder sobre os homens, estes acrescentaram o dinheiro e a ganância à equação e olha que duas para tocar a concertina,  logo elas que tão amigas são da soberba e do sobranceirismo, que se uniram, então, para transformar as vidas de uns em paraísos e de outros em misérias. E tem de se  reconhecer à maldade a persistência e a capacidade de trabalho.

 Para terminar, não me vou despedir com votos e profecias de fim de ano, nem com desejos bacocos e vazios dirigidos a pessoas que possivelmente nunca vi e que com  toda a certeza passarão bem sem os meus desejos seja lá do que for. Vou antes deixar-vos mais uma pergunta, pode ser? (esta não conta, claro está)

O que pesa mais no peito: aquilo que está por fazer, ou tudo aquilo que já foi feito? Desculpem-me, mas a esta não sei eu responder.

(Este texto foi originalmente publicado no site http://www.reportersombra.com)

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

Chegar à cidade de Córdoba a meio de uma tarde de Julho é uma experiência no mínimo invulgar e marcante. Não só por tudo o que se vê, mas igualmente pelo surpreendente e inesperado vazio de gente, de movimento, de reboliço, de corrupio, de desvario, acima de tudo é isso, impressiona pela ausência bastante significativa de gente nas ruas. Tal coisa só pode, no entanto, ser inesperada para quem não vive ali, nem tão pouco sequer alguma vez ali esteve, em particular, naquela época do ano tão exageradamente quente.

Antes de chegar a Córdoba, percorrem quase 100 quilómetros por entre uma estrada de rectas intermináveis e secas, com pequenos adornos em forma de curvas que se fazem em 5ª velocidade, tal é a pequenez do ângulo que as mesmas descrevem. É impossível ver o fim a uma destas rectas num dia de calor, em que o asfalto se maquilha com vestes prateadas, que se assemelham a lagos perfeitos no horizonte escaldado. Sentiram que estavam a caminhar alegremente para o interior negro e queimado de um caldeirão, que estavam a penetrar lenta e pesarosamente num vale quente, tórrido, abraçado por áridos vislumbres das vizinhanças e largado ao desinteresse por montanhas que nunca dormem.

A Sierra Morena lembra os visitantes que esta era uma cidade estrategicamente plantada neste local, defendida pela natureza que lhe ergueu montes, montanhas, serras e vales e que, em tempos distantes, esta foi a Urbe mais importante da Terra. Chegar a uma cidade onde nunca se esteve, sentado ao volante indeciso de um carro que, também ele, parece perdido e desorientado no emaranhado de ruas e ruazinhas, de “vira à esquerda, não, afinal vira à direita, Ah porra, que não era por aqui, viste bem o mapa?” é, sem sombra de dúvida, uma experiência que testa as capacidades e, sobretudo, a resistência de uma parelha única, com espírito de missão e com uma vontade absoluta e insaciável de novidade, de conhecimento, de descoberta, de vida. Acima de tudo isso, isto é, distinguem-se pela vontade que têm de fazer tudo em conjunto, sempre, só é somente. Isso.

Bem sei que estão a estranhar o recurso a um mapa de papel, nesta Era da tecnologia, que faz tudo por nós, mas ainda há quem orgulhosamente se sirva de um mapa da Península, para viajar por ela adentro. Um mapa, em papel, exactamente, um daqueles que estão fantasticamente dobrados em partes simetricamente iguais (acho mesmo que os mapas são feitos com o objectivo pérfido de complicar a vida seja de quem for, porque, sejamos honestos, é preciso aprender a ver mapas, é preciso arte para nos conseguirmos guiar por um mapa, sobretudo, se estivermos confinados ao interior de um Corsa dos mais crescidos), que, regra geral, vivem espalhados sabiamente por tudo o que é estação de serviço, de Norte a Sul de um país e que fazem com que para alguns artistas, como é o caso, não dêem para passar uma viagem sem rasgar um pedaço de qualquer estrada, ponte, ou linha de comboio, na tentativa pateticamente furiosa de devolver o mapa ao seu caótico emaranhado de rios, vias secundárias e principais, auto-estradas, vilas, aldeias, cidades e povoações, caminhos de terra, serras, lagos, pontes e todas as suas ligações, dobradinho como se tivesse sido engomado a preceito com um ferro de caldeira.

Claro está que ao fim de algumas centenas de quilómetros já se pode ver, entre Portugal e Espanha, um joelho e o pedal do travão. Amor… Sim querido? Estás a ver o mapa ao contrário! Cala-te não sejas parvo… ahahahahaha… pois estou! Lá vão eles – ligeiramente indecisos nos próprios silêncios, também esses tão realisticamente particulares e tão próprios dos dias de calor absoluto e infernal – entrando, maravilhosamente cansados, mas felizes, nas entranhas tórridas de Córdoba, sem conseguirem ver praticamente vivalma, nem tão pouco um puto montado numa bicicleta.

Antes de encontrarem o hotel, entregam desavergonhadamente cerca de meia hora às ruas desconhecidas e às avenidas largas, que aos seus olhos se cruzam respeitosa e cavalheirescamente umas com as outras, sem malícia, ou maldade alguma. São serviçais, existem tão simplesmente para servir quem delas se serve. O calor, esse, parece recebê-los com entusiasmo, pois a temperatura aumenta estupidamente à medida que a velocidade do carro diminui. Tudo, ou praticamente tudo, parece acontecer em slow motion. Os carros circulam devagar, os que circulam, não vêem mais que três, durante a deambulação gratuita que empreendem pelas ruas cordobenhas. Os cumprimentos à entrada do hotel, as árvores que balouçam ao sabor de um tímido soprar de um vento aquecido, os passos dos hóspedes, os carros que circulam no parque de estacionamento, as folhitas que se habituam a viver junto aos pneus dos carros parqueados saltitam como se procurassem tirar as costas do chão em brasa.

O hotel parece-lhes muy bien.

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Facto: os portugueses gostam de chegar a qualquer país e ouvir a sua língua e, quando viajam de carro, sentem um natural e reconfortante prazer se conseguem ver o P por baixo das estrelas da bandeira da União Europeia de uma matrícula qualquer, seja em que veículo for. É inexplicável. É uma sensação de segurança misturada com… sei lá o quê mais. É o que é e como é. Podem nem se falar, durante toda a estadia, podem perfeitamente cruzar-se apenas no trânsito, num semáforo, numa praça, num restaurante, ou numa esquina qualquer, mas a sensação de pertença e de identificação com aquele P sentado por baixo das estrelas não deixa de ser curiosa. E moderadamente agradável.

Voltando a Córdoba. Conseguem um lugar não muito longe da porta do Eurostars Las Adelfas, um hotel tipicamente andaluz, amarelo, com as janelas de todos os quartos divididas com os arcos e as colunas em mármore branco… lindo. Perfeito! “Que horas são?” Para a piscina, já! Check-in feito em 20 minutos, depois de dois casais de espanhóis quase se terem pegado ao estalo para decidirem quem tinha chegado primeiro à fila. Transpiram desalmadamente com as roupas já coladas a algumas partes do corpo. Ele não deixa de olhar para ela, com aquele ar malandro de quem tem o fogo na alma, de quem a ama com a paixão louca das páginas ocres dos livros que guardam na alma.

Sentem o Verão e a sua alegria no coração da Andaluzia.

Instalam-se. Trocam de roupa. Brincam nus pelo quarto. Vestem-se rapidamente e rapidamente vão até à piscina. Procuram um pedaço de relva que ainda permita estender duas toalhas, já que as espreguiçadeiras estão com lotação esgotada. Aninham-se atrevidamente à sombra de um chapéu-de-sol que protege dois ingleses e, sem mais demoras que não as do duche obrigatório antes de enfiar o corpo assado dentro de água, vão com tudo o que ainda lhes resta de energias, depois de uma viagem de 670 quilómetros, e mergulham como as lontras para dentro de água. Férias dizem os olhos de um para o outro. Férias, meu amor. Férias!

Amo-te respondem depois com o sorriso nos lábios, embelezado por um abraço que deixa apenas as cabecitas fora de água e o coração cheio novamente. O coração é assim mesmo, caprichoso, de hábitos pouco redondos. Alimenta-se destas coisas. De vez em quando, assume alguma modéstia e não complica o que é simples, quando é simples. De vez em quando, o coração deixa-se ser apenas isso mesmo, coração. Ela parece-lhe extraordinariamente perfeita debaixo daquele calor quase insolente e dentro da água, então, é um vislumbre de maravilha e de felicidade, que se quer eterna. Tenta parar o tempo, ali, naquele preciso instante. Tenta. Não consegue, para já. Voltará a tentar.

Dão pela fome quase em simultâneo, depois de cerca de 20 minutos de molho, a marinar. Sem pressas de maior, voltam ao quarto, para um banho fresco, uma muda de roupa e aproveitar o guifi (Wi-Fi) gratuito, a fim de perceberem mais ou menos onde vão jantar, ou pelo menos onde é que podem estacionar o carro para poderem depois perder-se à vontade nas vielas floridas e encantadoramente alegres da Judiaria de Córdoba, agraciados e confortados pelo seu estrondoso entardecer. Estacionam numa rua interior, onde já chega mais fraco o calor das 19:30. Que grande Verão que se adivinha pensa ele, feliz, simplesmente feliz.

Por vezes é tão simples a felicidade. Quando o teu corpo e alma se encontram tão abundantemente satisfeitos e completos, que sentes uma leveza estranhamente agradável e constante, que não se esfuma no deitar e no dormir, que se renova a cada beijo, a cada abraço, a cada nova rua desta cidade nova nos olhos, quando sentes isso, estás bem, estás feliz. Simples. É.

Flores. Pátios. Branco. Gente. A gente que se esconde nas tardes abrasadoras abandona as tocas e aparece ao final da tarde/princípio da noite, como se de facto só se pudesse viver verdadeiramente nesta terra, quando o sol nasce e mais tarde quando ele se começa a despedir, deixando para trás a pintura maravilhosa de um céu tingido de um laranja absolutamente memorável. No entanto, ela começa a queixar-se de dores na garganta. Na verdade, já as traz consigo desde Lisboa. Param junto à velhinha ponte romana e admiram a entrada na parte antiga e moura da cidade. Ele não resiste ao céu polvilhado de pó de tijolo e limão ressequido que, misturado com os cabelos dela e o reflexo da luz quente que se despede nos óculos que traz no rosto para não ferir os olhos com o brilho quente da estrela amarela e redonda, fazem a anunciação de uma fotografia perfeita. Enquadra, abre, foca, espreita, sorri-lhe pelo canto da boca e dispara, uma e outra vez, enquanto a vai vendo mexer-se imaculadamente à luz do final de tarde perfeito no Sul da vizinha Espanha.

Vão andando. Nem muito depressa, nem muito devagar. Andando. Parando. Olhando. Admirando. Falando, agora menos. Já lhe custa falar e não o consegue esconder. Ele preocupa-se e dá-lhe a mão. Vamos jantar, diz-lhe baixinho e com todo o amor que lhe tem encrostado dentro daquelas duas palavras. Tapas e Tinto de Verano, pois claro. Ali ficam até aquilo fechar.

Ele nota-lhe o esforço tremendo que faz, durante toda a noite, para esconder o desconforto que as dores na garganta lhe estão a provocar. Já ela, pobrezinha, aproveita até os mais breves silêncios para descansar. Até o pestanejar se vai já tornando pesado, cansado, marcado pelo latejar da dor que a transtorna.

Fazem o caminho de volta ao carro, com um pequeno desvio para pararem exactamente no mesmo sítio onde horas antes ele a fotografou, estarrecido com a beleza da pintura que os seus olhos viam. Admiraram tudo com esponjas sôfregas nos olhos, a fim de guardarem tudo aquilo nos recantos puros e escondidos das memórias boas que nos trazem este tipo de viagens. Selam a vista com um beijo abraçado e, de mãos dadas, atravessam a rua e voltam a encontrar a pequenina e apertada ruela interior, onde pararam o Corsa. É sempre uma festa, quando se encontra o carro à primeira, no primeiro dia em que conduzimos numa cidade onde nunca tínhamos posto as rodas, ou os pés.

Por esta altura ela já se calou.

(continua…)

Texto publicado no site  www.reportersombra.com