15/09/2003 — 15/09/2013 — BELÉ

Ainda parece tão… fresco, se é que há alguma frescura nisto tudo…
Ainda soa tão… estranho.
Ainda… Ainda Belé, ainda.
Hoje, 15 de Setembro de 2013, dez quinzes de Setembro depois do fatídico e ainda hoje incompreensível 15 de Setembro de 2003, dia esse que marcou a vida dos teus familiares, amigos, e outros que nada disso eram, mas que ficaram igualmente atónitos marcados pela absurda e violenta natureza do acidente que te “roubou” a vida e te “roubou”à vida, aqui estou para te contar algumas das coisas que se passaram durante estes “nossos” 10 anos.
Provavelmente estás confuso e a dizer que já escrevi uma “merda” destas o ano passado, ou lá o que foi. 
Tens toda a razão, mas este ano é necessário uma actualização.
Dizia eu, qual velho que não se recorda mais dos pontos onde interrompe as histórias, que entretanto já tanto se passou por estas vida, pelas nossas vidas.
Já houve casamentos e ajuntamentos, separações e confusões, mais casamentos, baptizados e outras tantas celebrações, e agora, festejamos e apadrinhamos os nascimentos de lindos e pequeninos rebentos que ajudarão a perpetuar memórias do que fomos, do que vimos, do que fizemos e de tudo aquilo que conseguimos e não deixaremos nunca de lembrar, com os olhos postos em tudo o que almejamos alcançar.
Tens visto tudo, bem sei, mas ao mesmo tempo acho que te faz falta ouvir-nos de quando em vez, acho que te sabe bem que te contemos as histórias da vida de quem anda “cá por baixo”.
Neste mesmo dia, há 1 ano atrás, houve quem tivesse tentado falar contigo e se deparasse… com a tua ausência, física, daquela que havia sido a tua morada nesses últimos 9 anos!
Daqui podia nascer um enredo de filme, uma narrativa prodigiosa e ficcional em torno de um qualquer milagre de ressurreição, ao bom estilo dos romances que vendem milhões em todo o planeta e que sem qualquer sombra de dúvida faria O próprio Cristo corar de vergonha, embaraçado por pensar que havia conseguido em 3 dias, o que tu farias em 9 anos, exactamente 9 anos depois do dia que assinalou uma tristeza incomparável na vida de muitos de nós, do dia em que dos céus desceram as escadas que te levaram e em que se abateu sobre nós uma tormenta nunca antes imaginável e sobretudo a todos os títulos incomparável. 
Ora junta-lhe mais um à conta.
Mas não, não houve milagre para celebrar, somente da minha cabeça idiota podiam ter saído estas ideias estapafúrdias.
(Ainda hoje não consigo aceitar que tenhas morrido assim! Revolve-me as entranhas, escorrem-me lágrimas furiosas pelo rosto precipitando-se para o queixo de onde saltam desamparadas para o nada. Porra que continua a ser inconcebível que alguém se possa volatilizar assim…)
Há 1 ano descobrimos que tinham dado o teu terreno a outro(a) pessoa que estava a precisar de descansar um pouco. Acharam que estava na hora de mudares de ares e de ires pregar para outra freguesia.
Agora sim. Foi de vez.
Puseram-te, fecharam-te numa caixa. 
Coitados, acham eles que te podem algum dia engavetar, triste sorte a de quem te enterrou na morte, julgando que te estava de facto a enterrar.
Continuas vivo, bem vivo, presente e bem presente, em tudo o que é mente da gente que te acompanhou.
Miguel Ângelo Simões Henriques.
Miguel.
Belé.
Bebé.
Cara de bebé.
Vneno
Hups
Lip
Troll
Narigão
Narigudo.
Pencudo.
Sei lá mais o quê.
Um grande, grande amigo. 
Um dos melhores e mais intensos amigos que tive o prazer de ter na minha vida. 
Um dos mais eloquentes e ao mesmo tempo inconscientes seres humanos que cruzou o meu caminho.
Fizeste da amizade uma experiência visceral e transcendente.
O tempo ajuda a entender e maturar as coisas no pensamento, ajuda a tornar mais dócil o sofrimento, ajuda… ajuda! O tempo tudo cura e faz a cama à dor, dá-lhe de beber quando precisa.
Nunca esquecerei o teu olhar. O bom e o outro… o fodido. De raiva. De revolta. De orgulho. De peito feito e bolso vazio, de atrofiar o atrofio.
Vivemos tanto e tínhamos tanto para viver, no fundo é essa a causa de muita da dor, acho que é essa a causa maior da dor perpetuada no tempo e que teima em não passar!
Tínhamos tanto para viver, tínhamos tanta vontade de o fazer.
Ia gostar de te ver agora, como tio… Dos bebés que entretanto chegaram.
O Rodrigo, a Joana, o Salvador, o Álvaro, a Teresa… é uma autêntica legião… =)
E sei que tu ias adorar ser tio, tê-los ao colo, nos braços!
Estou desde manhã a pensar para onde é que te terão levado? Onde te terão eles engavetado?
Sabes, hoje trabalho num canal de televisão, no mesmo que me confirmou aos olhos a inenarrável tragédia que te levou, no mesmo que me deu a certeza de que não estava tudo bêbado e a gozar com a minha cara.
Como diz o Miguel Esteves Cardoso, “Como é linda a puta da vida”, irónico o desplante e a ousadia da própria ironia.
Por isso te digo que esse dia, o dia 15, 15 de Setembro de 2003 foi na verdade um dos dias mais tenebrosos, mais assustadoramente terríveis da minha vida, um dos dias mais surdos, cegos, brutos, dolorosos, incompreensíveis, esgotantes e desprezíveis que tive a infelicidade de viver.
Mas vivi-o, eu e todos os que te conheceram e que de cuja vida fizeste parte.
Obrigado Miguel, por teres feito parte da minha vida.

Sabes, não penso em ti todos os dias, não penso e digo-te isto com franqueza.
E não quererias que assim o fosse, que isso sei-o bem.
Quererias que todos nós prosseguíssemos com a nossa vida, e foi assim que o fizemos.
Talvez tenha para isso contribuído o facto de ter saído de Stº António dos Cavaleiros, talvez tenha tido esse um secreto desejo meu, mas sabes, quando penso, sorri! Sorrio, recordo, relembro, desmancho-me, aprendo e esfrego as mãos, respiro fundo, franzo a testa e arqueio as sobrancelhas… Pensando e desejando que o resto da vida seja uma festa.
Isto saiu no dia do teu funeral.

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/descarga-mata-vneno

Como esquecer?
Durante anos fugi da estação do Rato.
Durante anos…
Depois, um dia… fui lá, ver, falar contigo.
Vi de perto e soube bem.
Até um dia, te digo eu também.
Não sei se me perderei na auto-estrada para onde estás, não sei se de facto ainda… estás, mas olha, enquanto o tempo me permitir escrever e articular a simplicidade do pensar, em palavras que não se atropelem com a ânsia de te segredar um abraço, não me faltarão forças para falar contigo e para te levar comigo na durabilidade efémera da vida.
Um abraço meu amigo, um abraço.
Um maior do que aquele que te enviei há 1 ano atrás!
Hoje passam 10 anos Miguel e nem sabes o quanto isso torna tudo isto… estranho!
Lembro-me de ti como miúdo e tento imaginar como terias tu crescido?
Como estaria o teu cabelo?
Que carro terias tu?
Onde trabalharias agora?
E a vida toda da parte de fora.
Conta-se e fala-se sobre ti.
Eu falarei por certo aos meus filhos.
Do amigo do pai que se tornou estrela, lá longe e bem alto no alto distante do céu.
Das doideiras que ele fazia do como a pouco ou ninguém ouvia, e dos olhos que brilhavam com as mais inusitadas coisas.
Mas contar-lhes-ei também que fazias tudo à tua maneira, seguindo as tuas crenças, convicções, fossem estas certas ou totalmente descabidas e desconexas.
Porque sempre foste um fantasista, um crente, alguém que acreditava que o fim justificava sempre os meios que se utilizassem para lá chegar, fosse onde quer que fosse que isso acabasse por te levar! E levou, como o vento se encarrega de levar as palavras.
E agora?
Não te traz de volta pois não?
Já esperámos tanto tempo e não acontece nada. Já esperámos nos dias, nas noites e nas madrugadas, já deitámos vezes sem conta as esperanças nas madrugadas e ainda assim… nada! Absolutamente nada!
Foda-se, para onde foste tu afinal?
10 anos é muito tempo e é tempo nenhum, 10 anos é mais que tempo para se perguntar ao tempo se te traz ou te deixar ficar onde estás.
Seja como for, que seja em bom, em bem, para ti e não mais para mais ninguém!
De todos para ti.
E eu que tenho pensado em tanta, mas tanta coisa nos últimos dias, que tenho olhado tantas, mas tantas vezes para as minhas duas mãos separadas e vazias, pergunto-me se em algum destes acelerados dias, te vou poder perguntar tudo o que nunca te perguntei.
A esta, não quero ou espero resposta, apenas quero que saibas que sim. 
Esquece…
Não esqueço.
Ninguém te esquece!
E aos olhos acresce a comoção, a lágrima e a saudade.
O fado do português é triste e sincero.
A dor é melodiosa e bem regada.
Descansa em paz irmão.
Tenho a certeza que há muito que é teu o eterno e secreto “reino dos céus”.
Deixa-te estar sossegado, que no final de contas a cada um de nós, está o lugar reservado para o dia dessa monumental reunião.
Fica perto, que nós gostamos de te manter assim.
Um abraço eterno,
Sempre teu,

Martim

Escrever merda com amor

Transpiração. Criação. Perturbação. Dedicação. Saturação. Compreensão.
Não.
Nada disso.
Não é nada disto que quero dizer.
Não é nada disto que quero escrever.
Começa.
Não dá.
Não sai.
Não entra.
Não se aguenta e lamenta que a cabeça esteja lenta, adormecida, exausta e entorpecida.
E diz ele que quer ser escritor.
Por favor…!!
Está bem que o escritor bloqueia.
Está bem que a sua mente passeia.
Encontra e desencontra, perde e não encontra, inventa e acrescenta, apaga e rebenta, pelo menos tenta… Ou finge que o faz.
Ninguém te vê visto de trás.
Ninguém te lê!
Pronto, também não é preciso ficares assim.
Aceita as coisas de outra forma.
Que forma tens tu de ver vida, credo!
Que nem se quer se pode brincar.
Irra!!
O passeio da minha rua é esquisito e cheio de merda de cão.
Acho que é de cão.
Parece de cão.
Seja lá de quem for, uma coisa é certa, é merda!
São corridas de obstáculos para ir do banco partido do carro para o passeio merdoso.
Mas são sempre encantadoras as travessias merdosas até à porta do prédio.
E nisto se resume uma qualidade humana questionável mas sobretudo admirável.
É de facto notável que se possa retirar encanto da… merda!
Só posso querer ser escritor, ou então sou mesmo é estúpido… o que também se encaixa no elogio acima aromaticamente elaborado.
Portanto, quer com isto dizer ou acabei de descrever um encanto de merda ou foi simplesmente estupidez, seja como for se já cheguei até aqui por que não continuar?
Escrevo quando os outros dormem.
Penso quando os outros sonham.
Sonho coisas que ninguém pensa e penso em coisas que ninguém sonha.
Chego a casa e vou direito a ti.
Ver de ti.
Dormes pois claro, acordas cedo e eu… contigo me levanto, ainda que parte de mim fique ali onde estamos.
Já volto.
Metade de mim é o que escrevo.
Já a outra metade é a metade que não tem nada para escrever.
Olho para ti e os segredos da magia adensam-me o sorriso.
Que bom é pensar e sonhar contigo.
(schiiiuuuuu) Não contes a ninguém. Não gosto que saibam o que sonho, sou egoísta como sabes, mas como és tu, não tem mal, pois não?
Sabe tão bem contar-te os meus sonhos.
Às vezes tento escrever poesia.
Às vezes sai qualquer coisa, qualquer réstia de sinfonia métrica, que sustentada nas palavras contratadas se assume aos olhos sob a forma de um poema.
Há pouco pensei coisas tamanhas, enormes façanhas e sentimentos redondos.
Há pouco senti, como um murro no estômago, mas de sorriso valente, que o amor que te tenho me torna mais gente.
É tarde!?.
Eu sei.
Mas ainda não acabei.
Já nem sei tão pouco a razão pela qual comecei…
Mas deixa lá isso, pelo menos por agora, não vês que está vento lá fora e que a merda ainda está no passeio, e que dela ele está pouco menos que cheio.
Aqui dentro é limpinho. Não é?
É o cheiro do carinho, do cantar de um miminho que soa sempre tão certo.
É perto.
É grande.
Enorme.
Deixa-me que te conte a história do que vejo em ti.
Espera só um pouco que começa mais ou menos assim:
“Há não muito tempo atrás, ela, a rapariga, e ele, o rapaz…”.
Já chega. Conto-te o que falta ao ouvido.
Vai ser um dia comprido.
Deixa-te estar deitada.
Estou a sonhar não tarda nada e já te acordo, sim?
Beijo.
Teu,
Martim.
P.S – Merda!
Já é tarde e ainda não estou ao pé de ti